quinta-feira, 31 de maio de 2012

Carlos Drummond de Andrade - Poema



Acordar, viver


Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.




Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?




Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?




Ninguém responde, a vida é pétrea.


Imagem retirada da Internet: homem

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Henrique Borges Machado Lima - Conto



Espaço interior




Sou um cara de costumes e rotinas, faço as coisas como sei que sempre dão certo, do tipo “não se mexe em time que tá ganhando”. Até em coisas pequenas sigo certo ritual, veja esse exemplo: Quando vou à casa de minha namorada sempre faço o mesmo trajeto, na ida vou pela rua de cima, Castanhedo Lima e, na volta, venho pela de baixo, travessa Bosque das Orquídeas. Na esquina da rua de cima tem um bar, aparentemente, um bar como outro qualquer, sempre passava por ele e estava fechado, pois ia cedo para ter mais tempo junto com a figura.

Mas um dia desses mudei meu roteiro e vi o bar aberto, porém, para minha surpresa, não era um bar como outro qualquer, apesar das mesas, cadeiras com a marca da cerveja patrocinadora e outras coisas que todo bar tem, tudo isso apenas na varanda que o rodeia por que não se podia ver o interior do mesmo, pelo simples fato de não haver nenhum facho de luz dentro, todo o espaço interior se encontrava na mais completa escuridão. Essa estranheza de iluminação faz a cabeça de quem olha se perguntar quem teve a ideia? Qual o sentido? Uma jogada de marketing? Por que luzes fora e não dentro do bar? Quem seria o dono, o gênio da lâmpada?

Passei e levei junto com o cheiro da pinga que exalava essas indagações e a certeza que voltaria ali para descobrir o grande mistério e quem seria o criador de tal atmosfera em que da luz faz-se trevas pra quem entra e pra quem sai das trevas faz-se luz.

Com ideias martelando minha cabeça, pensamentos piruetando por meu juízo... Qual seria o significado da iluminação, da falta de iluminação, sei lá, se era por que depois de umas doses tudo se ilumina na vida... Foram tantos pensamentos sobre o significado, até mesmo de não haver significado algum, que não demorei e retornei ao bar.

No caminho veio-me a ideia de que podia ter tido um curto circuito na instalação elétrica naquele dia e que agora quando chegasse ao bar ele estaria iluminado como todo bar, seria mais um lugar comum, com pessoas comuns. Mas como a dúvida pairava, segui.

 E lá estava eu, na entrada iluminada e me preparando para o interior escuro. Não sei descrever a enxurrada de ideias que passou por minha mente, lembro que pensei em voltar, mas não, entrei na escuridão e sentei numa mesa. Um garçom, vestido como garçom normal, veio me atender e por motivos óbvios não me trouxe cardápio, se resumiu a perguntar o que eu desejaria beber. Pedi uma cerveja e ele saiu; nesse intervalo minha visão já havia se acostumado à falta de luz e pude perceber que só havia eu e outro vulto sentado num dos cantos do bar. Chegou a cerveja, tomei um copo, dois, no terceiro chamei o garçom e pedi uma pinga, ele apenas me disse que tinha uma pinga boa e saiu, voltou trazendo a doze que tomei de um gole só. Pedi outra e tomei de virada, tendo como tira-gosto um gole do último copo da cerveja. Fiquei um pouco atordoado que nem percebi que algo se aproximava, quando senti foi uma mão sobre o meu ombro e uma voz que dizia: “você gostou da pinga?”.

Quem perguntou foi o vulto do canto da mesa, que agora se apresentava mais visível. Um senhor alto, cabelos grisalhos, voz ríspida, forte...

Respondi que sim e ele secamente disse: “sou eu mesmo que faço. Essa é a pinga da casa!” Aí que me dei conta ali estava o arquiteto de toda aquela atmosfera intrigante.

Não sentou e mais nada disse, permaneceu em pé ao meu lado, indiferente. Meio que sem jeito eu perguntei o nome dele. Ele como uma estátua, disse friamente “Osmar” e ia se virando para voltar ao seu canto, quando de supetão eu perguntei: “por que não há luz?”.

