quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Francisco Perna Filho - Crítica Literária

Jádson Barros Neves - Foto: Facebook - Perfil do autor


 “Eu contemplava uma fotografia de Steve McCurry, que mostra um peregrino na aldeia de Tagong, no Tibet, coberto por um ponche e com um pedaço de pano vermelho na altura da cabeça, o que lhe dá o aspecto de um galo gigante, seguido por um cavalo e passando lentamente por várias casas abandonadas. Era de madrugada, eu olhava a figura e me veio o título do livro. ” 



CONSTERNAÇÃO: possibilidades para um título





Justificando o porquê de seu livro de contos (14, no total) intitular-se “Consternação”, o escritor tocantinense Jádson Barros Neves explica: “Eu ouvia a música ‘Fado Tropical’, de Chico Buarque e olhava a tarde pela janela de minha casa, quando o título me caiu nas mãos.” E outra vez tentando justificar o título gesticula, e fala sumido: “Eu contemplava uma fotografia de Steve McCurry, que mostra um peregrino na aldeia de Tagong, no Tibet, coberto por um ponche e com um pedaço de pano vermelho na altura da cabeça, o que lhe dá o aspecto de um galo gigante, seguido por um cavalo e passando lentamente por várias casas abandonadas. Era de madrugada, eu olhava a figura e me veio o título do livro. ” Depois, ele se cala num silêncio que parece trazer outros silêncios de outras tardes ou madrugadas das várias cidades onde morou no Brasil.



Qualquer definição dada a “Consternação” nasce direcionada ao fiasco, pela abertura que o livro apresenta. É costume, ao se nomear um livro de contos, extrair o título de um conto para se intitular o livro. Geralmente se usa aquele conto de maior peso. Porém, qual conto escolher nessa constelação de 14 contos que o talentoso e premiado escritor Altair Martins, numa resenha brilhante, classificou como “o autor que, entre nós, melhor domina a luz no espaço narrativo”?

Cabe, assim, outra explicação fornecida pelo escritor: a de um título aglutinante, pois o sentimento de consternação permeia todos os textos, seja como expressão angustiosa dos narradores, anseios das personagens ou reflexo no leitor.

No conto “A toalha”, o narrador, sem memória e diante do inescrutável, alinhava explicações para os fenômenos sobrenaturais que assediam o lugarejo onde vive: “Devíamos ter aberto as portas para os cães. Eu tinha talhado as portas das casas, bem sólidas, para que as pessoas se trancassem da noite. (Portas) Servem para fechar casas, tornar perdidos os homens. Uma porta aberta, uma ameaça; fechada, a proteção de uma pequena república. As pessoas gostam de portas de todos os tipos, você sabe.” 

Da resenha escrita por Altair Martins: “O de sempre é que tudo isso é bem feito, com uma justeza e precisão onde se entrevê um Faulkner ou um Rulfo.” Justamente Rulfo, em cujos contos o latido dos cães sinaliza a vida. A ausência, o desamparo, a morte. O conto que abre o livro, “O cachorro e os cães”, sem cães, metaforiza a apropriação degradante que a língua exerce até sobre aquele que é considerado o mais confiável dentre os animais.
 
De modo insuficiente, a confissão do narrador de “A toalha” poderia solidificar o “espírito” do livro. Porém, o que dizer do conto onde um rapaz é obrigado a matar o próprio avô? Ou do pistoleiro que desde o início tem o destino selado pela esposa, primeiro quando é induzido por ela, em “Entre eles, os corrupiões”, a salvar o cunhado – irmão dela – e depois em outro conto, quando é morto pela mesma pessoa que salvou?  E o que pensar do conto do homem que, no futuro, vislumbra em silêncio uma infância de cuja existência não ter certeza? Ou do rapaz que vende o pouco que possui para garantir três ou quatro anos de vida sossegada a um cavalo que o sustentou a vida inteira? Todos os textos mudam de aspecto (e até sentido), conforme a abordagem do leitor.

