sexta-feira, 28 de julho de 2017

Resistência e Linguagem: O Inventário Poético de Ítalo Francisco Campos



Nesta Edição, a Revista Banzeiro traz a poesia de Ítalo Francisco Campos. Ítalo é goiano de  Uruaçu, mas vive em Vitória,Espírito Santos, desde 1976.Psicanalista e psicólogo formado pela UFMG, é Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória. É também membro da Academia Espírito-santense de Letras e da Academia Uruaçuense de Letras. É criador do Varal de Poesia, evento cultural que se realiza anualmente no Vagão Espaço de Arte, em Manguinhos (Serra/ES). Com ampla participação na vida cultural e política da cidade, o autor colabora regularmente na imprensa com artigos e resenhas. Destaca-se ainda sua participação como organizador de importantes publicações na área da saúde: "Drogas em Debate" (1991); "DST/AIDS: uma experiência capixaba" (2003); e "Vidas Interrompidas" (2009). Escreveu e publicou "Interiores" (1995); "O Sádio e o Mentecap-to" (1998); "Sabor da Letra" (1999); "Anil Bucólica(s)" (2006); e "Embaralhando Palavras" (2011).




Filho de escritor, irmão de poeta, Ítalo passeia com desenvoltura pelas sendas da poesia. Na sua poética estão consubstanciadas memória e história, não somente a memória do passado, de evocação, mas a memória do futuro, na qual se projeta, num ir e vir constantes.Consciente da fluidez do tempo e da perecibilidade das coisas, deles se alimenta e com eles constrói o seu mundo particular, via linguagem, no qual pode transitar sem os empecilhos dos opressos dissabores da sua contemporaneidade.

Poeta, psicólogo, psicanalista, tem nas formas o substrato de suas representações poéticas, sejam líricas,épicas ou dramáticas, não importa, o que importa mesmo é a plenitude de sua tessitura. Poeta e linguagem fundem-se, dão-se as mãos, se fazem, como no dizer do poeta e crítico literário mexicano Octavio Paz (1996, p.116-17): "A linguagem cria o poeta e só na medida que as palavras nascem, morrem e renascem em seu interior ele é, por sua vez, criador." Ítalo sabe muito bem do que fala  o poeta mexicano, pois é a linguagem sua matéria diária, a cada momento a ela se funde, por ela se faz representar, por meio dela passa a existir. A sua poesia também é resistência, suplanta a estupidez, sempre se refazendo, daquilo que fala Alfredo Bosi (1997, p.117): "Há na poesia como na linguagem (de que ela é a forma suprema), uma capacidade de resistir e de reproduzir-se que parece ter algo das formas da natureza."

A sua poesia é vária, muito bem tecida, traz em si a força das representações humanas, imagens da vida, "signos em rotação. Nela estão presentes o humor, a memória, a metalinguagem e o erotismo, como se poderá comprovar nesta coletânea por nós selecionada.

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O TREM É ESSE

Acordem, vovô Afonso e vovó Leonídia,
Ouçam a toada
Do trem chegando...
Não, não é sonho! Levantem Diva,

Cristovam, Carolina e Olimpia,
Abram os olhos e vejam.
Não é sonho.Vá chamar Adelino.
Acordem, Dito de Jesus, Dulce,
Derci, Luluca e 
Lá vem a Maria Fumaça escrevendo no céu.
Vejam a esperança! Ouçam os pássaros fazendo coro.
Apreciem o vuc-vuc-vuc da máquina de fogo.
Acordem Ditão,
Venham ver o cavalo-de-ferro rompendo o cerrado,
Arrebentando lagoas, espantando os animais.
A onça, o macaco, as capivaras e as antas observam.
O bicho centopeia de patas redondas e olhos brilhantes
Avança.

