domingo, 28 de fevereiro de 2010

Morre José Mindlin - Notícia






(1914 - 2010)

O empresário morreu neste domingo, aos 95 anos. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), ele estava internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. O corpo é velado desde as 11h. Às 15h, Mindlin será levado para o cemitério Israelita da Vila Mariana, nana sul da cidade, onde ocorre o enterro.

Mindlin ficou famoso por doar sua biblioteca pessoal para a Universidade de São Paulo (USP), em 2009. Até então o empresário era tido como o maior colecionador particular de livros do País. Segundo a ABL, Mindlin era o quinto ocupante da cadeira 29, eleito em 20 de junho de 2006, na sucessão de Josué Montello.


Biografia


Mindlin nasceu em São Paulo em 8 de setembro de 1914. Formado em direito pela Universidade de São Paulo, foi redator do jornal O Estado de S. Paulo de 1930 a 1934 e advogou até 1950, quando fundou e presidiu a Metal Leve.

Foi casado com Guita Mindlin, que morreu em 25 de junho de 2006. O casal teve quatro filhos: a antropóloga Betty, a designer Diana, o engenheiro Sérgio e a socióloga Sônia.

Mindlin foi membro do Conselho Superior da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) de 1973 a 1974 e de 1975 a 1976, diretor do Conselho de Tecnologia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e secretário da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, quando estruturou a carreira de pesquisador. Fez parte do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CNPq), do Instituto de Pesquisa Tecnológica, e da Comissão Nacional de Tecnologia da Presidência da República, entre outras entidades.

Mindlin recebeu ainda diversas premiações, entre elas, em 2003 o prêmio Unesco Categoria Cultura; a Medalha do Conhecimento concedida pelo Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; prêmio João Ribeiro da Academia Brasileira de Letras; e, em 1998, o prêmio Juca Pato como Intelectual do Ano.

O casal formou uma das mais importantes bibliotecas privadas do País, que Mindlin começou a formar aos 13 anos e chegou a ter 38 mil títulos. Em maio de 2006, o casal fez a doação de cerca de 15 mil obras da Biblioteca Brasiliana para a USP. No conjunto doado, constam raridades como documentos do século XVI com as primeiras impressões que padres jesuítas tiveram do Brasil, jornais anteriores à Independência e manuscritos que resgatam a gênese literária de grandes obras, como Sagarana, de Guimarães Rosa, e Vidas Secas,de Graciliano Ramos. É o autor de Uma Vida entre Livros - Reencontros com o tempo e Memórias Esparsas de uma Biblioteca e lançou em 1998 o CD O Prazer da Poesia.

Com informações da Academia Brasileira de Letras.


Fonte: Portal Terra

Aleksander Wat - Poema


Poeta


O poeta é aquele, pensei, que veio sem ser convidado
para o banquete dos Filistinos?
E colocou-se à cabeceira da mesa,
o cabelo feito um capacete,
oh, como domina a assembléia dos Filistinos armados!
Ele chega de partes onde nenhum deles esteve
e nunca estará.
Onde as coisas finais chocam-se
e fendem como montanhas glaciais
e afundam ou,
ou vão flutuando embora
ao encontro de novos nascimentos e pores do sol,
que nenhum deles verá.
Ele podia levar diante de si seu desprezo como duas tocha -
mas num olho incandesceu amor
e noutro fúria.
Ele podia, dos pássaros assados sobre travessas de ouro,
predizer-lhes seu triunfo, ou sua derrota. Derrota, muitas derrotas.
Ele podia gritar e com seu punho de pedra
partir suas mesas ao meio,
rasgar suas armaduras de cobre.
Porque veio sem se deixar convidar... Ou -
podia ele mesmo assumir a forma de uma cerceta branca
e com um só movimento das asas
voar embora, depois cair como pedra
nas águas negras
nas ondas escarlates
do Estige... Ou, ounas águas puras
e distantes
da terra
natal.

Tradução de ZBIGNIEW WÓDKOWKI (Com modificações; Aproximações, Brasília/Lisboa/Cracóvia, n.4, 1990.)
In. Revista Poesia Sempre.Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional p.35.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Aleksander Wat - Poema










Aleksander Wat
(1900-1967)











Vésperas em Notre-Dame


Entra na catedral ao crepúsculo de verão
quando tocam Bach: sois tranquille
sois tranquille, mon âme...

