quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Entrevista com José J. Veiga


“ESSES LIVROS FORAM FEITOS PARA DESASSOSSEGAR” 

 

No ano em que se comemora o Centenário de José J. Veiga, a Revista Banzeiro resgata uma importante entrevista com o Autor goiano, de Corumbá de Goiás, concedida ao Professor Doutor Agostinho Potenciano de Souza,* a quem agradecemos a cessão deste documento para publicação. Esta Entrevista foi concluída  em 9 de fevereiro de 1987 e faz parte da Dissertação de Mestrado de Agostinho, posteriormente transformada no livro “Um Olhar Crítico Sobre o Nosso Tempo: Uma Leitura da Obra de José J. Veiga”, publicado pela Editora Unicamp (1990). Sobre esta Entrevista, o Professor Agostinho nos disse que as perguntas foram datilografadas e enviadas a José J. Veiga, que as respondeu, também datilografadas, via Correios.


"A atividade que o ser humano menos gosta de exercer é pensar. Logo que ele se assenhoreia de uma pontinha mínima de qualquer conhecimento, já se dá por satisfeito."



Agostinho Potenciano - José J. Veiga, você diz não ser muito versado em teoria literária. Suas obras nascem de uma intuição. Creio que não é de uma intuição pura, pois você é um homem que lê muito. Certamente as leituras lhe deram algumas técnicas de criação.

J.J.Veiga – A intuição de uma pessoa hoje não é a mesma de ontem. É a de ontem, mais a experiência e a informação que ela absorveu de um dia para o outro. O que quero dizer é que fico atento para não deixar que a teoria tome a direção quando estou escrevendo. Se deixasse, eu estaria fazendo ensaios, não ficção. Lembro também que a teoria que vigora hoje amanhã pode estar superada.

A.P. - Do que tenho lido de suas entrevistas, o autor que confessadamente exerceu alguma influência na sua concepção de história foi Kafka, tanto nos temas quanto na forma de enredar personagens. Os outros autores, de língua inglesa (mesmo Salinger) e os hispano-americanos, não o influenciaram – as aproximações entre suas obras e as deles são meras coincidências.

J.J.Veiga – Confirmo certa influência de Kafka, cuja descoberta acarretou um abalo em minhas concepções. Tive de rearrumar tudo para abrir espaço para ele, e um espaço amplo. Os outros podem ter influenciado. Afinal, tudo influencia, até o Código Civil, segundo dizem: até uma conversa de armazém sertanejo. Quanto aos hispano-americanos, não acho que seriam má influência. Apenas não os conheci a tempo de ser por eles influenciado – pelo menos não nos meus primeiros livros.



A.P. - Os elogios da crítica a Os cavalinhos de Platiplanto o deixaram inibido para fazer o segundo livro. Como você reagiu e reage às críticas que vieram dos EE.UU. em 1970, à crítica circunstancial de jornais, de seminários em colégios e faculdades?  Você tem conhecimento de alguma crítica sobre sua obra nos países em que foi traduzido?


J.J.Veiga – A princípio eu achava empolgante ler críticas de meus livros traduzidos, não acreditava que aqueles elogios todos – inclusive de importantes publicações estrangeiras – se referissem a trabalhos meus, suspeitava que estivesse havendo algum engano. Depois me acostumei. Entendi que publicar livro é correr riscos, inclusive o de receber elogios.

A.P. – Um dos aspectos que mais prendem a seus contos é o lirismo da infância de quintal, de beira de rios. Há muito do menino Veiga na Ilha, nos Cavalinhos, em Tubi, nos Didangos? Há alguma marca da morte de sua mãe em “Viagem de dez léguas” e em “Roupa no Coradouro”? Depois dos 40 lhe veio uma nostalgia da infância?

J.J.Veiga – Embora eu não estivesse fazendo autobiografia quando escrevia Os Cavalinhos – não faço nunca, pelo menos me vigio para não fazer – muito de minha experiência de infância entrou naqueles contos. Acho que foi o início de um processo de me despedir da infância, processo que ainda não terminou. Porque não há um momento exato, marcado na folhinha ou no relógio, em que a pessoa deixa de ser criança. A verdade é que ninguém é totalmente adulto. “Viagem” e “Roupa” são episódios (“Roupa”) e testemunhado (“Viagem”) por mim. Tive companheiros de brincadeiras que foram “dados” pelo pai ou pela mãe viúvos a outras pessoas. Isso aconteceu também com um de meus irmãos.

