sexta-feira, 30 de abril de 2010

Brasigóis Felício - Poema




A ÍNTIMA PÁTRIA



“A pátria é o embaixo das roupas”: (1)

nas personas que a levam

nos dentros das partes pudendas

é sentida como ruas conflagradas,

ocultas à visão do público.


Em nações amedrontadas do íntimo

nos escondemos das duras verdades

que, por cruéis, são negadas,

em nossa recusa em suportá-las.


Se a pátria é o que vai

entre os refolhos das roupas,

serve de consolo saber:

“Não há uma força universal

entre as pernas, a não ser a que

nos habita entre as pernas”. (2)




(1) Pio Vargas

(2) José Ângelo Gaiarsa


Imagem retirada da Internet: Sísifo

quinta-feira, 29 de abril de 2010

José Inácio Vieira Melo - Entrevista


José Inácio Vieira de Melo acaba de lançar seu quinto livro de poesia: Roseiral. Cantado por Myriam Fraga, Astrid Cabral, Maria da Conceição Paranhos e Eliana Mara Chiossi nos textos da contracapa, orelha e posfácio, o poeta faz de seu universo um imenso jardim. Vermelho. E lança pedras como se fossem pétalas. Com a mesma disposição de Davi frente ao gigante, alça sua voz singular sobre os telhados do mundo. Nesta entrevista, ele nos fala de suas influências, processo criativo, sonhos, sertões, inveja e muitos outros assuntos ligados à arte de escrever e viver. Paremos para ouvi-lo.

MAURÍCIO MELO JÚNIOR – Seu novo livro, Roseiral, seguindo a trilha de sua obra, é um diálogo entre o moderno e o arcaico. O que esperar de novo nesta conversa já tão antiga?

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Embora compreenda “que o novo sempre vem”, os anseios por novidades a qualquer custo não me atraem. Ainda mais quando me lembro dos versos de Sierguei Iessiênin, que dizem “Se morrer, nesta vida, não é novo,/ Tampouco há novidade em estar vivo”. O que me faz recordar também de um velho adágio popular: “Abaixo do céu e acima da terra, não há nada de novo”.
O que busco é dizer as coisas de uma forma que ao menos soe pessoal. Busco expressar meus sentimentos de uma maneira que possam despertar emoções no outro, mas quando o faço, não penso no outro. Faço poesia por uma necessidade vital. Claro que existe uma preocupação estética. E nesse aspecto, como você já observou, dialogo com a tradição. Penso que ninguém cria uma obra do nada. Por mais inovadora que ela seja, sempre apresentará pontos de convergências com outras preexistentes. Acredito mesmo que as referências sejam salutares para que se possa criar algo valoroso. Quanta ‘obra de vanguarda’ não perdura mais que uma semana? A cada esquina aparece um poeta que se intitula ‘inventor’. Isso só acontece porque esses vanguardosos, que buscam a novidade desesperadamente, não leem. Uns porque não gostam de ler, outros para não verem suas ‘obras’ serem influenciadas. E, por conta dessa ignorância, apresentam pastiches de quinta categoria do que já foi feito a cem ou duzentos anos.
Eu, particularmente, não acredito em escritor que não lê literatura. Vanguarda para mim tem que ser como
Dom Quixote. E foi dessa conversa tão antiga entre Cervantes e José Lins do Rêgo que surgiu o Capitão Vitorino. Foi da conversa antiga de Lima Barreto com Cervantes que surgiu Policarpo Quaresma. E foi assim, sem querer inventar a rosa, que surgiu o meu Roseiral. Em um diálogo com os poetas que admiro e com os que vou conhecendo na minha caminhada pela existência. Ah, nada como uma prosa boa para despertar a poesia da vida!

LIMA TRINDADE – Você não inventa a rosa, mas anuncia, desde a epígrafe de Gertrude Stein, que a rosa vive e respira independente de nossas vontades, e que podemos, sim, olhar a rosa, sentir o seu odor e colher, por meio de nossos sentidos, seus múltiplos significados. Poderíamos afirmar, então, que você re-inventa a rosa? Que sua rosa é uma e nenhuma mulher, é começo e fim, amor e morte, matéria e sonho, paraíso e danação?

JIVM – Embora tudo – nos tempos e pelos tempos – seja tão semelhante, cada momento é singular. A cada instante construímos relações que vão compondo o que somos. Somos uma invenção que está constantemente a se reinventar. Nesse sentido, o Roseiral é invenção e re-invenção. A epígrafe inicial do livro, como você bem observa, aponta para isso, que uma rosa é tão-somente uma rosa, mas é também toda a possibilidade de criação. É o Jardim do Éden, do qual nos fala a Bíblia, é o Jardim das Delícias, de Bosch, oJardim das Acácias, do Zé Ramalho, são meus jardins dos Mandacarus e das Algarobeiras e, finalmente, é Roseiral – o jardim da imensidão. Eu me invento dentro desse Roseiral. Suas rosas são brasas. Suas pétalas, pedras que jogo na cabeça de Deus e de quem estiver pela frente, para que jorre a seiva escarlate e assim eu possa ver o mundo encarnado. Para além de uma elegância asséptica, busco colocar em meus versos a força do animal humano, persigo os aromas e os matizes do barro em que foi moldado.
Há um poema no livro, intitulado “Invenção da poesia”, que explicita bem as proporções do
Roseiral, a partir da estrofe inicial, que diz “Pele vestida, distribuída e refeita,/ parto para o princípio do labirinto”. Mas, logo em seguida, afirma: “Parto e principio o labirinto”. O Roseiral é um jardim, porém o seu elemento ordenador não é a plenitude, é a inquietação. É a busca da origem, da Rosa Mística, que inicia quando partimos à procura do princípio do labirinto. Acontece que, quando partimos, damos início ao nosso labirinto. O meu Roseiral é um labirinto. E, como não preciso de justificativa, “parto,/ que a peripécia não é chegar,/ que o coração só tem um fim:/ ao som do coro das sereias/ cantar o ciclo da origem”.

Astrid Cabral e Eliana Mara Chiossi avaliam
esteticamente o mais novo livro de Vieira de Melo

VITOR NASCIMENTO SÁ – A leitura de Roseiral deixa evidente uma preocupação em concatenar os poemas de um modo que a obra se torne uma espécie de organismo coeso, ou pelo menos se assemelhe a isso. Essa impressão nos é transmitida tanto no campo formal como no temático. Certamente, é luta árdua – e vã – ter controle exato sobre o que se escreve e impor-lhe uma linha coerente, uma espinha dorsal, por assim dizer. Coube a você decidir que rumo a escritura tomaria durante todo o processo ou os poemas se impuseram, um a um, ordenando-se acidentalmente? Até que ponto, essa seleção e ordenamento foram intencionais e conscientes?