O coral dos vitrais, o luzir das coroas,
línguas chamejantes de cem mil velas
agitarão no ar aquele pólen de cor,
laicizado de maneira tão chã
pelos pintores pós-impressionistas...

Não, não é isso! A luz - Espírito Santo
irrompeu como tempestade através do vidro e do chumbo.
E quando se mistura com a harmonia de Bach,
suscita no ar gamas de cores,
onde cada cor é fogo diferente,
éon sonoro nos prismas do fogo
coral das cores, canto das chamas,
nuvem dos sons no fogo da catedral.

É fogo vivo. Renasce nele
a alma acossada. Fênix morta.
Sois tranquille, mon âme...Sei ruhig, mein' Seel',
sei ruhig



Tradução de ZBIGNIEW WÓDKOWKI (Com modificações; Aproximações, Brasília/Lisboa/Cracóvia, n.4, 1990.)
In. Revista Poesia Sempre. nº 15, ano 15. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 2008, p.35.
Imagem retirada da Internet: Catedral

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Célio Pedreira - Poema

Este poema foi escolhido, pelo Ministério da Saúde, para ilustrar o livro "Saúde da Família: um retrato". Parabéns ao poeta tocantinense, de Porto Nacional, Célio Pedreira!









CANTIGAS DE ANDAR JUNTO


De onde ainda nem chegamos

acende o zelo de ser único

na vontade de todos.

Ver de frente

o que acende

para espalhar mais alvos.

Como cada um

ser junto na astúcia de entender

caminho e rumo.

Cada estreito nosso

há de alcançar os vãos

num fazer de espalhar lugares.

E onde chegar

serão árvores nossas mãos

de uma raiz só.

Dessa raiz que rompe

que remove o lugar

e que aprofunda em longes .

Como horizonte fosse igual andar

sustentamos-nos em cada olhar acendido

em cada vontade de alcançar-se.

Assim os gestos vão gestando os vãos

como meninos nas varandas

olhando para além dos muros.

Posto que aqui sempre é tempo

de sonhar para mais

o que seja regar e brotar.

Segue assim espalhando luz

o que vela

e o que singra.

Nem parece mesmo longe

o que o caminho estreita

pelo carecer sincero de ir.

Vê que é grande uma manhã

nelas duram muitas claridades

apesar de ímpares.

Uma manhã tem feitio de bandeira

a nos significar

em pares.

Se a gente vai

nossa bandeira é sempre frente

onde se vai chegar.

É nossa vontade quem chega primeiro

quando o caminho nos junta

no continuar andando.

Mesmo o grande dos nossos estreitos

é um caminho só

nas mãos de nosso rumo.

e arranjar um diverso inesperado

paciência é remédio absoluto

para o encontrar-se.

Esses artifícios de andar junto

carecem mesmo paciência

e as vezes alguma ciência.

Até o êrmo pode ser perto

se o caminho é certo

no rumo do junto.

E quando menos parece

aparece outro hoje

e a gente toma um novo mesmo tino.

É assim mesmo diverso

o caminhar do esperança

dia ensina dia aprende.

No fundo esperança é vontade

de andar junto

ainda que distante.

Tecendo fios longos

numa mesma renda

a gente entende os muitos.

Pois o tempo de recomeçar

é um tempo inteiro

ainda que também único.

Como tempo de flor

chamando o dia para abrir

aqui o zelo é quem governa o caminho.

Pois se o dia abrir com zelo

é certa a flor

visitando nosso rumo.

Ao menos aos pares

é permitido combinar

o único no diverso.

Combinar que a estrada segue

e tem gente esperando

para receber nosso passo.

Passar o passo é quase um parto

tem merecimento de mutiplicar-se

como aquelas manhãs paridas.

É que os limites

as fronteiras

são também caminhos.

E o caminho mais árduo

é o rumo de dentro da gente

que precisa chegar no outro.

O outro é quem nos sustenta

é quem nos faz caminho

é quem nos caminha.

Segue cada um

como caravana de todos

para se juntar num canto da chegada.

Toda porta vai se abrir

toda janela vai espiar

cada chegar desse rumo.

Rumo ungido em singelo

em simples

que se agradece como amém.

Recebe esse simplicidade

que todo chegar encerra

e que espiga de boa nova.

A gente que anda junto

sempre está pronto para acender

uma nova chama de guia.

Deixar a chama nos lumiar

para seguir junto

nas horas de sós.

Vê que seus olhos são meus

e busca um entender em sede

pois os ávidos são sempre fecundos.