A.P. – O amor aparece em suas obras sempre como um “Caderno Proibido”. Entendo bem o contexto dos amores de Pedrinho e Nazaré, Lu e a Tia, Mário e Vicência, Móqui e Genísio. O erotismo de frestas nessas passagens parecem indicar que você teria talento para escrever uma história de amor.

J.J.Veiga – Devagar. Não é sempre. Naqueles contextos  tinha que ser uma coisa furtiva, porque no tempo histórico o capítulo sexo era muito reprimido. Uma das grandes surras que apanhei nos meus oito anos, nove anos, decorreu de curiosidade sexual. Se aquelas histórias fossem escritas hoje, não haveria furtividade. Se a furtividade entrasse hoje, soaria falsa. Não entendo então, idem.

A.P. – Você tem reagido a classificação de escritor fantástico, dizendo que você fala da realidade. Creio que no leitor lúcido a sua obra produz um efeito de realidade, e muito conseguem ver camadas mais latentes da vida cotidiana. Ora, aceitando o fantástico moderno – o iniciado por Kafka – como um modo de narrar histórias que são uma leitura do homem, sua obra é fortemente fantástica. Os bois, os cachorros, os urubus; o vôo das pessoas; as hipérboles dos muros: o uiua; são formas de expressão em sua obra que desequilibram o que culturalmente nós achamos normal. Esse é o fantástico do século XX, enriquecido pelo seu modo de cria-lo, diferente das histórias góticas e de terror antigas, distinto das criações tecnológicas da Science-fiction atual.


J.J.Veiga – Você diz “desequilibra o que nós achamos normal”. Por que achamos normal? Porque fizemos concessões ao longo da vida, nos contentamos com menos em nosso trabalho de decifrar o mundo. A atividade que o ser humano menos gosta de exercer é pensar. Logo que ele se assenhoreia de uma pontinha mínima de qualquer conhecimento, já se dá por satisfeito. Há um personagem num livro de Monteiro Lobato (ou é ele mesmo quem fala, não me lembro) que diz numa passagem: “tranque um bando de brasileiros (eu não diria brasileiros, mas gente de qualquer nacionalidade) num quarto, com o mesmo número de machado, e diz a eles: ou vocês pensem durante dez minutos, ou vão todos derrubar aquela mata. Em menos de dez minutos você tem todos aqueles machados pipocando no mato”. O escritor tem obrigação de optar por pensar, tem que pesquisar mais, cavar mais fundo. Pesquisando mais, ele descobre o que a maioria das pessoas (as que optarem pela atividade física) classifica de “fantástico”.


A.P. – Você viveu na Capital Federal entre 1935 e 45, nesse período Getúlio implanta a ditadura do Estado Novo. Ao escrever Sombras, Os pecados da tribo e Vasabarros, vivíamos a ditadura dos generais. Sua obra é de ficção, mas a tendência de muitos leitores é a de fazer uma relação direta, não só quanto à atmosfera dos livros do “Ciclo Sombrio”, mas até de episódios e personagens de sua ficção a pessoas e fatos da história. No entanto, A hora dos ruminante estava pronto antes de 1964. Não seria uma restrição empobrecedora da leitura essa tradução de sua ficção em História?

J.J.Veiga – É claro que Sombras, Os Pecados, Vasabarros foram contaminados pelo clima político contemporâneo deles, e a coincidência entre o clima interno desses livros e o clima externo, facilitou a leitura política. Mas o meu projeto ao escrevê-los não era ficar na mera denúncia de um regime de opressão: se fosse, os livros ficariam datados quando o regime se exaurisse, como se exauriu (aliás, durou mais do que eu calculava). O meu projeto era mostrar situações mais profundas do que aquelas impostas por um governinho de uns generaisinhos cujos nomes a nação depressa esquecerá. (Pergunte a um jovem nascido em 64 para cá se ele sabe quem foi Castelo Branco, Costa e Silva, etc.).

A.P. - A população de Manarairema, de Taitara, da Tribo, é muito embrutecida, parada, aceita a opressão. O narrador é a figura crítica disso tudo, mas não assume uma atitude ativa, é mais um observador resistente que um revolucionário. O que o cidadão José Veiga tem a ver com esse narrador? Você acredita que a massa humana está condenada a ser sempre submissa?

