terça-feira, 30 de novembro de 2010

Carlos Drummond de Andrade - Poema


A NOITE DISSOLVE OS HOMENS


A Portinari




A noite
desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!
nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam
na escuridão
como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes
se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão
simples e macio...

Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.


In. Sentimento do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2002, 67-68.
Foto: Carlos Moraes / Agência O Dia - Munições apreendidas por policiais no Complexo do Alemão

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ludovico Ariosto - Poema


ORLANDO FURIOSO



CANTO I (continuação)


19.
Diz ao pagão: - Cuidas que só a mim,
Mas maltratas comigo a ti também,
Que se agora combates bravo assim
Pelo sol que ardoroso te mantém,
Reter-me aqui que te aproveita enfim?
Pois quer me faças morto, quer refém,
De ti bem longe se achará a senhora
Que, enquanto aqui tardamos, foi-se embora.


20.
Se lhe queres também, será melhor
Procurares detê-la pela estrada
Antes que uma distância inda maior
A separe de nós em sua jornada.
Quando a alcançarmos, seja-lhe senhor
Quem, de nós dois, prevalecer na espada,
Pois penso, aliás, que toda esta detença
Só nos pode servir de perda imensa.


21.
Ao pagão a proposta não despraz:
Eis que adiada assim fica a tenção.
Retorna ao seio de ambos logo a paz,
Caem no olvido o ódio e a indignação.
Deixando as frescas águas para trás,
Que Rinaldo está a pé lembra ao pagão.
Roga-lhe, insta e faz pôr-se na garupa;
Só Angélica alcançar ora os preocupa.


22.
Como outrora eram bons os cavaleiros!
Rivais no amor, a fé os fazia diversos,
Doíam-lhes na carne inda os certeiros,
Duros golpes, recíprocos e adversos.
Mas iam juntos por selvas e carreiros,
sem temer ou nutrir planos perversos.
Sob quatro esporas voava pela estrada
O animal, até achá-la bifurcada.


23.
Aqui chegados, sem saber se ruma
Por uma trilha ou outra a dama bela
(Já que ao olhar sem diferença alguma
Frescas pisadas uma e outra revela),
Convêm em que Fortuna o mando assuma:
Esta segue Rinaldo, o hispano aquela.
Ferraú pelo bosque inteiro gira
Até o ponto alcançar donde partira.


24.
Ei-lo de novo junto da ribeira
No lugar onde o elmo se afundara.
De reavê-lo ao rio, tenta a maneira
(A dama reaver desesperara).
Da margem desce até a extrema beira
Onde a praia das águas se separa.
Mas debalde se esforça e as mãos meneia
Que o elmo bem fincado está na areia.


25.
De um galho desfolhado havia feito,
Para a fundo sondar, vara bem longa,
E do rio esquadrinha todo o leito
Que o varapau o braço lhe prolonga.
Mas enquanto se acresce seu despeito
Pela procura inútil que se alonga,
Das águas, até o peito se descobre,
Com rosto irado, um cavaleiro nobre.


26.
Salvo a cabeça, tinha o corpo armado
E erguia um elmo em sua destra mão.
Era esse mesmo o elmo procurado
De Ferraú, por tanto tempo em vão.
A Ferraú falou, muito agastado,
E disse: - Ó infiel perjuro! Ó cão!
Por que da perda enfim te lamurias
Se o elmo há largo tempo me devias?



Tradução de Pedro Garcez Ghirardi.




In. ARIOSTO, Ludovico. Orlando Furioso. Trad.: Pedro Garcez Ghirardi. São Paulo:Ateliê, 2002,p.55-57.
Imagens retiradas da Internet: livro

domingo, 28 de novembro de 2010

Ludovico Ariosto - Poema


ORLANDO FURIOSO



CANTO I (continuação)


13.

a Dama desviou a montaria
e foi-se a rédea solta pela mata,
Sem procurar a mais segura via,
Onde o arvoredo menos se dilata.
Tresloucada, a tremer, pálida, a guia
Dá ao palafrém, que a esmo as trilhas cata.
Acima e abaixo, a vasta selva inteira
Percorreu e foi ter a uma ribeira.


14.
Junto à ribeira Ferraú mostrou-se
Coberto de poeira e suor copioso.
O que da frente de batalha o trouxe
Foram ganas de água e de repouso.
Depois, a contragosto, lá ficou-se,
Porque, sobre estouvado, sequioso,
Das mãos caiu-lhe ao rio o elmo, ao beber,
E não mais o alcançava reaver.


15.
Com quantas forças tem, ergue clamor,
Posta em fuga, a donzela apavorada;
Salta o mouro, escutando tal rumor,
E a reconhece, logo na chegada.
Ainda que, por obra do temor,
Mostrasse a face pálida e turvada,
É aquela de quem vai buscando novas,
É angélica, não há querer mais provas.


16.
Cavaleiro cortês, quiçá rival
Dos primeiros no estimar igual beleza;
Se elmo lhe falta, o que inda o braço val
Logo à dama oferece por defesa.
A arma empunha e feroz corre aonde o mal
Suspeita então rinaldo tal surpresa.
Eram já os cavaleiros conhecidos
De vista e d'armas, desde tempos idos.


17.
Apeados ali, sem que lhes valha
Couraça ou malha miúda como escudo
(A espada de qualquer tão rijo talha
Quem em bigorna faria corte agudo),
Encetam crudelíssima batalha.
A dama ao palafrém manda contudo
Que aperte o pé, com quantas força tenha,
E em campos, matagais, assim se embrenha.


