domingo, 31 de outubro de 2010

Adriano Eysen - Poema












Elegia às meninas meigas



Cantemos as mulheres
que trazem na noite
o aroma do sexo
e uma tristeza que habita a lua.

São elas fidalgas
que guardam o pecado
por trás dos vestidos
envelhecidos na memória.

Cantemos suas tramas
que se findam nas camas
numa réstia de madrugada.

Lá vão elas, meninas meigas
carregando em seus corpos
a lucidez dos deuses
que as amam.



In.Cicatriz do Silêncio. Salvador:EPP, 2007,p.57.
Imagem retirada da Internet: bluegirl

sábado, 30 de outubro de 2010

Cleberton Santos - Poema


AMOR


O vestido preto
está dançando na esquina.
O amor é uma festa
mesmo em dia de luto




In. Lucidez Silenciosa. Salvador: EPP, 2005, p.61
Imagem retirada da Internet: Luto

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Antônio Gonçalves Dias - Poema

Se se morre de amor!


Meere und Berge und Horizonte zwischen
den Liebenden - aber die Seelen versetzen
sích aus dem staubigen Kerker und treffen
sich im Paradiese der Liebe.
Schiller, Die Rüuber



Se se morre de amor! — Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n'alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!


Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d'amor arrebatar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio,
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro


Clarão, que as luzes no morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
D'amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração — abertos
Ao grande, ao belo; é ser capaz d'extremos,
D'altas virtudes, té capaz de crimes!
Compr'ender o infinito, a imensidade,
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D'aves, flores, murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
Fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!


Amar, e não saber, não ter coragem
Para dizer que amor que em nós sentimos;
Temer qu'olhos profanos nos devassem
O templo, onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis, d'ilusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compr'ender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!


Se tal paixão porém enfim transborda,
Se tem na terra o galardão devido
Em recíproco afeto; e unidas, uma,
Dois seres, duas vidas se procuram,
Entendem-se, confundem-se e penetram
Juntas — em puro céu d'êxtases puros:
Se logo a mão do fado as torna estranhas,
Se os duplica e separa, quando unidos
A mesma vida circulava em ambos;


Que será do que fica, e do que longe
Serve às borrascas de ludíbrio e escárnio?
Pode o raio num píncaro caindo,
Torná-lo dois, e o mar correr entre ambos;
Pode rachar o tronco levantado
E dois cimos depois verem-se erguidos,
Sinais mostrando da aliança antiga;
Dois corações porém, que juntos batem,
Que juntos vivem, — se os separam, morrem;
Ou se entre o próprio estrago inda vegetam,
Se aparência de vida, em mal, conservam,
Ânsias cruas resumem do proscrito,
Que busca achar no berço a sepultura!


Esse, que sobrevive à própria ruína,
Ao seu viver do coração, — às gratas
Ilusões, quando em leito solitário,
Entre as sombras da noite, em larga insônia,
Devaneando, a futurar venturas,
Mostra-se e brinca a apetecida imagem;
Esse, que à dor tamanha não sucumbe,
Inveja a quem na sepultura encontra
Dos males seus o desejado termo!


Imagem retirada da Internet: amor

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Carlos Moisés Soglia de Melo - Poema


GALOPE


Minhas mãos feitas de garças
agarram-se à saia do Universo:
cavaleiro, galopo estrelas




Ontologia do poema, segundo José Inácio Vieira de Melo:

Era uma vez, Moisés, Gabriel e eu galopando dentro da tarde – meus filhos e eu entrando na boca da noite. Passamos num açude para dar água aos nossos cavalos. E havia uma árvore cheia de garças, e as estrelas começavam a brilhar no firmamento. Foi quando Moisés trouxe para nós o seu poema “Galope”. E seguimos galopando, noite adentro.



Carlos Moisés Soglia de Melo, 10 anos, é filho do poeta/amigo José Inácio Vieira de Melo.

Imagem retirada da Internet: cavalo

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Carlos Moisés Soglia de Melo - Poema


SINFONIA




É cheio de estrelas
o silêncio do maestro.
Dança a lua cheia.



Ontologia do poema, segundo o Poeta José Inácio Vieira de Melo, pai de Carlos Moisés:


Um dia ouvíamos a “Sinfonia Coral” (Nona Sinfonia) de Beethoven, sentados à beira de uma fogueira, lá na fazenda Pedra só e, de repente, quando os cantores líricos cantavam a “Ode à Alegria” de Schiller, Moisés (10 anos)* trouxe do âmago do seu ser o poema “Sinfonia”. Não sabia ele que havia feito um hai-kai.

*Carlos Moisés fez 10 anos, ontem,26. Parabéns!

Imagem retirada da Internet: Nona Sinfonia






terça-feira, 26 de outubro de 2010

Antônio Gonçalves Dias - Poema


Ainda uma vez — Adeus


I


Enfim te vejo! — enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!