JIVM – Sua pergunta é curiosa, porque o Roseiral surgiu de um sonho, de um lance de pétalas. Os ventos dadaístas, anunciados no poema “A casa dos meus quarenta anos”, visitaram-me numa certa noite, lá na Pedra Só, minha roça, e me vi como um condenado a fazer versos bem diferentes dos que estão presentes na minha produção anterior. E, logo de cara, o nome se impôs: Roseiral (Ah, quantas críticas sofri por causa desse título!). E os poemas só falavam em rosas, em mulheres, em sangue, em pedras. Logo em seguida, soube que um amigo, dos tempos de adolescência, havia cometido suicídio com um tiro, de revólver calibre 38, na cabeça. Na hora veio a imagem de uma rosa de sangue brotando violentamente da sua face. E pensava num belo roseiral escarlate nascendo em cima de um lajedo. Era uma loucura e eu não sabia que rumo daria para essa produção. O engraçado é que boa parte desses poemas foi feita com versos medidos, visitando desde as redondilhas até o alexandrino e, principalmente, o decassílabo.
No capítulo “Roseiral” há seis sonetos brancos. Mas, se algum purista – defensor rigoroso da predominância do decassílabo heróico e perseguidor das rimas raras – pegar esses poemas para ler, vai ficar apavorado, porque, além de colocar simultaneamente no mesmo soneto o decassílabo heróico, o decassílabo de gaita galega, o de arte maior, o sáfico e o de inclinação provençal, evito os preciosismos professorais. Dialogo com a tradição, mas não pretendo ser Olavo Bilac. Ao invés de ficar queimando as pestanas para fazer pastiche de quinta categoria dos poetas que me antecederam, estou explorando e experimentando. Estou fazendo meu caminho.
Paralelo a esse acontecimento das rosas, surgiram uns poemas extremamente agressivos, despudorados e violentos, que tinham endereço certo: o patriarcalismo que sempre esteve de sentinela, a massacrar as diferenças e moldá-las à sua imagem e semelhança. Na mesma linha do despudor, surgiram uns poemas eróticos que eu jamais imaginei que teria coragem de publicar.
Como pode perceber, no começo não houve nenhuma possibilidade de ordenação, pois os poemas surgiram em grupos e aos borbotões. Com o passar do tempo – meses e meses – é que fui percebendo que determinado poema não cabia naquele conjunto, mas se adequava ao outro. E a arrumação ficou de tal maneira que os capítulos desenvolvem um andamento, como se estivesse fazendo um percurso, que começa no terreiro de pedras e que leva ao jardim, labirinto escarlate por onde se faz a travessia para alcançar a calçada da juventude e, finalmente, chegar à casa da maturidade. Mas acho também que cada capítulo, ou mesmo cada poema, pode ser lido separadamente, sem que haja necessidade de traçar um roteiro.

MARIANA IANELLI – Vejo que o poeta que anunciava a calmaria, emA infância do Centauro, agora se descobre, em Roseiral, no centro de uma vertigem. Nesse magma de criação, destruição, recriação, o poema, ainda que muitas vezes assuma o tom imprecatório, ainda assim, é uma rosa, uma revanche da vida. Não será este o grande desafio do poeta, hoje, transmudar pedras em pétalas, fazendo prevalecer o amor e a beleza sobre o golpe de violência?


JIVM – O segredo que a rosa preserva alimenta a minha fome de descoberta, a minha sede de beleza. Há algum tempo, afirmei em uma entrevista que poesia para mim é salvação. É nisso que acredito. Além de uma questão de fé, é também uma constatação, pois sem a poesia eu não conseguiria sobreviver. Também professo a beleza, mas nem sempre os aspectos positivos de um determinado assunto, sejam a grandeza, a novidade e a beleza, conseguem emoldurar a expressão que se originou no eu poético. O que me leva a pensar que não existem assuntos poéticos e assuntos não poéticos. Tudo cabe na poesia, do preço do feijão até as tragédias que assolam a humanidade. O triste fim de Heitor, dedicado pai de família e guerreiro ideal, pelas mãos do implacável e furioso Aquiles, não tira a beleza dessa passagem da epopéia de Homero.
Por falar em beleza, lembrei-me de Rainer Maria Rilke, quando diz nas
Elegias de Duíno: “Pois o belo não é/ Senão o início do terrível”. E quantas vezes nos deparamos perplexos e assustados diante de uma situação, ou mesmo depois de ler um poema ou depois de ver um filme, e dizemos: Que coisa terrível! E é como se disséssemos: Que beleza! O Raimundo Fagner cantava para a minha adolescência uns versos de Antonio Brandão que me marcaram muito: “Beleza só depois de uma sangria desatada”. Não que seja masoquista, mas o sofrimento chega e entra sem pedir licença. Mesmo assim, é preciso reagir e abraçar a tarefa de transformar pedras em pétalas. Só que os olhares estão presos na vitrine, as pernas correndo atrás do carro novo, o pensamento está se especializando em conhecer cada vez mais sobre cada vez menos. E aí não há espaço para essa discussão. Então, só uma pedrada certeira para despertar a aurora das ideias.

IGOR FAGUNDES – Tanto em seus poemas quanto na entrevista, nestas suas respostas que jamais deixam de trazer o calor e o sol de um poema, como se também o fossem, ouvimos a voz dos deuses a saltar de sua boca. Em geral, quando um poeta dialoga vigorosamente com os mitos gregos, e assumindo que seria o seu caso, de imediato a crítica apressada o qualificaria (depreciativa ou elogiosamente) como erudito – poeta para poetas e não para o povo. Mas, de repente, temos um José Inácio Vieira de Melo entre algarobeiras da roça, entre o sertão e o agreste brasileiros, a chamar palavras como quem chama a seus bois, tão capaz de abraçar e comover um não-letrado quanto uma fazenda de gado o é. Um José Inácio Vieira de Melo a lembrar-nos que falar em gregos nada tem de impopular e letrado, se ali, entre os rapsodos e cantores da Grécia, tudo é corpo e oralidade, palpitando entre os homens comuns, ou melhor, incomuns. Já lhe perguntaram, aqui, acerca da convergência entre o moderno e o arcaico; contudo, penso que toda esta mitologia não apenas desfaça tal dicotomia ao derrubar a linearidade do tempo na revelação do que permanece contemporâneo, isto é, um presente jamais ultrapassável. Para além dessa dimensão temporal, imagino que, em seus versos, punge também a dimensão espacial desta mítica que entrevê na terra particular e brasileira, a terra universal. No lugar específico, o sem-lugar que abisma todas as terras. Quero, com tudo isso, chegar a uma questão: à sua habilidade de tornar o José Inácio particular e distinto em um Vieira de Melo universal, indistinto, abismal, de maneira que a história de vida do indivíduo que escreve se apresente em seus poemas com tal força, que ela mesma se torna um mito, uma mitologia para nós e em nós, seus leitores. O homem que escreve não se transforma apenas em um eu lírico que o transfigura ou dele diverge. O eu lírico também transforma este homem em certa divindade – no sentido grego e, portanto, originário. Afinal, tanto “A casa de meus quarenta anos” quanto “A calçada dos meus quinze anos” parece valer como oráculo para todos os que com seu Delfos se consultam. Diante disso, gostaria de saber se acredita que, em toda arte, o biográfico, para ser poesia, precisa deixar de sê-lo e, a partir daí, que discutisse até que ponto a potencialização, ou a superlativação, ou a transmutação de uma biografia contribuem para a mitificação da figura não do poeta, mas do homem que se lhe antecipa e nele se eleva.