Cortázar, contista e teorizador do conto, explica que há algumas constantes que fazem uma narrativa ser um conto. Dois elementos essenciais, segundo ele, são a intensidade (despojamento) e a tensão, entendida aqui como aquele jogo de palavras, imagens e ideias que tornam o leitor cativo do texto. Com um perfeito equilíbrio entre a tensão e intensidade, os contos de “Consternação” cumprem o papel a que se propõem, além de serem habitados por histórias secretas, que muitas vezes emergem com um final aberto, tornando-os lúdicos, passíveis de múltiplas interpretações e (ou) recriações, “escondendo o que mostram e mostrando o que escondem”. 

Na tarde do lançamento do livro, dia 16/11, na 59ª Feira do Livro de Porto Alegre, o escritor comentou sobre a geografia do livro: “É uma realidade provisória, que tentei fixar no tempo, usando a poesia dentro da narrativa. Nada disso existe mais. Talvez nunca tenha existido realmente. Talvez eu tenha sonhado. Mas estive lá, garanto.”

Sonhada ou não, vivida ou não, a realidade é reinventada, recriada, com pistas falsas que desnorteiam quem se aventura a cartografar os contos: a realidade criada, “suspensa do solo”, como quer Jádson, tem essa finalidade, “de forma que o leitor sinta-se andando na neblina, sem visão à frente. Caberá a ele, o leitor, encontrar o próprio caminho na névoa.” Assim, sem doutrinar, o escritor estabelece o jogo entre leitor e narrativa.


*Francisco Perna Filho é Crítico Literário, Mestre em Estudos Literários – UFG e Poeta. 
Texto originalmente publicado na edição de hoje, 5 de dezembro de 2013, no Jornal do Tocantins - Palmas - TO.

sábado, 16 de novembro de 2013

Francisco Perna Filho - Ensaio Crítico


ESPELHADO DE CÉU MUITO SERENO




Depois de morar em São Luis do Maranhão, Cuiabá, Palmas, Goiânia e Fortaleza, Jádson Barros Neves voltou à sua pequena cidade, Guaraí-TO, para uma jornada de intensas leituras e escritas.

Leitor de William Cuthbert Faulkner, estudioso contumaz das nossas Letras, traz na alma, um tanto quanto inquieta, os causos, lendas e mitos da Região Norte, principalmente do sul do Pará, onde trabalhou como vendedor de secos e molhados, juntamente com seu pai, já falecido.

Jádson, ao longo dos seus quarenta e dois anos de existência, vem construindo um trabalho de fôlego na narrativa contemporânea brasileira, mais particularmente na categoria conto. Detentor de diversos prêmios literários, tanto no Brasil, como no exterior, valendo destacar o Concurso Guimarães Rosa/Radio France Internationale.

Enquanto o primeiro livro não chega, Jádson vai se firmando como escritor, conquistando novos leitores e novas premiações, como recentemente o fez, nos 40 anos da UNICAMP, quando teve o seu conto “O Funil” incluído no livro “CONTOS – UNICAMP ano 40” (Editora da Unicamp,2007).

Ambientado num vilarejo qualquer, às margens de um rio qualquer, da memória do autor, o conto nos fala de companheirismo e perdas. Conta a história de Suzana, viúva de Orlando, e a do seu cunhado, José, na incansável busca para encontrar o irmão que fora tragado pelo rio quando nadava de volta para canoa, após recuperar a sua vara de pesca que caíra na água.

Narrada em terceira pessoa, intercalada por idas e vindas, irrompendo, às vezes, o discurso direto e o discurso indireto livre. O tempo narrado compreende quatro dias na vida dos personagens, desde a Sexta
à tarde, quando Orlando caiu no rio, o Sábado e Domingo de buscas, até Segunda feira, quando o corpo foi encontrado.

Já de início, pode-se ver a força narrativa de Jádson, as belas imagens com que trabalha, consubstanciadas pela força lírica do seu texto. Como se pode conferir neste trecho:
“José havia remado a tarde inteira, por mais de dez quilômetros, rio abaixo, e também havia procurado ao longo do delta, nos baixios e nos remansos e agora estava exausto. Subia a ladeira que dava no vilarejo, onde uma lua gorda, amarela, nascia atrás da colina da igreja. Quando passava, as pessoas olhavam-no em silêncio, e José as cumprimentava e baixava a cabeça e as pessoas também baixavam a cabeça. Era um coro só, o coro do silêncio. José vinha adoecido daquele crepúsculo rápido e sangrento, daquele fim de inverno chuvoso, que ainda repercutia no horizonte em forma de relâmpagos esparsos.(...)”.

