sábado, 30 de junho de 2012

Alfredo Bosi - Poema



Os trabalhos da mão


Para a Ecléa




A mão arranca da terra a raiz e a erva, colhe da árvore o fruto, descasca-o, leva-o à boca. A mão apanha o objeto, remove-o, aconchega-o ao corpo, lança-o de si. A mão puxa e empurra, junta e espalha, arrocha e afrouxa, contrai e distende, enrola e desenrola; roça, toca, apalpa, acaricia, belisca, unha, aperta, esbofeteia, esmurra; depois, massageia o músculo dorido.

A mão tacteia com as pontas dos dedos, apalpa e calca com a polpa, raspa, arranha, escarva, escarifica e escarafuncha com as unhas. Com o nó dos dedos, bate.

A mão abre a ferida e a pensa. Eriça o pêlo e o alisa. Entrança e desentrança o cabelo. Enruga e desenruga o papel e o pano. Unge e esconjura, asperge e exorciza.

Acusa com o índex, aplaude com as palmas, protege com a concha. Faz viver alçando o polegar; baixando-o, manda matar.

Mede com o palmo, sopesa com a palma.

Aponta com gestos o eu, o tu, o ele; o aqui, o aí, o ali; o hoje, o ontem, o amanhã; o pouco, o muito, o mais ou menos; o um, o dois, o três, os números até dez e os seus múltiplos e quebrados. O não, o nunca, o nada.

É voz do mudo, é voz do surdo, é leitura do cego.

Faz levantar a voz, amaina o vozerio, impõe silêncio. Saúda o amigo balançando leve ao lado da cabeça e, no mesmo aceno, estira o braço e diz adeus. Urge e manda parar. Traz ao mundo a criança, esgana o inimigo.

Ensaboa a roupa, esfrega, torce, enxágua, estende-a ao sol, recolhe-a dos varais, desfaz-lhe as pregas, dobra-a, guarda-a.

A mão prepara o alimento. Debulha o grão, depela o legume, desfolha a verdura, descama o peixe, depena a ave e a desossa. Limpa. Espreme até extrair o suco. Piloa de punho fechado, corta em quina, mistura, amassa, sova, espalma, enrola, amacia, unta, recobre, enfarinha, entrouxa, enforma, desenforma, polvilha, guarnece, afeita, serve.

A mão joga a bola e apanha, apara e rebate. Soergue-a e deixa-a cair.

A mão faz som: bate na perna e no peito, marca o compasso, percute o tambor e o pandeiro, batuca, estala as asas das castanholas, dedilha as cordas da harpa e do violão, dedilha as teclas do cravo e do piano, empunha o arco do violino e do violoncelo, empunha o tubo das madeiras e dos metais. Os dedos cerram e abrem o caminho do sopro que sai pelos furos da flauta, do clarim e do oboé. A mão rege a orquestra.

A mão, portadora do sagrado. As mãos postas oram, palma contra palma ou entrançados os dedos. Com a mão o fiel se persigna. A mão, doadora do sagrado. A mão mistura o sal à água do batismo e asperge o novo cristão; a mão unge de óleo no crisma, enquanto com a destra o padrinho toca no ombro do afilhado; os noivos estendem as mãos para celebrarem o sacramento do amor e dão-se mutuamente os anulares para receber o anel da aliança; a mão absolve do pecado o penitente; as mãos servem o pão da eucaristia ao comungante; as mãos consagram o novo sacerdote; as mãos levam a extrema-unção ao que vai morrer; e ao morto, a bênção e o voto da paz. In manus tuas, Domine, commendo spiritum meum.