J.J.Veiga – As populações de Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas etecetara têm sido submissas e aceitado todas as opressões desde que o Brasil existe (as revoltas que a história registra foram tentadas por pouquíssimas pessoas esclarecidas, por isso fracassaram). Qual será a atitude verdadeiramente revolucionária de um escritor: mostrar ficcionalmente uma população oprimida reagindo e acabando com a opressão (uma mentira), ou mostra-la sofrendo resignadamente? Esses livros foram escritos para desassossegar, e achei que se mostrasse os oprimidos derrubando as bastilhas, o leitor fecharia o livro aliviado, e não desassossegado. Um livro pouco pode fazer para corrigir injustiças: se conseguir causar desassossego, já conseguiu alguma coisa. Não acredito que a massa humana esteja condenada à submissão eterna. Ela será submissa só enquanto não decidir mudar a situação. As forças que submetem as massa não vão nunca “pôr a mão na consciência” um dia e soltá-las. Elas só “largarão o osso” se não puderem mais segurá-lo. E quem vai forcá-las a “largar o osso”? Os próprios escravos. É uma lição da História. Toda melhoria no plano político-social tem que ser tomada. Isso vale no plano interno e no plano externo. As nações que hoje estão pisando no pescoço de outras só vão tirar o pé quando os espezinhados se mexerem.

A.P. – A atmosfera de opressão, de angústia do existir humano encurralado é dominante em quase todos os seus livros. Em algum deles o narrador é a voz da vida que a coletividade padece. No entanto, suas histórias não caem no desepero e conseguem um certo equilíbrio, ora por um lirismo afável e sutil nos detalhes, ora por episódios sério-cômicos. O lirismo é mais forte nos contos e nos dois primeiros romance, A hora e Sombras; o humor irônico cresce em Os pecado e domina em Vasabarros. Vejo nessa evolução três aspectos: um modo de narrar que distende a tensão narrativa, ondulando momentos fortes e suaves: uma meneira brasileira de encarar os momentos difíceis com emoção ou brincando; uma forma de escapulir da loucura e da morte. (Eu queria que você falasse da intencionalidade sua ao se recorrer a esses procedimentos narrativos).

R.W.Emerson
J.J.Veiga – Aí acredito que seja consequência da minha maneira de encarar o mundo e a vida, e de reagir diante dos problemas. A maneira de cada um encarar o mundo e reagir diante dele não é resultado de nenhum ato volitivo. É uma questão de programação interna. Guardo há anos uma frase de um humanista respeitável, R.W. Emerson, que ficaria mais ou menos assim em português: “Seja qual for a linguagem que uma pessoa empregue, ela só poderá dizer aquilo que ela é”. Exasperante mas verdadeira. Ou por isso mesmo. De maneira que a intencionalidade conta muito. Cada um escreve o que pode, não o que quer.

A.P. – Em Torvelinho o conflito entre o bem e o mal permanece, porém é menor que nos livros anteriores. Em Tajá  esse conflito quase desaparece. O que levou você a essa mudança?

J.J.Veiga – como eu disse ao comentar o item 7, os livros escritos depois de 1964 sofreram contaminação do clima político da época. Já Torvelinho foi escrito numa época em que a opressão visível não existia mais. E Tajá  como que volta ao clima do tempo dos Cavalinhos. Se esses livros tivessem sido escritos nos anos 70, por exemplo, eles teriam outro tom. A menos que eu quisesse fraudar. Eu estava precisando escrever livros menos sombrios, e o tempo que fazia no momento permitiu que entrasse sol neles. É o que espero fazer daqui para diante, se puder.

A.P. – Na sua “região invisível” o que surge primeiro ao esboçar a história: os acontecimentos, os personagens, o lugar e o tempo ou o modo de narrar?

J.J.Veiga – Não sei bem, mas acho que é mais ou menos nessa ordem: 1) algum acontecimento (que deflagra outros); 2) os personagens para vivê-los; 3) o lugar para situá-los; 4) o tom, que geralmente só é encontrado depois de muita experimentação.

A. P. – O episódio do povo nascido do estrumo de cavalo, em Os pecados da tribo, me pareceu uma história popular anônima – mas não a conhecia antes. Eu gostaria que você dissesse se suas histórias são produzidas pela sua imaginação ou se algum fato que alguém lhe contou já serviu de ponto de partida para sua recriação.