        Ele seguindo para seu canto disse: “não gosto de pessoas, no escuro vejo apenas vultos do que poderiam ser e não são; e nem gostei de você, é apenas mais um vulto igual a tantos que estão aí fora, apenas curiosos, mais nada.” Sem mais nada dizer sentou no seu canto, acendeu um cigarro e novamente se tornou um vulto. E eu como ele mesmo disse, paguei a conta e voltei a ser como todos que andam pelos bares daquela redondeza.

E sem saber exatamente o que ele quis dizer, segui para casa triste como um vulto humano que adentrou em um bar, bebeu e tediosamente nada aprendeu, nada esqueceu, nada viveu... Apenas bebeu.

                                                                  

terça-feira, 29 de maio de 2012

Simbolismo Português - Eugénio de Castro (1869 - 1944) - Poema



Um Sonho



Na messe , que enlourece, estremece a quermesse...
O sol, celestial girasol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo a fina flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas,cítaras,sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em Suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves
Suaves...

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse
E o sol,o celestial girasol,esmorece,
Deixemos estes sons tão serenos e amenos,
Fujamos,Flor!à flor destes floridos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Como aqui se está bem!Além freme a quermesse...
- Não sentes um gemer dolente que esmorece?
São os amantes delirantes que em amenos
Beijos se beijam,Flor!à flor dos frescos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas,cítaras,sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em Suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Esmaiece na messe o rumor da quermesse...
- Não ouves este ai que esmaiece e esmorece?
É um noivo a quem fugiu a Flor de olhos amenos,
E chora a sua morta,absorto,à flor dos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Penumbra de veludo . Esmorece a quermesse...
Sob o meu braço lasso o meu Lírio esmorece...
Beijo-lhe os boreais belos lábios amenos,
Beijo que freme e foge à flor dos flóreos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos ,
Cítolas,cítaras,sistros ,
Soam suaves , sonolentos ,
Sonolentos e suaves ,
Em Suaves ,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Teus lábios de cinábrio,entreabre-os!Da quermesse
O rumor amolece,esmaiece,esmorece...
Dê-me que eu beije os teus morenos e amenos
Peitos!Rolemos,Flor!à flor dos flóreos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Ah! não resista mais a meus ais!Da quermesse
O atroador clangor,o rumor esmorece...
Rolemos,ó morena!em contactos amenos!
- Vibram três tiros à florida flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas,cítaras,sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em Suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Três da manhã.Desperto incerto...E essa quermesse?
E a Flor que sonho? e o sonho? Ah!tudo isso esmorece!
No meu quarto uma luz,luz com lumes amenos,
Chora o vento lá fora,à flor dos flóreos fenos...

Arcachon,12 de julho de 1889.


Imagem retirada da Internet: sonho

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Tércia Montenegro - Conto


Uma história secreta





Agora que estamos envelhecendo, Ismália, posso ter tua mão entre meus dedos enquanto penso que talvez seja improvável que me abandones, porque afinal continuo gordo e lento, mas fiquei velho e ninguém repara mais em mim, e tu também – embora tenhas conservado as medidas de solteira – perdeste o viço da pele; agora que provavelmente muitos homens já não te olham com desejo, posso ficar mais tranqüilo. É verdade, Ismália, que se torna difícil acostumar-me com o sossego, quando por vinte anos sofri, esperando que cada dia fosse o último, que me dissesses Estou farta, e batesses a porta sem mesmo levar tuas coisas. Nem quando estiveste grávida fiquei certo da tua permanência em minha casa; pelo contrário, a cada enjôo ou irritação sentia-me culpado e te levava a passeios, e te achava aborrecida comigo, pensando no que eu poderia ter feito de errado, e depois do parto, quando esperei que ficasses mais gorda, recuperaste em pouco mais de um mês a silhueta, apenas teus seios cresceram, e isso te fez ainda mais bonita. Bonita, apesar do ódio que sentias ao acordar com o choro da criança querendo mamar – muitas vezes temi que sufocasses o menino, tão enraivecida acordavas, a camisola mostrando um seio, os cabelos desalinhados. Quando teu filho se acidentou, aos quatro anos de idade, e não voltou do hospital, tive certeza de que partirias. A morte da criança era motivo suficiente para que dissesses que nada mais te ligava a mim (e eu poderia responder que o menino nunca fora uma ligação entre nós, pois não era meu filho), mas nem assim me deixaste.