II


Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos
Nas surdas asas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!
Baldão, ludíbrio da sorte
Em terra estranha, entre gente,
Que alheios males não sente,
Nem se condói do infeliz!



III


Louco, aflito, a saciar-me
D'agravar minha ferida,
Tomou-me tédio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quase no passo extremo,
No último arcar da esp'rança,
Tu me vieste à lembrança:
Quis viver mais e vivi!



IV


Vivi; pois Deus me guardava
Para este lugar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez;
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.



V


Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura...
Olha-me bem, que sou eu!



VI


Nenhuma voz me diriges!...
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que me darias — bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal sabes quanto lutei!



VII


Oh! se lutei! . . . mas devera
Expor-te em pública praça,
Como um alvo à populaça,
Um alvo aos dictérios seus!
Devera, podia acaso
Tal sacrifício aceitar-te
Para no cabo pagar-te,
Meus dias unindo aos teus?



VIII


Devera, sim; mas pensava,
Que de mim t'esquecerias,
Que, sem mim, alegres dias
T'esperavam; e em favor
De minhas preces, contava
Que o bom Deus me aceitaria
O meu quinhão de alegria
Pelo teu, quinhão de dor!



IX


Que me enganei, ora o vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime,
Não te esqueci, eu to juro:
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!



X


Tudo, tudo; e na miséria
Dum martírio prolongado,
Lento, cruel, disfarçado,
Que eu nem a ti confiei;
"Ela é feliz (me dizia)
"Seu descanso é obra minha."
Negou-me a sorte mesquinha. . .
Perdoa, que me enganei!



XI


Tantos encantos me tinham,
Tanta ilusão me afagava
De noite, quando acordava,
De dia em sonhos talvez!
Tudo isso agora onde pára?
Onde a ilusão dos meus sonhos?
Tantos projetos risonhos,
Tudo esse engano desfez!



XII


Enganei-me!... — Horrendo caos
Nessas palavras se encerra,
Quando do engano, quem erra.
Não pode voltar atrás!
Amarga irrisão! reflete:
Quando eu gozar-te pudera,
Mártir quis ser, cuidei qu'era...
E um louco fui, nada mais!



XIII


Louco, julguei adornar-me
Com palmas d'alta virtude!
Que tinha eu bronco e rude
Co que se chama ideal?
O meu eras tu, não outro;
Stava em deixar minha vida
Correr por ti conduzida,
Pura, na ausência do mal.



XIV


Pensar eu que o teu destino
Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deus ab eterno a fizera,
No meu caminho a pusera...
E eu! eu fui que a não quis!



XV


És doutro agora, e pr'a sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!



XVI


Dói-te de mim, que t'imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!



XVII


Adeus qu'eu parto, senhora;
Negou-me o fado inimigo
Passar a vida contigo,
Ter sepultura entre os meus;
Negou-me nesta hora extrema,
Por extrema despedida,
Ouvir-te a voz comovida
Soluçar um breve Adeus!



XVIII


Lerás porém algum dia
Meus versos d'alma arrancados,
D'amargo pranto banhados,
Com sangue escritos; — e então
Confio que te comovas,
Que a minha dor te apiade
Que chores, não de saudade,
Nem de amor, — de compaixão,


Imagem retirada da Internet: pássaro em despedida

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Deu no Estadão - Harold Bloom e sua seleção de cem poemas

Harold Bloom discute sua seleção de cem poemas

Em entrevista, Bloom fala sobre sua seleção de cem derradeiros poemas de autores de língua inglesa

23 de outubro de 2010 | 7h 00
Lúcia Guimarães - O Estado de S. Paulo

Ele nunca decepciona seus interlocutores. Passional e provocador. Professoral, sempre. Num momento pede socorro à mulher porque derrubou o aparelho de audição ("Está tudo desmoronando por aqui!") e em seguida elogia, sedutor, o que chama de voz maviosa da repórter ao telefone.

Divulgação/Yale University
Divulgação/Yale University
Harold Bloom: 'o propósito de ensinar é estender a bênção da vida prolongada', diz o professor

Toda traquinagem será tolerada.

Harold Bloom acaba de completar 80 anos. No final de 2009, sua saúde o afastou por meses do convívio com os estudantes da Universidade de Yale, onde ocupa a mais famosa cadeira de crítica literária do país. Se você faz 80 anos e passou a vida lendo o melhor da poesia, então, "começa a saber que, diante do morrer e da morte, a imaginação é, ao mesmo tempo, nada e tudo".

Assim Bloom explica seu desejo de reunir cem poemas em Till I End My Song - A Gathering of Last Poems (Até Eu Terminar Minha Canção - Uma Reunião de Últimos Poemas). O título cita o verso repetido em Prothalamion, de Edmund Spenser, o poeta elisabetano, que abre a coletânea. O fim que une os poemas não é necessariamente o fim temporal.