JIVM – Rapaz, você foi longe... Mas eu estou aqui bem pertinho de uma algarobeira, sentido a brisa do sertão. Confesso que para mim é um tanto difícil explicar por qual mecanismo minha vida se apresenta na minha poesia. Mas, por outro lado, fica bem fácil quando sei que, para mim, não existe um José Inácio das obrigações cotidianas e, em separado, um Vieira de Melo poeta. Eu sou José Inácio Vieira de Melo por inteiro. Sou completamente poeta, embora saiba que não seja um poeta completo, pois sempre há searas a conhecer. Sinto que sou poeta 25 horas por dia. Não consigo dissociar minha vida da minha poesia. Sei que existem poetas bem mais competentes que eu, com uma obra mais consolidada que a minha, que não fazem o estardalhaço que eu faço. Ficam ali, recolhidos na tranquilidade, para lembrar de Wordsworth, e poucos sabem do seu ofício de poeta. Eu não. Por onde passo, deixo o rastro do poeta. E mesmo os que não entendem bem do que se trata dizem logo: “ele é poeta”, sem que haja nenhuma intenção de valoração.
Vivo pensando a poesia que me é possível o tempo inteiro. Mas, por mais intensa que seja essa relação, por mais próxima que seja do que sou, ainda assim, não é o que sou. Esse sujeito que está o tempo todo dentro da minha poesia, que se parece tanto comigo, sou eu mesmo tentando me autenticar dentro do poema, dentro da arte. Mas, ainda assim é uma representação. É um eu lírico idealizado, que vai pedir bênção aos mitos, sobretudo os gregos e hebraicos, para se perpetuar dentro de uma tradição. Não que o biográfico não esteja presente, mas há um somatório de referências, há enxertos de ficção que superlativizam o biográfico e potencializam o mito. A partir daí, a figura humana é investida por uma couraça do imaginário, pelo poder da criação, que pode lhe conferir heroísmo e até mesmo o deificar. O homem que sou, e que se diz poeta o tempo inteiro, não consegue acompanhar o eu poeta na escalada rumo às esferas do delírio, por maior que seja a sua vigília. No entanto, as pedras que são atiradas no poeta, essas recebo todas. Em dobro, até.
No que se refere aos mitos, sempre achei que são coisas do povo. De um lugar para outro, de uma época para outra, mudam-se os nomes, mas são as mesmas figuras mágicas que vêm atender as necessidades de milagres e de punições das tribos, dos povos. Apesar do diálogo com os mitos gregos, sinto-me um poeta de inclinação bíblica, um pastor de nuvens e de versos. Os meus livros anteriores devem tributo ao poeta Davi, o salmista. Já neste
Roseiral, os Cânticos dos Cânticos de Salomão são uma referência mais próxima. A seiva das rosas escarlates do Roseiral trouxe um novo tônus para minha poesia.

MAURÍCIO MELO JÚNIOR – Tenho uma visão até óbvia de sua poesia: a forte presença da terra, do semear. E isso é um jeito meio esquecido pelos poetas contemporâneos, tão urbanos e violentos. Você é sertão, só que se conhece uma infinidade de sertões metafóricos – Zé Limeira, João Rosa, Zé de Alencar, Rachel, Mestre Graça, Cabral –, enfim, onde se localiza sua geografia íntima?

JIVM – Pois é, o sertão é o mundo, como nos ensina o Mestre Rosa. Por outro lado, o bardo cantador Elomar traz notícias de um sertão profundo, de dentro. A minha geolírica situa-se nessas plagas das quais falam João Guimarães Rosa e Elomar Figueira Mello. Um sertão íntimo, de dentro, tão intenso, que faz com que para onde eu olhe vislumbre o sertão planetário do poeta Gerardo Mello Mourão, a roça de estrelas de José Chagas e de Jorge de Lima. O sertão cósmico de Roberval Pereyr e de Antonio Brasileiro.
A minha geografia íntima é abismal e localiza-se no terreiro do meu ser – bem longe da balbúrdia dos modismos. Deitado nas relvas de Whitman, de dia pastoreio nuvens – de Pessoa e de Davi – no curral da imensidão azul. À noite, do balanço da rede, cultivo as estrelas nos labirintos de Borges, que trazem brilho, inquietação, suspiro, inspiração. O sopro lírico de Drummond e de Ruy Espinheira Filho. Cada estrela tem nome de poeta – Bandeira, Lorca, Kaváfis, Rilke, Murilo – e faz parte de uma constelação. Misturam-se e renovam-se. Morrem e renascem. E continuam. Tantas e tantas. Os que citamos e mais Herberto Helder, Cecília Meireles, Alberto da Cunha Melo, Maria da Conceição Paranhos, Francisco Carvalho, Myriam Fraga, Wilmar Silva, Mariana Ianelli, José Alcides Pinto, Astrid Cabral, Alexandre Bonafim e vários outros.

LIMA TRINDADE – Sinto que a ocupação desses diversos topos – como no caso do sertão (interior e exterior) e do urbano, da mistura de matizes eruditas e populares, da influência da cultura de massa em todas as esferas, do surgimento de novas configurações políticas e comportamentais – marca a literatura contemporânea e também a sua poética, que não escolhe um único ponto de vista, mas múltiplos. Você concorda com essa afirmação? Enxerga singularidade na produção dos poetas desse início de século?

Nietzsche: “Somente quem tiver o caos dentro de si
Poderá dar luz à grande estrela bailarina”.

