sábado, 29 de setembro de 2012

Silvio do Rosário Curado Fleury - Poema


Foto by Denise de Almeida
As Chuvas


Rolam turvos os trovões estrondando,
longos, arrastados, grossos, trovejando
e na face turva das nuvens,
amontadas, de bordas esfiapadas
que sobre o horizonte se penduram pesadas
estremeavam os relampejos
em fulgurações amedrontadas
e ora são riscos em fogo traçados,
depois são trêmulas piscadas
de enorme olho que se entreabre abrasado
e vezes são medrosos clarões
em distantes e tímidas verberações.
A natureza espera ansiosa
castigada pela sede que a ressaca;
gritam as cigarras impertinentes
quais fossem vozes de desesperação
na monótona e metálica repetição;
Os sapos espocaem
repetindo, sem cansaço, as deprecações roucas.
Pelos dias afora
cantaram os guasóis insistentes,
os itapicurús em voos pesados
remontaram os rios ressecados
grasnando estridentes,
ou ralos banharam na morna areia,
as galinhas se aninharam na poeira,
os gatos lavaram-se com as patas macias
as vozes da cachoeira até nos longes se anunciam,
a água apresentou estranha quentura
e no fundo da cisterna
cresceu a água que dia a dia baixava
e que fugia
no seio quente e sedento da terra.


In. Os filhos da terra. Brasília: Duo Design, 2009

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Cecília Meireles - Poema

Fio

No fio da respiração,
rola a minha vida monótona,
rola o peso do meu coração.

Tu não vês o jogo perdendo-se
como as palavras de uma canção.

Passas longe, entre nuvens rápidas,
com tantas estrelas na mão...

— Para que serve o fio trêmulo
em que rola o meu coração?