Acordem, Zé Lobo.
Corram ao terreiro venham ver a 
Locomotiva oitocentista que corre como siriema
Carregando no seu rabo todo tipo de 
Encomenda.
Acorde todo povo da Tapera,
Venham para a porta fazer a festa, cantar alegrias.
Dancem, fortes sertanejos, de mãos dadas, as cirandas 
De saudação.
Todos os mortos e os vivos desta Tapera - Fazenda 
Imaculada Conceição – girando a ciranda no dia seguinte 
Da Imaculada, fez chegar o trem.
Que ela traga, junto com sua avó Santana, o balsamo para esta 
Terra que elas sempre habitaram.
Que Imaculada e Santana 
desarme o forasteiro, fertilize estes campos, abrande os corações..
Que Iraídes e Hildelbrande, de mãos dadas aos Fernandes,
Regue este cerrado de chuva natural, façam correr o riacho,
Cresçam a manga, o abacate, a banana, o arroz o feijão e a cana.
E que, para o ano, no dia da Imaculada, esta fazenda abençoada
Contar o seu progresso em forma de toada,
reverenciar sua beleza e confirmar a paz,
Entre a técnica e a natureza.



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Planejo lhe matar concreta e lentamente,
arrancar seus olhos , nervo óptico, troclear e abducente.
Esses olhos me vêem
como não me gosto, serão enterrados no fundo do mar
para confundirem com o verde,
com nada, com trevas.
Quebrar seus dentes um a um,
esses mesmos que me acariciaram os ouvidos
e fornecê-los ao primeiro artesão,
que fara um troféu.
Sua língua solta de palavras,
oh! estas terão especial tratamento:
hei de arrancá-las, parti-las em pedaços
tão pequenos como cada sílaba
quebradas em letras,
tão pequena matéria ficará
solta no ar.
Planejo lhe matar com minha caneta,
açoitá-la com radical força
sobre seu corpo esgarçado, contorcido,
hei de suplicar, verter lágrimas,
soluços, suores. Sem dor.
Planejo matar você
em mim,
tão profundamente, que também irei
morrer.

In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999, p.13
.


Ato I


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Rosno para teus olhos
quando me flecham.
Dão medo! Bebo tua baba de cio
sem nenhum pudor e
obedeço feito vira-lata faminto
ao teu peito arfante. Nem amante sou mais!
Escravo, cativo, objeto
do teu gosto estranho,
alimento de ganância vaginal.
Mais nada!
Balanço meu rabo ao menor afago,
me arrastando aos teu
sapato de rua.
Esses pequenos passos são
de teu coração distraído...
Deito enfim para avançar-me
em ti
e te transformas nesta amorfa
massa sem gosto e choras,
sem poderes dar o que não tens,
comigo.

In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.15.



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.G Ana


Acusa-me de pervertido
que debaixo da saia
diz carinhos.
Você não se convence
que a cara do carinho não tem
idade,
que depois do suspiro, suspiro,
suspiro. Eu desapareço.
Não que não tenha razão,
a idade aumenta o carinho,
diminui a emoção.
Acusa-me de não ter magia,
quando envolvo em seu tesão,
é que pede sempre mais
do que sempre tem à mão.
Acusa-me e excusa-me
de lhe dizer o sim pelo não.
Não que não tenha razão,
a idade aumenta a dúvida,
diminui o coração.
Que faz esta perna sobre
a minha?
Que pesa, chateia e
esquenta.
Não que eu não tenha carinho,
é que a idade aumenta
a dívida, diminui o tesão.
E por que toda essa fala, essa fala,
se o sexo é trem-bala,
Titanic, furacão?

In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.25.

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Mulher



Mulher não nasce,
ela aparece, quando saca em si o vazio
e a ausência.
Mulher não nasce,
ela floresce.
Quando seu ventre arrebenta
o novo, aí desperta. Não
feto, mas fato.
Mulher não nasce,
se faz,
quando contém o não-continente,
quando é, não é,
quando é verdade, ao mesmo tempo, mentira.
Mulher não existe na carne, se não for antes
na mente.
Mulher não nasce,
se cria,
sem forma, de natureza incerta,
no dia-a-dia, às vezes demônio, às vezes gente.
Mulher não nasce.

In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.29.

