segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Joaquim Cardozo - Poema



JOAQUIM CARDOZO




Chuva de caju



Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Teresa? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros
e em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Teresa ou Maria.


Imagem retirada da Internet: Caju.

domingo, 29 de novembro de 2009

Joaquim Cardozo - Poema






JOAQUIM CARDOZO





Joaquim Cardozo. Poeta, dramaturgo, engenheiro calculista. Nasceu no Recife em 26 de agosto de 1897 Grande estudioso e conhecedor da matemática, em cujo domínio penetrou com grande sensibilidade poética, inovou os métodos tradicionais do cálculo estrutural. Viabilizou, assim, a execução de obras complexas da arquitetura moderna, como as de Oscar Niemeyer. Calculou, para o arquiteto, as obras do Conjunto Pampulha, em Minas e, em Brasília, o Palácio da Alvorada, a Catedral, a cúpula do Congresso Nacional e o Itamarati, entre outras. Publicou os seguintes livros: Poemas (1947); Pequena antologia pernambucana (1948); Signo Estrelado (1960); Coronel de Macambira (1963); De uma noite de festa (1971); Poesias Completas (1971); Os anjos e os demônios de Deus (1973 );O capataz de Salema, Antonio Conselheiro, Marechal, boi de carro (1975); O interior da matéria (1976); Um livro aceso e nove canções sombrias (1981, póstumo). Faleceu em Olinda em 4 de novembro de 1978.



Menina


Os teus olhos de água,
Olhos frios e longos,
Esta noite penetraram.
Esta noite me envolveram.

Bem querida madrugada...

Olhos de sombra, olhos de tarde
Trazem miragens de meninas...
Bundas que parecem rosas.

Sob o caminho de muitas luas
O teu corpo floresceu.



Imagem retirada da Internete - Olho.

sábado, 28 de novembro de 2009

Luiz de Aquino - Poema



Luiz de Aquino




Luiz de Aquino Alves Neto nasceu em Goiás, em 1945. Estudou no Rio de Janeiro e em Goiânia, onde reside. Graduado em Geografia pela Universidade Católica de Goiás. Poeta, contista, cronista, é autor de muitos livros. Membro da União Brasileira de Escritores, da Academia Goiana de Letras e do Sindicato de Escritores do Rio de Janeiro.



VIDA




A força da corda

não força a sorte

nem corta o cachaço.


Na força da corda

o corte da forca

não solta o sanhaço.


Na lida e no eito

a liça e o feito

enfeitam o que faço.


No peito, o cio,

a vida no fio

que escorre frio

e morre no leito.




In. Antônio Miranda

Foto by Sinésio Dioliveira - Poeta - Todos os Direitos reservados.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Brasigóis Felício - Poema





BRASIGÓIS FELÍCIO




Brasigóis Felício nasceu em Aloândia (Go) em 1950. Tem 20 livros publicados, entre obras de poesia, conto, romance, crônica e crítica literária. Em sua bibliografia destacam-se Hotel do tempo, poesia, (Editora Civilização Brasileira, l982); Monólogos da Angústia, contos, (Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos), Diários de André, romance censurado e apreendido em 1976, por ordem do ex-ministro da Justiça, Armando Falcão; Viver é devagar, crônicas, l998, Literatura Contemporãnea em Goiás, crítica literária, O tempo dos homens sem rosto, poesia, Editora Estação Liberdade, e Memória da solidão, contos, Coleção Karajá, da Agência Goiana de Cultura. Trabalhou, como repórter e redator, nos jornais Cinco de Março, O Estado de Goiás, Revista Leia Agora, Revista Centro Oeste, O Top News. Em O Popular, onde atuou como repórter e redator do Caderno 2, durante 12 anos seguidos, iniciou sua carreira de cronista. Neste jornal assina, há oito anos, uma crônica semanal, na seção Crônicas & Outras Histórias. É detentor de dezenas de premiações, em nível regional e nacional, e integra antologias de contos e poemas publicadas no Brasil e no exterior. É membro da Academia Goiana de Letras, UBE-GO e Instituto Histórico e Geográfico do Estado de Goiás. Sobre sua obra em prosa e poesia já se pronunciaram renomados críticos e estudiosos de literatura. Na condição de jornalista e crítico de arte tem acompanhado, com reportagens e textos críticos, a movimentação das artes plásticas em Goiás, desde a década de 80. Escreveu textos críticos e apresentações para catálogos de exposições de artistas como Siron Franco, Antonio Poteiro, Maria Guilhermina, Iza Costa, D.J. Oliveira, Omar Souto, Sanatan, Enéas Silva, Né Luiz, Sival, e muitos outros.