O livro cobre 450 anos de poesia, de William Shakespeare a James Merrill, de Robert Frost a Robert Lowell e termina com o poema The Veiled Suite, de Agha Shahid Ali, indiano de Kashmir morto em Massachusetts, os 52 anos, em 2001 e incluído numa coleção póstuma publicada em 2009. Bloom considera os versos de The Veiled Suite entre os mais obsessivos que trataram da morte.

Apesar do tema e de sua avançada idade, Bloom está longe de se deixar abater pelo assunto. Comemora suas cinco décadas na academia - "Dei aula para cerca de 25 mil estudantes, o bastante para lotar uma cidade" - e conclui: "O propósito de ensinar é estender a bênção da vida prolongada."

Quando telefono para sua casa em New Haven, Connecticut, o professor contorna a primeira pergunta e já sai palestrando sobre a nova obra. "Sim, há um tom um pouco sombrio na obra que inclui poemas de amigos queridos, como Robert Penn Warren, morto em 1989, e Anthony Hecht, morto em 2004. Ainda sofro o luto por eles." E segue, entusiasmado com Till I End My Song. Acompanhe.

Qual é a distinção que o senhor faz entre a finitude da morte e a finitude que encontrou em certos poemas?

Veja que não é uma coleção de poemas sobre a morte e sim uma coleção de poemas que lidam com a incerteza. Todos nós queremos e não queremos saber quanto tempo temos de vida, e esta é a incerteza. Reuni três tipos de "últimos" poemas. Os poemas cronologicamente finais são minoria. Há poemas que marcam o fim de uma carreira. E queria me concentrar também no que considero o auge - o final - de um processo de imaginação.

Por que o senhor diz no livro que estava interessado em conhecimento e não na piedade, no pathos ligado à morte?

Sim, por que dizemos isso? Queria deixar claro que o fim é uma parte importante do conhecimento. Montaigne, o ensaísta maior, nos dá o melhor conselho: "Não percam tempo aprendendo a morrer. Quando chegar a hora, vamos saber morrer direito."

O senhor destaca que os poemas se colocam contra a morte e não contra o morrer.

Sim, a morte é uma ideia. O ato de morrer é diferente. É algo que todos vamos experimentar. Mas a ideia é complicada. Como a ideia da morte não é um modo de existência, a poesia pode nos esclarecer sobre ela.

Por que o senhor considera importante desfazer a mitologia da morte?

Falo da minha própria metafísica. Três poetas que sempre celebrei, Percy Shelley, Walt Whitman e Wallace Stevens, são românticos lucrecianos. Eles seguem a metafísica epicurista, em que a morte é exposta como um filamento da imaginação, um bicho-papão que as pessoas impõem sobre si mesmas. O W.H. Auden e eu discutíamos sobre isso. Ele nem considerava aqueles três poetas, tinha um temperamento forte.

O senhor concorda que o medo da morte é o oposto do gosto por viver?

Com certeza. Não existe essa coisa chamada morte. Shakespeare é o mestre em tratar disso. Como nas palavras finais de Hamlet, "o resto é silêncio".

Na introdução, o senhor manifesta uma esperança de renascimento na Era de Obama, "depois de anos no mato" ("In the bush", trocadilho com o nome do último presidente.)

Eu nunca quero falar em política. Mas confesso que fui um pouco otimista e me arrependo. Eu não imaginava o que ia acontecer. Por favor, pode me citar: os EUA ficaram completamente malucos. Talvez possamos nos recuperar depois que Obama for reeleito. No dia 2, vamos ter eleições e ninguém com acesso à mídia tem a honestidade ou a decência de dizer a verdade. O Tea Party é o nosso movimento fascista. Nem adianta falar em "neo", como neonazistas. É fascismo mesmo. Vários candidatos deles vão se eleger e os democratas vão perder a maioria entre os deputados. Haverá uma total paralisia legislativa. Eles vão instalar comitês de investigação. Se puderem, vão tentar o impeachment de Obama. Os próximos dois anos serão assim. Depois, tenho confiança que aquela mulher magnífica vai ser candidata a presidente e perder. Sarah Palin (Bloom parece estar na sala de aula), uma peça bem acabada de fascismo populista.

Till I End My Song - A Gathering Of Last Poems

Organizador: Harold Bloom

Editora: Harper Collins

(Importado; 379 págs., R$ 56,73)

domingo, 24 de outubro de 2010

Brasigóis Felício Brasigóis Felício - Poeta

Um poeta incomum


Helvécio de Azevedo Goulart, ou simplesmente Helvécio Goulart, como assinava seus textos literários: eis um poeta marcado pela singularidade de uma linguagem que, sendo especialmente sua, é comunicável em sua universalidade, mesmo remetendo o leitor sensível a uma atmosfera lírica incomum, muito longe do trivial. Foi mantendo-se sempre igual a si mesmo, que este mineiro de Itajubá construiu uma história literária em terras goianas, pontificando como dos maiores poetas brasileiros escrevendo em nosso rincão.