18.
Largo tempo forceja um por ter mão
Do outro, mas nenhum ao outro abala,
Pois ambos consumados mestres são
De perícia na espada, ao menejá-la.
Afinal o senhor de Montalvão
Dirige ao cavaleiro hispano a fala
Como alguém cujo peito se acha em fogo
Abrasador, que rompe em desafogo.


Tradução de Pedro Garcez Ghirardi.




In. ARIOSTO, Ludovico. Orlando Furioso. Trad.: Pedro Garcez Ghirardi. São Paulo:Ateliê, 2002,p.54-55.
Imagens retiradas da Internet

sábado, 27 de novembro de 2010

Ludovico Ariosto - Poema



ORLANDO FURIOSO



CANTO I

1.
Damas e paladinas, armas e amores,
As cortesias e as façanhas canto
Do tempo em que o mar d'África os rigores
Dos mouros trouxe, e França esteve em pranto;
Ira os movia e juvenis furores
De Agramante seu rei, disposto a tanto,
Que ousou vingar a morte de Troiano,
Em Carlos, rei e imperador romano.


2.
Hei de dizer de Orlando, juntamente,
O que nunca se disse, em prosa ou rima:
Que ficou, por amor, louco fremente,
Pondo a perder de homem cordato a estima;
Isto, se aquela que me faz demente
E o pouco engenho me corrói qual lima,
Assentir em poupar-me em tal medida,
Que eu possa dar a obra prometida.

3.
Dignai-vos, ó hercúlea prole Estense,
Ornamento e esplendor do tempo nosso,
Hipólito, aceitar, pois vos pertence,
A oferta do criado humilde vosso.
O que vos devo em grande parte vence
Quando co' o verbo e a pena pagar posso;
Nem por vos dar tão pouco ingrato sou,
Pois do que posso dar, tudo vos dou.

4.
Dentre os grandes heróis, se ora me ouvis,
Vereis lembrado o nome sobranceiro
Que de vossa linhagem foi raiz,
Rogério, de alta estirpe avô primeiro;
E se benignamente consentis
Em dar-me, por um pouco, ouvido inteiro,
Deixando por meu canto altos cuidados,
Seus feitos achareis aqui exaltados.


5.
De Angélica formosa enamorado
Ficara Orlando, e por amores seus
Em Tartária, Índia e Média havia deixado
Inumeráveis e imortais troféus.
Ei-lo agora retornado
Ao ocidente, ao pé dos Pirineus,
Aos arraiais de França e de Alemanha,
Convocados de Carlos à campanha,

6.
Para que os reis Marsílio e Agramante
Cara custasse a estulta confiança
Com que um de África todo o homem prestante
Trouxera armado com espada e lança,
E outro de Espanha se pusera adiante
Por oprimir o lindo chão de França.
Voltava então Orlando ao pátrio solo,
Mas logo a volta o pôs em desconsolo.


7.
Pois logo sua amada ali perdia:
Que o juízo humano tantas vezes erra!
Aquela pela qual lutado havia,
Da Eólia à Espéria, em tão renhida guerra,
Ora a perde entre amiga companhia,
Sem a espada brandir, em sua terra.
É sábio imperador quem, tendo em mira
Grave incêndio extinguir, assim lha tira.


8.
Desavença recente separara
Rinaldo e o conde Orlando, que é seu primo:
Da mesma dama, a formosura rara
Os abrasava, pela graça e o mimo.
Carlos, a quem o pleito desgostara,
Pois desss bravos lhe tolhia o arrimo,
A donzela, que aos dois indispusera,
Deu em custódia ao duque de Baviera;



9.
E em prêmio a reservou ao que se houvesse
Com mais valor naquela grã jornada,
Ao que mais infiéis ali abatesse
Pelo valor do braço e forte espada.
Mal fundada esperança, que fenece
Ao pôr-se em fuga a gente batizada.
Força é que então com outros mil se renda
O duque e, preso, deixe ao léu a tenda.


10.
Ali se achara dantes a donzela
Ao vencedor em prêmio prometida.
Durante o embate, ela subira à sela
E, sem que suspeitassem, foi partida.
Sentiu - veio um presságio esclarecê-la -
Que a Fortuna aos cristãos baldara a lida.
Assim, entrou num bosque, e num carreiro
Encontrou, vindo a pé, um cavaleiro.


11.
Vestia couraça e tinha na cabeça
O elmo; ao flanco, espada; à mão, escudo;
O bosque atravessava mais depressa
Que em prova de corrida aldeão rudo.
Tímida pastorinha não se apressa
De serpente a fugir bote sanhudo,
Como Angélica as rédeas desviou
Logo que caminhante divisou.


12.
Era esse paladim, nobre e galhardo,
Filho de Amon, senhor de Montalvão.
Tinha perdido seu corcel, Baiardo,
Pouco havia, em insólita ocasião.
Reconheceu a dama, e, como dardo,
O amor lhe trespassou o coração.
Vendo-lhe ao longe o angélico semblante
Caiu do amor nos laços nesse instante.




Tradução de Pedro Garcez Ghirardi.