Gêneses



Várias palavras me fizeram,
meu jeito, meu gesto, meu ser.
Todas as tomei para mim,
assim me construindo.
Umas não foram ditas (apenas ausentes),
outras mal-ditas e, ainda outras,
entre-dentes.
Assim me fizeram.
Vários momentos me fizeram,
aqueles sem palavras,
as que eu não pude dar,
hoje eu busco.
E busco outras palavras
dessas mesmas que me fizeram,
para ouvi-las de novo.
Por outro lado.
Algumas cenas me fizeram
que represento sempre
como ator surdo,
num palco imaginado.
Várias palavras me fizeram
sem que eu as tenha pronunciado.
Adjetivos e verbos como puzzle
assim sou colado.
A palavra me desmancha e cura.
Se numa face me singulariza
e me apaga,
na outra pluraliza, não sou
nada.
Várias palavras me fizeram...


In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.39.

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Poetar I




Desmanchar os versos
dos seus termos,
fazer liberdades
sem nexo, rima.
À palavra, sua força
nenhuma.
Retirar da palavra
o senso. O tempo,
o ritmo. Fazê-la nua, crua,
sonsa.
Tirar sua roupa,
abrir as perna,
rasgar seu véu,
estuprar...
Descoser cada palavra,
libertá-la de todo sentido,
até virar puro
concreto-matéria
som.
Cozinhar o verso,
fervê-lo na língua
até desprendê-lo,
descondensá-lo ao
sumo,
fazer essência.
Nenhuma!

In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.40.

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Poetar II



Quebrar as frases, as crases,
retirar pontos
e vírgulas.
Fazê-las planas, plenas
pardacentas. Som. Som. Som!
Furar os termos,
rebentar ouvidos,
fazê-lo apenas -
mente borda,
mancha. Lembrança.
Destruir cada texto,
fazer nascer,
novo.
Entre partes.
Debulhar cada frase,
torná-la grão, apenas
grão.
Diluir cada palavra
até seu traço,
sua desmatéria,
seu real.
Destilar cada sílaba,
até o não possível sorvê-la.
Estar apenas
eu, o resto.

In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.41.


Poesia



Pensei que poesia fosse
um grito, um urro,
um murro. Chute no saco!
Vulcão, trovão, coisa parecida,
padecia. Não conseguia
escrevê-la. Poesia comigo,
prezado amigo, é modo de ser.
Não estável, recitável, reciclável.
Poesia é ato, que realiza nos modos,
certamente das palavras.
Metáfora, metonímia,
induzida, percorre sob a linha.
Poesia é conversa com ninguém - 
que certamente existe -
não tem sotaque, nem destaque,
nem bordão.
Poesia é também sussurro, prolongado,
às vezes parto cesário.
Minha poesia (tem hora)
é feito velha senhora,
conta conto repetido
com quem adia a morte.
Outras vezes é como suporte
que orienta, aguenta, faz ponte.
Ponte apenas!
Para nada.


In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.42.

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A palavra
para Elisa Lucinda


A palavra, amiga Elisa,
não é a roupa do
sentido. É ao contrário.
O sentido veste a palavra,
enclausurada. Deixa-a presa,
tira a surpresa!
O sentido, Elisa,
é o que cobre a palavra,
dá-lhe finitude, tempo,
magnitude.
É uma represa!
O sentido mata a palavra.
Mas esta não morre,
outros sentidos a socorrem.
Eles são tantos que as palavras
resiste.
A todos os ouvidos,
a todos os sentidos,
a todo carrasco,
a todo sandido.
A palavra não precisa do
sentido.
Ela precisa do som, do ar,
do desejo:
de Elisa.

In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.43.

Prevenção



Sou um homem prevenido
que ao menor novo ruído
me devolvo ao caixão,
(que é feito de palavras)
sentenças-de-ordens,
idealização!


In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.47.


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Viver

Viver, mistério de colar
e descolar pedaços,
deixando espaços para
a alma do mundo
que carregas.
Produzir colagens,
transformar,
criar do nada
um sentido.

In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.53.



The days of creation - Sir Edward Burne-Jones

Dezenas de anjos receberam
minha mãe no céu.

Dez eram árabes e judeus
do tempo de Jericó,
outros dez anjos eram índios
da costa brasileira qu morreram
de espelhos e bugigangas.

Dez eram sertanejos
com berrantes, chibata e gibão.
Outros dez eram crianças
natimortas no sertão.