Seu currículo literário é vasto, expressivo. Mas foi ele também um homem público de destaque. Ocupou cargos públicos de grande responsabilidade, e em todos demonstrou grande valor e dignidade. Foi Ouvidor Geral do Estado de Goiás, atuou junto ao tribunal de Contas do Estado, Foi chefe do gabinete civil do Governo Leonino Caiado e da gestão de Índio Artiaga, à frente da Prefeitura de Goiânia.

Homem culto, dotado de refinada sensibilidade estética, ao poeta de A janela azul horrorizava toda e qualquer espécie de vulgaridade ou concessão ao mau gosto. Sua poesia tem apreciadores fiéis, cultivadores de sua imagética afeita aos devaneios descritos por Gaston Bachelard. A atmosfera de seus poemas, de um acento marcadamente surrealista, conservou-se a mesma, desde seu livro de estréia, até sua última publicação em poesia. Exemplo de seu lirismo aberto, aparentemente fácil, mas recheado de imagens de grande força metafórica: “Só os que amam compreendem/ só os que amam/loura fonte da vida/Eles se deitam no deserto estendido no chão para dormir/deserto de grandes dunas/do peito dos amantes das gargalhadas/ das lágrimas/ dos telhados amarelos da noite/do olho dos pássaros ocultos nos verdes beirais do sono/só os que amam.../”.

Em nossos encontros na academia, eu sempre lhe dizia que, quando minha atmosfera mental necessitava, para alimentar-se do poético, de beber da fonte de uma poesia pura, voltava a ler os seus livros. E volto a dizê-lo. Pois só se pode dizer que um fazedor de versos é grande poeta, da classe dos verdadeiros vates, quando outros poetas se inspiram em seus poemas. Poema que não inspira outro poema é um fruto peco, falhado, maduro á força – não tem o potencial criador e criativo de grande obra de arte.

Vejamos os versos de um de seus poemas: “Toco as romãs/ com as mãos de meu filho/o mundo se revela/enquanto as janelas se fecham/”. Em seu livro Poemas reunidos, da coleção Vertentes (Editora da UFG) podemos ler esta beleza de composição: “Fica onde estás/com o teu silêncio e o meu/a estreita ponte de palavras/”. Leiamos mais de seu lirismo encantador: “Cada um gasta seu tempo/em ciladas temerárias/como punhais de ouro/e gestos de silêncio/”. Quer maior verdade dita com tamanha beleza? Pois é sabido que a pátina dos dias lança muitos anzóis à passagem dos navegantes humanos – e é preciso lucidez e temperança, para não sucumbirmos ao fascínio dos abismos que o cotidiano lança aos nossos sentidos.

Em outro poema o poeta nos conclama: “Observa os objetos:/de todos eles/emanam respostas do efêmero/(...) Expressam-se todos em silêncio/a lembrança do tempo/que não cessa de rodar/suas pernas de mármore/e de ver a morte/através de cada coisa/com grandes olhos de veneno/e de fogo/invisíveis, abertos para sempre/”.

Helvécio Goulart é autor de uma poesia sensível, mesmo tendo vivido em um tempo anestesiado para a sensibilidade em relação às coisas que de fato importam na vida. Drummond o disse: “As coisas/que tristes são as coisas/consideradas sem ênfase/”. Pois que mesmo a poesia da vida em todas as coisas e em todos os momentos, é preciso ter olhos de ver, e ouvidos de escutar a canção da infinita, a vibrar em tudo o que é efêmero, no na pele das coisas e nos rios do devir.

Embora assumindo-se como poeta de inspiração surrealista, sua poesia não se assemelha à dos corifeus desta vertente estética: é toda dele. Helvécio não foi caudatário nem diluiu ninguém. Só um poeta original e autêntico, enquanto criador, publicaria um livro com o título A janela azul – pois assim ele inverte a direção comum do olhar, que vai da janela para a paisagem, e não o contrário. Outra mostra de sua dicção particularíssima: “Os cavalos sabem a solidão da noite/e talvez nem escutem/o ruído escuro que fazem/no silêncio incomunicável à solidão dos homens/”.

Em texto publicado no DM revista, em setembro de 1977, o poeta Gabriel Nascente assim se expressou, sobre a obra poética deste autor: “Falo de uma poesia que tem idoneidade estética, equilíbrio temático, elegância imagética, esmero, acuidade artesanal, arte, imaginação e fulgor. Sobretudo bom gosto, requintada, jorrante”. Da Janela azul à Memória das águas, um rio de imagens, de um poeta que propugnava pela aristocracia do espírito. Com a palavra o poeta que nos deixou enquanto criatura física, mas que deixou como legado uma riqueza poética que será mais e mais admirada, quanto mais tempo se passar sobre os mortos e os vivos:

“Sobre a mesa o aroma dos pinheiros ficava repousado/nela depositavam-se coisas/vinhos frutas pratos/ as sementes do vento/os olhos acesos da vigília./A hora armava espaços na mesa”.