JIVM – A contemporaneidade jogou o ser no cerne do caos. Vivemos num globalitarismo que coloca todos em um suposto pé de igualdade, que relativiza as culturas em nome de uma cultura global. Mas sabemos que isso tudo é uma falácia. O que se percebe mesmo é a imposição de uma cultura dominante que determina comportamentos e estabelece padrões.
A poesia, como toda arte, questiona, subverte, mostra possibilidades para novos caminhos. E não é de se estranhar que, nesses tempos de indagação, o paradoxo seja a melhor afirmação a se oferecer. Não há muito que filosofar. Ninguém vai ficar se perguntando “quem sou eu?” no momento em que perde um braço. Mas o pior de tudo é que a maioria dos poetas – tão intrincados nos estudos culturais – está sem caminhos. Então, esses poetas, preferem ficar usando palavras soltas, mecânicas. Assemelham-se tanto aos robôs que os computadores parecem mais sensíveis. Seria preferível que se jogassem no abismo e bradassem humanamente. Talvez aí houvesse algum indício de liberdade para criar uma poesia que desperte emoção no leitor.
Mas nem tudo está perdido. Apesar de achar que é muito cedo para se falar em singularidade, existem poetas aflorando no alvorecer desse novo milênio que são avatares (para usar uma palavra que está em circulação). Poetas que não mataram a criança e que preservam suas humanidades. Não pense que sou apocalíptico. Apesar do momento caótico em que vivemos, comungo com Nietzsche quando afirma que “somente quem tiver o caos dentro de si, poderá dar luz a grande estrela bailarina”.

VITOR NASCIMENTO SÁ
– Entre as pedras que são atiradas no poeta, obviamente, há a crítica negativa daqueles que resolveram se colocar na vida como seus adversários poéticos, se é que isso faz algum sentido. Quem acompanha de perto sua produção – seja a publicação dos cinco livros (incluindo Roseiral), seja a realização dos eventos literários e culturais ou a sua atuação na internet – sabe que há aqueles que vivem espreitando seus passos e fazendo um esforço tremendo para negar tudo, infamar ao máximo. Por outro lado, se levarmos em conta a idade de sua poética (aproximadamente uma década) sua fortuna crítica é imensa e chove comentários elogiosos de nomes consolidados. Como é viver, poeticamente, assim, entre a simpatia de tantos e a extrema ojeriza de alguns? O que você aguarda desses opostos com o lançamento de Roseiral?

JIVM – Olha, não tenho do que me queixar. Minha poesia tem merecido a atenção de nomes significativos da literatura brasileira, das mais diversas vertentes e de diferentes gerações, como você bem observou. Vai longe o tempo em que eu tinha uma preocupação em conseguir uma editora para publicar meus livros. Hoje em dia, os convites são vários. Na verdade, tenho aberto portas para outros poetas publicarem seus livros por editoras que garantem, ao menos, uma boa distribuição. E é bom lembrar que estamos falando de poesia, gênero que não desperta o interesse da grande maioria das editoras, por conta da falta de leitores e, consequentemente, pela falta de consumidores.
Existe, no estado da Bahia, meia dúzia de pobres diabos que, movidos por uma inveja corrosiva, estão empenhados em difamar a minha pessoa e de desmerecer a minha produção poética. Esquecem de trabalhar (e passam a roubar), esquecem de suas famílias (que, por sua vez, procuram alento em outros braços), esquecem de si próprios (alguns têm até o álibi de serem loucos) e se dedicam completamente ao José Inácio Vieira de Melo. Não sabem, coitados, o quanto contribuem para que, cada vez mais, meus versos ganhem espaço.
Para o
Roseiral não aguardo nada. Não sou de esperar. Gosto do movimento, do ritmo, de andar, de fazer as coisas acontecerem. Por enquanto, há oito lançamentos marcados: Aracaju, Belo Horizonte, Salvador e cinco cidades do Vale do Jiquiriçá. De modo que não tenho tempo para desperdiçar com as bobagens dessa meia dúzia de delinquentes.

Rainer Maria Rilke: uma referência para o autor de Roseiral

MARIANA IANELLI – No poema "Fuga", um dos primeiros do livro, você fala do momento em que "o homem chega dentro da criança" e aparecem os "sonhos - fuzilados no horizonte". O poeta, aí, não apenas antecipa sua fuga, mas anuncia, creio eu, todo um processo de enfrentamento e assimilação de forças contrárias que viremos a acompanhar ao longo de todo o livro. Esse conflito com um "patriarcalismo", como você mesmo disse, poderia ser compreendido, a meu ver, como uma batalha que se passa internamente, uma batalha que, por ser sanguínea, abrasadora, desperta também seu correlato subversivo de erotismo e paixão. Sob esse ponto de vista, pode ser que nesta "odisseia", título, aliás, de uma das seções do volume, o poeta se transmude não em Ulisses mas em Telêmaco, em busca do pai, para enfrentá-lo, numa viagem poética rumo às origens que põe a salvo a criança dentro do homem. Na seção "A calçada dos meus quinze anos", que concentra os poemas talvez mais significativos dessa batalha, a representação do banquete ocorre em três poemas, um deles intitulado "Canibal", o que me faz pensar novamente em um processo de assimilação poética, e por que não dizer, de transubstanciação, como indicam os versos do poema "Vampiro": "Sim, beberei teu sangue / quão saboroso é o vinho / que corre em tuas veias". Isto me lembra o que dizia Nikos Kazantzakis, emCarta a El Greco, sobre o dever de "reconciliar os irreconciliáveis" e arrancar do fundo de si mesmo "as espessas trevas ancestrais para delas fazer luz". Kazantzakis se referia aos antepassados que combatiam dentro dele, a terra e o fogo: "bons camponeses" por parte de mãe, "corsários sanguinários" por parte de pai. Gostaria, na verdade, que você comentasse um pouco sobre esse conflito interno, se ele existe, e como você o reavalia, agora, tendo cumprido mais este "ciclo da origem" que sua voz, já desde os primeiros poemas de Roseiral, profetizava.