ALMA ATLÂNTICA


Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar.
(Paulinho da Viola)


O mar navega o Ser,
nas tempestades
da palavra incendiada.
O poeta navega a esmo
no mar de dardos
de seus atos insensatos.
Em que oceano aceso
navega o poeta errante
na singradura do instante?
Uma vida morta
não tece a manhã
no sol do Ser.
Se não sou o mar
em eterna luta
e contradição,
eu me estanco
no pântano da mornidão.
Eu só desejo
amar no mar
o insondável
a revelar-se
em ritual de ser
limite e vastidão.
Amar no mar
que em tudo existe
a parte grande
da minha alma Atlântica



Imagem retirada da Internet: Atlântico

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Francisco Perna Filho - Poema




Francisco Perna Filho




O poema, a seguir, é uma homenagem que faço aos meus grandes amigos/irmãos: Valdivino Braz e Sinésio Dioliveira. Este ano, como estou morando em Palmas, não passamos os nossos aniversários juntos, como sempre o fazemos. Portanto, esta é uma forma de comemorarmos, de matarmos um pouco a saudade. Na fotografia, estou ladeado pelos dois: à esquerda, Valdivino; à direita, Sinésio. A foto faz parte do Álbum de fotos do Orkut do amigo Sinésio, e foi tirada num momento muito agradável, no Bar do Chaguinha, em Goiânia.


DE HOMENS E BARCOS


Os homens, naquele bar,

falaram de rios e mulheres

e riram dos seus feitos,

de suas histórias e amores,

sonharam lonjuras e amavios

e navegaram em olhos e dentes tão perfeitos

que chegaram a entender o vazio dos homens e das garrafas.

Sorveram o momento

e se alimentaram de boas palavras.

Não sabiam muito a respeito do amor,

por isso - sobreviveram.



quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Odir Rocha - Poema


Manoel Odir Rocha nasceu em Araguari - MG. É médico pela Faculdade de Ciências Médicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (Curitiba), onde também cursou (sem se graduar) Sociologia e Administração Pública. Veio para o Tocantins em 1971 (quando ainda era Goiás), mais especificamente para Colinas do Tocantins, onde montou um pequeno hospital. Em Colinas, exerceu a profissão de médico até a criação do novo Estado, quando foi eleito prefeito da cidade, só que agora Colinas do Tocantins. Concluído o mandato mudou-se para Palmas, sendo secretário municipal de Ação Social e Habitação do primeiro prefeito eleito. Foi ainda suplente de Deputado Federal, Secretário Estadual de Administração, Secretário Extraordinário para Assuntos Metropolitanos. Em 1996 foi eleito prefeito de Palmas. Poeta, contista e pesquisador em História, é membro da Academia Palmense de Letras, da Academia Tocantinense de Letras, da União Brasileira de Escritores e da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames). Odir Rocha é autor de várias obras literárias, valendo destacar o livro Terracanto, do qual o poema a seguir foi transcrito.



SOLITÁRIA CUNHÃ



Solitárias bacabas no cerrado,
buritis à beira do brejo,
gameleiras frondosas.
Ipês floridos adornando a aldeia,
aglomerados em moldura graciosa.

Fumaça grafite em espiral
brotando da cumeeira da oca
num aspecto sereno
e na ausência de vento.

Sol a pino, faiscante,
com um facho muito claro
alumiando o cume das árvores,
produzindo bizarras sombras.

Folhas novas de bananeira brava
esparramadas no chão
abrigando o corpo nu,
desejoso e gracioso
da solitária cunhã.


In. Terracanto. Odir Rocha. Palmas: Kelps, 2007, p.17

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Eugênio de Castro - Poema






Eugênio de Castro









SOMBRA E CLARÃO


De mãos dadas, lá vão avó e neta,
- A Saudade e a Esperança de mãos dadas! -
A neta é loira, a avó tem cãs prateadas,
Uma leva a boneca, outra a muleta.

Uma arrasta-se e a outra salta inquieta;
Aos suspiros vai uma, outra às risadas;
A avó desfia contas desgastadas,
E a neta colhe iriada borboleta.

Uma vai confiada, outra bisonha;
Uma lembra-se, triste, e outra sonha;
Leves asas tem uma, outra coxeia...

E eu, que as vejo passar, com mágoa infinda
Penso que a avó talvez já fosse linda,
E que a neta, que é linda, há de ser feia!




