quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Raul Bopp por Antônio Houaiss - Parte Final


Cobra Norato






Hoje, apresento a última parte deste ensaio de Antônio Houaiss. O texto foi transcrito ipsis litteris, conservando a sua linguagem original. Acho importantíssimo reunir aqui neste espaço - Banzeiro - três grandes nomes das nossas Letras: Raul Bopp, Othon Moacyr Garcia e Antônio Houaiss. Boa Leitura!




(...)


Nas terras do Sem-fim, palmilhando-as todas, eu=Raul Bopp=leitor, metido na pele da Cobra Norato, faço-me o Cobra Norato e vou casar-me com a filha da rainha Luzia. Está-se em plena mitologia, vencendo todos obstáculos, inclusive os do espaço e do tempo. Toda racionalidade da ensaística era abandonada, em favor das regras de um jogo de imprevistos, previsíveis somente pela limitação ecológica, inclusive para os convidados do epitalâmio, o caxiri-grande, que na primeira versão já iria ter como convidada a paulista Tarsila, mas de certa ediç~so em diante iria também ter a do fraterno Augusto Meyer, pois o herói queria na sua festa nupcial "povo de Belém de Porto Alegre de São Paulo" em subidas e descidas que abarcassem o Brasil inteiro - festa nupcial que era, a seu modo, a descoberta da Amazônia, aberta tantas e tantas vezes à integração nacional, que essa de Bopp, passados quarenta anos, tem o direito de supor ser uma das mais pervividas dentre todas.

Assim Cobra Norato não apenas ficou como canto, senão que também como mito, como ato inaugural e como rito de iniciação - uma das fases da iniciação - da literatura brasileira.

A quem logrou esse feito, poder-se-ia pedir mais? Suspeito que sim, mas de coração pesado. A mim, basta-me esse poema para ter Raul Bopp no meu coração.

É por isso que, em lugar de deter-me alongadamente nos milagres dos versos de Cobra Norato, prefiro, em síntese, louvar-me do meu querido Othon Moacyr Garcia, a quem se deve o mais cabal estudo a respeito, intitulado - Cobra Norato, o poema e o mito -, publicado em 1962 pela Livraria São José, desta cidade do Rio de Janeiro.

Se alguma diferença se pode ter para com o ensaio de Othon Moacyr Garcia, creio que tal diferença, de pormenor, se esbate ante sua síntese aferidora - e com ela me identifico a tal ponto, que o só jeito de lhe ser fiel é transcrevê-la, ipsis litteris, aqui, para regozijo do leitor:


Em resumo: o mito de Cobra Norato, mito etiológico sincrético de origem amazônica, na sua feição de símbolo de fecundação, de símbolo de poder criador ou gerador, de símbolo de nascimento ou de maternidade, idéias que lhe são implícitas ou que dele decorrem pelos seus acidentes - digamos ecológicos, como águas e árvores e toda paisagem de um modo geral - oferecia ao poeta um conjunto de idéias-temas ricas pelo conteúdo poético, férteis em sugestões e adequadíssimas à veiculação das idéias-teses do movimento modernista. Essa coincidência de idéias-temas e idéias-teses, o Autor soube aproveitá-la, servindo-se, mas não abusando, dos artifícios que a língua lhe proporcionava e evidenciando um virtuosismo metafórico que é uma das suas maiores riquezas, tão expressivo e afeiçoado à natureza do tema, que a unidade do poema ressalta através de todas as suas peripécias. E essa é a grande virtude de Cobra Norato: a sua unidade inteiriça; nele fundem-se, numa só peça, como mensagem poética de grande ressonância, o simbolismo do tema, a paisagem, que é uma alegoria da terra, da geografia sem-fim, e a linguagem, plasmada em moldes de tal afetividade e universalidade, que funciona como um espelho - desses que reproduzem a imagem em miniatura - onde se refletem as particularidade regionais de toda a língua.

Sendo o único e verdadeiro poema épico da literatura brasileira (porque popular pela essência do tema e pela feição da forma verbal), já que as tentativas anteriores - desde de o Caramuru e O Uraguai até o I Juca Pirama e O Caçador de Esmeraldas e quantos se arrolem como tais - falta-lhes a feição da unidade temática e lingüística de vículo popular e legítimo sabor de brasilidade, - é Cobra Norato um dos melhores legados do Movimento Modernista, um dos grandes poemas destes sessenta anos de literatura brasileira do século XX. Seu valor é permanente.