Com assomada capacidade perceptiva Jádson Barros Neves consegue, pela plasticidade de suas imagens, compor a atmosfera propícia para o fato narrado, como quando descreve a velha casa onde moram José e Suzana e, outrora, Orlando:

“A casa onde ela morava era velha, pintada de um amarelo corrompido pela ação das intempéries e descascada pelo sol. Esquecida, quase abandonada há anos, suas duas portas, suas três janelas fechadas, com fendas na madeira, guardando o silêncio e a poeira de muito tempo de esquecimento”.
Assim como a descrição encimada, muitos outros belos trechos são marcadamente inesquecíveis, como o que segue:

“Ela concordou mais uma vez com a cabeça e José foi fechando os olhos lentamente, contemplando a imensa lua amarela que sangrava perto da janela e lembrando do quanto era bonita a chuva no delta. Vira-a à tarde, uma cortina escura, que cavalgou escurecendo o horizonte”.

Percebe-se aqui, pelas passagens lidas e superficialmente analisadas, o pleno domínio da narrativa curta por Jádson Barros, a primazia com que tece as tensões nas suas histórias, sempre carregadas de muita reflexão e humanidade. Um voltar-se sobre si mesmo, revelando e encobrindo, causando no leitor a vontade de seguir adiante, como bem nos ensina Wendel Santos:

“O conto forma-se sob o anseio de duas tensões: o de revelar e o de encobrir. Tais tensões podem compor-se de modo o mais diverso. Há o conto que alterna revelação e encobrimento; há o conto que, de início, revela um mínimo suficiente para despertar a curiosidade leitora e, em seguida, numa ordem de crescimento constante, encobre seu objeto até o ponto em que é necessário outra vez revelá-lo(...)”

Jádson sabe muito bem do que fala Wendel Santos. Ele tem pleno domínio da técnica e da arte da escrita, sem falar no seu apurado senso estético. Adentrar a sua obra é permitir-se participar desse jogo, dessas tensões, para uma jornada de acontecimentos. O leitor está convidado a conhecer mais de perto o poder criativo deste autor tocantinense, que, sem medo de errar, faz parte do que de melhor há na Literatura Brasileira. Boa leitura!.

Fonte da Imagem: com conto

domingo, 10 de novembro de 2013

Francisco Perna Filho - Ensaio Curto

Carlos Fuentes



ESPAÇO E PRECONCEITO


Há muito que ouço e leio julgamentos do tipo: “esses são poetas menores”, “aqueles são poetas maiores”. Fale-se muito, classifica-se sem critérios, abusa-se de chavões, mas consistentemente nada se tem de concreto. Sobressaindo-se os ditos “Grandes” os “consagrados”, os “intocáveis”, donos de uma obra magistral. “A melhor de todas”. Já ouvi muito dos “ditos consagrados” e olha que as academias, os salões, as agremiações, estão cheios desses imortais indivíduos, tão sonhadores nem quem tempo têm para realidade.

Para a realidade literária, aquela que bate à porta, que clama para ser lida e ouvida. Aquela que está na rua, nas velhas cidades, na universalidade dos becos, no lirismo da despedida. Uma realidade que pulsa na Internet, nos blogs, nos fóruns, nas revistas eletrônicas, exemplo, a Bula.

Franz Kafka
Lembro-me de ouvir por aí, da boca de muitos intelectuais, que eles jamais escreveriam para blogs, para revistas eletrônicas, que isso seria rebaixar-se; que tais espaços não tinham a nobreza para comportar tamanha erudição e imortalidade. Que bobagem! Eu dizia, e ficava observando, escrevendo, refletido. E vi quando as coisas começaram a mudar, quando os nossos intelectuais, os renomados, passaram a descobrir o alcance que tem a Internet. Descobriram também que revistas como esta não se faz do dia para noite, é preciso paciência, seriedade, determinação e bom conteúdo.