In. ARIOSTO, Ludovico. Orlando Furioso. Trad.: Pedro Garcez Ghirardi. São Paulo:Ateliê, 2002,p.51-53.
Imagens retiradas da Internet

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Sinésio Dioliveira - Poema

Viagem incomo(Dante)


Para o Amigo Chico Perna




Quão incomo(Dante)
É essa viagem metafísica
Pela vereda dual entre o céu e o inferno!

A comédia humana é sim divina.
E nela o demônio tem sido protagonista.
Deus está atrás das cortinas.

Os mitos impedem a demência de muitos homens.
Os poetas fogem à regra:
São loucos sublimes.
Não jogam pedra na lua
Mas lhe oferecem flores
E serenata com canto de pássaros.

Essa é a vereda tomada pelos poetas
para "entreter a razão"
e dar alegria ao "comboio de corda
que se chama coração".


Imagem retirada da Internet: Dante.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Alexandre O'Neill - Poema



Sei os teus seios.
Sei-os de cor.

Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.

Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.

Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas!

Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!

Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p'la manhã?

Quantas vezes
Interrogaste, ao espelho, os seios?

Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!

Quantos seios ficaram por amar?

Seios pasmados, seios lorpas, seios
Como barrigas de glutões!

Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!

Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em deseperadas, quarentonas lágrimas...

Seios fortes como os da Liberdade
-Delacroix-guiando o Povo.

Seios que vão à escola p'ra de lá saírem
Direitinhos p'ra casa...

Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes filhos alheios!

Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer...

O amor excessivo dum poeta:
"E hei-de mandar fazer um almanaque
da pele encadernado do teu seio"
(Gomes Leal)

Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!

Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.

Botas, botirrafas
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece!

Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!

"Oculta, pois, oculta esses objectos
Altares onde fazem sacrifícios
Quantos os vêem com olhos indiscretos"
(Abade de Jazente)

Raimundo Lúlio, a mulher casada
Que cortejaste, que perseguiste
Até entrares, a cavalo, p'la igreja
Onde fora rezar,
Mudou-te a vida quando te mostrou
("É isto que amas?")
De repente a podridão do seio.

Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida: inesperados seios...

Uma roda de velhos seios despeitados,
Rabujando,
A pretexto de chá...

Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou...

Quantos seios devorou a guerra, quantos,
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!

Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne.

Vejo os teus seios, absortos
Sobre um pequeno ser


Imagem retirada da Internet: seios

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Antônio Frederico de Castro Alves - Poema


Adormecida



Ses longs cheveux épars la couvrent sonie entière.
La croix de son collier repose dans sa main,
comme pour témoigner qu'elle a fait sa prière.
Et qu'elle va la faire en s'éveillant demain.

Alfred de Musset



Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão.... solto o cabelo
e o pé descalço do tapete rente.

'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
indiscretos entravam pela sala,
e de leve oscilando ao tom das auras,
iam na face trêmulos -beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
pra não zangá-la... sacudia alegre
uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
naquela noite lânguida e sentida:
«Ó flor! -tu és a virgem das campinas!
Virgem! -tu és a flor de minha vida!...».


Imagem retirada da Internet: adormecida

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Wender Montenegro - Poema


Manoel de Barros

delírios do verbo ou arapucas de pegar Manoel



ao poeta Manoel de Barros



1

as manhãs me imensam

como em Ungaretti

arroios me gorjeiam de esplendor

lá onde as árvores se garçam

e o sol brinca de arvorecer

2

a palavra cansanção tem ardimentos

e o menino descalço nem aí

pois lhe escuda a voz dos passarinhos

esse moleque arteiro estica o sol

carrega o cenho do peru no grito

3

bicho danado é maracujá

engole a voz das ateiras

as mangueiras roubam o sol do chão

e o pé de mastruz

enverdece os ossos da avó

4

mosca de manga

se agiganta no amarelo

como Van Gogh

borboletas adoçam a aridez dos cactos

e o sanhaçu assusta os mamoeiros

5

nas mãos do mar

a linha do horizonte tem cerol

lá, a pipa do céu cai mais depressa

quando as margens da tarde me anoitecem




Imagem retirada da Internet: Manoel de Barros

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Brasigóis Felício - Ensaio curto


O poder da sombra



Por Brasigóis Felício*



O guerreiro da luz, para luzir-se de si, não precisa nem deseja apagar o sol dos outros. Antes, torna mais viva a vida de quem dele se aproxima. E quanto mais o iluminado pela luz do caminho, mais se embriaga da verdade infinita – mesmo sabendo que jamais alcançará a chama, nem sua mente terá ao menos um lampejo da Realidade Última. E também sabe que leva consigo a sombra, como herança de sua própria existência, e de toda a humanidade, desde os primórdios mais remotos: é a sombra coletiva, inerente à dualidade da vida manifesta como matéria - implacável e vingativa, quando negligenciada ou negada.

Disto nos falaram mestres de sabedoria – dentre eles um cientista da mente, psiquiatra e místico: o suíço dissidente de Freud, C.G. Jung. De fato, a sombra representa um poder que não pode ser ignorado, nem mesmo pelos guerreiros da luz. Jesus, o Cristo, para não cair em tentação, entrou em profundo jejum meditativo, por quarenta dias e noites, no deserto, ou na noite escura da alma. E a seu assédio respondeu: “Não tentarás o senhor teu Deus”.