E mais não direi. A não ser - amém.

ANTÔNIO HOUAISS
Rio de Janeiro, 5 de novembro de 1972.






In.Cobra Norato e outros poemas.Rio de Janeiro: Civilização Brasileira:1984



terça-feira, 29 de setembro de 2009

Raul Bopp por Antônio Houaiss


Como eu havia prometido, hoje prosseguiremos falando da poesia de Raul Bopp. Para homenageá-lo, segue uma nota introdutória ao poema épico Cobra Norato, de Raul Bopp, escrito por Antônio Houaiss, em 1972, que destaca a maestria de Bopp e a beleza poética desse poema cosmogônico, que, segundo ele, é o verdadeiro poema épico brasileiro. Boa Leitura!




Por Antônio Houaiss


O poema de Cobra Norato - nas suas versões textuais públicas, de 1931, 1947, 1951, 1954, 1956, 1967, 1969 (incluído no livro Putirum) e 1973 (esta) - inicia-se pelos versos


Um dia
eu hei de morar nas terras do Sem-fim

e termina, na versão de 1931, por

- Então adeus Cumpadre
Fico lê esperando
na boca da terra das febres do Sem-fim
enquanto na versão de 1969 (ou antes, não cotejei) termina por:

- Pois então até breve, compadre
fico lê esperando
atrás das serras do Sem-fim

Num caso como no outro está-se no mesmo caso - a geografia de Cobra Norato é das terras do Sem-fim: está-se em face de um espaço ignoto, que inicia ou termina em um sem-fim e termina ou inicia noutro sem-fim, tendo de permeio o sem-fim. Por isso, Cobra Norato e o Compadre, conversando entre si, conversando com entes ou seres ou coisas antropomorfizados, de sua passagem, são dois permanentes viandantes do sem-fim (melhor seria - como topônimo mítico - Sem-Fim), desde que o poema se enceta até que termina, ficando Cobra Norato adentro dessas terras e o Compadre no limiar delas, "na boca de terra das febres do Sem-fim" ou "atrás de serras do "Sem fim" - o que dá no memso, pela imensidão das mesmas.

Mas o Sem-fim tem um nome - que se caracteriza por tudo o que dentro lhe acontece: seu nome é a Amazônia, por suas águas, suas florestas, suas terras caídas, sua fecundidade, sua efervescência de vida, sua pululação de morte.

Essa geografia - que desde meados do século XIX começou a ser matéria da ensaística brasileira e estrangeira, culminada com nomes retumbantes quais os de Euclides da Cunha e Alberto Rangel - só incidentemente vinha sendo objeto da "arte literária" em sentido restrito. Mais ainda, entrando na "literatura", fê-lo pela porta da ficção, tornando-se "poética" através do gaúcho Raul Bopp.

Gaúcho ou menos gaúcho, isso parece incidente irrelevante para o caso: relevante é o fato de que sua era uma alma andarilha, perquiridora das paragens do mundo, viajora e viageira. Sua era, também, essa maneira sintética de ver o mundo, configurando-o verbalmente com umas poucas pinceladas essenciais e dando-o aos nossos olhos ouvidentes. Sua era, ainda, a adesão de vê-lo e dizê-lo fora dos cânones que o grupo de 1922 quisera quebrar então e ainda vigora, paralelo, numa proliferação escritora que está longe de ter sido vencida ou proscrita da república das letras. Sua era, por fim, a compreensão ou intuição ou intelecção ou percepção do que o universo amazônico, de que ele se deixara penetrar, não podia por ele ser verbalizado senão através de uma forma de representação oral - a chamada linguagem poética. Mas cantar a terra, mesmo sendo a do Sem-fim? Sim, se penetrada dos seus mistérios.

Bopp viu-os nos seus mitos, lendas, abusões, crenças - na sua cosmogonia. Iria ele, assim, qual Hesíodo ou Ovídio redivivos, dar a chave de explicação desse universo? Didaticamente?

Transfiguradamente. A fecundidade, para a vida e para a morte, ele viu-a sempre na sua Amazônia. Viu-a por certo, também, como sexo, humano, masculino, feminino. Viu-a provavelmente na sua própria carne - e perpassou a andação pelo Sem-fim à busca de sua Penélope, fiadeira e bordadeira não, mas filha da rainha Luzia.