Dez anjos eram negros
da Cabina de Luanda,
roupas coloridas,
danças de quimbanda.

Outros dez eram andarilhos
das estradas do Brasil,
e dez anjos eram músicos
em suas alegrias.

Outros anjos eram seus filhos
Ilionei e eu,
que fui ao céu
só para saudá-la.


In. Elegia.Vitória: Flor & Cultura, 2012, p.52.


Créditos:

As imagens aqui utilizadas foram colhidas na Internet, livremente, sem autorização expressa dos seus donos, para os quais expresso os mais sinceros agradecimentos.

Obras citadas nesta publicação:

PAZ, Octavio. Signos em rotação. Trad. Sebastião Uchôa Leite. São Paulo: Perspectiva, 1996.
BOSI, Alfredo. O Ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1997.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017









Autoritas – Que país é esse?




Francisco Perna Filho
Rosana Carneiro Tavares



Na Mitologia Grega, Lete é um dos rios do Hades, de cujas águas brotava o completo esquecimento: ao beber sua água ou apenas tocá-la, o indivíduo mergulharia em profundo esquecimento. No seu oposto, temos a “verdade”, Alétheia, cujo sentido é desvelamento, fazer lembrar, trazer a verdade à tona, mesmo que isso implique dor e perdas.

Lete, Alétheia, esquecimento, verdade, faces de uma mesma moeda, substâncias do humano, necessárias abstrações, às quais estamos intimamente ligados, como nos mostra a recente história brasileira: uma história de mentiras e esquecimentos.

A verdade é um dever de quem tem autoridade, de quem é detentor de autoria, deriva da palavra latina “autoritas”, cujo significado remete àquele que tem autoridade, que é detentor de uma cátedra, que detém autoria, ou, de outro modo, aquele cuja autoridade lhe foi concedida, como caso de presidentes, governadores, ministros etc.

Pois é, são essas "autoridades" que nos preocupam, envoltos que estão nas próprias teias; amarrados a um passado de ensinamentos e doutrinas, que, agora, tentam esquecer, porquanto contrariam as suas pretensões de poder.

Não muito distante, o ex-Presidente FHC, num rompante, pediu que esquecessem o que ele havia dito. Agora, bem agora, Temer, num lapso de memória, ou maldade institucionalizada, nomeou Moreira Franco, seu amigo, para o cargo de Ministro da Secretaria Geral da Presidência. Ora, Moreira Franco está implicado na Lava-Jato, jamais poderia ser nomeado para cargo tão representativo, sob pena de fragilizar mais ainda o atual governo.

Temer não se importa com nada disso, nem mesmo com o que escrevera nos seus ensinamentos, na sua doutrina, como bem apontou a juíza do Rio de Janeiro, Regina Coeli Formisano, que se valeu da doutrina de Temer para negar a nomeação de Moreira Franco, conforme matéria do jornalista Italo Nogueira, da Folha de São Paulo (09/02/2017):

Peço, humildemente perdão Presidente Temer pela insurgência, mas por pura lealdade às suas lições de Direito Constitucional. Perdoe-me por ser fiel aos seus ensinamentos ainda gravados na minha memória, mas também nos livros que editou e nos quais estudei. Não só aprendi com elas, mas, também acreditei nelas e essa é a verdadeira forma de aprendizado. Por outro lado, também não se afigura coerente, que suas promessas ao assumir o mais alto posto da República sejam traídas, exatamente por quem as lançou no rol de esperança dos brasileiros, que hoje encontram-se indignados e perplexos ao ver o Presidente adotar a mesma postura da ex-presidente impedida e que pretendia também, blindar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva [sic]. Ao mestre com carinho

Para piorar a situação, destituído de qualquer preocupação ou memória, o presidente Temer indicou o seu Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, ao STF, justamente o seu Ministro e amigo particular, que, caso seja referendado pelo Senado Federal, será o revisor da Lava-Jato. Tal nomeação contraria tudo que escrevera Moraes na sua Tese de Doutorado-USP, conforme matéria do Jornal do Brasil (06/02/2017):

"Em sua tese de doutorado, apresentada na Faculdade de Direito da USP, em julho de 2000, o atual ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, defendeu que, na indicação ao cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal, fossem vetados os que exercem cargos de confiança durante o mandato do presidente da República em exercício, para que fosse evitada uma 'demonstração de gratidão política'. As informações são do jornal Estado de S. Paulo."