J.J.Veiga – No caso do povo da Várzea, eu sou o único responsável por eles. Não conheço nenhuma história popular parecida, e se houver estou ignorante. É outro risco de quem publica livro.

A.P. - Muitas de suas histórias parecem privilegiar o leitor jovem, Torvelinho, os dois livros infanto-juvenis, vários contos de Os cavalinhos e de A máquina. Enquanto escreve você sente de alguma forma a presença do leitor da história?

J.J.Veiga – Comecei escrevendo do ponto de vista da criança, me dei bem, e hoje acho difícil mudar. Às vezes tento, mas quando me distraio estou novamente falando no nível do leitor jovem.  Habituei-me a pensar num leitor jovem quando escrevo. Acho que é isso. Os filhos e netos gostam do que escrevo, os pais e avôs não.

A.P. - De quais livros o leitor José Veiga gosta mais? (Nas entrevistas você já citou O Processo, Pedro Páramo, Cemanos de solidão, O Apanhador no campo de centeio).

Milan Kundera

J.J.Veiga – A lista seria imensa. Comecei a ler sistematicamente aos doze anos, e não parei mais. Li até Mme. Delhi, uma autora de livros para moças, escreveu mais de cem. (Aliás, tem um escritor tcheco que está vendendo muito livro no Brasil, um tal Kundera: é Mme. Delhi atualizada. O que é que tem o leitor brasileiro de hoje a ver com um tcheco que vive em Paris e não é conhecido em sua terra e é pouco conhecido na França? Mistérios da indústria editorial). Alguns autores daquele tempo  consegui reler mais tarde, outros não aguentei. No momento o escritor que está me satisfazendo como leitor é o português José Saramago. É o maior, digo, o mais importante escritor do momento no mundo. Não sei grego, nem búlgaro, nem japonês; mas se houvesse um grego, um búlgaro, um japonês fora de série hoje, o mundo saberia. Saramago é fora de série. (Obras de Saramago: Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra (este ainda não li).

A.P. - Pelos finais de seus livros, você não tem uma perspectiva pessimista para o homem. Você é um humanista cauteloso. Que profecia (ou utopia) você tem a respeito do nosso país?

J.J.Veiga – Está ficando difícil de ser otimista quanto ao futuro do Brasil. Somos uma nação que se especializou em perder oportunidades. Não fizemos a reforma agrária quando da abolição, que era o momento ideal – e hoje a reforma urbana já está batendo à porta. Quando acabou a Segunda Guerra, tínhamos grandes reservas em moeda forte, e éramos credores de várias nações. O que fizemos? Esbanjamos as reservas comprando investimentos estrangeiros obsoletos (estradas de ferro, por exemplo), que os donos já iam nos entregar por contrato, e perdoamos as dívidas! Depois sucateamos as estradas de ferro em benefício das rodovias, como se fôssemos árabes, donos de todo o petróleo do mundo. Quando nos E.U.A. e na Europa já havia estudos sérios recomendando a suspensão de projetos de construção de usinas nucleares, entre outros motivos porque ainda não se sabia o que fazer com os resíduos radioativos, a mania de grandeza de nossos governantes (muito patriotas) fez-nos gastar bilhões de dólares com usinas atômicas de modelo obsoleto, das quais só uma foi terminada mas até agora só funciona produzir água quente – e água radioativa! Com o dinheiro empregado nesses elefantes teríamos resolvidos os problemas da educação, da saúde, da habitação, e sobrado alguma coisa, segundo cálculo de um economista independente. Com os “governos” que temos tido, e que parece continuaremos tendo por muito tempo ainda, não há otimismo que resista. Nem é questão de corrupção, que há muita. Corrupção a nação aguenta, e existe no mundo inteiro, em maior ou menor grau. É incompetência mesmo, e muito desrespeito pelos direitos do povo.

A.P. - e a liberdade? Para mim é esse o impulso básico que dá vida e sentido para sua obra. É a razão metafísica existencial implícita nas trajetórias de seus heróis, é o traço fundamental da consciência humana.

J.J.Veiga – É isso mesmo. Que a liberdade é essencial ao ser humano é uma premissa tão óbvia que chega a estar implícita no comportamento dos seus personagens. Mesmo aqueles deles que a denegam a outros sabem que estão denegando um bem fundamental. Considerar a liberdade um bem implícito na composição do ser humano é o primeiro passo para chocar os que a denegam.