Brasigóis Felício é Poeta e membro da Academia Goiana de Letras


Imagem retirada da Internet: barco

sábado, 23 de outubro de 2010

Célio Pedreira - Crônica


As dores



Dia vem e o labutar diário dos espasmos a caminhar leitos e corredores largos. Investigar os óbvios para atender aos obscuros, eis a luta mais desigual que conheço. Assim como tentar curar saudade com antiálgicos, como tratar insônias com ópio. O plantão segue suas horas num ranger silêncioso, onde a ciência não aceita só ciência, exige zelo e afeto. Pedir zelo parece perto, mas alcançar afeto é pura arte. Quantas dores necessitam ser invertidas todos os dias?

Pois bem, são 5 horas da madrugada. Um ancião a confessar-me: - Tenho uma agonia no peito, é forte! Parece que tudo por dentro está fechando... a agonia sobe no pescoço, como fosse sufocar... daí minha mão esfria... parece dor mas não sei onde começa, nem onde termina, sei que não estou aguentando! Mas se o dia for amanhecer e o galo cantar, passa (...) Parece uma morrência! A ciência me chama para um estreito. A dor do ancião permanece. Minhas mãos, olhos, ouvidos, nariz e o artifício dos exames não logram esclarecer a agonia em chamas. Alguns paliativos imediatos e recorro aos tratados, aos protocolos, nada... a memória não encontra os atalhos certos para aquela dor.

Volto a procurar os olhos agora fechados do ancião no leito. Dorme. Lembro do galo que teceu um canto e não ouvi. Outras dores me encontram, inclusive as minhas. Resolvo voltar para uma conversa com o ancião já acordado. Está morando só. Não deseja mais as janelas, mantém a porta encostada para não ter o trabalho de abrir ou fechar, o apetite é miúdo, diz. Uma melancolia farta habita meus olhos. Conta mais, peço. É assim desde que, há sete meses, minha companheira de vida se foi... Um silêncio branco nos vestiu. Outra vez procurei o glossário do compêndio e não encontrei a palavra que procurava: Saudade! Levo o ancião para meus passos.


Célio Pedreira é Médico e Poeta, pertence a Academia Tocantinense de Letras. E-mail: Dr.celiopedreira@gmail.com

Imagem retirada da Internet: Busto-Ancião


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Manuel Bandeira - Poema


Carta-Poema



Excelentíssimo Prefeito
Senhor Hildebrando de Góis,
Permiti que, rendido o preito
A que fazeis jus por quem sois,


Um poeta já sexagenário,
Que não tem outra aspiração
Senão viver de seu salário
Na sua limpa solidão,


Peça vistoria e visita
A este pátio para onde dá
O apartamento que ele habita
No Castelo há dois anos já.


É um pátio, mas é via pública,
E estando ainda por calçar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!


Indiferentes ao capricho
Das posturas municipais,
A ele jogam todo o seu lixo
Os moradores sem quintais.


Que imundície! Tripas de peixe,
Cascas de fruta e ovo, papéis...
Não é natural que me queixe?
Meu Prefeito, vinde e vereis!


Quando chove, o chão vira lama:
São atoleiros, lodaçais,
Que disputam a palma à fama
Das velhas maremas letais!


A um distinto amigo europeu
Disse eu: — Não é no Paraguai
Que fica o Grande Chaco, este é o
Grande Chaco! Senão, olhai!


Excelentíssimo Prefeito
Hildebrando Araújo de Góis
A quem humilde rendo preito,
Por serdes vós, senhor, quem sois!


Mandai calçar a via pública
Que, sendo um vasto lagamar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!


Fonte: Releituras - In. Manuel Bandeira - Antologia Poética", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 2001, pág. 221.

Imagem retirada da Internet: Manuel Bandeira

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Manuel Bandeira - Poema



O último poema



Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.


Fonte:Releituras - Manuel Bandeira — 50 poemas escolhidos pelo autor", Ed. Cosac Naify – São Paulo, 2006, pág. 35.

Imagem retirada da Internet: caderno

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Manuel Bandeira - Poema

ARTE DE AMAR




Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.



Imagem retirada da Internet:amar

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Francisco Perna Filho - Poema

Um menino nas nuvens


Para João Pedro



o primeiro voo,
e ele, sabendo-se no alto,
inventa anjos
nas nuvens da sua imaginação.

A infância ali,
a inocência de quem descobre o mundo
nas asas de um boing 737.