Vejo os casais andando pela calçada deste parque, e posso identificar pelo brilho dos olhos os felizes: é algo que nunca tivemos, Ismália, essa cintilação na vista, certo rubor nas faces, um trejeito nos lábios que anuncia um sorriso sem realizá-lo. Entre nós dois, tudo foi mais simples (esse é um modo de dizer): desde quando nos conhecemos na escola, tu debochando de mim com tuas colegas, e eu sempre parado em algum canto, estátua de flacidez e camadas adiposas, tu adolescente me perguntando se eu era virgem, em meio à risada das outras meninas, e teu cabelo preso em rabo-de-cavalo, e tua saia azul pregueada, a mão cobrindo o riso, enquanto eu me sentia inflamar, um fogo em cócegas pelo rosto. Depois, na faculdade, quando as colegas já eram outras e meu peso tinha aumentado em pelo menos dez quilos, tu voltaste a me procurar. Nenhuma lembrança da investida passada, nenhum pedido de desculpas atrasado: esqueceras completamente a piada, o gordo virgem que sentava perto da cantina, com um sanduíche na mão. Na faculdade, eu era um aluno de boas médias e óculos pesados, que poderia te ajudar com a matéria. E foi assim que um dia ficamos em tua casa a tarde inteira; eu disposto a te ensinar Kierkegaard, e tu me espiando demoradamente, até que perguntaste se eu não queria ver-te nua.

Foi justamente aqui, neste parque onde passei tantos fins de semana da infância, que nunca aprendi a andar de bicicleta. Aos primeiros arranhões no joelho e quedas em laterais derrapagens, minha mãe me proibiu o veículo, e também me interditou o labirinto – um brinquedo que era feito uma marquise prolongada de canos que formavam quadrados e retângulos de tamanhos diversos, e o divertido era subir e balançar-se num dos canos mais altos (havia meninos que faziam isto com os pés), mas como minha mãe me impediu de subir ali, contentei-me com a gangorra, quando conseguia encontrar alguém próximo do meu peso, e também buscava o gira-gira, mas os outros garotos reclamavam quando eu aparecia, porque era preciso força nos pés, e eu quase sempre parava de correr em poucos minutos, ocasião em que o brinquedo estancava.

Não sabes quanta falta me fez não saber andar de bicicleta, Ismália; digo-te isso enquanto fitamos as crianças em sinuosidades de roda pelo calçamento. Talvez eu pudesse ter criado alguma destreza nas pernas, e tu concordas: bicicleta é o esporte adequado para a tonicidade muscular. Largaste-me os dedos, discretamente – usas óculos escuros, e não posso identificar para onde tua visão se estende, mas suponho que ainda fitas as crianças, é para aquela direção que tua cabeça está voltada, e provavelmente recordas o filho que hoje teria dezoito anos, que rapaz seria – um misto de teus cabelos negros e ondeados, com boa altura, que tu também és alta (tanto quanto eu, mas pareces mais, porque és magra), tórax enxuto e sem pêlos, uma possível tatuagem no braço. Em nada este jovem se pareceria comigo, Ismália, isso eu sei, mas nunca te disse, e apesar disso chorei quando a criança morreu, esteja certa; perdi-o como quem perde um filho, e pouco faltou para que fosse meu – bastava que tivesse sido concebido uns meses antes, ou que não estivesses viajando segundo o calendário da concepção, ou que o parto tivesse sido mesmo prematuro. Mas eu te perdôo, Ismália, o meu silêncio é uma prova desse perdão. Se quisesse te largar por isso, teria desaparecido durante tua gravidez, mas pelo contrário, estava era desesperado em minha apatia, apavorado de que quisesses ficar com o verdadeiro pai do menino, aquele homem que encontraste nos dois meses que durou tua viagem para Santa Fé, pouco antes de concluíres a faculdade.