JIVM – Eu cresci marcado pelo signo da diferença. Somos cinco irmãos. Todos homens. Sou o terceiro. Na verdade, sou o sétimo, visto que minha mãe teve nove filhos. Cinco vingaram. Pois bem, a partir de meus sete anos, o refrão que mais escutei, e que perdurou até os 20 anos, quando vim morar na Bahia, foi: “– Esse menino é todo diferente dos outros!” E foi com sete anos que tive de descer do fusca e ficar sozinho na entrada da fazenda, que distava uns três quilômetros da sede. Eu até hoje me lembro do meu pasmo e do imenso abandono que senti. Meu avô Moisés, quando soube, saiu correndo ao meu encontro...
Na adolescência, quando estudava em Maceió e passava os finais de semana e as férias no interior, o fato de gostar de usar cabelos grandes – ah, como sinto saudades dos caracóis dos meus cabelos – distanciou-me ainda mais de meu pai, uma vez que fiquei impossibilitado de sentar à mesa na sua presença durante alguns anos. É aquela coisa lá do poema “Banquete”. Não é muito fácil falar dessas coisas. Pois é! Mas, para tentar limpar o sentimento, só enfrentando tudo isso. E o
Roseiral veio na medida, passando o passado na lâmina.
Quero deixar bem claro que meu pai é um referencial de inteligência e de conquistas. O que ele queria era que eu o acompanhasse na sua luta desenfreada para vencer na vida. Se a minha história parece difícil, a sua é muito mais: criado por uma tia desde os dois anos, começou a trabalhar na infância, frequentou escola por menos de um ano em sua vida, casou aos 18 com uma menina de 14 que, desde os 11, era órfã de mãe. E me ofereceram do que tiveram – o abandono – e muito mais do que não tiveram: a possibilidade de estudar e muito afeto também. Esclareço que, nesse ínterim, comecei a ter problemas com bebidas alcoólicas. E durante duas décadas (dos 13 aos 33 anos) a barra foi pesadíssima, e causei muitos problemas.
Você, Mariana, além de poeta brilhante, é uma leitora extraordinária. Mostra o compasso certo desse
Roseiral: "reconciliar os irreconciliáveis". Eu, revestido por você do mito de Telêmaco, combato a tirania patriarcal que subjuga as diferenças, que massacra suas crias e, tal qual Procusto, molda o outro às suas medidas. Desse modo, a figura do Pai – que pode ser entendida como o deus, como o pai, o patrão, o governante – recebe de volta a coroa de espinhos que impõe ao filho. Depois de cumprir a travessia das rosas escarlates e de suas inúmeras pedras, sinto-me aceitando cada vez mais a minha condição de poeta. Em relação à família, pais e irmãos, estou muito distante. Parece-me que é a melhor maneira de sentir saudade e de ser tratado com respeito. No mais, tenho dois filhos – Moisés e Gabriel – que são luz em minha vida. Que alegria despertam em meu ser! E com que facilidade alimentam a criança que existe em mim!

Foto: Ricardo PradoJIVM: "Há algo de perdição nessa busca, porque sei que nunca vou estar satisfeito, sei que o que procuro estará sempre se escondendo detrás da árvore seguinte, do prédio seguinte e até mesmo na minha sombra"


IGOR FAGUNDES
– Disseste que, para o Roseiral, não aguarda nada, que não é de esperar. No entanto, muitos leitores esperavam um novo livro seu. Para além do que o inspirou a escrever e das elucubrações críticas que aqui fizemos, o que, em suma, afinal, podemos todos – os que já o leram e os que ainda não o leram – esperar de sua poesia? E será que José Inácio não espera nem por mais poesia em sua vida? Será que já não está chocando outros livros antes mesmo de este novo circular pelo Brasil? Tu nos deixa querendo mais poemas, mais livros, José Inácio...

JIVM – Quando falei que não aguardo nada para o Roseiral, quis dizer que não sou de ficar criando expectativas. Gosto de sair por aí, espalhando minha poesia. Não publico um livro e fico com ele dentro de casa, velando-o, esperando que algum crítico extraordinário venha descobrir o gênio que sou. Não acredito nisso. Nem tampouco fico na esperança de ganhar aquele prêmio tão desejado pela maioria. Eu corro atrás. Mesmo parado, dentro de casa, estou sempre pensando numa maneira de levar meus versos ao outro, através do mundo virtual.
Quanto aos que apreciam minha poesia, só posso dar garantia de que estarei sempre buscando... Buscando o verso que esteja afinado com meu sentimento, buscando a poesia de cada momento. Há algo de perdição nessa busca, porque sei que nunca vou estar satisfeito, sei que o que procuro estará sempre se escondendo detrás da árvore seguinte, do prédio da esquina e até mesmo na minha sombra. Eu vivo a poesia. Sinto que, a cada momento, ela apresenta-me uma nova face, ela inventa uma nova paisagem, ela me tira do chão e me conduz pelas esferas do delírio. Sinto que tenho um sorriso triste, mas a poesia me tira do sério, me deixa bobo, me deixa desse jeito que estou agora, fora do tempo, fora de mim. Completamente eu. E isto é o que há de melhor.
Escrevo pouco, uma média de 25 poemas por ano. O
Roseiral saiu e já tenho no meu matulão umas três dezenas de poemas inéditos. Claro que outros livros virão. E vai ser assim até o último dia de minha existência. Sinto que a poesia é minha vida.


MAURÍCIO MELO JÚNIOR é escritor, crítico literário e jornalista. Apresenta o programa Leituras na TV Senado. Escreve para o jornal literário O Rascunho. Autor de vários livros, entre eles No país dos Caralâmpios (história, 2006) eAndarilhos (novelas, 2007).


LIMA TRINDADE é editor da revista eletrônica Verbo21 (www.verbo21.com.br) e escritor. Publicou os livrosSupermercado da Solidão (novela, 2005), Todo Sol mais o Espírito Santo (contos, 2005) e Corações Blues e Serpentinas (contos, 2007). É mestre em Teoria da Literatura pela UFBA.

VITOR NASCIMENTO SÁ é poeta e professor de Literatura. É um dos criadores e dirigentes do Grupo Concriz (http://www.grupoconcriz.blogspot.com/), equipe de poetas e recitadores da cidade de Maracás, na Bahia.



MARIANA IANELLI é formada em Jornalismo e mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP. Publicou os livros de poemas Trajetória de antes (1999), Duas chagas(2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005) e Almádena(2007), todos pela editora Iluminuras.


IGOR FAGUNDES é poeta, jornalista, ensaísta e ator. É mestre em Poética pela UFRJ. Escreve para o jornal literário O Rascunho. Publicou Os poetas estão vivos(ensaios, 2008) e os livros de poemas Transversais (2000),Sete mil tijolos e uma parede inacabada (2004), Por uma gênese do horizonte (2006) e Zero ponto zero (2010)


Esta entrevista foi publicada na revista Correio das Artes, Abril/2010, Ano LXI, na cidade de João Pessoa, na Paraíba. Foi distribuída nas bancas de revista como encarte do jornal A União, no dia 25 de abril de 2010.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Valdivino Braz - Poema












The Dance Of the Intellect among Words
(Os Brinquedos de Jó Zezinho) - Parte II



Em face do que se me oferece, passo
dois dedos de prosa da província
e suas diversas espécies de carrapatos,
algumas carcaças de tatu-ninja,
uma rima fácil e um verso fóssil:
troco pelo salto-mortal duma pipoca,
e um pouco de sal no algodão-doce.