(...)
Amanhã continuaremos.


In. Cobra Norato e outros poemas. 13ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Raul Bopp - Poema


Depois de uma rápida passagem pelo erotismo de Hilda Hilst, vamos resgatar um dos nossos maiores poetas: Raul Bopp. Além do seu poema mais famoso: Cobra Norato, ele nos legou inúmeros outros poemas, como este: Princípio. Amanhã falaremos mais sobre Bopp. Boa Leitura!








Princípio




No princípio era sol sol sol
O Amazonas ainda não estava pronto
As águas atrasadas
derramavam-se em desordem pelo mato

O rio bebia a floresta

Depois veio a Cobra Grande Amassou a terra elástica
e pediu para chamar sono
As árvores enfastiadas de sol combinaram silêncio
A floresta imensa chocando um ovo

Cobra Grande teve uma filha. Ficou moça
Um dia
ela disse que queria conhecer homem
Mas não encontraram rasto de homem

Então
começaram a adivinhar horizontes
e mandaram buscar de muito longe um moço

Ai! que houve festa na floresta!

Mas a filha da Cobra Grande não queria dormir com o noivo

porque naquele tempo não havia noite
A noite estava escondida atrás da selva
dentro de um caroço de tucunã
Ah! então vamos buscar o tucumã
pra dar de presente de casamento

Veio o Sapo Jabuti veio também
O Cameleão estava esperando sono
A Onça não pôde vir porque tinha emprestado os sapatos

Andaram Andaram

As vozes iam na frente procurando caminho

Desembarcavam árvores Raízes furavam a lama
a floresta crescia

Chô que depois de muito andar chegaram

- Esta é que é a noite?
- Será mesmo a noite?
- Ah! não acredito

Então vamos espiar o que tem dentro

Quando abriram o caroço
houve um estouro imenso
que cobriu tudo de escuro

A floresta inchou
Árvores sairam correndo
Um pedaço da noite entrou na barriga do Sapo.

Então
a filha da Cobra Grande pôde fazer dormezinho com o noivo.



In. Cobra Norato e outros poemas. 13ª ed.Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984, p.93-94.
Imagem:O Ovo ou Urutu (pertence ao acervo de Gilberto Chateaubriand http://www.tarsiladoamaral.com.br/images/JPG/Ovo50.jpg

domingo, 27 de setembro de 2009

Hilda Hilst - Do Desejo













Do Desejo

E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?

Jubila-te da memória de coitos e de acertos.

Ou tenta-me de novo. Obriga-me.



(Do Desejo - 1992)

Imagem: http://files.nireblog.com/blogs3/carolsofia/files/hpim0036.JPG

sábado, 26 de setembro de 2009

Hilda Hilst - Poema











Árias Pequenas. Para Bandolim


Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores

Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.




Fonte: (Júbilo Memória Noviciado da Paixão(1974) - Árias Pequenas. Para Bandolim - XI)
(Poesia: 1959-1979 - São Paulo: Quíron; [Brasília]: INL, 1980.) http://www.jornaldepoesia.jor.br/hilda.html#arias

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Antero de Quental - Poesia


Nascido na Ilha de São Miguel, Açores, durante a sua vida, Antero de Quental dedicou-se à poesia, à filosofia e à política. Iniciou seus estudos na cidade natal, mudando para Coimbra aos 16 anos, ali estudando Direito e manifestando as primeiras ideias socialistas. Fundou em Coimbra a Sociedade do Raio, que pretendia renovar o país pela literatura. Suicidou-se, em Ponta Delgada, no dia 11 de Setembro de 1891, com dois tiros na boca, disparados num banco de jardim.










O Palácio da Ventura




Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formusura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão -- e nada mais!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Cesário Verde - O Sentimento Dum Ocidental


Cesário Verde





José Joaquim Cesário Verde nasceu em 25 de fevereiro de 1855 na cidade de Lisboa em Portugal. Filho de um lavrador e comerciante, dedicou-se desde muito jovem a essas atividades. No ano de 1873 matriculou-se no curso de Letras da Universidade de Coimbra, mas frequentou o curso somente por alguns meses. Nesse período, começou a publicar poesias no "Diário de Notícias", no "Diário da Tarde", no "Ocidente" e em alguns outros periódicos. Nessa época também surgem os sintomas mais agudos da tuberculose, doença que o levaria a morte em 18 de julho de 1886.