A propósito do que estou dizendo, lembrei-me de Julio Cortázar, escritor argentino, numa entrevista concedida ao jornalista uruguaio Omar Prego, ao ser perguntado sobre as influências sofridas pelos autores latino-americanos, e a resistência deles em aceitar tais influências, principalmente quando os pais intelectuais eram, também, latinoamericanos. E, mais ainda, a recusa desses escritores a escreverem o que consideravam como gêneros menores: romances policiais, rádionovelas e memórias.

Julio Cortázar
A esse questionamento, que agora transcrevo, Julio Cortázar, inteligentemente, responde perguntando: “Será que isso não vem das falsas categorias de valores que existem na literatura, e em tantas outras coisas nesta vida? Porque em outro nível ocorre o caso de escritores que recusariam, horrorizados, um eventual convite para que escrevessem radionovelas. Porque consideram que a radionovela é um gênero secundário, insignificante, e eles não poderiam concordar em fazer uma coisa dessas. Raciocínio sumamente sofismático, porque tudo se resolveria fazendo boas novelas de rádio, que aliás existem(...)” e completa “(...)Em Cuba, por exemplo, mais de uma vez disse aos escritores cubanos, que se queixam de não serem editados, principalmente os jovens: “vocês se queixam porque não são editados, e na realidade vocês deveriam é tomar de assalto e se apropriar dos novos meios de comunicação cultural de Cuba, ou seja, o rádio e a televisão.” A resposta é sempre a mesma: “Ah, isso não, eu sou poeta”, ou: “Eu sou romancista.” Consideram indigno pôr a mão em outros meios de comunicação”. Pena não ter ele, Cortázar, durado para contemplar, estupefato, a explosão que é a Internet. Talvez dissesse - como diria meu pai: - Um colosso!

Rompido o preconceito, abertas as portas da interatividade, muitos questionamentos surgem, suscitados pelo espaço democrático que temos aqui na Bula, um desses questionamentos diz respeito ao que foi colocado logo atrás a respeito da fala de Cortázar e do que mencionei no início deste texto: o quanto somos preconceituosos quando o assunto é arte, principalmente Literatura e, mais ainda, quando essa literatura é brasileira.
Juan Rulfo
Na edição passada - há uma discussão sobre o valor de alguns críticos literários, como Harold Bloom: se ele tem ou não tem competência ou se é um mero modismo inventado pela mídia, como também o fora “Claude Levy Straus”. Depois disso, para atender a uma amiga, doutoranda, do Carlos Willian, vieram as batidas listas: “melhores obras”, “maiores autores”(aqui entraria Julio Cortázar, que era altíssimo, e que recebeu de Juan Rulfo, o seguinte comentário: “Tem um coração tão grande que Deus necessitou fabricar um corpo para acomodar esse coração.”), dos “melhores filmes”. Há uma repetição, as mesmas obras, os mesmos autores, algo muito fechado, desconsiderando o quanto de coisa maravilhosa existe na Literatura universal, na Literatura Brasileira Universal. Todas as obras citadas nessas listas têm o seu valor, são grandes, sim, mas se considerarmos que são listas pessoais, são tão iguais, mas tão iguais que parecem não permitir que se fale de outras obras.

E.T.A. Hoffmann
Pensemos, por exemplo, em E.T.A. Hoffmann, Juan Carlos Onetti, Franz Kafka, Carlos Fuentes, RuanRulfo, Autran Dourado, Murilo Rubião, Willian Faulkner, Alenjo Carpentier, e, claro, Gerardo Mello Mourão, autor do grande poema épico “Os Peãs”; do tão maravilhoso: “Invenção do Mar”; e do mais musical deles: “Cânon & Fuga”, do qual transcrevo poema a seguir e aproveito para encerrar parte desta reflexão:
Gerardo Mello Mourão

O que as sereias diziam a Ulisses na Noite do mar


                                                                                                                    Sobre a frase musical de Ivar Frounberg
       “Wassagen die Sirenenals Odysseus vorbeisegelte”