Apesar do medo de voar,
os seus olhos são só ternura,
quando passeia solto pelas nuvens da sua imaginação.

A vida se refaz
a tarde se alarga,
e eu, agradecido, volto para casa feliz.




Imagem retirada da Internet: Anjos

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Brasigóis Felicio - Poema



PÁTRIA BRAZILIS



Os degredados de Portugal

os degradados do Brasil


Os pares de França e do Funchal,

os párias da pátria pedindo aval


As escórias de Portugal

as escoras do Brazil


Os escárnios do Brazil

os canalhas do Brasil


As malícias do Brasil,

as milícias do Brasil


A sociologia do Brasil,

a saciologia do fuzil


Os sabujos de plantão

os palhaços da razão


Os canalhas céu de anil

os calhordas sem buril


Os melindres dos perversos

os fazedores de versos


Convescotes dos ridículos

nas surubas dos pudicos


Os melindres dos patifes

os chiliques dos juízes


Trombas d´água na secura

no país da velha usura


Qaurteladas & pampeiros

lambe-botas de cueiros


O atraso só avança

no Brazil dos Bruzundangas.




Imagem retirada da Internet: Sal & Pimenta

domingo, 17 de outubro de 2010

Heleno Godoy - Poema


Um Possível Oráculo




Para aquele que, diante de si (e antes de si) mesmo,

pode contar pares de olhos, mãos, pernas, cabeças

que nem sempre o seguem, que às vezes não lhe

prestam atenção;


Para aquele que se sente esgotado, mas segue em frente;

que se sente traído, mas se recusa a parar e que, se pára,

sente então que a traição é mais ainda sua e que todos

aqueles pares de olhos,


aquelas cabeças tantas vezes deslocadas, aquelas mãos

e pernas que não se aquietam e se impacientam para ir

embora, elas sim, traem a si mesmas, mas não por serem

ruins ou mesmo


tolas, apenas por serem inadequadas, por não terem aprendido

ainda o que vale e o que não vale, o que permanece e é

insubstituível, o que atrai o pássaro ou a abelha para

as flores e a chuva para o chão.


Um dia, saberão.

Oráculo do professor!


Imagem retirada da Internet: Oráculo

sábado, 16 de outubro de 2010

Manuel Botelho de Oliveira - Poema


À ILHA DE MARÉ TERMO DESTA CIDADE DA BAHIA





Jaz oblíqua forma e prolongada

a terra de Maré toda cercada

de Netuno, que tendo o amor constante,

lhe dá muitos abraços por amante,

e botando-lhe os braços dentro dela

a pretende gozar, por ser mui bela.

Nesta assistência tanto a senhoreia,

e tanto a galanteia,

que, do mar, de Maré tem o apelido,

como quem preza o amor de seu querido:

e por gosto das prendas amorosas

fica maré de rosas,

e vivendo nas ânsias sucessivas,

são do amor marés vivas;

e se nas mortas menos a conhece,

maré de saudades lhe parece.

Vista por fora é pouco apetecida,

porque aos olhos por feia é parecida;

porém dentro habitada

é muito bela, muito desejada,

é como a concha tosca e deslustrosa,

que dentro cria a pérola fermosa.

Erguem-se nela outeiros

com soberbas de montes altaneiros,

que os vales por humildes desprezando,

as presunções do Mundo estão mostrando,

e querendo ser príncipes subidos,

ficam os vales a seus pés rendidos.

Por um e outro lado

vários lenhos se vêem no mar salgado;

uns vão buscando da Cidade a via,

outros dela se vão com alegria;

e na desigual ordem

consiste a fermosura na desordem.

Os pobres pescadores em saveiros,

em canoas ligeiros,

fazem com tanto abalo

do trabalho marítimo regalo;

uns as redes estendem,

e vários peixes por pequenos prendem;

que até nos peixes com verdade pura

ser pequeno no Mundo é desventura:

outros no anzol fiados têm

aos míseros peixes enganados,

que sempre da vil isca cobiçosos

perdem a própria vida por gulosos.

Aqui se cria o peixe regalado

com tal sustância, e gosto preparado,

que sem tempero algum para apetite

faz gostoso convite,

e se pode dizer em graça rara

que a mesma natureza os temperara.

Não falta aqui marisco saboroso,

para tirar fastio ao melindroso;

os polvos radiantes,

os lagostins flamantes,

camarões excelentes,

que são dos lagostins pobres parentes;

retrógrados cranguejos,

que formam pés das bocas com festejos,

ostras, que alimentadas

estão nas pedras, onde são geradas;

enfim tanto marisco, em que não falo,

que é vário perrexil para o regalo.

As plantas sempre nela reverdecem,

e nas folhas parecem,

desterrando do Inverno os desfavores,

esmeraldas de Abril em seus verdores,

e delas por adorno apetecido

faz a divina Flora seu vestido.