Deepak Chopra nos diz, no livro O efeito sombra: “Permanecer inconsciente é fácil. Basta fingir, de vez em quando, que estamos conscientes. O inconsciente tem um objetivo, que é nos manter inconscientes. Às vezes o consciente dá uma espiada, mesmo assim”. O que nos permite agir na e pela inconsciência, em meio a outros que fazem o mesmo que nós: todos maçãs podres no cesto, dando como certo que são pessoas saudáveis. O que teria tal assertiva a ver com a realidade de nossos dias? Mais do que pode supor a nossa vã saciologia. Pois tem a ver com os dias de todos os tempos humanos.

Explico: basta ver o que estampam jornais, televisivos ou impressos, ou todas as mídias – de repente, não mais que de repente, aquela celebridade milionária ou a vetusta autoridade foi apanhada em crime escandaloso, tipo pedofilia, por exemplo, já que uso de drogas não é mais tipificado como conduta criminosa. Pastores midiáticos, como o americano, de fama internacional, é filmado em fuque-fuque com prostitutas. Ou o caso recente do esportista número dos EUA, maior ídolo do golfe de todos os tempos, auto-denunciado como viciado em sexo, praticante de adultério compulsivo e continuado.

Seria o efeito sombra, a agir tanto na patuléia quanto em personalidades celebérrimas, acima de qualquer suspeita? Acreditados estudiosos da alma humana, como C.G. Jung, Deepak Chopra, Debbie Ford e Marianne Williamson – para citar somente estes – garantem que é a pura e assustadora verdade. De repente, magistrados são flagrados liderando esquemas de corrupção, outro mata um guarda de supermercado, por querer entrar no estabelecimento quando ele se achava fechado.

Ou, remember o narco-deputado Hidelbrando Padilha, chefe de narcotráfico, que comprava votos com cocaína, conhecido como o assassino da motosserra... Exemplos aterradores não faltam, dando conta da ação não só da sombra de cada indivíduo humano, mas também da sobra coletiva, que se manifesta como atentados terroristas, guerras religiosas, e a entrega de sociedades ricas, pobres ou remediadas ao abismo das drogas lícitas ou ilícitas.

C.G. Jung não foi o primeiro a perceber e denunciar o efeito sombra sobre a existência de toda criatura humana – esteja ela ou consciente ou inconsciente disto. Antes dele, milênios atrás, místicos como São Juan De La Cruz, em sua descida aos infernos, A noite escura da alma, ou mesmo Buda, antes da iluminação, nos seis anos de busca da verdade última, como iogue das mortificações e do sofrimento auto-imposto – ou a mística Tereza de Ávila, de seu Castelo Interior e Moradas: a sombra passou a ser vista e reconhecida com um olhar científico, o que lhe deu credibilidade – e ares de realidade.

Jung, que teve sonhos e visões místicas, desde quando era criança, estudou o efeito sombra sobre a humanidade a partir de experiências dele próprio e de seus pacientes. Então teve clarões que o levaram a perceber os mecanismos pelos quais a sombra atua sobre todas as criaturas humanas, não importando o grau de cultura ou de civilização a que pertençam. O que ressalta, em seus estudos e vivências, é o poder da sombra, e o modo terrível e destrutivo com que ela se vinga de quem a reprime, negligencia ou ignora.

A psique é constituída por um material indevassável ao olhar cartesiano, e sua linguagem é marcada pela ambigüidade. Por isto, assinalou Jung: “A maior e a mais extraordinária experiência humana ainda é a muito limitada” – nadica de nonadas, perante o infinito mistério da vida. Por isto até mesmo homens notáveis procuram não encarar a sua sombra, ou então tentam aprisiona-la, acorrentando-a no escaninho da repressão. Ver a si mesmos como são, em seus aleijões e monstruosidades, é mais do que podem suportar: “Há domínios onde não se pode e nem se deve penetrar – há destinos que não suportam a intervenção humana”.


*Brasigóis Felício é Poeta e Membro da Academia Goiana de Letras.


Imagem retirada da Internet: sombra

domingo, 21 de novembro de 2010

Francisco Perna Filho - Poema

IMBECIL


Tinha o rei na barriga,

uma fome descomunal,

e um milhão de ideias.

Enganado pela rainha,

provou do próprio veneno

e sucumbiu no reino.


Imagem retirada da Internet: imbecil

sábado, 20 de novembro de 2010

Célio Pedreira - Poema



20 de novembro, Dia da Consciência Negra




NOTÍCIA PARA OS DIAS




Algumas mudas de pedras plantadas
para dar moradia a monumentos
e regadas de ontem
nunca floram.

Ao meu lado andam
vivas flores e perenes
que tempo nenhum
piedade nenhuma
nem leis
predem.


Habitam-me séculos delas.




Imagem retirada da Internet: consciência negra

Monteiro Lobato - Conto

Monteiro Lobato na Revista do Brasil


URUPÊS




Esboroou-se o balsâmico indianismo de Alencar ao advento dos Rondons que, ao invés de imaginarem índios num gabinete, com reminiscências de Chateaubriand na cabeça e a Iracema aberta sobre os joelhos, metem-se a palmilhar sertões de Winchester em punho.

Morreu Peri, incomparável idealização dum homem natural como o sonhava Rousseau, protótipo de tantas perfeições humanas que no romance, ombro a ombro com altos tipos civilizados, a todos sobrelevava em beleza d'alma e corpo.