Ninguém jamais ouviu um canto igual
Ao canto que te canto
Escuta: as ondas e os ventos se calaram e a noite e o mar
Só ouvem minha voz – a noite e o mar e tu
Marinheiro do mar de rosas verdes:
Virás: é um leito de rosas e lençóis de jasmim – e ao ritmo
De teu corpo entre a cintura e as ancas
Mais o lençol de aromas de meu corpo
Em monte de pétalas desfeito:
E dormirás comigo
E os que dormem com deusas
Deuses serão
Vem dormir comigo
E comigo
e todas as sereias.
Todas as deusas se entregam
ao amante que um dia possuiu uma deusa
e então todas as fêmeas dos homens
Helenas, Briseidas e a Penélope tua
hão de implorar às Musas – e as Musas a Eros e Afrodite
a volúpia de uma noite contigo.
Não partas!
Se partires
As velas de tua nau serão escassas
Para enxugar-te as lágrimas – e nunca
Nunca mais tocarás a pele das deusas
Nunca mais a virilha das fêmeas dos homens
E nunca mais serás um deus
E nunca mais a melodia de uma canção de amor
Dos hinos do himineu:
Abelhas mortas para sempre irão morar
Na pedra do jazigo de cera
De teus ouvidos cegos.
Mas vem
E vem dormir comigo
E comigo
E minhas mãos irmãs e todas
As sereias do mar
As sereias da terra
E as sereias dos céus.

Texto escrito em maio de 2008.

In. O Rio Tocantins engoliu meu Avô. Goiânia: PUC Goiás/Kelps/Prefeitura de Goiânia, 2012, p.51-54.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Inácio de Loyola Brandão - "De onde vêm esses seres?"

Ignácio de Loyola Brandão - foto by Tribuna de Minas

Beth Brait, no seu livro A Personagem, dedica um capítulo para  ouvir o que alguns escritores contemporâneos têm a dizer sobre os seus personagens: como surgem? de onde vêm, quem são esses seres? Reproduziremos, aqui, ao longo desta semana, tais depoimentos. Hoje, ouviremos o que tem a nos dizer Inácio de Loyola Brandão



Divulgação

Vêm de mim. Sou eu mesmo, uns quarenta por cento. Tem vez que é bem mais: sessenta, cem por cento. Depende da piração. Mas a maior parte das vezes vêm de tudo que me rodeia, das pessoas que estão à minha volta. De gente que vi, observei, convivi, entrevistei, amei. Dizia Hemingway (será que dizia mesmo?) que o escritor não pode ter escrúpulos. Nem com os outros, nem consigo mesmo. Não se confunda falta de escrúpulos com mau-caratismo; são coisas distintas, no caso literário. Se uma pessoa pode fornecer dados ricos para um personagem, por que não utilizá-la?

Bebel foi tirada de uma  estrelinha da tevê Record que tinha sido Miss Luzes da Cidade, um concurso promovido pela Última Hora entre as "beldades" do bairro. Juntei a essa menina as características de uma conhecida estrelinha da televisão paulista, famosa pelas belas pernas e pelo sotaque francês. Inventei umas falas, certas situações, idealizei outras com o conhecimento que tinha dos bastidores da televisão, porque era um dos setores que eu cobria na Última Hora , década de 70. E estava pronto o personagem.

Adelaide, do Não verás país nenhum, foi tirada de uma amiga dona de pensão, onde morei nos princípios de minha chegada a São Paulo. A ela juntei gente de minha família, uma vizinha que era a Adelaide dita e feita. Essa mulher, quieta, tranquila, recatada, "dona-de-casa", fiel cumpridora dos deveres, morreu um dia. E o que apareceu de caso, de romance, de amor, de fofocas! Parece que existiam duas mulheres. Mas será que existiam mesmo? Ou são os mitos populares? Deixo essa ambiguidade no meu romance. Há uma, ou duas Adelaides?

O Souza leva uma carga minha. O meu lado acomodado, apático, o deixa por lá. Tirei-o também de um amigo inteligente e lúcido, mas pessimista. Para que lutar? Misturei num liquidificador, onde botei alguns conceitos meus a respeito da classe média: omissa, reacionária, medrosa, conservadora etc. Acrescentei lampejos de  conscientização e lucidez - estava pronto.

O personagem sem nome do Dentes ao sol foi inteiramente baseado em dois pontos: 1) o meu medo de nunca ter saído de Araraquara; passei a imaginar o que seria a minha vida lá, se eu tivesse ficado, consciente de que não tinha tido coragem; 2) um amigo que realmente ficou e depois tentou até o suicídio.