A.P. -Você tem apreço especial por algum dos seus livros? (Ou, em outros termos, você escolhe qual das suas obras como sua obra prima?) Como leitor, eu me ligo afetivamente a Os cavalinhos e intelectualmente a Os pecados da tribo.

J.J.Veiga – Ainda gosto de todos. Se desgostasse de algum, providenciaria para que ele não fosse mais editado. É claro que se eu os escrevesse hoje, escreveria livros diferentes, pelo menos em parte. Cada livro revela aspectos da personalidade de quem o escreve. Eu estou em meus livros como era quando os escrevi. Mas, para ser sincero, digo que os títulos de dois ou três dos meus livros não me agradam nada, e eu os mudaria se não fosse uma espécie de fraude.

A.P. - Nas próximas obras que linha irá dominar: a sombria, a harmonia de Torvelinho e Tajá ou o lirismo da infância dos contos iniciais?

J.J.Veiga – Não sei. Por meu gosto, só escreveria livros alegres, líricos, otimistas. Mas não escrevemos os livros que queremos, e sim os que pedem para ser escritos.

A.P. - Valeu a pena deixar o chope e o papo em troca de escrever?

J.J.Veiga – Só valeu. O bom do chope só vai até o segundo ou terceiro. Os outros a gente bebe porque está ali entre amigos.. Já os livros ficam fazendo parte da gente pela vida inteira. E também o chope pode ser tomado quando não se está escrevendo. O que não estava certo era ficar só no chope que afinal sai na urina.

9 de fevereiro de 1987
     
      
Foto by Jornal Opção
*Agostinho Potenciano de Souza é Doutor em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Minas Gerais (2002). Professor Titular da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás.



segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Histórias politicamente (in)corretas de James Frederico

Uma escrita de impacto escancara violência urbana e desumanização do homem


James Frederico: “O banal e o clichê também estão no mundo e não podem ser ignorados”
James Frederico Rocha Coelho - arquivo pessoal



Francisco Perna Filho, Sinésio Dioliveira e Valdivino Braz


         
Para o escritor James Frederico Rocha Coelho, autor do livro de contos “Histórias Civilizadas”, recentemente lançado em Goiânia, só a parte morta da literatura, fora e dentro da academia, pode se negar a tratar de tabus. Ele sublinha, entretanto, que tratar somente de polêmicas e tabus é muito chato. Acentua que o banal, o clichê, também estão no mundo e não podem ser ignorados, devendo-se, pois, chamar a tudo e a todos para o palco. 

Em seus contos, paginados de temas impactantes, incluso o escabroso, James Frederico enfoca personagens acometidos e também acossados pela violência, e por aí vaza a ironia do título “Histórias Civilizadas”. Há, também, alegoria sobre um escritor, algo proustiano, e sua obsessiva criação de uma obra megalômana. Quanto a questões como a controversa reforma ortográfica e a polêmica do politicamente correto, James afirma que a primeira deve ser debatida porque “a língua é a marca do que a gente é”, sendo mutável dia a dia; e já o politicamente correto, segundo ele, além de chato — pois “não há cartilha para a vida” —, é um excremento.

Valdivino Braz (VB) — Cristovam Buarque, que escreveu uma orelha para “Histórias Civilizadas”, ressalta que a violência urbana brasileira, de tão banal, tornou-se rotineira e deixou de inspirar a literatura. E diz ainda que ficou difícil escrever sobre esse assunto. Como, então, a violência urbana inspirou a você, James Frederico? E houve alguma dificuldade ou desafio para que você tratasse deste tema, sem banalizar também a própria narrativa focada na violência urbana?

Talvez porque eu não consiga distinguir violências, como exemplo, a urbana brasileira ou a tribal africana ou a que submete ao sofrimento extremo os refugiados na Síria. Acredito que estava mais pessimista com o ser humano quando escrevi o livro, mas ainda acredito no mal atávico que está no DNA nosso, da raça, como acredito no DNA do bem também.

Recentemente lançado em Goiânia, o livro de contos traz temas impactantes, inclusos e escabrosos com foco em personagens castigados pela violênciaFrancisco Perna Filho (FP) — Ao concluir a leitura do seu livro de contos “Histórias Civilizadas”, percebemos a ironia que esse título traz e o mal-estar que ele nos provoca, quando põe a claro situações, embora ficcionais, tão próximas de nós. Para você, e aí complementando a pergunta do Braz, existem temas que são tabus, que não devem ser postos na Literatura?