I


Ave-Maria


Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!



  Fonte: http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/v039.txt
Imagem: http://www.centrovirtualgoeldi.com/img_bd/000138_G.jpg
  

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Afonso Félix de Sousa - Passagem das nuvens


Natural de Jaraguá-Goiás. Formado em Economia com pós-graduação em Economia Internacional na École des Hautes Etudes da Sorbonne. Trabalhou no Banco do Brasil. Assistente de promoção comercial na Embaixada do Brasil em Beirute. Jornalista no Diário Carioca (Rio de Janeiro). Tradutor de numerosas obras em prosa e verso. Organizador de edições da obra de do Barão de Itararé. Saiba mais sobre o poeta aqui





Passagem das nuvens


Os montes, ei-los. O verde
onde dormíamos. Que paz!
Que impossível! Se os buscamos,
recuam os horizontes.
Detê-lo, o carro luminoso.
Inútil: o dia prossegue.
Nas mãos, na bola de cristal,
pelo avesso o que hoje
é sonho, e em tantas
direções (não a que peço
e quero ... outras)
se perde meu destino.
E penso, pálido prisioneiro,
penso. E quanto mais sobes,
pensamento, mais preso
estou à terra.
Suaves, as nuvens fogem.
Para onde? Para onde
irão, lúcidas estradas
em vôo, os pensamentos?
Baixassem, nuvens, errante
me levassem, a alma.
Quero fugir, buscar
- até que o encontre -
o que não creio,
mas quero.
Se há deuses, me chamem.
Estou cansado e mais suave
quero o sono. Tenho fome.
Dos frutos, os proibidos,
dai-me o sabor. Que sede!
Dai-me a beber o amor,
a plenitude, e antes do sono
o pensar na vida sem dizer:
merda! merda! Dai-me o vinho
com que não me esqueça, mas cole-me
asas. Pois estou cansado.
Suavemente, as horas
fogem. Quando não mais
vivê-las, as horas fugirão
ainda. E o que me espera?
Nada, o nada. Que apelos
de amor, de vida: o nada.
Incompleta é a vida, sei,
mas são tantas as águas
da eternidade, que jorram!
Dai-me a beber, ó Deus,
ó deuses. E se há deuses,
não me abandonem.


terça-feira, 22 de setembro de 2009

Valdivino Braz - Poema





Valdivino Braz





Um dos grandes nomes da poesia brasileira, Valdivino Braz nasceu em Buriti Alegre (GO), em 23 de novembro de 1942. Formado em Jornalismo pela UFG (1984), é membro da União Brasileira de Escritores de Goiás. Possui várias premiações literárias, valendo destacar o Prêmio Nacional Cidade de Belo Horizonte, 1992, com A trompa de Falópio; Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, 2002, com Poema da terra perdida. E, em 1997, recebeu da União Brasileira de Escritores/Goiás o troféu Tiokô de Poesia. Valdivino Braz, por muitos anos trabalhou na imprensa oficial do Estado de Goiás (aposentou-se recentemente), atualmente, além de editar alguns jornais, é colunista da Revista Bula. Boa Leitura!








O LABIRINTO EM FLOR





Pensar, pensar, até florir,

incendiar-se o labirinto em flor.

Arranjos florais de uma desordem

— girassóis-girândolas em chamas —,

O caos dentro de sua própria ordem.

Penso a palavra

e se deságuo emoção,

aí procura a razão.

No caos entre uma e outra,

me sustento.

O caos cria, desfaz, diferencia.

Não me construo com a forma,

antes me desmorono,

mais familiarizado com o fundo,

minha fôrma.

Pêndulo no fio de equilíbrio

— gangorra absurda

e um visgo de nada —,

crio vertigens,

vejo o fundo de sangue do que sou.

Imenso, o abismo de um verso.

Me solto do fio,

no fundo me arrebento,

e me incendeio.

Sílex, antes que Fênix.