Oh, me não tomem por pedante ou arrogante,
antes pela inquietude impertinente,
ou pertinência da arte.
Por cacos de bricabraque,
a louça de quem brinca, Mandrake,
e amiúde se corta.

O corte, que importa,
se a morte é a vida que nos brinca?
E como figurar-se, de resto,
num velório de moscas,
quando se trata de uma festa
que se começa onde acaba
e se acaba onde começa?

Riverrun, Dublin,
firinfinfinnegan

Se sabonete vale quanto pesa,
e vale uma grosa doze dúzias,
pese-me o que valha a grisalha glosa
- o gozo do ferro-gusa - ,
e me guarde o velho anjo da vanguarda,
ou valha-me zombeteira gralha:
bumerangue me não jogue grogue no ringue,
com a groselha de uma droga.

Oh, me não beba o sangue
nenhum sargento-buldogue,
a soldo de um dogma,
nem me afogue no mangue
uma guangue de dobermanns,
e me não comam as sobras
os açougues da vida.

Minha vida é um brinquedo,
meu nome é Jó Zezinho.
Brinco na dança do intelecto,
brinca o homem com o poeta,
e o menino se completa.
Depois, vira passarinho.


In.A Dança do Intelecto. (Coleção Caliandra). Valdivino Braz. Goiânia: Kelps/SMC,1996, p.28-29.

terça-feira, 27 de abril de 2010

PRÊMIO OFF FLIP DE LITERATURA


Estão abertas até 31 de maio as inscrições para a quinta edição do Prêmio OFF FLIP de Literatura.

Criado em 2006 como parte da programação literária da OFF FLIP, o Prêmio oferecerá aos vencedores R$ 10 mil no total, além de estada em Paraty e ingressos para mesas de debate da FLIP. Os textos serão avaliados por escritores de expressão no cenário literário brasileiro e os 30 finalistas serão publicados em uma coletânea pelo Selo OFF FLIP.

O regulamento pode ser lido clicando aqui

Valdivino Braz - Poema





Valdivino Braz








The Dance Of the Intellect among Words
(Os Brinquedos de Jó Zezinho) - Parte I



Gertrude, Gertrude,
me não ponhas em bocas matildes,
pois uma rosa é uma rosa,
outra coisa uma glosa,
logopéia para Ezra Loomis Pound,
pífias epifanias para Jesse James Joyce.

A rose is a rose
já é feijão com arroz,
ou vinícia rosa com cirrose,
e mais vale um pombo de chumbo voando
rumno a Plutão,
do que a glória de doze césares
com osteoporose na mão.

Nada de novo no frontispício das obras,
além dos fátuos frangos de vanguarda
e um telhado de urubus po(u)sando de pombo.
Tudo redondo feito losango.
O ovo é o óbvio, cuzido ou cru.
A rosa é a roça do povo, a pedra, a vida,
no caminho de Drummond.

Oui, oui, o trem já passou por aqui
- object-trouvé, dejà-vu -,
c'est la vie que nem sempre é toujurs,
e vamos todos plantar chuchu.

Contudo,
um punhado de dedos dados ao lance
é olho de lince na pinça da percepção:
trespassa a mesmice
- insossas conversas difusas -
e mostra com quantas volutas se dança
a valsa na rosca do parafuso.

Mais que asas à imaginação,
dê-se imaginação às asas -
quase a mesma coisa,
salvo a pendular sutileza.

Há uma festa nos refolhos da rosa,
na íris inquieta do prisma,
no calidoscópio das coisas -
voilà! la même chose.

A dança da rosa na rosca vertiginosa
- as formas da dissonância, in essentia -
tergiversa e faz a diferença.


In.A Dança do Intelecto (Coleção Caliandra).Valdivino Braz. Goiânia: Editora Kelps, 1996, p.26-27.
Imagem retirada da Internet: Luz

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Carlito Azevedo - Poema













ESTRAGADO


No jardim zoológico
um ganso
as patas afundam na lama
e ele imperial
como uma macieira em flor
mas está estragado
como qualquer um pode ver
estragado
pensa que foi para isso
que o resgataram do dilúvio
mas não

resgataram o signo
estragaram o ganso


In collapsus linguae, Carlito Azevedo, Editora Lynx.
Imagem retirada da Internet: lenguaje

domingo, 25 de abril de 2010

José Paulo Paes - Poema


A Casa




Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.

Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina.

Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo.

Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos.


No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha.

Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão.

Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família.

Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo.


No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha.


E no telhado um menino medroso que espia todos eles;

só que está vivo: trouxe-o até ali o pássaro dos sonhos.

Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa.

Antes que ele acorde e se descubra também morto.


In.Os melhores poemas de José Paulo Paes. Seleção Davi Arrigucci Jr.. São Paulo: Global, 2.003.

sábado, 24 de abril de 2010

Clarice Lispector - CONTO


O Búfalo



Mas era primavera. Até o leão lambeu a testa glabra da leoa. Os dois animais louros. A mulher desviou os olhos da jaula, onde só o cheiro quente lembrava a carnificina que ela viera buscar no Jardim Zoológico. Depois o leão passeou enjubado e tranquilo, e a leoa lentamente reconstituiu sobre as patas estendidas a cabeça de uma esfinge. "Mas isso é amor, é amor de novo", revoltou-se a mulher tentando encontrar-se com o próprio ódio mas era primavera e dois leões se tinham amado. Com os punhos nos bolsos do casaco, olhou em torno de si, rodeada pelas jaulas, enjaulada pelas jaulas fechadas. Continuou a andar. Os olhos estavam tão concentrados na procura que sua vista às vezes se escurecia num sono, e então ela se refazia como na frescura de uma cova.

Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir — diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas — sem conseguir encontrar dentro de si o ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer. Mas não diante da girafa que mais era paisagem que um ente. Não diante daquela carne que se distraíra em altura e distância, a girafa quase verde. Procurou outros animais, tentava aprender com eles a odiar. O hipopótamo, o hipopótamo úmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda. Não. Pois havia tal amor humilde em se manter apenas carne, tal doce martírio em não saber pensar. Mas era primavera, e, apertando o punho no bolso do casaco, ela mataria aqueles macacos em levitação pela jaula, macacos felizes como ervas, macacos se entrepulando suaves, a macaca com olhar resignado de amor, e a outra macaca dando de mamar. Ela os mataria com quinze secas balas: os dentes da mulher se apertaram até o maxilar doer. A nudez dos macacos. O mundo que não via perigo em ser nu. Ela mataria a nudez dos macacos. Um macaco também a olhou segurando as grades, os braços descarnados abertos em crucifixo, o peito pelado exposto sem orgulho. Mas não era no peito que ela mataria, era entre os olhos do macaco que ela mataria, era entre aqueles olhos que a olhavam sem pestanejar. De repente a mulher desviou o rosto: é que os olhos do macaco tinham um véu branco gelatinoso cobrindo a pupila, nos olhos a doçura da doença, era um macaco velho — a mulher desviou o rosto, trancando entre os dentes um sentimento que ela não viera buscar, apressou os passos, ainda voltou a cabeça espantada para o macaco de braços abertos: ele continuava a olhar para a frente. “Oh não, não isso”, pensou. E enquanto fugia, disse: “Deus, me ensine somente a odiar.”