Como é infinito o andar juntos

a cantiga junta sempre se afina

pois cada passo o mesmo compasso.

Para quem escuta o canto do junto

se distingue o passarinho pelo olhar

o canto é só artifício de beleza.

A gente lembra da gente

quando nos dão motivo de andar

e reconhece o quanto falta pra chegar.

Se chegar a hora de fazer outro ir

o que se deixa vai com a gente

o olhar de quem fica vai com a gente.

Nosso rumo é mesmo preso ao sol

que precisa estar sempre estendido

para romper as nódoas.

Se nosso andar dispersar

a lição das pontes entre nós

é capaz de novamente nos juntar.

Riso é mais que alegria entre nós

é o remédio que nos faz iguais

num caminho de diferenças.


In.Saúde da Familia: um retrato. Brasília: Ministério da Saúde,2009

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Exposição Lugares Alentejanos na Literatura Portuguesa

Foto by José Ribeiro

Exposição no CPF: Lugares Alentejanos na Literatura Portuguesa



Inaugurar-se-á a exposição de fotografias intitulada “Lugares Alentejanos na Literatura Portuguesa“, no dia 6 de Março de 2010, pelas 16h, no Centro Português de Fotografia (CPF), do Porto.

Esta mostra resulta “do entrecruzar da palavra e do olhar sobre o passado e o presente do Alentejo, que aliam o imaginar de leituras originadas na escrita e o ler de uma crónica originada na imagem. Buscámos, primeiro, o lugar do Alentejo na obra de escritores e poetas portugueses que lhe pertencem por nascença ou adopção e em cuja prosa ou verso reside, ao longo de pouco mais de século e meio, a «viva, obsidiante memória» dos seus lugares e gentes.

(…)

Estes LUGARES ALENTEJANOS foram imaginados e realizados pela ESTAÇÃO IMAGEM, associação cultural sediada em Mora que, através de iniciativas pluridisciplinares de carácter documental centradas no Alentejo, se dedica a guardar, fomentar e divulgar a memória pela imagem.” (in Press Release)


Os autores desta exposição são:


Luísa Ferreira, Bruno Portela, Leonel de Castro, José Manuel Ribeiro, Bruno Rascão, Céu Guarda, Fernando Veludo, Pedro Letria, Luís Barra, António Carrapato, Luís Vasconcelos e Luís Ramos.


A exposição estará patente no edifício da ex-Cadeia de Relação do Porto até ao dia 18 de Abril de 2010.

Será servido um Porto de Honra. Aberto de Segunda-Feira a Sexta-Feira, das 10h às 18h. Nos Sábados, Domingos e feriados, das 10h às 19h.

Para mais informações, consulte o site do CPF.

Sinésio Dioliveira - Poema
















Meu verbo


O passarinho

Na voz do meu verbo

Tem ninho no meu coração.

Meu verbo é transitivo

Seu complemento é poesia.

É alado meu verbo

Seu voo não passa das árvores.

Meu verbo não é soberbo

A poucos ouvidos

(Principalmente aos meus)

Se dá por feliz.

Meu verbo não se arruma olhando no espelho

As palavras que o materializam

Têm roupagem de lírios do campo.



Foto by Sinésio Dioliveira - Todos os direitos reservados.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos) - Poema


Álvaro de Campos


Saudação a Walt Whitman




Portugal Infinito, onze de junho de mil novecentos e quinze...
Hé-lá-á-á-á-á-á-á!

De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser...
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,
E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,
Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,
Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer,
Quer pela Rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a Rua do Ouro,
E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.

Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,
Concubina fogosa do universo disperso,
Grande pederasta roçando-te contra a adversidade das coisas,
Sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões,
Cio das passagens, dos encontros casuais, das meras observações,
Meu entusiasta pelo conteúdo de tudo,
Meu grande herói entrando pela Morte dentro aos pinotes,
E aos urros, e aos guinchos, e aos berros saudando Deus!

Cantor da fraternidade feroz e terna com tudo,
Grande democrata epidérmico, contágio a tudo em corpo e alma,
Carnaval de todas as ações, bacanal de todos os propósitos,
Irmão gêmeo de todos os arrancos,
Jean-Jacques Rousseau do mundo que havia de produzir máquinas,
Homero do insaisissable de flutuante carnal,
Shakespeare da sensação que começa a andar a vapor,
Milton-Shelley do horizonte da Eletricidade futura! incubo de todos os gestos
Espasmo pra dentro de todos os objetos-força,
Souteneur de todo o Universo,
Rameira de todos os sistemas solares...