Disso resultou aquele homem que nunca procurou fazer as coisas que sonhava. E passou a viver na terrível angústia do: "e se eu tivesse tentado?" Tentar e fracassar não é problema. O suicídio, o veneno lento, é a dúvida: teria dado certo?

Anoto falas, frases, tiques, trejeitos, mania dos outros e vou jogando nos personagens. Tento também me ver através deles, me autocriticar. Vivo com uma agendinha no bolso, anoto escondido. Senão esqueço.

Nos meus primeiros livros (Dente ao sol, Bebel que a cidade comeu e Pega ele, Silêncio) o personagem Bernardo (meu alter ego) é constante. Em Zero, ele já aparece rápido, sentado em cima de uma saca de feijão. Meio decadente. Em Dente ao sol, ele é criticado por uma pessoa da cidade de onde veio.

Em Bebel, há um instante em que a personagem vai a um enterro. O enterro de uma atriz de teatro que morreu de acidente. A história da atriz, Ana Maria, veio no livro seguinte e se chama "Túmulo de vidro".

A personagem de "Camila numa semana" (conto do Pega ele, Silêncio) foi baseada numa menina que existiu realmente e tinha até esse nome. Estudante universitária, depois esteve envolvida na clandestinidade, sofreu, acabou se matando. Era uma belíssima menina, que frequentava muito o teatro Oficina no começo dos anos 60, chegou a namorar o Zé Celso. Espécie de paixão de todo mundo. Ela adquiriu no livro o rosto de Jean Seberg, que era o mito da minha geração. A personagem do incrível Acossado, de Godard, que tanto marcou a gente.

Acabo de me lembrar que não falei do José e da Rosa, os dois do Zero. Sabe que tem muito estudante que me pergunta: - Zero vem de Zé mais Ro, abreviatura de Rosa?

Olha que é engraçado.
Os dois foram uma misturada das mais loucas. Punha o que vinha na cabeça, sem preocupações tipo: combina com o personagem? Está dentro da linha psicológica? Ajusta-se? Não está ficando ambíguo? Paradoxal? Contraditório? Acho que este meu "não importar" é que conduziu ao personagem (talvez) melhor acabado, mais brasileiro, "real", típico, modelo do nosso homem em determinado momento. Claro que o fato de minha literatura, não de toda a brasileira. Zé e Rosa foram colagens alucinantes, delirantes, pedaços, segmentos, fragmentos de tudo que rodava vertiginosamente em torno de mim, no final dos anos 60. Mandei ver. Com liberdade mesmo, sem pensar em estrutura, coerências, linhas, porque todo o país andava desestruturado. Andava? Houve até um crítico que passou o tempo todo a perguntar: mas onde está o eixo do livro? Mandei uma carta à revista Escrita dizendo que o eixo do livro poderia ser encontrado
 em qualquer casa de auto-peças.

Zé e Rosa nasceram de um sem-número de histórias que eu tinha prontas na gaveta. Histórias, ideias, anotações sobre personagens. Gente de São Paulo. Sempre escrevo numa agenda, depois datilografo e guardo em pastas. Um dia, apanhei as pastas e comecei a sacar situações e a escrever, montar o livro. Não foi à toa que Zero demorou nove anos a ficar pronto. Anotações e materiais guardados a partir de 64. Sentei à mesa, firme, entre 67 e 69. Entre 69 e 73 fiquei editando, aparando, limando, empurrando, cortando, tentando seguir aquele conselho de Hemingway a um jovem que queria ser escritor: escreve como se estivesse mandando um telegrama pago do seu próprio bolso. Isto é, cada palavra sai cara. E todo mundo entende a linguagem econômica do telegrama, porque lhe diz respeito. Era isto, síntese. E a história dizer "respeito". Acho que a gente lucra ao ler biografia. Era bom o velho!

Assim, é de mim e do que me rodeia que esses seres vêm. Nenhum extraterreno, todos reais, carne e osso. Se é que personagens podem ser carne e osso.  Mas essa é outra história.

In. BRAIT, Beth. A Personagem. São Paulo: Ática, 1985, p.71-72.

Para saber mais sobre o autor, clique AQUI

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Antônio Torres - "De onde vêm esses seres?"