“Eu te odeio”, disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. “Eu te odeio”, disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma? Andou pelo Jardim Zoológico entre mães e crianças. Mas o elefante suportava o próprio peso. Aquele elefante inteiro a quem fora dado com uma simples pata esmagar. Mas que não esmagava. Aquela potência que no entanto se deixaria docilmente conduzir a um circo, elefante de crianças. E os olhos, numa bondade de velho, presos dentro da grande carne herdada. O elefante oriental. Também a primavera oriental, e tudo nascendo, tudo escorrendo pelo riacho.

A mulher então experimentou o camelo. O camelo em trapos, corcunda, mastigando a si próprio, entregue ao processo de conhecer a comida. Ela se sentiu fraca e cansada, há dois dias mal comia. Os grandes cílios empoeirados do camelo sobre olhos que se tinham dedicado à paciência de um artesanato interno. A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. Lágrimas encheram os olhos da mulher, lágrimas que não correram, presas dentro da paciência de sua carne herdada. Somente o cheiro de poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas. Aproximou-se das barras do cercado, aspirou o pó daquele tapete velho onde sangue cinzento circulava, procurou a tepidez impura, o prazer percorreu suas costas até o mal-estar, mas não ainda o mal-estar que ela viera buscar. No estômago contraiu-se em cólica de fome a vontade de matar. Mas não o camelo de estopa. “Oh Deus, quem será meu par neste mundo?”

Então foi sozinha ter a sua violência. No pequeno parque de diversões do Jardim Zoológico esperou meditativa na fila de namorados pela sua vez de se sentar no carro da montanha-russa. E ali estava agora sentada, quieta no casaco marrom. O banco ainda parado, a maquinaria da montanha-russa ainda parada. Separada de todos no seu banco, parecia estar sentada numa Igreja. Os olhos baixos viam o chão entre os trilhos. O chão onde simplesmente por amor — amor, amor, não o amor! — onde por puro amor nasciam entre os trilhos ervas de um verde leve tão tonto que a fez desviar os olhos em suplício de tentação. A brisa arrepiou-lhe os cabelos da nuca, ela estremeceu recusando, em tentação recusando, sempre tão mais fácil amar.

Mas de repente foi aquele vôo de vísceras, aquela parada de um coração que se surpreende no ar, aquele espanto, a fúria vitoriosa com que o banco a precipitava no nada e imediatamente a soerguia como uma boneca de saia levantada, o profundo ressentimento com que ela se tornou mecânica, o corpo automaticamente alegre — o grito das namoradas! — seu olhar ferido pela grande surpresa, a ofensa, “faziam dela o que queriam”, a grande ofensa — o grito das namoradas! — a enorme perplexidade de estar espasmodicamente brincando faziam dela o que queriam, de repente sua candura exposta. Quantos minutos? os minutos de um grito prolongado de trem na curva, e a alegria de um novo mergulho no ar insultando-a com um pontapé, ela dançando descompassada ao vento, dançando apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia-se como o de quem ri, aquela sensação de morte às gargalhadas, morte sem aviso de quem não rasgou antes os papéis da gaveta, não a morte dos outros, a sua, sempre a sua. Ela que poderia ter aproveitado o grito dos outros para dar seu urro de lamento, ela se esqueceu, ela só teve espanto.

E agora este silêncio também súbito. Estavam de volta à terra, a maquinaria de novo inteiramente parada.

Pálida, jogada fora de uma Igreja, olhou a terra imóvel de onde partira e aonde de novo fora entregue. Ajeitou as saias com recato. Não olhava para ninguém. Contrita como no dia em que no meio de todo o mundo tudo o que tinha na bolsa caíra no chão e tudo o que tivera valor enquanto secreto na bolsa, ao ser exposto na poeira da rua, revelara a mesquinharia de uma vida íntima de precauções: pó de arroz, recibo, caneta-tinteiro, ela recolhendo no meio-fio os andaimes de sua vida. Levantou-se do banco estonteada como se estivesse se sacudindo de um atropelamento. Embora ninguém prestasse atenção, alisou de novo a saia, fazia o possível para que não percebessem que estava fraca e difamada, protegia com altivez os ossos quebrados. Mas o céu lhe rodava no estômago vazio; a terra, que subia e descia a seus olhos, ficava por momentos distante, a terra que é sempre tão difícil. Por um momento a mulher quis, num cansaço de choro mudo, estender a mão para a terra difícil: sua mão se estendeu como a de um aleijado pedindo. Mas como se tivesse engolido o vácuo, o coração surpreendido. Só isso? Só isto. Da violência, só isto.

Recomeçou a andar em direção aos bichos. O quebranto da montanha-russa deixara-a suave. Não conseguiu ir muito adiante: teve que apoiar a testa na grade de uma jaula, exausta, a respiração curta e leve. De dentro da jaula o quati olhou-a. Ela o olhou. Nenhuma palavra trocada. Nunca poderia odiar o quati que no silêncio de um corpo indagante a olhava. Perturbada, desviou os olhos da ingenuidade do quati. O quati curioso lhe fazendo uma pergunta como uma criança pergunta. E ela desviando os olhos, escondendo dele a sua missão mortal. A testa estava tão encostada às grades que por um instante lhe pareceu que ela estava enjaulada e que um quati livre a examinava.

A jaula era sempre do lado onde ela estava: deu um gemido que pareceu vir da sola dos pés. Depois outro gemido.