Não, só a parte morta da literatura, fora e dentro da academia, pode se negar a tratar de tabus, também. É evidente que tratar somente de polêmicas e tabus é muito chato. O banal, o clichê, também estão no mundo, não dá pra ignorar – acredito que devemos chamar tudo e todos pro palco, o escroto, a fada madrinha, o honesto, o ingênuo, o ladrão, etc...

VB — Impera no Brasil um clima de medo, insegurança e impotência do cidadão, indefeso diante de tanta violência, crueldade e, pior ainda, corrupção policial, abuso de autoridade fardada, além de roubalheira e cinismo político, até nas esferas do poder público. Enquanto cidadão, qual a posição do escritor em face do execrável estado de coisas no Estado brasileiro?

Confesso que muito perplexo, mesmo na minha idade. Ainda estou naquela de quem foi pego de supetão e ainda não teve tempo de respirar, sentar e refletir. Isso pode parecer um tanto fraco, do ponto de vista de que o escritor mesmo que não queira pensa e critica a engrenagem social. Mas a essa altura, quando tanto foi escrito sobre nossa formação e de imaginar que a evolução de nossa sociedade com o tempo seria irremediável, também estou procurando resposta. A única coisa sobre esse assunto de que tenho certeza é de que nada é novidade quando se trata de roubar, exceto pela tecnologia. Agora, é novidade o comércio de tudo, incluindo Deus e as respectivas religiões e o caráter de cada um.

VB — Alguém poderá dizer que denunciar o problema da violência urbana, em âmbito literário, será uma forma de repeti-lo. Para além do impacto, “produzindo no leitor um verdadeiro terror retirado do cotidiano”, como sublinha Cristovam Buarque, a que serve ou servirá a literatura na repetição ou enfoque da problemática gerada pela violência urbana?

Sinceramente não me passou pela cabeça a que serviria, como ferramenta para melhorar ou denunciar, ou mesmo se serviria. Sou um escritor preguiçoso, e quando comecei a escrever esse livro, quando morava na Bahia, me incomodava muito e me chamava atenção o caderno do jornal A Tarde de Salvador que tratava da violência urbana, e as torturas medievais, em certos casos, eram fichinha perto que que acontecia ali de vez em quando, nas periferias. Mas algum tempo depois isso já não era apenas um tratado factual, foi se transformando também numa espécie de alegoria, do próprio ser humano, como eu o vejo.

FP — No conto “Luzeiro”, natural e sobrenatural se amalgamam, as fronteiras entre possível e impossível são abolidas, criando uma atmosfera romântica, de sonho e fuga. A literatura, para você, seria um alento, uma maneira de tentar recuperar aquilo que a realidade opressora nos tira/tirou?

Que ela é um alento, não tenho dúvida nenhuma, tanto para quem escreve quanto para quem ler. Não vejo que seja sacrifício escrever, talvez porque não tenha compromisso com isso e só escreva quando a vontade, de tão grande, transforma aquilo em prazer. O fato de ser preguiçoso para ler e escrever talvez não tenha permitido que eu tivesse experimentado essa dimensão do sacrifício no ato de escrever.

VB — O que você acha que diria o grego Platão (se por aqui estivesse) sobre a nossa atual República?

Antes de ouvir o que Platão diria, providenciaria uma conversa entre ele e um negro, pobre, veado e favelado brasileiro, um senador da nossa república, um jornalista comprado, um pastor escroto, uma puta que trabalha pra sobreviver e dar comida pro filho, um homem que toca uma obra pra acolher crianças abandonadas ali no Novo Mundo, e por aí vai...

Sinésio Dioliveira (SD) — O personagem Antônio Vieira do conto "Excreções" ganhou este nome aleatoriamente ou tem a ver com o padre Antônio Veira? Se tem, em que aspecto? O que acha dos sermões de Vieira?

Não, você me alertou para a coincidência. Os Sermões de Vieira são verdade e elegância literária misturadas. E essa elegância é de uma clareza superior e fala por si, do ponto de vista estético. Mas a alma dos Sermões está na ética, como pretendemos hoje.

