O Feminino como Força Literária: Autran Dourado, 100 anos




Por Luiz Pinto - https://acervo.oglobo.globo.com/incoming/autran-dourado-escritor-21866521, 
Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=128943209

  
A disciplina da palavra 

 

Francisco Perna Filho


Hoje, 18 de janeiro de 2026, o Brasil celebra o centenário de nascimento de Waldomiro Freitas Autran Dourado, um dos mais representativos autores da literatura brasileira moderna. Nascido em Patos de Minas, mas formado entre Monte Santo de Minas e São Sebastião do Paraíso, Autran Dourado construiu uma trajetória marcada pela disciplina, pelo rigor estético e a paixão pela palavra. O autor mineiro cultuava o prazer da leitura e releitura das grandes obras literárias, dos clássicos, além de imprimir a si mesmo uma rígida disciplina de estudos e escrita, o que contribuiu, sobremaneira, para que nos legasse uma das mais respeitadas obras da nossa literatura, com reconhecido valor no exterior. São contos, novelas, romances, memorialismo e ensaios, sem falar nos livros que teorizam sobre a própria construção narrativa e os inúmeros prêmios que recebeu, ao longo da carreira. Acrescente-se a isso, a enorme fortuna crítica. São ensaios, artigos, monogra-fias, dissertações de mestrado e teses de doutorado, as mais diversas abordagens e leituras, sobre uma obra que-se-nos apresenta vasta e de alto teor estilístico e literário 


Reconhecimento e prêmios  

Autran Dourado foi laureado com distinções que atestam sua relevância: Prêmio Cidade de Belo Horizonte (Tempo de amar), Prêmio Fernando Chinaglia (A barca dos homens), Prêmio Pen-Club do Brasil (O risco do bordado), Prêmio Paula Brito (Os sinos da agonia), Prêmio Goethe, além dos consagradores Prêmio Camões (2000) e Prêmio Machado de Assis (2008) pelo conjunto da obra.  

 

O olhar crítico: 

Sua literatura é marcada por personagens que transcendem os limites de um único livro, reaparecendo em diferentes narrativas e criando um universo coeso e fascinante. Evangelina Montserrat, Paula, Ismael, Seu Donga Novais — todos compõem esse mosaico vivo que atravessa romances e novelas, revelando a maestria de um autor que soube reinventar sua própria ficção.  

Em entrevista concedida a Julián Fuks, repórter da Folha de São Paulo, Autran Dourado fala sobre os seus personagens:

 Meus personagens se parecem muito comigo. Eu os conheço muito bem e sofro a angústia que eles sofrem. Não tenho nenhum prazer em escrever. Depois de pronta a obra, aí me dá uma certa satisfação, mas a mesma que dá quando se descarrega dos ombros um fardo pesado. (Folha de São Paulo, 30 mai. 2005; Versão On-line)


Após essa fala, o repórter da Folha de São Paulo pergunta por que então ele escreve, já que não sente prazer, obtendo a seguinte resposta:

 É também uma fatalidade. Você é destinado à literatura, e não a literatura a você. Escrever é uma imitação. A gente escreve feito um menino que vê o livro como um brinquedo e pensa ‘ah, eu quero um’. Quando eu li pela primeira vez Dom Casmurro, eu disse ‘puxa, eu quero o meu’. Daí a necessidade que se tem de ler. Quando estou para escrever, gosto muito de ler um poema, Drummond, João Cabral. Não é o poema que eu vou fazer, mas acho que me prepara. (Folha de São Paulo, 30 mai. 2005; Versão On-line).



Essa confissão de Autran Dourado faz-nos conhecedores de um pouco desse universo ficcional e reforça a minha tese de doutorado, Um Estudo das Personagens Femininas em Autran Dourado, defendida em 2018 na Universidade Federal de Goiás, sob a orientação do Professor Dr. Heleno Godoy de Sousa,  de que as personagens femininas, na sua obra, vão além de simples funções narrativas, caracterizando-se como simbólicas.  
 
No meu estudo analiso protagonistas como Maria (A barca dos homens), Biela (Uma vida em segredo), Rosalina (Ópera dos mortos), Malvina (Os sinos da agonia) e Lelena (Novelário de Donga Novais), além de personagens periféricas e marginais. A conclusão é clara: as mulheres em Autran Dourado não são apenas funções narrativas, mas símbolos de autonomia, memória e resistência.  