Contrapôs-lhe a cruel etnologia dos sertanistas modernos um selvagem real, feio e brutesco, anguloso e desinteressante, tão incapaz, muscularmente, de arrancar uma palmeira, como incapaz, moralmente, de amar Ceci.

Por felicidade nossa - a de D. Antonio de Mariz - não os viu Alencar; sonhou-os qual Rousseau. Do contrário lá teríamos o filho de Arará a moquear a linda menina num bom braseiro de pau brasil, em vez de acompanhá-la em adoração pelas selvas, como o Ariel benfazejo do Paquequer.

A sedução do imaginoso romancista criou forte corrente. Todo o clã plumitivo deu de forjar seu indiozinho refegado de Peri e Atala. Em sonetos, contos e novelas, hoje esquecidos, consumiram-se tabas inteiras de aimorés sanhudos, com virtudes romanas por dentro e penas de tucano por fora.

Vindo o público a bocejar de farto, já céptico ante o crescente desmantelo do ideal, cessou no mercado literário a procura de bugres homéricos, inúbias, tacapes, borés, piágas e virgens bronzeadas. Armas e heróis desandaram cabisbaixos, rumo ao porão onde se guardam os móveis fora de uso, saudoso museu de extintas pilhas elétricas que a seu tempo galvanizaram nervos. E lá acamam poeira cochichando reminiscências com a barba de D. João de Castro, com os frankisks de Herculano, com os frades de Garrett e que tais...

Não morreu, todavia.

Evoluiu.

O indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado. Crismou-se de "caboclismo". O cocar de penas de arara passou a chapéu de palha rebatido à testa; o ocara virou rancho de sapé; o tacape afilou, criou gatilho, deitou ouvido e é hoje espingarda troxadal o boré descaiu lamentavelmente para pio de inambu; a tanga ascendeu a camisa aberta ao peito.

Mas o substrato psíquico não mudou: orgulho indomável, independência, fidalguia, coragem, virilidade heróica, todo o recheio em suma, sem faltar uma azeitona, dos Perís e Ubirajaras.

Estes setembrino rebrotar duma arte morta inda se não desbagoou de todos os frutos. Terá o seu "I Juca Pirama", o seu "Canto do Piaga" e talvez dê ópera lírica.

Mas, completado o ciclo, virão destroçar o inverno em flor da ilusão indianista os prosaicos demolidores de ídolos - gente má e sem poesia. Irão os malvados esgaravatar o ícone com as curetas da ciência. E que feias se hão de entrever as caipirinhas cor de jambo de Fagundes Varela! E que chambões e sornas os Peris de calça, camisa e faca à cinta!

Isso, para o futuro. Hoje ainda há perigo em bulir no vespeiro: o caboclo é o "Ai Jesus!" nacional.

É de ver o orgulhoso entono com que respeitáveis figurões batem no peito exclamando com altivez: sou raça de caboclo!

Anos atrás o orgulho estava numa ascendência de tanga, inçada de penas de tucano, com dramas íntimos e flechaços de curare.

Dia virá em que os veremos, murchos de prosápia, confessar o verdadeiro avô: - um dos quatrocentos de Gedeão trazidos por Tomé de Souza (1) num barco daqueles tempos, nosso mui nobre e fecundo "Mayflower".

Porque a verdade nua manda dizer que entre as raças de variado matiz, formadoras da nacionalidade e metidas entre o estrangeiro recente e o aborígene de tabuinha no beiço, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feia e sorna, nada a põe de pé.

Quando Pedro I lança aos ecos o seu grito histórico e o país desperta estrouvinhado à crise duma mudança de dono, o caboclo ergue-se, espia e acocora-se de novo.

Pelo 13 de Maio, mal esvoaça o florido decreto da Princesa e o negro exausto larga num uf! o cabo da enxada, o caboclo olha, coça a cabeça, 'magina e deixa que do velho mundo venha quem nele pegue de novo.

A 15 de Novembro troca-se um trono vitalício pela cadeira quadrienal. O país bestifíca-se ante o inopinado da mudança. (2) O caboclo não dá pela coisa.

Vem Florianol estouram as granadas de Custódiol Gumercidndo bate às portas de Roimal Incitatus derranca o país. (3) O caboclo continua de cócoras, a modorrar...

Nada o esperta. Nenhuma ferrotoada o põe de pé. Social, como individualmente, em todos os atos da vida, Jéca, antes de agir, acocora-se.

Jéca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie.

Hei-lo que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro movimento após prender entre os lábios a palha de milho, sacar o rolete de fumo e disparar a cusparada d'esguicho, é sentar-se jeitosamente sobre os calcanhares. Só então destrava a língua e a inteligência.

  • "Não vê que...

De pé ou sentado as idéias se lhe entramam, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa.

De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao fogo para "aquentá-lo", imitado da mulher e da prole.

Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, tostas um cabo de foice, fazê-lo noutra posição será desastre infalível. Há de ser de cócoras.

Nos mercados, para onde leva a quitanda domingueira, é de cócoras, como um faquir do Bramaputra, que vigia os cachinhos de brejaúva ou o feixe de três palmitos.

Pobre J'[eca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!

Jéca mercador, Jéca lavrador, Jéca fisólofo...

Quando comparece às feiras, todo mundo logo advinha o que ele traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar a mão e colher - cocos de tucum ou jissara, guabirobas, bacuparis, maracujás, jataís, pinhões, orquídeas ou artefatos de taquara-poca - peneiras, cestinhas, samburás, tipitis, pios de caçador ou utensílios de madeira mole - gamelas, pilõesinhos, colheres de pau.