Então, nascida do ventre, de novo subiu, implorante, em onda vagarosa, a vontade de matar — seus olhos molharam-se gratos e negros numa quase felicidade, não era o ódio ainda, por enquanto apenas a vontade atormentada de ódio como um desejo, a promessa do desabrochamento cruel, um tormento como de amor, a vontade de ódio se prometendo sagrado sangue e triunfo, a fêmea rejeitada espiritualizara-se na grande esperança. Mas onde, onde encontrar o animal que lhe ensinasse a ter o seu próprio ódio? o ódio que lhe pertencia por direito mas que em dor ela não alcançava? Onde aprender a odiar para não morrer de amor? E com quem? O mundo de primavera, o mundo das bestas que na primavera se cristianizam em patas que arranham mas não dói… oh não mais esse mundo! não mais esse perfume, não esse arfar cansado, não mais esse perdão em tudo o que um dia vai morrer como se fora para dar-se. Nunca o perdão, se aquela mulher perdoasse mais uma vez, uma só vez que fosse, sua vida estaria perdida — deu um gemido áspero e curto, o quati sobressaltou-se — enjaulada olhou em torno de si, e como não era pessoa em quem prestassem atenção, encolheu-se como uma velha assassina solitária, uma criança passou correndo sem vê-la.

Recomeçou então a andar, agora pequena, dura, os punhos de novo fortificados nos bolsos, a assassina incógnita, e tudo estava preso no seu peito. No peito que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia perdoar, que só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a amar, a amar. Imaginar que talvez nunca experimentasse o ódio de que sempre fora feito o seu perdão, fez seu coração gemer sem pudor, ela começou a andar tão depressa que parecia ter encontrado um súbito destino. Quase corria, os sapatos a desequilibravam, e davam-lhe uma fragilidade de corpo que de novo a reduzia a fêmea de presa, os passos tomaram mecanicamente o desespero implorante dos delicados, ela que não passava de uma delicada. Mas, pudesse tirar os sapatos, poderia evitar a alegria de andar descalça? Como não amar o chão em que se pisa? Gemeu de novo, parou diante das barras de um cercado, encostou o rosto quente no enferrujado frio do ferro. De olhos profundamente fechados procurava enterrar a cara entre a dureza das grades, a cara tentava uma passagem impossível entre barras estreitas, assim como antes vira o macaco recém-nascido buscar na cegueira da fome o peito da macaca. Um conforto passageiro veio-lhe do modo como as grades pareceram odiá-la opondo-lhe a resistência de um ferro gelado.

Abriu os olhos devagar. Os olhos vindos de sua própria escuridão nada viram na desmaiada luz da tarde. Ficou respirando. Aos poucos recomeçou a enxergar, aos poucos as formas foram se solidificando, ela cansada, esmagada pela doçura de um cansaço. Sua cabeça ergueu-se em indagação para as árvores de brotos nascendo, os olhos viram as pequenas nuvens brancas. Sem esperança, ouviu a leveza de um riacho. Abaixou de novo a cabeça e ficou olhando o búfalo ao longe. Dentro de um casaco marrom, respirando sem interesse, ninguém interessado nela, ela não interessada em ninguém.

Certa paz enfim. A brisa mexendo nos cabelos da testa como nos de pessoa recém-morta, de testa ainda suada. Olhando com isenção aquele grande terreno seco rodeado de grades altas, o terreno do búfalo. O búfalo negro estava imóvel no fundo do terreno. Depois passeou ao longe com os quadris estreitos, os quadris concentrados. O pescoço mais grosso que as ilhargas contraídas. Visto de frente, a grande cabeça mais larga que o corpo impedia a visão do resto do corpo, como uma cabeça decepada. E na cabeça os cornos. De longe ele passeava devagar com seu torso. Era um búfalo negro. Tão preto que à distancia a cara não tinha traços. Sobre o negror a alvura erguida dos cornos.

A mulher talvez fosse embora mas o silêncio era bom no cair da tarde.

E no silêncio do cercado, os passos vagarosos, a poeira seca sob os cascos secos. De longe, no seu calmo passeio, o búfalo negro olhou-a um instante. No instante seguinte, a mulher de novo viu apenas o duro músculo do corpo. Talvez não a tivesse olhado. Não podia saber, porque das trevas da cabeça ela só distinguia os contornos. Mas de novo ele pareceu tê-la visto ou sentido. A mulher aprumou um pouco a cabeça, recuou-a ligeiramente em desconfiança. Mantendo o corpo imóvel, a cabeça recuada, ela esperou.

E mais uma vez o búfalo pareceu notá-la.

Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos. O búfalo deu outra volta lenta. A poeira. A mulher apertou os dentes, o rosto todo doeu um pouco.

O búfalo com o torso preto. No entardecer luminoso era um corpo enegrecido de tranqüila raiva, a mulher suspirou devagar. Uma coisa branca espalhara-se dentro dela, branca como papel, fraca como papel, intensa como uma brancura. A morte zumbia nos seus ouvidos. Novos passos do búfalo trouxeram-na a si mesma e, em novo longo suspiro, ela voltou à tona. Não sabia onde estivera. Estava de pé, muito débil, emergida daquela coisa branca e remota onde estivera. E de onde olhou de novo o búfalo.

O búfalo agora maior. O búfalo negro. Ah, disse de repente com uma dor. O búfalo de costas para ela, imóvel. O rosto esbranquiçado da mulher não sabia como chamá-lo. Ah! disse provocando-o. Ah! disse ela. Seu rosto estava coberto de mortal brancura, o rosto subitamente emagrecido era de pureza e veneração. Ah! instigou-o com os dentes apertados. Mas de costas para ela, o búfalo inteiramente imóvel.

Apanhou uma pedra no chão e jogou para dentro do cercado. A imobilidade do torso, mais negra ainda se aquietou: a pedra rolou inútil.

Ah! disse sacudindo as barras. Aquela coisa branca se espalhava dentro dela, viscosa como uma saliva. O búfalo de costas.

Ah, disse. Mas dessa vez porque dentro dela escorria enfim um primeiro fio de sangue negro. O primeiro instante foi de dor. Como se para que escorresse este sangue se tivesse contraído o mundo. Ficou parada, ouvindo pingar como numa grota aquele primeiro óleo amargo, a fêmea desprezada. Sua força ainda estava presa entre barras, mas uma coisa incompreensível e quente, enfim incompreensível, acontecia, uma coisa como uma alegria sentida na boca. Então o búfalo voltou-se para ela.

O búfalo voltou-se, imobilizou-se, e à distância encarou-a.

Eu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la. Eu te odeio, disse implorando amor ao búfalo.

Enfim provocado, o grande búfalo aproximou-se sem pressa.

Ele se aproximava, a poeira erguia-se. A mulher esperou de braços pendidos ao longo do casaco. Devagar ele se aproximava. Ela não recuou um só passo. Até que ele chegou às grades e ali parou. Lá estavam o búfalo e a mulher, frente à frente. Ela não olhou a cara, nem a boca, nem os cornos. Olhou seus olhos.

E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendida, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranqüilo de ódio, a olhava. Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingênua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo.

In. Laços de Família.

Imagem retirada da Internet: búfalo africano