Quantas vezes eu beijo o teu retrato!
Lá onde estás agora (não sei onde é mas é Deus)
Sentes isto, sei que o sentes, e os meus beijos são mais quentes (em gente)
E tu assim é que os queres, meu velho, e agradeces de lá —,
Sei-o bem, qualquer coisa mo diz, um agrado no meu espírito

Uma ereção abstrata e indireta no fundo da minha alma.

Nada do engageant em ti, mas ciclópico e musculoso,
Mas perante o Universo a tua atitude era de mulher,
E cada erva, cada pedra, cada homem era para ti o Universo.

Meu velho Walt, meu grande Camarada, evohé!
Pertenço à tua orgia báquica de sensações-em-liberdade,
Sou dos teus, desde a sensação dos meus pés até à náusea em meus sonhos,
Sou dos teus, olha pra mim, de aí desde Deus vês-me ao contrário:
De dentro para fora... Meu corpo é o que adivinhas, vês a minha alma —
Essa vês tu propriamente e através dos olhos dela o meu corpo —
Olha pra mim: tu sabes que eu, Álvaro de Campos, engenheiro,
Poeta sensacionista,
Não sou teu discípulo, não sou teu amigo, não sou teu cantor,
Tu sabes que eu sou Tu e estás contente com isso!

Nunca posso ler os teus versos a fio... Há ali sentir demais...
Atravesso os teus versos como a uma multidão aos encontrões a mim,
E cheira-me a suor, a óleos, a atividade humana e mecânica.
Nos teus ver sos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos,

Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural,
Ou de cabeça pra baixo, pendurado numa espécie de estabelecimento,
No teto natural da tua inspiração de tropel,
No centro do teto da tua intensidade inacessível.

Abram-me todas as portas!
Por força que hei de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas não dou senha nenhuma...
Passo sem explicações...
Se for preciso meto dentro as portas...
Sim — eu, franzino e civilizado, meto dentro as portas,
Porque neste momento não sou franzino nem civilizado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que há de passar por força, porque quando quero passar sou Deus!
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui pra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!

Que nenhum filho da... se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,
E comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito...
Pra frente!
Meto esporas!
Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto,
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa,
Conforme me der na gana... Ninguém tem nada com isso...
Loucura furiosa! Vontade de ganir, de saltar,
De urrar, zurrar, dar pulos, pinotes, gritos com o corpo,
De me cramponner às rodas dos veículos e meter por baixo,
De me meter adiante do giro do chicote que vai bater,
De ser a cadela de todos os cães e eles não bastam,
De ser o volante de todas as máquinas e a velocidade tem limite,
De ser o esmagado, o deixado, o deslocado, o acabado,
Dança comigo, Walt, lá do outro mundo, esta fúria,
Salta comigo neste batuque que esbarra com os astros,
Cai comigo sem forças no chão,
Esbarra comigo tonto nas paredes,
Parte-te e esfrangalha-te comigo
Em tudo, por tudo, à roda de tudo, sem tudo,
Raiva abstrata do corpo fazendo maelstroms na alma...

Arre! Vamos lá pra frente!
Se o próprio Deus impede, vamos lá pra frente Não faz diferença
Vamos lá pra frente sem ser para parte nenhuma
Infinito! Universo! Meta sem meta! Que importa?

(Deixa-me tirar a gravata e desabotoar o colarinho .
Não se pode ter muita energia com a civilização à roda do pescoço ...)
Agora, sim, partamos, vá lá pra frente.

Numa grande marche aux flabeux-todas-as-cidades-da-Europa,
Numa grande marcha guerreira a indústria, o comércio e ócio,
Numa grande corrida, numa grande subida, numa grande descida
Estrondeando, pulando, e tudo pulando comigo,
Salto a saudar-te,
Berro a saudar-te,
Desencadeio-me a saudar-te, aos pinotes, aos pinos, aos guinos!

Por isso é a ti que endereço
Meus versos saltos, meus versos pulos, meus versos espasmos
Os meus versos-ataques-histéricos,
Os meus versos que arrastam o carro dos meus nervos.

Aos trambolhões me inspiro,
Mal podendo respirar, ter-me de pé me exalto,
E os meus versos são eu não poder estoirar de viver.