Nada Mais.

Seu grande cuidado é espremer todas as conseqüências da lei do menor esforço - e nisto vai longo.

Começa na morada. Sua casa de sapé e lama faz sorrir aos bichos que moram em toca e gargalhar ao joão-de-barro. Pura biboca de bosquimano. Mobília, nenhuma. A cama é uma espipada esteira de peri posta sobre o chão batido.

Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de três pernas - para hospedes. Três pernas permitem equilíbrio inútil, portanto, meter a Quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão. Para que assentos, se a natureza os dotou de sólidos, rachados calcanhares sobre os quais se sentam?

Nenhum talher. Não é a munheca um talher completo - colher, garfo e faca a um tempo?

No mais, umas cuias, gamelinhas, um pote esbeiçado, a pichorra e a panela de feijão.

Nada de armários ou baús. A roupa, guarda-a no corpo. Só tem dois parelhosl um que traz no uso e outro na lavagem.

Os mantimentos apaióla nos cantos da casa.

Inventou um cipó preso à cumieira, de gancho na ponta e um disco de lata no alto, alí pendura o toucinho, a salvo dos gatos e ratos.

Da parede pende a espingarda picapau, o polvarinho de chifre, o S. Benedito defumado, o rabo de tatu e as palmas bentas de queimar durante as fortes trovoadas. Servem de gaveta os buracos da parede.

Seus remotos avós não gozaram maiores comodidades. Seus netos não meterão Quarta perna ao banco. Para que? Vive-se bem sem isso.

Se pelotas de barro caem, abrindo seteiras na parede, Jéca não se move a repô-las. Ficam pelo resto da vida os buracos abertos, a entremostrarem nesgas de céu.

Quando a palha do teto, apodrecida, greta em fendas por onde pinga a chuva, Jéca, em vez de remendar a tortura, limita-se, cada vez que chove, a aparar numa gamelinha a água gotejante...

Remendo... Para que? Se uma casa dura dez anos e faltam "apenas " nove para que ele abandone aquela? Esta filosofia economiza reparos.

Na mansão de Jéca a parede dos fundos bojou para fora um ventre empanzinado, ameaçando ruir; os barrotes, cortados pela umidade, oscilam na podriqueira do baldrame. Afim de neutralizar o desaprumo e prevenir suas conseqüências, ele grudou na parede uma Nossa Senhora enquadrada em moldurinha amarela - santo de mascate.

  • "Por que não remenda essa parede, homem de Deus?
  • "Ela não tem coragem de cair. Não vê a escora?

Não obstante, "por via das dúvidas" , quando ronca a trovoada Jéca abandona a toca e vai agachar-se no ôco dum velho embirussu do quintal - para se saborear de longe com a eficácia da escora santa.

Um pedaço de pau dispensaria o milagre! mas entre pendurar o santo e tomar da foice, subir ao morro, cortar a madeira, atorá-la, baldeá-la e especar a parede, o sacerdote da Grande lei do Menor Esforço não vacila. É coerente.

Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O mato o beira. Nem árvores frutíferas, nem horta, nem flores - nada revelador de permanência.

Há mil razões para isso; porque não é sua a terral porque se o "tocarem" não ficará nada que a outrem aproveite; porque para frutas há o mato; porque a "criação" come; porque...

  • "Mas, criatura, com um vedozinho por ali... A madeira está à mão, o cipó é tanto..."

Jéca, interpelado, olha para o morro coberto de moirões, olha para o terreiro nu, coça a cabeça e cuspilha.

  • "Não paga a pena".

Todo o inconsciente filosofar do caboclo grulha nessa palavra atravessada de fatalismo e modorra. Nada paga a pena. Nem culturas, nem comodidades. De qualquer jeito se vive.

Da terra só quer a mandioca, o milho e a cana. A primeira, por ser um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas. Não impõe colheita, nem exige celeiro. O plantio se faz com um palmo de rama fincada em qualquer chão. Não pede cuidados. Não a ataca a formiga. A mandioca é sem vergonha.

Bem ponderado, a causa principal da lombeira do caboclo reside nas benemerências sem conta da mandioca. Talvez que sem ela se pusesse de pé e andasse. Mas enquanto dispuser de um pão cujo preparo se resume no plantar, colher e lançar sobre brasas, Jéca não mudará de vida. O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente. Se a poder de estacas e diques o holandês extraiu de um brejo salgado a Holanda, essa jóia do esforço, é que ali nada o favorecia. Se a Inglaterra brotou das ilhas nevoentas da Caledônia, é que lá não medrava a mandioca. Medrasse, e talvez os víssemos hoje, os ingleses, tolhiços, de pé no chão, amarelentos, mariscando de peneira no Tamisa. Há bens que vêm para males. A mandioca ilustra este avesso de provérbio.

Outro precioso auxiliar da calaçaria é a cana. Dá rapadura, e para Jéca, simplificador da vida, dá garapa. Como não possui moenda, torce a pulso sobre a cuia de café um rolete, depois de bem massetados os nós; açucara assim a beberagem, fugindo aos trâmites condutores do caldo de cana à rapadura.