Hoje, já não me importam os esportes. Chega-se a uma certa idade, e o melhor é aceitar o corpo com que se vai morrer. Serei isto até quando durar: uma forma arredondada de barril, uma massa cheia e marcada pelas sucessivas pregas no abdome, culotes na cintura, peitos maiores que os das meninas de doze anos. Ismália, tu também dificilmente mudarás; talvez algumas rugas te sejam acrescidas, finos riscos ao lado dos olhos e no pescoço. Mas permanecerás com esta postura reta, sentada com os músculos rígidos da perna direita dobrada sobre a outra. Tomas uma água mineral; daqui a pouco dirás que é tempo de voltarmos. Concordo, mas enquanto o sol não se põe num borrão vermelho e laranja refletido nas lentes de espelho negro dos teus óculos, deixa que te fale mais um pouco.

Havia outros brinquedos – gangorra, escorregador, pula-cordas – mas eu preferia ficar observando as demais crianças se divertindo. De certo modo, nunca me senti de fato igual a elas: era como se já trouxesse em mim, desde a mais tenra idade, um ranço estranho de madurez, certa desilusão precoce que meu peso reforçava. A vida não era leve e divertida como os meninos pensam; havia esforço, cansaço e monotonia no simples ato de andar, e os prazeres aconteciam somente em poucos instantes, com um paladar adocicado e um estômago cheio. Depois, Ismália, veio minha paixão pelos estudos, vieram-me os livros em tomos grossos que eu escolhia nas tardes perdidas da biblioteca, e lembro a dificuldade com que fitava, da calçada, os lances de escada que me levariam ao setor de obras raras, e o heroísmo com que me conformava pelo fato de o elevador estar sempre pifado, pouco antes da disposição tomada com um só fôlego para o primeiro dobrar de joelhos arquejante.

Ao tempo em que tu rias do aspecto caricatural de determinados professores, e passavas de mão na boca sufocando o riso, ou puxando pelos dedos a farda de uma colega, para apontar-lhe qualquer coisa que imediatamente originava gargalhadas incontidas, eu preferia me esconder por trás das mesas de leitura, copiando trechos interessantes, preenchendo páginas e páginas de cadernos que foram se empilhando na desordem de assuntos rabiscados: filosofia, história das religiões, semântica, etnologia, crítica literária e psicolingüística, dentre outros temas. Quando te mudaste para minha casa, recolhi todo o material antigo, em que havia também várias revistas sobre astronomia e genética, dentro de caixas lacradas e etiquetadas por ano. Desde esse tempo, ficaram lá, empoeirando-se periodicamente, até que de férias em férias me disponho a abrir o quartinho de despejo e deparo com aquelas colunas de papelão. Limito-me a passar-lhes o espanador, não sem uma secreta emoção de limpar algo como sarcófagos que podem esconder múmias esfareladas ou verdadeiros tesouros. Adio a tarde em que me disporei a abrir cada caixa como quem desvenda diários de namoradas esquecidas, e suponho que farei isso quando tu me deixares; será o meu antídoto contra a solidão, ao menos por uns dias não pensarei que me abandonaste, Ismália, enquanto revejo, com a surpresa de velhos que folheiam álbuns, cada pedaço de minhas curiosidades intelectuais, artigos renovados pela falta de memória, e isso me bastará como entretenimento.

Mas se não me deixares, Ismália, se, como penso, agora a tendência seja de que fiques mesmo comigo, então conservarei as caixas intactas como um segredo oculto que outras pessoas depois de mim verão como lixo, e pobres dos cadernos e artigos, terão o destino incerto dos caminhões que passam sempre às onze da noite, com dois ou três lixeiros pendurados na traseira; serão embaladas em sacos as revistas de data remota, e suas palavras ganharão o vento, quem sabe, em fragmentos dispersos de notícias. Por essa época, gostaria de dizer que eu também viajaria pela brisa, jogado ao mar em cinzas, e tu me espalharias os restos sobre as ondas, do alto do mirante da ponte metálica, mas não posso incorrer nessa poeticidade, Ismália: sabes que não suporto a idéia de ser cremado; não sei quanto tempo demoraria essa aflição póstuma para que o fogo me dissolva todas as gorduras; não posso admitir-me reduzido a um saquinho leitoso ou urna que se coloca como vaso decorativo na estante da sala. É preferível entregar-me à umidade da terra e ao progressivo emagrecimento pela digestão dos vermes – darei este peso extra aos coveiros que se encarregarem de me transportar o caixão __ até porque, Ismália, bem sei que tu não me levarias em cinzas para o mar. Distraída como és, esquecerias meus restos em algum recipiente descuidado que uma empregada abriria certa manhã, tomando aquele resíduo como poeira acumulada, do tipo da que se varre para sob o tapete, e então meu destino, Ismália, seria mais incerto que o dos cadernos e revistas. Prefiro uma residência fixa no cemitério, mesmo sabendo que nunca irás me visitar, nunca foste ver nem mesmo o teu filho.