Abram-me todas as janelas!
Arranquem-me todas as portas!
Puxem a casa toda para cima de mim!
Quero viver em liberdade no ar,
Quero ter gestos fora do meu corpo,
Quero correr como a chuva pelas paredes abaixo,
Quero ser pisado nas estradas largas como as pedras,
Quero ir, como as coisas pesadas, para o fundo dos mares,
Com uma voluptuosidade que já está longe de mim!

Não quero fechos nas portas!
Não quero fechaduras nos cofres!
Quero intercalar-me, imiscuir-me, ser levado,
Quero que me façam pertença doída de qualquer outro,
Que me despejem dos caixotes,
Que me atirem aos mares,
Que me vão buscar a casa com fins obscenos,
Só para não estar sempre aqui sentado e quieto,
Só para não estar simplesmente escrevendo estes versos!
Não quero intervalos no mundo!

Quero a contigüidade penetrada e material dos objetos!
Quero que os corpos físicos sejam uns dos outros como as almas,
Não só dinamicamente, mas estaticamente também!
Quero voar e cair de muito alto!
Ser arremessado como uma granada!
Ir parar a... Ser levado até...
Abstrato auge no fim cie mim e de tudo!

Clímax a ferro e motores!
Escadaria pela velocidade acima, sem degraus!
Bomba hidráulica desancorando-me as entranhas sentidas!

Ponham-me grilhetas só para eu as partir!
Só para eu as partir com os dentes, e que os dentes sangrem
Gozo masoquista, espasmódico a sangue, da vida!

Os marinheiros levaram-me preso,
As mãos apertaram-me no escuro,
Morri temporariamente de senti-lo,
Seguiu-se a minh'alma a lamber o chão do cárcere privado,
E a cega-rega das impossibilidades contornando o meu acinte.

Pula, salta, toma o freio nos dentes,
Pégaso-ferro-em-brasa das minhas ânsias inquietas,
Paradeiro indeciso do meu destino a motores!

He calls Walt:

Porta pra tudo!
Ponte pra tudo!
Estrada pra tudo!
Tua alma omnívora,
Tua alma ave, peixe, fera, homem, mulher,
Tua alma os dois onde estão dois,
Tua alma o um que são dois quando dois são um,
Tua alma seta, raio, espaço,
Amplexo, nexo, sexo, Texas, Carolina, New York,
Brooklyn Ferry à tarde,
Brooklyn Ferry das idas e dos regressos,
Libertad! Democracy! Século vinte ao longe!
PUM! pum! pum! pum! pum!
PUM!
Tu, o que eras, tu o que vias, tu o que ouvias,
O sujeito e o objeto, o ativo e o passivo,
Aqui e ali, em toda a parte tu,
Círculo fechando todas as possibilidades de sentir,
Marco miliário de todas as coisas que podem ser,
Deus Termo de todos os objetos que se imaginem e és tu!
Tu Hora,
Tu Minuto,
Tu Segundo!
Tu intercalado, liberto, desfraldado, ido,
Intercalamento, libertação, ida, desfraldamento,
Tu intercalador, libertador, desfraldador, remetente,
Carimbo em todas as cartas,
Nome em todos os endereços,
Mercadoria entregue, devolvida, seguindo...
Comboio de sensações a alma-quilômetros à hora,
À hora, ao minuto, ao segundo, PUM!

Agora que estou quase na morte e vejo tudo já claro,
Grande Libertador, volto submisso a ti.

Sem dúvida teve um fim a minha personalidade.
Sem dúvida porque se exprimiu, quis dizer qualquer coisa
Mas hoje, olhando para trás, só uma ânsia me fica —
Não ter tido a tua calma superior a ti-próprio,
A tua libertação constelada de Noite Infinita.

Não tive talvez missão alguma na terra.

Heia que eu vou chamar
Ao privilégio ruidoso e ensurdecedor de saudar-te
Todo o formilhamento humano do Universo,
Todos os modos de todas as emoções
Todos os feitios de todos os pensamentos,
Todas as rodas, todos os volantes, todos os êmbolos da alma.
Heia que eu grito
E num cortejo de Mim até ti estardalhaçam
Com uma algaravia metafisica e real,
Com um chinfrim de coisas passado por dentro sem nexo.

Ave, salve, viva, ó grande bastardo de Apolo,
Amante impotente e fogoso das nove musas e das graças,
Funicular do Olimpo até nós e de nós ao Olimpo.


Imagem retirada da Internet: Walt Whitman