Beth Brait, no seu livro A Personagem, dedica um capítulo para  ouvir o que alguns escritores contemporâneos têm a dizer sobre os seus personagens: como surgem? de onde vêm, quem são esses seres? Reproduziremos, aqui, ao longo desta semana, tais depoimentos, começando com o Escritor Antônio Torres. Boa leitura! 



Eles vêm do fundo de uma gaveta chamada memória. Aparecem quando menos esperamos. Rondam as nossas noites, nos perseguem por madrugadas a fio. A princípio são imagens vagas, feições humanas de quem mal nos lembramos, sombras de um passado que o presente quer resgatar.

Convivo com esses seres durante meses, às vezes durante anos, até pularem sobre o teclado. Engata a primeira frase, eles, o seres reais que me serviram de ponto de partida para o romance, vão desaparecendo e dando lugar ao que chamamos de personagens. Uma gente que se cria, anda por suas próprias pernas e nos impõe o seu próprio destino.

Foi assim com Um cão uivando para a lua: uma visita de poucas horas a um amigo que se encontrava internado numa clínica psiquiátrica no Rio de Janeiro – e que me abalou profundamente – viria a gerar um personagem chamado “A” e seu duplo “T”. Assumi a primeira pessoa, enquanto narrador-personagem, e até hoje todo mundo pensa que é um romance autobiográfico.

Já em Os homens dos pés redondos a imagem que me perseguia era a de um desenhista que trabalhava comigo num casarão mal-assombrado, na cidade do Porto, Portugal. Ele andava com uma tesoura no bolso e me dizia que ia matar o nosso chefe. Não o fez. E me deu um romance.

Com Essa terra  a história é mais longa. Custou-me duas viagens ao sertão da Bahia. Eu qeria saber quem tinha sido o homem que, depois de muitas idas e vindas no eixo Nordeste-São Paulo, acabou por se enforcar no armador de uma rede. Mas todas as pessoas do lugar se negavam a tocar no assunto. O romance, então, foi se fazendo à medida que eu ia percebendo que a negação dos fatos era o próprio fato, em relação à tragédia daquele homem. Por falta de dados, a pessoa que eu buscava desapareceu. Aí nasceu o personagem.

Carta ao bispo foi escrito em homenagem a um primo meu, um grande amigo, político amador, que queria inserir o nosso pobre lugarejo no mapa do mundo. Ele tomou veneno na casa do bispo de Juazeiro. Me contaram que, envenenado, ele andava por um corredor, deixando marcas de sangue – marcas das suas mãos – nas paredes. Bastou esta cena para me ajudar a criar todo o romance.

Quanto ao Adeus, velho, que conta a saga de uma família de dezoito irmão, foi inspirado por velhos recortes de jornais sobre a prisão, em Salvador, de uma moça do sertão acusada de um crime que não cometera. A imprensa assumiu um papel de juiz e a condenava, provocando um grande escândalo. Isso me chocou.

Finalizando: quanto a mim, o personagem surge com uma lembrança, um fato, qualquer coisa que me toca, no presente, em relação a qualquer coisa que me tocou, profundamente, no passado.


In. BRAIT, Beth. A Personagem. São Paulo: Ática, 1985, p.71-72.
Imagem retirada da Internet: Antônio Torres

Para saber mais sobre Autor, clique AQUI


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Francisco Perna Filho - Poema





PROFISSÃO DE FÉ (Mise en abyme).



Vovó, Mamãe, irmã, outra irmã, tia, outra tia, eu
eu, outra tia, tia, outra irmã, irmã, mamãe, vovó
Amore, eu
antes da vovó, as professoras dela,
antes da mamãe, as professoras dela
antes das irmãs, as professoras delas
antes das tias, as professoras delas
antes de amore, as professoras dela
aprendi com todas elas
Além delas, os meus alunos:
os bons, os maus
o mundo: "vasto mundo".
aprendi muito com os livros,
com os Mestres que escreveram os livros
com os poetas
com os narradores
com os cordelistas
com os pintores
com os atores
com os artistas
om o vigia do meu carro
com o motorista de ônibus
com o taxista
com o porteiro
com o cara da cantina
com o guarda
com o faxineiro
com o gari
todos eles me ensinaram muito
continuo aprendendo/ensinando
ensinando/aprendendo
assim/assado
às vezes, Sísifo
às vezes, Prometeu
sem parada
sem pontuação
na dinâmica dos barcos
na fluência do rio
na confluência das ruas
sou assim:
PROFESSOR.