In.Descendo a Encosta. Obras Poéticas. Lumen, Vol. X
Imagem retirada da Internet - Lágrima.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Gabriel Nascente - Poema




Gabriel Nascente



Gabriel Nascente é o nome literário de Gabriel José Nascente. É de Goiânia (GO), onde nasceu a 23 de janeiro de 1950. Jornalista. Morou em São Paulo, apadrinhado pelo poeta Menotti Del Picchia. Autor de quase três dezenas de livros publicados, em sua maioria, poesia. Ex-presidente do Conselho Municipal de Cultura. Em setembro de 1978, a Academia Paraibana de Poesia lhe outorgou o título de “O Embaixador da Poesia Brasileira”. Conquistou, em 1996, um dos prêmios mais cobiçados de todo país, o "Cruz e Sousa de Literatura", de Santa Catarina, com o livro inédito de poemas A lira da lida. E obteve também outras premiações de âmbito nacional. Seu nome figura hoje em diversas antologias da poesia brasileira, inclusive em edição bilíngue. (Fonte: Jornal de Poesia)





75



Calem a boca,
máquinas do mundo!

Os gatos da cidade
são metais em desespero.


87


Os relógios estão comendo
a minha face.



93


Eu vi a alma da poesia
num sorriso da lama.




100


Senhor,
por que não me partes
Em fatias de pão?

Senhor,
por que não me perenizas
no caule dos trigais?


101

Já estão mortas as borboletas.
E ninguém sabe onde anda a eternidade.

O céu era o quintal
dos querubins.



In. O Pão Selvagem. Gabriel Nascente.Goiânia: Agência Goiana do Livro, 2001.

domingo, 22 de novembro de 2009

Augusto dos Anjos - Poema


Augusto dos Anjos



Augusto dos Anjos nasceu no Engenho Pau d'Arco, no município de Sapé, estado da Paraíba. Foi educado nas primeiras letras pelo pai e estudou no Liceu Paraibano, onde viria a ser professor em 1908. Precoce poeta brasileiro, compôs os primeiros versos aos sete anos de idade. Em 1903, ingressou no curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife, bacharelando-se em 1907. Em 1910 casa-se com Ester Fialho. Seu contato com a leitura, influenciaria muito na construção de sua dialética poética e visão de mundo. Com a obra de Herbert Spencer, teria aprendido a incapacidade de se conhecer a essência das coisas e compreendido a evolução da natureza e da humanidade. De Ernst Haeckel, teria absorvido o conceito da monera como princípio da vida, e de que a morte e a vida são um puro fato químico. Arthur Schopenhauer o teria inspirado a perceber que o aniquilamento da vontade própria seria a única saída para o ser humano. E da Bíblia Sagrada ao qual, também, não contestava sua essência espiritualística, usando-a para contrapor, de forma poeticamente agressiva, os pensamentos remanescentes, em principal os ideais iluministas/materialistas que, endeusando-se, se emergiam na sua época. Essa filosofia, fora do contexto europeu em que nascera, para Augusto dos Anjos seria a demonstração da realidade que via ao seu redor, com a crise de um modo de produção pré-materialista, proprietários falindo e ex-escravos na miséria. O mundo seria representado por ele, então, como repleto dessa tragédia, cada ser vivenciando-a no nascimento e na morte. Dedicou-se ao magistério, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde foi professor em vários estabelecimentos de ensino. Faleceu em 12 de novembro de 1914, às 4 horas da madrugada, aos 30 anos, em Leopoldina, Minas Gerais, onde era diretor de um grupo escolar. A causa de sua morte foi a pneumonia. Durante sua vida, publicou vários poemas em periódicos, o primeiro, Saudade, em 1900. Em 1912, publicou seu livro único de poemas, Eu. Após sua morte, seu amigo Órris Soares organizaria uma edição chamada Eu e Outras Poesias, incluindo poemas até então não publicados pelo autor. (Fonte: Wikipédia)




VERSOS DE AMOR



Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a...ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
a toda a boca que não prova engana.

Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!

Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.

Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, o observas.

Porque o amor, tal como eu o estou amando,
É Espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!

É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima e impalpável,
Que anda acima da carne misrável
Como anda a garça acima dos açudes!

Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Mársias - o inventor da flauta -
Vou inventar também outro instrumento!

Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo
Ambicioso, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as línguas decliná-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!

Para que, enfim, chegando à última calma
Meu podre coração roto não role,
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro d'alma!




In. Eu e outras poesias. Augusto dos Anjos. Goiânia: Novo Tempo, 1999, p.73-74.
Imagem retirada da Internet: Michelangelo Caravaggio.

sábado, 21 de novembro de 2009

Francisco Perna Filho - Poema









Destino de pedra


De quem são os meninos
que dormem ao relento,
que sonham grandiosidades,
e sucumbem nos esgotos da cidade grande
consumidos na fumaça da própria miséria
de uma existência precária?
De onde vêm esses meninos
que cumprem um destino de pedra,
pedras de crack que sempre carregam.
Sísifos da modernidade,
armados de inconsciência,
dormitando pelos esgotos
e sucumbindo na ilusão do transitório?
De que são feitos os seus dias,
os seus olhos medonhos,
as suas almas esvaídas
na maldade inocente da química
mortífera de uma breve existência?
Para onde caminham essas criaturas
silenciadas em mentiras,
em promessas e bofetadas,
em fome de existência,
em liberdade forjada?
São filhos da rua,
da lástima do mundo,
da indiferença dos homens.
Vêm dos restos do mundo,
da miséria urbana,
das crateras da incompreensão.
São feitos do lodo da existência,
das sobras de ideologias,
do sexo barato das ruas.
Caminham em círculo,
emperdenidos apóstolos,
com suas gotas,
com suas pedras,
com seus delírios,
sem destino.