Todavia, est modus in rebus. E assim como ao lado do restolho cresce o bom pé de milho, contrasta com a cristianíssima simplicidade do Jéca a opulência de um seu vizinho e compadre que "está muito bem." A terra onde mora é sua. Possui ainda uma égua, monjolo e espingarda de dois canos. Pesa nos destinos políticos do país com o seu voto e nos econômicos com o polvilho azedo de que é fabricante, tendo amealhado com ambos, voto e polvilho, para mais de quinhentos mil réis no fundo da arca.

Vive num corrupio de barganhas nas quais exercita uma astúcia nativa muito irmã da de Bertoldo. A esperteza última foi a barganha de um cavalo cego por uma égua de passo picado. Verdade é que a égua mancava das mãos, mas ainda assim valia dez mil réis mais do que o rossinante zanaga.

Esta e outras celebrizaram-lhe os engrimanços potreiros num raio de mil braças, grangeando-lhe a incondicional e babosa admiração do Jéca, para quem, fino como o compadre, "home" ... nem mesmo o vigário de Itaóca!.

Aos domingos vai à vila bifurcado na magreza ventruda da Serena; leva apenso à garupa um filho e atrás o potrinho no trote, mais a mulher, com a criança nova enrolada no chale. Fecha o cortejo o indefectível Brinquinho, a resfolgar com um palmo de língua de fora.

O fato mais importante de sua vida é sem dúvida votar no governo. Tira nesse dia da arca a roupa preta do casamento, sarjão furadinho de traça e todo vincado de dobras, entala os pés num alentado sapatão de bezerro; ata ao pescoço um colarinho de bico e, sem gravata, ringindo e mancando, vai pegar o diploma de eleitor às mãos do chefe Coisada, que lho retém para maior garantia da fidelidade partidária.

Vota. Não sabe em quam, mas vota. Esfrega a pena no livro eleitoral, arabescando o aranhol de gatafunhos a que chama "sua graça".

Se há tumulto, chuchurrea de pé firme, com heroísmo, as porretadas oposicionistas, e ao cabo segue para a casa do chefe, de galo cívico na testa e colarinho sungado para trás, afim de novamente lhe depor nas mão o "diploma".

Grato e sorridente, o morubixaba galardoa-lhe o heroísmo, flagrantemente documentado pelo latejar do couro cabeludo, com um aperto de munheca e a promessa, para logo, duma inspetoria de quarteirão.

Representa este freguês o tipo clássico do sitiante já com um pé fora da classe. Exceção, díscolo que é, não vem ao caso. Aqui tratamos da regra e a regra é Jéca Tatu.

O mobiliário cerebral de Jéca, à parte o suculento recheio de superstições, vale o do casebre. O banquinho de três pés, as cuias, o gancho de toucinho, as gamelas, tudo se reedita dentro de seus miolos sob a forma de idéias: são as noções práticas da vida, que recebeu do pai e sem mudança transmitirá aos filhos.

O sentimento de pátria lhe é desconhecido. Não tem sequer a noção do país em que vive. Sabe que o mundo é grande, que há sempre terras para diante, que muito longe está a Corte com os graúdos e mais distante ainda a Bahia, donde vêm baianos pernósticos e cocos.

Perguntem ao Jéca quem é o presidente da República.

  • "O homem que manda em nós tudo?
  • "Sim.
  • "Pois de certo que há de ser o imperador.

Em matéria de civismo não sobe de ponto.

  • "Guerra? T'esconjuro! Meu pai viveu afundado no mato p'ra mais de cinco anos por causa da guerra grande. (4) Eu, para escapar do "reculutamento", sou inté capaz de cortar um dedo, como o meu tio Lourenço...

Guerra, defesa nacional, ação administrativa, tudo quanto cheira a governo resume-se para o caboclo numa palavra apavorante - "reculutamento".

Quando em princípios da Presidência Hermes andou na balha um recenseamento esquecido a Offenbach, o caboclo tremeu e entrou a casar em massa. Aquilo "havera de ser reculutamento", e os casados, na voz corrente, escapavam à redada.

A sua medicina corre parelhas com o civismo e a mobília - em qualidade. Quantitativamente, assombra. Da noite cerebral pirilampejam-lhe apozemas, cerotos, arrobes e eletuários escapos à sagacidade cômica de Mark Twain. Compendia-os um Chernoviz não escrito, monumento de galhofa onde não há rir, lúgubre como é o epílogo. A rede na qual dois homens levam à cova as vítimas de semelhante farmacopéia é o espetáculo mais triste da roça.

Quem aplica as mezinhas é o "curador", um Eusébio Macário de pé no chão e cérebro trancado como muita de taquaruçu. O veículo usual das drogas é sempre a pinga - meio honesto de render homenagem à deusa Cachaça, divindade que entre eles ainda não encontrou heréticos.

Doenças hajam que remédios não faltam.

Para bronquite, é um porrete cuspir o doente na boca de um peixe vivo e soltá-lo: o mal se vai com o peixe água abaixo...

Para "quebranto de ossos", já não é tão simples a medicação. Tomam-se três contas de rosário, três galhos de alecrim, três limas de bico, três iscas de palma benta, três raminhos de arruda, três ovos de pata preta (com casca; sem casca desanda) e um saquinho de picumã! mete-se tudo numa gamela d'água e banha-se naquilo o doente, fazendo-o tragar três goles da zurrapa. É infalível.

O específico da brotoeja consiste em cozimento de beiço de pote para lavagens. Ainda há aqui um pormenor de monta; é preciso que antes do banho a mãe do doente molhe na água a ponta de sua trança. As brotoejas saram como por encanto.