Imagem retirada da Internet

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Francisco Perna Filho - Crônica

 
PONTOS DE FUGA*



Algumas leituras nos são fundamentais, por nos situarem no tempo e no espaço e contribuírem para a nossa formação, não permitindo que se faça na realidade o imaginário perverso, e nem o bestial na sensatez. Quantas já nos aliviaram a dor alma e nos livraram do sono letal da ignorância, quando em imensas noites alimentaram as manhãs vindouras e os seguros passos de novas caminhadas.

Sobre elas, como bem o fez Hélio Pólvora no seu livro de ensaio ‘O Espaço Interior‘ (Editora da Universidade do Mar e da Mata, 1999), depois de ensaiar sobre a literatura universal, dedicou um capítulo às suas leituras e as de sua geração: ‘O que a minha geração leu’ – permitindo-nos um passeio saboroso pelo que há de mais diverso e importante na literatura universal: “A minha geração leu muito. Claro, a tevê só chegou quando éramos adultos. Para matar o tempo, que sempre resiste e acaba nos matando, segundo a lição de Machado de Assis, tínhamos apenas a Rádio Nacional, com os seus programas de auditório e dramatização de romances e contos, à base de uma parafernália de efeitos especiais. Sobrava tempo para leituras, devaneios. O livro foi companheiro diário, amigo sem rosto e sobretudo amigo fiel”.

Tal exposição, ao mesmo tempo em que nos fala de um espaço não muito longínquo, também nos dá a dimensão da formação de um dos nossos maiores contistas do Brasil, quando revela as “Leituras ao acaso, sem a ordem cronológica das escolas e dos movimentos literários”, nos mostrando a capacidade que cada indivíduo, pelas suas eleições, tem de autoformar-se, bastando apenas um despertar, para que o mundo se faça inteiro e, irrepreensivelmente, nos dê as respostas que tanto buscamos nesses dias tão atribulados.
A literatura universal está cheia de relatos das mais diversas “ex108
periências iniciáticas” como foi o caso de Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, François Mauriac, todos eles, de alguma maneira, trazem lembranças agradáveis das primeiras leituras, quase sempre adquiridas na infância, ao passo que avaliam o quanto elas foram fundamentais para que eles chegassem onde chegaram.
Todos têm uma história para contar, apoiados que estão nas suas experiência vividas e lidas, como é o caso do Escritor e Jornalista Inglês Graham Greene (Pontos de Fuga, Record, 1980), ao relatar magistralmente as suas leituras de mundo: Haiti, Vietnam, Praga, Paraguai, Quênia, África, numa demonstração de que a precisão da vida está em enfrentá-la.

Todos nós temos os nossos pontos de fuga, como no título de Greene, quando incisivamente fixamos os nossos olhos para além do horizonte empobrecido que nos maltrata. Talvez aí esteja a saída para os nossos dramas, sem que precisemos de mártires, como as crianças libanesas, os chorosos massacres da violência urbana, e tantos outros que se perderam pelos Parques do mundo.

Por tudo isso é que eu me pergunto: o que a minha geração leu ou está lendo, nesse exato momento? E os outros? De que motivação precisamos para começar a ler, para ensaiar o primeiro capítulos das nossa experiências? Pode ser que, como muitos dizem, livro no Brasil seja coisa para elite, para ricos. Mas eu me pergunto, e as bibliotecas públicas? E o esforço individual? E a experiência dos nossos grandes escritores que, muitas vezes, por situações várias, tiveram de criar alternativas, lendo o que lhes chegava às mãos, tomando emprestado, fazendo cooperativas, criando salas de leitura.

Para quem quer começar, existem inúmeras maneiras e, talvez, este texto seja um começo. Que tal conhecer Hélio Pólvora, Graham Greene, Sartre, Hugo de Carvalho. Que tal fazer um passeio pela Grande Goiânia e conhecer as suas bibliotecas. Que tal escrever a sua própria história.

* Título tomado de empréstimo a Graham Greene
Esta crônica faz parte do livro "O Rio Tocantins engoliu meu Avô", que poderá ser baixado aqui