Foto by Vitor Silva - foto retirada da Internet

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Antônio Rezende - Poema


Antonio Rezende




Antonio Rezende nasceu em Araguaína, Tocantins, em 10 de abril de 1964. Edita o tablóide "devezenquandário" Opinião Popular e o blog Lorota Boa. É fotógrafo amador. Está documentando em textos e imagens peculiaridades do povo e dos lugares do Brasil para publicação em livro. Faz e declama versos por pura necessidade e teimosia.




PÁRIA



com força e gana faço
o poema que fede
ou cheira
- isso depende do nariz
é claro!

pária
simplesmente
tiro pela culatra do sistema

é por hábito
não nego:
nesta podridão me cego

fecho o poema
com alma entre dentes

coração sangrando
vinho e sangue



In. Acerto de contas. Antonio Rezende. Palmas: Kelps,2007, p.33.
Imagem retirada da Internet - Vinho.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Maria Hilda de Jesus Alão - Poema







Maria Hilda de Jesus Alão



Maria Hilda de Jesus Alão nasceu em Itabaiana (SE). Estudou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Santos, formando-se em Letras. Ministrou aulas de Língua Portuguesa para alunos dos Ensinos Fundamental e Médio. Estudou francês na Aliança Francesa de Santos e espanhol no CNA. Participou de muitos concursos de Poesias e Antologias, tendo conquistado vários prêmios.



REMEXENDO OS GUARDADOS


Entre as páginas amareladas
Dum velho romance de amor
Guardei a carta perfumada
Vinda de além-mar.

Não tive coragem de abri-la
Por medo de encontrar
O monstro de cinco braços,
Assombração dos amantes,

A dançar na folha branca,
E com mefistofélica gargalhada
Tirar a máscara e expor a verdade.
“Não tem volta: eu sou o ADEUS”.



13/10/07.


Foto by Sinésio Dioliveira - Rosa - todos os Direitos reservados.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

José Gomes Sobrinho - Poema


JOSÉ GOMES SOBRINHO
(1935-2004)





Remexendo os guardados, deparei-me com este poema do amigo/poeta José Gomes Sobrinho, dedicado a mim, escrito num pedaço de envelope (amarelo), no primeiro dia de 1998, em Miracema do Tocantins, minha terra natal. José Gomes (Seo Gomes, como eu o chamava) nasceu em 1935, em Garanhuns (PE), filho de Luis Melchides Gomes, chegou ao Tocantins em 1989. Presidente do Conselho Estadual de Cultura, José Gomes Sobrinho era acadêmico da ATL- Academia Tocantinense de Letras, ocupante da cadeira nº 28, e da Academia Palmense de Letras, cadeira nº 09. Autor de 13 livros publicados, presidia também o Fórum Nacional de Conselheiros Estaduais de Cultura.





Reconhecimento segundo Chico Perna*



Descomeço noites
de um tempo que não há

Talvez porque já não estejam
a portos todos os guardas
de há muito esperados

Se descomeço ou não
importa-me pouco
a existência dos pássaros.



Miracema do Tocantins, 01/01/ 1998.




*O Chico do manuscrito fora grafado com "X", como eu assinava antigamente.
Foto by Victoria Shelton - Crow - Todos os Direitos reservados.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Francisco Perna Filho - Poema








Francisco Perna Filho





Errabundo


Eis meu corpo,
não vos ofereço.
Santificado não fora,
tornara-se errabundo e fértil.
Feito de todos os metais,

fora navegante sempre,
conquistador.
Buscou n’alma o outro;
na alegria, a estrada;

na gruta, o vício.
A vós, nada pode ofertar.
Livre de toda vestimenta,
sempre foi sombra
e com as sobras do mundo
fez sua última ceia.
De vós nada quer.
Em mim, somente em mim,
celebra o ócio.
Desconhece qualquer outra sorte
que não o vício.
Com ele celebro o mundo e sou.
De vós nada quero.


In.Refeição.Francisco Perna Filho. Goiânia:Kelps, 2001.
Imagem retirada da Internet: Lobo.