A partir daí surgem diversos questionamentos e amplia-se a desconfiança por parte da população brasileira, pelo menos daqueles que tentam refletir sobre a atual situação do país e desejam a todo custo continuar acreditando na possibilidade de extinção da barbárie e produção de uma sociedade mais civilizada. O caminho seria o investimento na educação e em pesquisas. No entanto, os fatos só aumentam o descrédito.

Como é possível pessoas que se investem da busca pelo conhecimento, de pesquisas extremamente aprofundadas (ou pelo menos deveriam ser), que se utilizam do dinheiro público para fazer doutorado e que se arvoram ao exercício da docência em busca da formação de pessoas e desenvolvimento de seu país, no momento de colocar em prática o seu conhecimento o fazer na direção oposta ao que seus estudos indicaram? Para que servem as teses de doutorado, se não for para auxiliar na melhoria da realidade social? Para que o Estado financia estudos como mestrados e doutorados, se não for para o bem da coletividade? Até nesse quesito (reflexões e pesquisas acadêmicas) o Brasil é colocado em xeque: de que servem os livros publicados pelos “estudiosos”, se seu texto não vai produzir novas práticas? De que servem os ensinamentos recebidos/trocados na academia se serão esquecidos pelos próprios donos da palavra? Que país é esse?

Ora, ora, o dinheiro do contribuinte no lixo, uma tese que não vale nada, contrariada pelo próprio autor, considerando que Moraes fez seu doutorado na USP, de forma gratuita. Se não bastasse isso, Alexandre Morais também é acusado de plágio, de ter copiado boa parte de uma obra espanhola, no campo do Direito, conforme alertou o professor Fernando Jayme, da UFMG . Se fosse em outro país, Moraes desistiria de tal empreitada, como o fizera Karl-Theodor zu Guttenberg, Ministro alemão da Defesa, conforme conta em matéria publicada pelo G1 (G1-01/03/2011):

"O ministro alemão da Defesa, Karl-Theodor zu Guttenberg, de 39 anos, importante figura do governo da chanceler Angela Merkel, apresentou nesta terça-feira (1º) o pedido de demissão depois de ter sido acusado de plágio na sua tese de doutorado." [...] 'Sempre estive disposto a lutar, mas cheguei ao limite de minhas forças', declarou à imprensa, antes de agradecer à chanceler Merkel, aos membros do partido conservador e aos soldados alemães. "

"Guttenberg ficou sem seu título de doutor em Direito, anunciou na semana passada a Universidade de Bayreuth."[...] 'A Universidade de Bayreuth retira do Sr. zu Guttenberg o título do doutorado', anunciou solenemente o presidente da instituição bávara, Rüdiger Bormann.[...]Ele é acusado de ter copiado passagens inteiras de outras teses sem citar seus autores. Isto valeu a ele pelo menos duas queixas na justiça e o apelido de ‘Barão copia-cola’ e ‘Barão von Googleberg’”.

Enquanto isso no Brasil, nada é capaz de dissuadir figuras envoltas na luta pelo poder de se apropriar da autoridade a eles instituída em favor da coerência intelectual (se é que há o conhecimento digno de respeito). Nada as leva a defender suas ideias disseminadas em ambientes acadêmicos e publicadas de forma ampla. O discurso “esqueça o que eu disse” parece a melhor justificativa para colocar no lixo pesquisas desenvolvidas com dinheiro púbico. Assim, até a academia está ameaçada, não apenas as instituições políticas, mas todo o conhecimento produzido no Brasil. Isso é grave, a ética na lata de lixo, o que nos deixa atônitos e apreensivos, uma vez que tais atos: nomeação de ministro e indicação para o STF, plágio, já seriam suficientes para uma reflexão profunda e recuo por parte desses atores imbuídos da “autoridade de professor doutor”. Uma questão ética!




*Rosana Carneiro Tavares - Professora na PUC-GO - Graduada, Mestra e Doutora em Psicologia Social  - PUC - GO