Às vezes penso que deveríamos ter tido outra criança, essa presença de cheiros mornos e bochechas de maçã – algo que poderia nos distrair em muitas noites mudas, quando eu sento minha paciência diante da televisão e tu inventas miúdas limpezas na cozinha. Então ouviríamos uma voz de apito a perguntar-nos qualquer coisa, e o pequeno poderia vir sentar-se nos meus joelhos, como fazia o teu filho, meses antes de morrer. Contaríamos um ao outro as proezas do menino em comum, lembrando a época desconhecida em que os pais fitaram nossa própria infância, e talvez um misto de orgulho e tristeza nos invadisse – tristeza, sim, pelo fato de havermos cumprido a missão infalível das leis que regem o mundo: acrescentar outra geração às gerações que já se ultrapassam. Mas agora, Ismália, que não fiz o meu papel de homem, e que tu fizeste as vezes de mãe incompleta, não temos mais tempo de pensar em filhos. De certo modo, a morte do menino emperrou-nos a iniciativa, e talvez tu não quisesses o produto de um obeso, provavelmente era-te muito custoso imaginar-se fecundada por uma semente disforme, e não querias envolver-te dessa forma comigo. Quanto a mim, nunca te falei no assunto porque supunha que engravidarias quando quisesses, e na feita em que partiste por dois dias inteiros pensei mesmo que tinhas decidido; soube que passaras as 48 horas com o argentino, pai da primeira criança, e adivinhei tua intenção de repetir a tentativa com o mesmo sêmen. Embora tenhas dito que se tratava de uma viagem de emergência para acompanhar os funerais de tua mãe, saiba, Ismália, que não acreditei. Nada respondi, e o meu silêncio era um novo perdão: procuravas o argentino, ele possivelmente numa breve estada na cidade, e tu sem querer desperdiçar a chance de uma nova fertilidade. Imaginava-te num quarto de motel de luz trêmula, enquanto tu descrevias o enterro da matriarca, ainda com os olhos vermelhos de lágrima, eu formulando justificativas de saudade para teu choro sincero e teu luto seguido, que atribuí ao fracasso do óvulo, quando, no mês seguinte, tua regra novamente chegou.

Naquela noite em que não te encontrei em casa, mas vi como substituto um bilhete rabiscado e preso numa das pontas por um ímã na geladeira, adivinhei a verdade. Confesso que tive raiva, Ismália; o meu primeiro ímpeto foi despedaçar-te as coisas, rasgar-te os vestidos e amassar teus sapatos em toneladas de fúria e desespero, mas contive-me. Resolvi dar-te um troco, pequena vingança que mais tarde te confessaria, quando viesses me contar detalhes daquelas duas noites de amor. Aprontei-me e fui para um local que só conhecia de menção dos colegas de escritório; cheguei tremendo no pânico de ver-me sozinho e estupidamente gordo, entre tantos homens magros, que sentavam às mesas acompanhados de mulheres seminuas – uns bebendo entre risos e fumaças, outros mais sérios, naquela embriaguez que distorce os sorrisos. Acomodei-me perto do palco, onde, entre fachos de néon, uma jovem se contorcia agarrada a uma barra de ferro, e aos poucos percebi que a cada giro para a esquerda, feito ao ritmo das pulsações da música, uma peça de roupa caía no chão. Senti um arrepio nauseante; tinha acabado de rejeitar qualquer bebida que a garçonete (uma loira de sutiã transparente) me oferecia, estava a ponto de vomitar e a meio de uma ereção, sem conseguir despregar os olhos das formas curvas, elásticas, da jovem, e a cada rebolado e volta de nádegas e seios eu me via puxado pelos nervos, pinçado nas extremidades por câimbras de estrelas. Então apareceu a mulher, uma ruiva de boca quase preta pelo batom; apareceu e foi sentando no meu colo, um cigarro aceso entre as unhas postiças, e os longos cílios a tocarem-me o rosto. Faltava pouco para que me corresse a mão pelas coxas, e eu naquele estado deixaria tudo só pelo anseio de livrar-me da agonia, agora transformada em palpitações e suores de febre – faltava pouco, e teria acontecido, não fosse o cigarro. O cheiro mentolado me agarrou pela garganta em acessos de tosse, e num instantâneo todas as partes de meu corpo voltaram às dimensões antigas de moleza, a ruiva me largava com um olhar de pestanas raivosas, e eu tentava recuperar meu fôlego entre respiros de náufrago e vermelhidões de alergia. Quando consegui me recompor, a jovem do palco estava completamente nua, mas eu já pensava em voltar para casa.