As fruitas se produzem copiosas,

e são tão deleitosas,

que como junto ao mar o sítio é posto,

lhes dá salgado o mar o sal do gosto.

As canas fertilmente se produzem,

e a tão breve discurso se reduzem,

que, porque crescem muito,

em doze meses lhe sazona o fruito,

e não quer, quando o fruto se deseja,

que sendo velha a cana, fértil seja.

As laranjas da terra

poucas azedas são, antes se encerra

tal doce nestes pomos,

que o tem clarificado nos seus gomos;

mas as de Portugal entre alamedas

são primas dos limões, todas azedas.

Nas que chamam da China

grande sabor se afina,

mais que as da Europa doces, e melhores,

e têm sempre a ventagem de maiores,

e nesta maioria,

como maiores são, têm mais valia.

Os limões não se prezam,

antes por serem muitos se desprezam.

Ah se Holanda os gozara!

Por nenhuma província se trocara.

As cidras amarelas

caindo estão de belas,

e como são inchadas, presumidas,

é bem que estejam pelo chão caídas.

As uvas moscatéis são tão gostosas,

tão raras, tão mimosas;

que se Lisboa as vira, imaginara

que alguém dos seus pomares as furtara;

delas a produção por copiosa

parece milagrosa,

porque dando em um ano duas vezes,

geram dous partos, sempre, em doze meses.

Os melões celebrados

aqui tão docemente são gerados,

que cada qual tanto sabor alenta,

que são feitos de açúcar, e pimenta,

e como sabem bem com mil agrados,

bem se pode dizer que são letrados;

não falo em Valariça, nem Chamusca:

porque todos ofusca

o gosto destes, que esta terra abona

como próprias delícias de Pomona.

As melancias com igual bondade

são de tal qualidade,

que quando docemente nos recreia,

é cada melancia uma colmeia,

e às que tem Portugal lhe dão de rosto

por insulsas abóboras no gosto.

Aqui não faltam figos,

e os solicitam pássaros amigos,

apetitosos de sua doce usura,

porque cria apetites a doçura;

e quando acaso os matam

porque os figos maltratam,

parecem mariposas, que embebidas

na chama alegre, vão perdendo as vidas.

As romãs rubicundas quando abertas

à vista agrados são, à língua ofertas,

são tesouro das fruitas entre afagos,

pois são rubis suaves os seus bagos.

As fruitas quase todas nomeadas

são ao Brasil de Europa trasladadas,

por que tenha o Brasil por mais façanhas

além das próprias fruitas, as estranhas.

E tratando das próprias, os coqueiros,

galhardos e frondosos

criam cocos gostosos;

e andou tão liberal a natureza

que lhes deu por grandeza,

não só para bebida, mas sustento,

o néctar doce, o cândido alimento.

De várias cores são os cajus belos,

uns são vermelhos, outros amarelos,

e como vários são nas várias cores,

também se mostram vários nos sabores;

e criam a castanha,

que é melhor que a de França, Itália, Espanha.

As pitangas fecundas

são na cor rubicundas

e no gosto picante comparadas

são de América ginjas disfarçadas.

As pitombas douradas, se as desejas,

são no gosto melhor do que as cerejas,

e para terem o primor inteiro,

a ventagem lhes levam pelo cheiro.

Os araçazes grandes, ou pequenos,

que na terra se criam mais ou menos

como as pêras de Europa engrandecidas,

com elas variamente parecidas,

de várias castas marmeladas belas.

As bananas no Mundo conhecidas

por fruto e mantimento apetecidas,

que o céu para regalo e passatempo

liberal as concede em todo o tempo,

competem com maçãs, ou baonesas

com peros verdeais ou camoesas.

Também servem de pão aos moradores,

se da farinha faltam os favores;

é conduto também que dá sustento,

como se fosse próprio mantimento;

de sorte que por graça, ou por tributo,

é fruto, é como pão, serve em conduto.

A pimenta elegante

é tanta, tão diversa, e tão picante,

para todo o tempero acomodada,

que é muito aventajada

por fresca e por sadia

à que na Asia se gera, Europa cria.

O mamão por freqüente

se cria vulgarmente,

e não o preza o Mundo,

porque é muito vulgar em ser fecundo.

O marcujá também gostoso e frio

entre as fruitas merece nome e brio;

tem nas pevides mais gostoso agrado,

do que açúcar rosado;

é belo, cordial, e como é mole,

qual suave manjar todo se engole.

Vereis os ananases,

que para rei das fruitas são capazes;

vestem-se de escarlata

com majestade grata,

que para ter do Império a gravidade

logram da croa verde a majestade;

mas quando têm a croa levantada

de picantes espinhos adornada,

nos mostram que entre Reis, entre Rainhas

nãocroa no Mundo sem espinhas.