SD — Na parte II do conto "Excreções", o narrador diz que Antônio Vieira "acordou às oito" e "foi quando sentiu as primeiras comichões nas mucosas das narinas". Esse trecho me lembrou "Metamorfose", de Franz Kafka: "Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso". Estou vendo coisa inexistente entre os dois textos?
Também estou sendo alertado agora, por você, pela semelhança. Pode ter sido uma repetição inconsciente, pois a minha fascinação por literatura é mais forte em Rubião, Kafka, Gabriel García Márquez e Borges.

FP — Para muitos escritores, escrever contos seria uma preparação para uma escrita mais longa, no caso o romance. Você, antes de escrever “História Civilizadas” (2015), escreveu o romance “Quarto 16” (1989). Os contos vieram primeiro, ficaram adormecidos, ou a escrita do romance deu-se em primeiro lugar? Fale-nos um pouco sobre o seu processo criativo.

Quarto 16 é uma novela e veio de supetão e à época eu era visivelmente um desqualificado para escrever, do ponto de vista do conhecimento da língua, mas hoje, olhando de longe, no tempo, tenho certeza que literatura é percepção e o fato humano da existência de cada um no mundo, antes de qualquer teoria da literatura ou gramática. Hoje estou atrás de um exemplar de Quarto 16 para reescrever e reeditar, pois não guardei em casa nenhum exemplar.

SD - Onde James Frederico Rocha Coelho bebe em suas leituras de contistas brasileiros? Quem você apontaria como seu predileto?

Quando falo de conto lembro de Machado de Assis, Poe, Caio Fernando Abreu e Borges, além de Rubião, o francês Guy de Maupassant, que escreveu Bola de Sebo, e Rosa, de Sagarana, meu livro de cabeceira e minha passagem para o sertão, toda vez que quero voltar lá.

FP — O conto que fecha o livro, “O Último”, narrado em primeira pessoa, fala de memória, amizade e ausência: a história de um homem e a sua obsessão pela escrita, pela obra perfeita, acabada, tendo apenas o primo como leitor.  Para você, a Literatura liberta ou aprisiona? Que tipo de leitor você persegue?

O Último é uma alegoria do fato deprimente de que a gente passa, mas também do fato alegre que comprovadamente diz que em algum lugar ou em alguém vai permanecer um pedaço da gente, por mais minúsculo que seja; é aquela história do Deus das pequenas coisas.

VB — Além do papel em que ele escreve, até onde se estende o papel social do escritor? Em que a literatura pode contribuir para estimular vida melhor em sociedade? Ou seja, a literatura muda alguma coisa?

Muda muito, humaniza, assim como o cinema, a música, o sexo alegre – existe o sexo triste – o álcool, a amizade, e por aí vai, mas não acredito em papel social do escritor como fato consumado. O escritor e sua obra são um incidente, para o bem ou para o mal. Literatura engajada é traição do escritor a ele mesmo. A literatura de alguém será o que deve ser e se completará nas leituras, podendo ou não reforçar ou anular esse papel social do escritor a que você se referiu.

SD — O prosador é também um "fingidor" como diz Fernando Pessoa em seu poema "Autopsicografia" em relação ao poeta? Você é um leitor de poesia?



Completamente. Sinceramente não vejo muita distância entre Máquina do Mundo e Sorôco. Leio pouco poesia, mas Fernando Pessoa foi a primeira e única experiência. Falo única no sentido de especial. Admiro e sinto muita emoção com Quintana e Manoel de Barros. Dos estrangeiros não li nada, porque tenho uma desconfiança muito grande das traduções, de qualquer tradução.


VB — Enquanto escritor, como você avalia questões pouco debatidas como a controversa Reforma Ortográfica e também a polêmica do Politicamente Correto na literatura?

A Reforma Ortográfica deve ser debatida, porque sabemos a marca da língua em nossa construção, no que a gente é, mas sem purismos, porque até na língua tudo muda, dia após dia. O Politicamente Correto é chato e é uma m..., e essa minha opinião é porque acredito que não tem cartilha pra vida, que a vida é o palco a que me referi anteriormente, que deve ter de tudo, do escroque ao religioso moralista e convicto, do herói ao mentiroso traiçoeiro, da beata à puta, do abstêmio ao bêbado, etc.

*Esta Entrevista, originalmente, foi publicada no Jornal Opção de Goiânia: www.jornalopcao.com.br

*