Não conto isso ainda hoje, Ismália, porque, ao contrário do que eu supus, nesses anos todos não confessaste tua traição, e fiquei sem motivo para oferecer-te represálias. Também não seria digno que te descrevesse essa mínima vingança: olhar uma jovem despir-se e voltar de calças ensopadas é quase como alugar um filme pornográfico, e tantas vezes loquei as fitas sem que tu visses, quando saías para o cabeleireiro, ou quando ias às compras; eu me sentava no sofá gasto da sala, antecipadamente nu, para observar-me no ritual de dureza progressiva, e nesses instantes não me achava tão gordo, e me espantava mesmo de que na cama fosse difícil para mim encontrar-te, preferindo sempre que viesses por cima, para me poupar balanços de carne flácida. Não, Ismália, é preferível que continuemos cada qual com seus segredos, sendo que no íntimo conheço todos os teus passos, e sei justamente que suspeitaste de mim na época em que o garoto morreu, porque um traumatismo craniano não é fácil de acontecer, mas imagine um menino de quatro anos que teima em subir na escada que leva ao sótão; está no sexto degrau, ou um pouco mais, quando se desequilibra e cai de ponta cabeça – essa é a cena que mentalizo, porque, como te disse, não vi nada, na hora estava dormindo e foi assim que me encontraste, tu aos gritos de achar o menino feito um trapo inerte sobre a grama, eu acordando à pressa, a única vez em que durmo durante a tarde, tu bem sabes que normalmente não consigo.

Pois foi neste parque, Ismália, que nunca aprendi a andar de bicicleta. Lamento as pernas ágeis que não tive, mas a essa altura da vida só me resta o hábito, que se rumina dia a dia como um novelo indigesto. Tu me pressionas o braço para avisar que está na hora de voltarmos; percebo que quase nada conversamos, teus óculos escuros já passaram as imagens do crepúsculo e agora estão de todo anoitecidos. Vejo teu corpo ainda elegante levantar-se, o rosto não mais voltado na direção das crianças. Tento sufocar um gemido para acompanhar-te os passos, e no breve instante em que te contemplo de costas penso que talvez não me abandones nunca, porque, apesar de tudo, tu me amas afinal.


Imagem retirada da Internet: diário

domingo, 27 de maio de 2012

Antônio Torres - Conto


Por Um Pé de Feijão





Nunca mais haverá no mundo um ano tão bom. Pode até haver anos melhores, mas jamais será a mesma coisa. Parecia que a terra (a nossa terra, feinha, cheia de altos e baixos, esconsos, areia, pedregulho e massapê) estava explodindo em beleza. E nós todos acordávamos cantando, muito antes do sol raiar, passávamos o dia trabalhando e cantando e logo depois do pôr-do-sol desmaiávamos em qualquer canto e adormecíamos, contentes da vida.

Até me esqueci da escola, a coisa que mais gostava. Todos se esqueceram de tudo. Agora dava gosto trabalhar.

Os pés de milho cresciam desembestados, lançavam pendões e espigas imensas. Os pés de feijão explodiam as vagens do nosso sustento, num abrir e fechar de olhos. Toda a plantação parecia nos compreender, parecia compartilhar de um destino comum, uma festa comum, feito gente. O mundo era verde. Que mais podíamos desejar?