Imagem: Noite Estrelada, de Van Gogh - http://bitaites.org/tag/van-gogh

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade - Mãos Dadas


Carlos Drummond de Andrade







Mãos Dadas



Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

In.Sentimento do mund.2ª ed..Rio de Janeiro: Record, 2002, p.59.Imagem: http://nrse.blog.terra.com.br/files/2009/08/amizade.jpg





domingo, 20 de setembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade - Poema



Carlos Drummond de Andrade







Congresso Internacional do Medo





Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que estereliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.


In.Sentimento do mundo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2002, p.35.
Imagem: Flor Amarela. by ovendedordefloreshttp://s498.photobucket.com/albums/rr343/ovendedordeflores/

sábado, 19 de setembro de 2009

Luiz de Miranda - Profissão de fé






Luiz de Miranda














Profissão de fé


Não morrem os poetas
que a poesia eterniza
e na sua luz
fundamos a esperança
áspera rosa áspera espera
linha de água de um rio
correndo a infância
com sua voz de seda

Não morrem
os que nesta mesa escrevem
que tudo é material de poesia
no vôo livre das palavras
lúcida luz da alma
lúcida versão da vida
à sombra do próprio corpo
na fresca do verão
às frestas que levam ao coração

Aqui nos quedamos solos
la vida es una mujer hermosa
que nos manda beijos
no avental da noite
manda flores
na madrugada de chuva e frio
espremendo ao céu sem vento
as pandorgas do desejo
construídas nos quartos silenciosos do corpo

Brilha, vida, envidraçada
nos copos deste bar
levantando a fumaça
sob o metal do esquecimento
sob a melancolia
e o denso vermelho de seu mar interior

Só sairemos deste bar
no azul da manhã
na pétala da aurora
onde renascemos
e fundamos a esperança
esse navio de sons
a navegar pelo mundo


Só sairemos deste bar
quando o amor acabe
não o amor que vive em nós
flor incendiada
mas este respirar na noite
o silêncio das pedras
a esfarelar os sentimentos

Envidraçada pela cerveja
no Chalé da Praça Quinze
o amor é uma nuvem sem ar
é como o sono gris dos tristes
e a dor por mais anônima
espelha os retratos animais no mar

Domar o mar sob as intempéries
sob o caos, o grito dos mutilados
os parentescos de luz da angústia
subjugando-nos ao dano dos extraviados

o tempo avança com o fogo de seus ossos
e entristecemos mais na casimira da tarde
somos o gosto salobro da água de um poço

mas reinventamos nosso próprio alimento
fantasmas sobreviventes desesperados
escrevemos a linha de luz no vento

e o facho de uma flor
acende
a chuva das horas
que uma pétala sempre
acende
até nos subúrbios de sua cor
menina
e sublima sublima
o louco clamor do corpo
que escreve por nós
sob o calor da vida

quero reaver as estrelas
que me cabem no céu
quero reaver o horizonte
sem horizonte da campanha
quero o cinza da agonia
os detritos da tristeza
para refazê-los em um novo verso
triste e agônico
pela vida afora
e passo a passo compor
o tráfego dos dias
o ácido luminoso das semanas
a pulseira de sóis dos anos
e escrever
e escrever
e escrever
todos os minutos da vida
os barulhos azuis da alma

Ah, não morrerão jamais
as palavras escritas
elas dão a infinita sensação
de que a vida existe
e transforma até o último
vocábulo
no poema
animal solitário
que a sua voz apaixona
e aprisiona a tudo
até o finzinho da madrugada
onde vem luzindo a claridade da morte.




In.Poesia Reunida.Luiz de Miranda. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1992, p.145-148.
Imagem: Oedipus Rex, 1922- Max Ernst - Pintor Alemão/Francês (Dada/Surrealismo) 1891-1976



sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Luiz de Miranda - Longe de Deus



Luiz de Miranda












Longe de Deus



Nada chega perto de Deus.
Ninguém toca
em sua mão de luz.
Não há o estilo sublime,
apenas o verso inacabado.




In.Poesia Reunida.Luiz de Miranda. Porto Alegre:Instituto Estadual do Livro, 1992,p.104.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Luiz de Miranda - Eu te devolvo













Luiz de Miranda







Eu te devolvo






Eu te devolvo o vento
que aquele dia,
diante do mar,
nos ensinou
as pequenas vagas das marés.
Mas não o livro
onde escreveste em teu coração
os navios perdidos.



In.Poesia Reunida. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1992, P.98.