A Força Simbólica das Personagens Femininas em Autran Dourado

Maria - O lançamento do romance A barca dos homens (1961), cuja protagonista é Maria, foi recebido com muito entusiasmo pela crítica da época, que o considerou um salto na carreira literária de Autran Dourado, um marco fundamental, posto que nessa obra, marcada pela criatividade linguística e pela verdadeira urdidura do enredo, o autor mineiro demonstra total domínio sobre a técnica de narrar, se distanciando, e muito, dos livros da juventude, denominado por ele “novelas de aprendizado”. Por tudo isso, o romance foi agraciado com o Prêmio Fernando Chinaglia, da União Brasileira de Escritores (1962). Tais avanços, manifestos em A barca dos homens, começaram lá atrás, com o romance Tempo de amar (1952), história que seria reescrita, anos depois, originando o romance Ópera dos fantoches (1995), e irá se consolidar com Ópera dos mortos (1967) e com  Os sinos da agonia (1974). Este, seu projeto mais ousado. 

Biela é a personagem central da novela Uma vida em segredo, publicada pela primeira vez em 1964, cujo título já alude ao que vai se descortinar no decorrer da narrativa: Biela, corruptela de Gabriela, personagem principal, órfã de pai e mãe (a mãe, perdera na infância; quando o pai morreu, ela já estava no início da vida adulta), vai para cidade viver com os primos Conrado e Constança e com os filhos deles: Mazília, Gilda, Fernanda, Alfeu e Silvino, deixando para trás seu Fundão, fazenda herdada dos pais.

A história se passa entre o presente e o passado, este representado pela memória de Biela, aquele pela vida na cidade, suas ações e reflexões, fato que já é destacado desde o início da narrativa e se intensifica no decorrer dela.

Rosalina - Oitavo livro de Autran Dourado, Ópera dos mortos (1967) faz parte das obras maduras do autor. O livro se divide em nove capítulos, ou nove blocos narrativos: “O Sobrado”, “A Gente Honório Cota”, “Flor de Seda”, “Um Caçador Sem Munição”, “Os Dentes da Engrenagem”, “O Vento Após a Calmaria”, “A Engrenagem em Movimento”, “A Semente no Corpo, na Terra”, e “Cantiga de Rosalina”. Toda a narrativa do romance se estrutura em torno da protagonista Rosalina, filha única de dona Genu e do coronel João Capistrano Honório Cota. O Coronel, após desiludir-se com a política, isola-se no sobrado com a família, vivendo lá, a despeito de todo apelo da população de Duas Pontes, até a consumação dos seus dias. Rosalina, solidária ao pai, também se fecha e segue a mesma sina, cada vez mais distante do mundo exterior, chegando ao paroxismo dessa atitude, após a morte dos pais, quando ela se enclausura de fato, tendo por companhia a preta Quiquina e, mais tarde, o forasteiro Juca Passarinho, com quem alivia a solidão, nas suas etílicas noites de transbordamento. Assim, Rosalina cumpre os seus dias, seus vazios e solidão, até o ato final, a loucura. 

Malvina - Considerado como obra-prima e um dos melhores e mais ousados livros de Autran Dourado, Os sinos da agonia (1974), ao contrário do que acontece em algumas obras do autor, não é ambientado em Duas Pontes, mas sim na Vila Rica do Século XVIII, quando as Minas Gerais conheceram a riqueza proporcionada pela extração do ouro e pela criação de gado, a opressão por parte da Coroa Portuguesa, a revolta, e, mais tarde, a decadência. Ali se desenvolve uma história de desejo, traição, opressão e revolta, acentuadamente marcados pela agonia de vidas devastadas pela traição, pelo amor e pelo ciúme.

Pela sua importância, o romance foi amplamente lido no Brasil e no exterior, sendo traduzido para diversos países, dentre eles a França, onde foi adotado para os exames de agrégation das universidades francesas. A obra, inicialmente dividida em três partes denominadas “Jornadas”, como eram chamados os autos antigamente, evoluiu, passando a constituir-se de quatro partes, conforme assinala Autran Dourado:

 Concebi o livro dividido em três blocos (jornadas, como eram chamados os autos antigamente), cada um com sua visão da história. Não há fusão, mas independência absoluta, cada maneira de ver e narrar é ambígua e mesmo contraditória em relação às outras – os discursos dos três personagens principais, que na verdade são dois, desde que Januário e Gaspar representam as duas faces do mesmo personagem mítico – Hipólito, e Malvina que é Fedra. [...] A divisão em três blocos ou jornadas na segunda versão do romance me pareceu simplista, resolvi cortar o final de cada bloco. Cada final correspondia ao bloco de que se originara: Januário (Hipólito), Malvina (Fedra) e Gaspar (Hipólito), só que em ordem inversa. Vi então que essa divisão e montagem eram apenas arbitrárias, apenas confundiriam. Resolvi, pois tirar um novo partido das três divisões, deixando os seus finais em suspenso, sem solução, de maneira que a figura retórica da ambiguidade (The Seven Types of Ambiguity, de Empson) funcionasse plenamente. (Revista da USP, 1994, p.123)

 

Lelena - O romance Novelário de Donga Novais de 1976, de Autran Dourado, foi lançado no mesmo ano em que veio a lume Uma poética do romance: matéria de carpintaria, no qual o autor mineiro teoriza sobre a própria criação literária, chamando bastante atenção do meio intelectual e literário. O romance constitui-se como uma narrativa metatextual, por meio da qual o escritor discute, mesmo de forma indireta, as várias possibilidades narrativas e ficcionais, referenciando a memória coletiva e o tempo: passado, presente e futuro, que caminham de mãos dadas, lado a lado, numa narrativa que se quer, conforme as palavras do autor, pantemporal, circunscrita à cidade fictícia de Duas Pontes, no interior de Minas Gerais, e que conta a história de Donga Novais, um espécie de vidente e depositário da vida e da tradição dessa cidade, que, do alto da sua janela, assiste ao desenrolar de várias histórias, com as quais tece o seu novelário, sem descuidar-se de nada, já que é um ser insone, simultâneo, conforme atestam os moradores de Duas Pontes. A história é narrada em terceira pessoa, alternada entre um narrador onisciente e uma voz coletiva, empreendendo um resgate da memória da cidade de Duas Pontes pelas narrativas de Donga Novais

Autran Dourado, ao criar suas personagens femininas, assim o faz também com um objetivo a mais: embora repita, em algumas de suas obras, o paradigma da literatura universal de que mulheres transgressoras sempre pagam com a vida ou com o enlouque-cimento, consegue ir além, dando autonomia a essas mulheres, investindo-as de certo poder perante o mundo masculino, alimentando-as de possibilidades para escaparem das armadilhas por esse mundo apresentadas.

 

O legado eterno  

Autran Dourado faleceu em 2012, mas sua obra permanece como uma das mais respeitadas da literatura brasileira, estudada em universidades, traduzida para outros idiomas e celebrada por críticos e leitores. Cem anos após seu nascimento, sua voz continua a ecoar, lembrando-nos que a literatura é também uma forma de eternidade.  

Mais do que um escritor, Autran Dourado foi um artesão da linguagem, capaz de transformar o cotidiano em matéria de arte e de revelar, em cada frase, a complexidade da alma humana. Seus romances, impregnados de rigor estilístico e de uma profunda consciência estética, desafiam o tempo e reafirmam o poder da palavra como instrumento de memória e transcendência.  

Hoje, ao celebrarmos seu centenário, reconhecemos que sua obra não apenas resiste ao esquecimento, mas se renova a cada leitura, encontrando novos sentidos e dialogando com diferentes gerações. Autran Dourado nos ensinou que escrever é construir pontes entre o efêmero e o eterno, entre o silêncio e a revelação.  

Toda matéria trazida, aqui, foi retirada da minha Tese de Doutorado, defendida em março de 2018, na Universidade Federal de Goiás:

 https://repositorio.bc.ufg.br/tede/items/e229ea62-c669-474f-aae7-59d5457556ad


#AutranDourado #CentenárioAutranDourado #LiteraturaBrasileira #FranciscoPernaFilho #Cultura #MemóriaLiterária #RomanceBrasileiro #ClássicosDaLiteratura


Comentários

  1. "Escrever é criar pontes entre o efêmero e o eterno, entre o silêncio e a revelação." Feliz por você nos brindar com essa pérola.

    ResponderExcluir
  2. {escrever] É também uma fatalidade. Você é destinado à literatura, e não a literatura a você.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Deixe seu comentário aqui

Postagens mais visitadas deste blog

HERMANN HESSE - SELETA DE POEMAS

Valdivino Braz - Poema

Um Escritor em Ascensão. Entrevista com o Premiado Jádson Barros.