Este pomo celebra toda a gente,

é muito mais que o pêssego excelente,

pois lhe leva aventagem gracioso

por maior, por mais doce, e mais cheiroso.

Além das fruitas, que esta terra cria,

também não faltam outras na Bahia;

a mangava mimosa

salpicada de tintas por fermosa,

tem o cheiro famoso,

como se fora almíscar oloroso;

produze-se no mato

sem querer da cultura o duro trato,

que como em si toda a bondade apura,

não quer dever aos homens a cultura.

Oh que galharda fruita, e soberana

sem ter indústria humana,

e se Jove as tirara dos pomares,

por ambrósia as pusera entre os manjares!

Com a mangava bela a semelhança

do macujé se alcança;

que também se produz no mato inculto

por soberano indulto:

e sem fazer ao mel injusto agravo,

na boca se desfaz qual doce favo.

Outras fruitas dissera, porém, basta

das que tenho descrito a vária casta;

e vamos aos legumes, que plantados

são do Brasil sustentos duplicados:

os mangarás que brancos, ou vermelhos,

são da abundância espelhos;

os cândidos inhames, se não minto,

podem tirar a fome ao mais faminto.

As batatas, que assadas, ou cozidas

são muito apetecidas;

delas se faz a rica batatada

das Bélgicas nações solicitada.

Os carás, que de roxo estão vestidos,

são lóios dos legumes parecidos,

dentro são alvos, cuja cor honesta

se quis cobrir de roxo por modesta.

A mandioca, que Tomé sagrado

deu ao gentio amado,

tem nas raízes a farinha oculta:

que sempre o que é feliz, se dificulta.

E parece que a terra de amorosa

se abraça com seu fruto deleitosa;

dela se faz com tanta atividade

a farinha, que em fácil brevidade

no mesmo dia sem trabalho muito

se arranca, se desfaz, se coze o fruito;

dela se faz também com mais cuidado

o beiju regalado,

que feito tenro por curioso amigo

grande ventagem leva ao pão de trigo.

Os aipins se aparentam

coa mandioca, e tal favor alentam,

que tem qualquer, cozido, ou seja assado,

das castanhas da Europa o mesmo agrado.

O milho, que se planta sem fadigas,

todo o ano nos dá fáceis espigas,

e é tão fecundo em um e em outro filho,

que são mãos liberais as mãos de milho.

O arroz semeado

fertilmente se vê multiplicado;

cale-se de Valença, por estranha

o que tributa a Espanha,

cale-se do Oriente

o que come o gentio, e a lísia gente;

que o do Brasil quando se vê cozido

como tem mais substância, é mais crescido.

Tenho explicado as fruitas e legumes,

que dão a Portugal muitos ciúmes;

tenho recopilado

o que o Brasil contém para invejado,

e para preferir a toda a terra,

em si perfeitos quatro AA encerra.

Tem o primeiro A, nos arvoredos

sempre verdes aos olhos, sempre ledos;

tem o segundo A, nos ares puros

na tempérie agradáveis e seguros;

tem o terceiro A, nas águas frias,

que refrescam o peito, e são sadias;

o quatro A, no açúcar deleitoso,

que é do Mundo o regalo mais mimoso.

São pois os quatro AA por singulares

Arvoredos, Açúcar, Águas, Ares.

Nesta ilha está mui ledo, e mui vistoso

um Engenho famoso,

que quando quis o fado antigamente

era Rei dos engenhos preminente,

e quando Holanda pérfida e nociva

o queimou, renasceu qual Fênix viva.

Aqui se fabricaram três capelas

ditosamente belas,

uma se esmera em fortaleza tanta,

que de abóbada forte se levanta;

da Senhora das Neves se apelida,

renovando a piedade esclarecida,

quando em devoto sonho se viu posto

o nevado candor no mês de agosto.

Outra capela vemos fabricada,

A Xavier ilustre dedicada,

que o Maldonado Pároco entendido

este edifício fez agradecido

a Xavier, que foi em sacro alento

glória da Igreja, do Japão portento.

Outra capela aqui se reconhece,

cujo nome a engrandece,

pois se dedica à Conceição sagrada

da Virgem pura sempre imaculada,

que foi por singular e mais fermosa

sem manchas lua, sem espinhos rosa.

Esta Ilha de Maré, ou de alegria,

que é termo da Bahia,

tem quase tudo quanto o Brasil todo,

que de todo o Brasil é breve apodo;

e se algum-tempo Citeréia a achara,

por esta sua Chipre desprezara,

porém tem com Maria verdadeira

outra Vênus melhor por padroeira.





Fonte:UFSC -Edição de Referência:in Poesia Barroca, org. por Péricles Eugênio da Silva Ramos.

Edições Melhoramentos, São Paulo, 1967

Imagem retirada da Internet: Ilha da Maré