Para dor de peito que "responde na cacunda", cataplasma de "jasmim de cachorro" é um porrete.

Além desta alopatia, para a qual contribui tudo quanto de mais repugnante e inócuo existe na natureza, há a medicação simpática, baseada na influição misteriosa de objetos, palavras e atos sobre o corpo humano.

O ritual bizantino dentro de cujas maranhas os filhos do Jéca vêm ao mundo, e do qual não há fugir sob pena de gravíssimas conseqüências futuras, daria um in-fólio d'alto fôlego ao Sílvio Romero bastante operoso que se propusesse a compendiá-lo.

Num parto difícil nada tão eficaz como engolir três caroços de feijão mouro, de passo que a parturiente veste pelo avesso a camisa do marido e põe na cabeça, também pelo avesso, o seu chapéu. Falhando esta simpatia, há um derradeiro recurso: colar no ventre encruado a imagem de S. Benedito.

Nesses momentos angustiosos outra mulher não penetre no recinto sem primeiro defumar-se ao fogo, nem traga na mão caça ou peixe. A criança morreria pagã. A omissão de qualquer destes preceitos fará chover mil desgraças na cabeça do chorincas recém- nascido.

A posse de certos objetos confere dotes sobrenaturais. A invulnerabilidade às facadas ou cargas de chumbo é obtida graças à flor da samambaia.

Esta planta, conta Jéca, só floresce uma vez por ano, e só produz em cada samambaial uma flor. Isto à meia noite, no dia de S. Bartolomeu. É preciso ser muito esperto para colhe-la, porque também o diabo anda à cata. Quem consegue pegar uma, ouve logo um estouro e tonteia ao cheiro de enxofre - mas livra-se de faca e chumbo pelo resto da vida.

Todos os volumes do Larousse não bastariam para catalogar-lhes as crendices, e como não há linhas divisórias entre estas e a religião, confundem-se ambas em maranhada teia, não havendo distinguir onde pára uma e começa outra.

A idéia de Deus e dos santos torna-se jéco-cêntrica. São os santos os graúdos lá de cima, os coronéis celestes, debruçados no azul para espreitar-lhes a vidinha e intervir nela ajudando-os ou castigando-os, como os metediços deuses de Homero. Uma torcedura de pé, um estrepe, o feijão entornado, o pote que rachou, o bicho que arruinou - tudo diabruras da corte celeste, para castigo de más intenções ou atos.

Daí o fatalismo. Se tudo movem cordéis lá de cima, para que lutar, reagir? Deus quis. A maior catástrofe é recebida com esta exclamação, muito parenta do "Allah Kébir" do beduíno.

E na arte?

Nada.

A arte rústica do campônio europeu é opulenta a ponto de constituir preciosa fonte de sugestões para os artistas de escol. Em nenhum país o povo vive sem a ela recorrer para um ingênuo embelezamento da vida. Já não se fala no camponês italiano ou teutônico, filho de alfobres mimosos, propícios a todas as florações estéticas. Mas o russo, o hirsuto mujique a meio atolado em barbarie crassa. Os vestuários nacionais da Ucrânia nos quais a cor viva e o sarapantado da ornamentação indicam a ingenuidade do primitivo, os isbas da Lituânia, sua cerâmica, os bordados, os móveis, os utensílios de cozinha, tudo revela no mais rude dos campônios o sentimento da arte.

No samoieda, no pele-vermelha, no abexim, no Papua, un arabesco ingênuo costuma ornar-lhes as armas - como lhes ornam a vida canções repassadas de ritmos sugestivos.

Que nada é isso, sabido como já o homem pré-histórico, companheiro do urso das cavernas, entalhava perfis de mamutes em chifres de rena.

Egresso à regra, não denuncia o nosso caboclo o mais remoto traço de um sentimento nascido com o troglodita.

Esmerilhemos o seu casebre: que é que ali denota a existência do mais vago senso estético? Uma chumbada no cabo do relho e uns ziguezagues a canivete ou fogo pelo roliço do porretinho de guatambú. É tudo.

Às vezes surge numa família um gênio musical cuja fama esvoaça pelas redondezas. Ei-lo na viola concentra-se, tosse, cuspilha o pigarro, fere as cordase "tempera" , E fica nisso, no tempero.

Dirão: e a modinha?

A modinha, como as demais manifestações de arte popular existentes no país, é obra do mulato, em cujas veias o sangue recente do europeu, rico de atavismos estéticos, borbulha d'envolta com o sangue selvagem, alegre e são do negro.

O caboclo é soturno.

Não canta senão rezas lúgubres.

Não dança senão o cateretê aladainhado.

Não esculpe o cabo da faca, como o cabila.

Não compõe sua canção, como o felá do Egito.

No meio da natureza brasílica, tão rica de formas e cores, onde os ipês floridos derramam feitiços no ambiente e a infolhescência dos cedros, às primeiras chuvas de setembro, abre a dança dos tangarás; onde há abelhas de sol, esmeraldas vivas, cigarras, sabiás, luz, cor, perfume, vida dionisíaca em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas.

Só ele não fala, não canta, não ri, não ama.

Só ele, no meio da tanta vida, não vive...

  1. Tomé de Souza veio ao Brasil com um carregamento de 400 degredados e uns tantos jesuítas.
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