E assim foi até a hora de arrancar o feijão e empilhá-lo numa seva tão grande que nós, os meninos, pensávamos que ia tocar nas nuvens. Nossos braços seriam bastantes para bater todo aquele feijão? Papai disse que só íamos ter trabalho daí a uma semana e aí é que ia ser o grande pagode. Era quando a gente ia bater o feijão e iria medi-lo, para saber o resultado exato de toda aquela bonança. Não faltou quem fizesse suas apostas: uns diziam que ia dar trinta sacos, outros achavam que era cinqüenta, outros falavam em oitenta.

No dia seguinte voltei para a escola. Pelo caminho também fazia os meus cálculos. Para mim, todos estavam enganados. Ia ser cem sacos. Daí para mais. Era só o que eu pensava, enquanto explicava à professora por que havia faltado tanto tempo. Ela disse que assim eu ia perder o ano e eu lhe disse que foi assim que ganhei um ano. E quando deu meio-dia e a professora disse que podíamos ir, saí correndo. Corri até ficar com as tripas saindo pela boca, a língua parecendo que ia se arrastar pelo chão. Para quem vem da rua, há uma ladeira muito comprida e só no fim começa a cerca que separa o nosso pasto da estrada. E foi logo ali, bem no comecinho da cerca, que eu vi a maior desgraça do mundo: o feijão havia desaparecido. Em seu lugar, o que havia era uma nuvem preta, subindo do chão para o céu, como um arroto de Satanás na cara de Deus. Dentro da fumaça, uma língua de fogo devorava todo o nosso feijão.

Durante uma eternidade, só se falou nisso: que Deus põe e o diabo dispõe.

E eu vi os olhos da minha mãe ficarem muito esquisitos, vi minha mãe arrancando os cabelos com a mesma força com que antes havia arrancado os pés de feijão:

- Quem será que foi o desgraçado que fez uma coisa dessas? Que infeliz pode ter sido?

E vi os meninos conversarem só com os pensamentos e vi o sofrimento se enrugar na cara chamuscada do meu pai, ele que não dizia nada e de vez em quando levantava o chapéu e coçava a cabeça. E vi a cara de boi capado dos trabalhadores e minha mãe falando, falando, falando e eu achando que era melhor se ela calasse a boca.

À tardinha os meninos saíram para o terreiro e ficaram por ali mesmo, jogados, como uns pintos molhados. A voz da minha mãe continuava balançando as telhas do avarandado. Sentado em seu banco de sempre, meu pai era um mudo. Isso nos atormentava um bocado.

Fui o primeiro a ter coragem de ir até lá. Como a gente podia ver lá de cima, da porta da casa, não havia sobrado nada. Um vento leve soprava as cinzas e era tudo. Quando voltei, papai estava falando.

- Ainda temos um feijãozinho-de-corda no quintal das bananeiras, não temos? Ainda temos o quintal das bananeiras, não temos? Ainda temos o milho para quebrar, despalhar, bater e encher o paiol, não temos? Como se diz, Deus tira os anéis, mas deixa os dedos.

E disse mais:

- Agora não se pensa mais nisso, não se fala mais nisso. Acabou. Então eu pensei: O velho está certo.

Eu já sabia que quando as chuvas voltassem, lá estaria ele, plantando um novo pé de feijão.


In. Meninos, Eu Conto.Rio de Janeiro: Record, 1999.

sábado, 26 de maio de 2012

Virgílio Maia - Poema

 
Alvenaria


Sobre pedras se eleva este soneto,
em trabalhosa faina alevantado,
as linhas definidas no traçado
da perfeição do prumo e nível reto.

Dentre tantos eleito, põe-se ereto
rima por rima, embora recatado;
ao martelar do metro faz-se alado,
opondo ao som a luz deste quarteto.

Sobre andaime de verso e de ciência
necessário a erguer prova tão dura,
deixa o pedreiro, alçado, o rés-do-chão.

E sobranceiro ao mundo, àquela altura,
Vai concluir, com brava paciência,
A obra em que balança o coração.


Imagem retirada da Internet: alvenaria
Fonte: Jornal de Poesia