In. O Tempo e o Ser da Poesia. São Paulo: Cultrix, 1997, p.53-55



sexta-feira, 29 de junho de 2012

ACADEMIA PALMENSE DE LETRAS - RESULTADO


RESULTADO DA ELEIÇÃO PARA MEMBROS EFETIVOS DA ACADEMIA PALMENSE DE LETRAS

Resultado da Eleição:

Total de votantes: 19
Abstenção: 02
Nulo: Nenhum

A votação encerrou-se às 16:30, tendo sido realizada a apuração dos votos por comissão composta por Mary Sônia Matos Valadares, Osmar Casagrande e Manoel Odir Rocha, quando apurou-se o seguinte resultado:


1.      MÁRIO RIBEIRO MARTINS;
2.      FRANCISCO ASSIS JÚNIOR;
3.       WOLFGANG TESKE;
4.      LUCELITA MARIA ALVES;
5.      LUÍS OTÁVIO DE QUEIROZ FRAZ;
6.      ORION MILHOMEM RIBEIRO;
7.      EDSON CABRAL OLIVEIRA;
8.      JOSAFÁ MIRANDA DE SOUZA;
9.      FRANCISCO PERNA FILHO;
10. KLEBER BUCAR BARREIRA.



Alberto Antonio Verón (Colômbia) - Poema



LOS HÉROES DEL BARRIO



Pretenden desconocer las pisadas del tiempo
y se lanzan a la calle en pos de una conquista
a falta de una caricia.

Benditos en la noche son,
aventureros que revientan los relojes del orden,
los más ricos,
los más aventureros de mi generación,
víctimas del fuego,
sacerdotes de la fiesta,
les recordamos,
aunque los sobrevivientes no tengamos su heroísmo.




Fonte: Antônio Miranda
Imagem retirada da Internet: relógio

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Léon-Paul Fargue - Poema


QUIOSQUES


Em vão o mar faz a viagem
Do fundo do horizonte para beijar teus pés prudentes:
Tu os retiras
Sempre a tempo.

Calas-te, eu não digo nada.
Talvez nem pensemos mais nisso.
Mas os vaga-lumes pouco a pouco,
Sacam suas lanternas de bolso
Expressamente para fazer brilhar
Em teus olhos calmos essa lágrima
Que fui um dia obrigado a beber.
E o mar se torna bem salgado.

Depois, certa medusa ouro e azul,
Que quer instruir-se entristecendo-se,
Corta as lojas abarrotadas do mar,
Clara e nítida como um elevador,

E destouca sua lâmpada à flor d’água,
Para te ver, com uma sombrinha,
Chorando, representar na areia
Os três casos de igualdade dos triângulos.


Tradução de Carlos Drummond de Andrade

Imagem retirada da Internet: pés

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Valdivino Braz - Cinema - Lançamento



Na qualidade de roteirista, codiretor e coeditor do filme “Sol Inimigo”, o escritor Valdivino Braz, secretário-geral da UBE-GO, repassa este especial:


CONVITE



A Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás), a Coordenação de Arte e Cultura (CAC/PUC Goiás) e o Grupo de Criação e Produção de Cinema, sob coordenação do Prof. Me. Leandro Cunha, convidam V. Sª. e Exmª. Família para o lançamento do documentário Sol Inimigo – O drama do povo no Recanto das Araras, inserido na programação oficial do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA 2012), que acontece entre 26 de junho e 1º de julho, na Cidade de Goiás.

Data do lançamento: 28 de junho de 2012 (quinta-feira)
Local: Casa de Cora Coralina – Cidade de Goiás
Horário: 19 horas

Sinopse: Há um cenário de sofrimento e resistência no Recanto das Araras, distrito do município de Faina (GO). Dramática luta pela sobrevivência, comovente lição de vida. O dia-a-dia dos portadores de Xeroderma Pigmentoso (XP), numa luta desigual, pois o XP (câncer de pele) é um tipo de doença genética rara, hereditária e incurável. Sensíveis aos raios ultravioletas e até mesmo à luz elétrica, as pessoas afetadas sofrem lesões, mutilações e morte. De baixa renda, labutam com a lavoura e o gado, expondo-se ao sol inclemente, contraindo o câncer e perdendo partes do rosto, em consequência da retirada de tumores. As cenas são dolorosas. A doença mutila e mata. Mas há também o espírito de união deste povo, os ofícios de fé e um fio de sofrida esperança a cada dia. Embora a doença não seja contagiosa, as vítimas do XP são alvos de preconceito, isolamento e omissão. O Recanto das Araras é um grito de socorro.
 


Fernando Pessoa (Alberto Caeiro) - Poema

  

O Guardador de Reabanhos

 

                  I

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr do Sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
É se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do Sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural –
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

 08/03/1914
  


Imagem retirada da Internet: Pessoa