sábado, 16 de novembro de 2013

Francisco Perna Filho - Ensaio Crítico


ESPELHADO DE CÉU MUITO SERENO




Depois de morar em São Luis do Maranhão, Cuiabá, Palmas, Goiânia e Fortaleza, Jádson Barros Neves voltou à sua pequena cidade, Guaraí-TO, para uma jornada de intensas leituras e escritas.

Leitor de William Cuthbert Faulkner, estudioso contumaz das nossas Letras, traz na alma, um tanto quanto inquieta, os causos, lendas e mitos da Região Norte, principalmente do sul do Pará, onde trabalhou como vendedor de secos e molhados, juntamente com seu pai, já falecido.

Jádson, ao longo dos seus quarenta e dois anos de existência, vem construindo um trabalho de fôlego na narrativa contemporânea brasileira, mais particularmente na categoria conto. Detentor de diversos prêmios literários, tanto no Brasil, como no exterior, valendo destacar o Concurso Guimarães Rosa/Radio France Internationale.

Enquanto o primeiro livro não chega, Jádson vai se firmando como escritor, conquistando novos leitores e novas premiações, como recentemente o fez, nos 40 anos da UNICAMP, quando teve o seu conto “O Funil” incluído no livro “CONTOS – UNICAMP ano 40” (Editora da Unicamp,2007).

Ambientado num vilarejo qualquer, às margens de um rio qualquer, da memória do autor, o conto nos fala de companheirismo e perdas. Conta a história de Suzana, viúva de Orlando, e a do seu cunhado, José, na incansável busca para encontrar o irmão que fora tragado pelo rio quando nadava de volta para canoa, após recuperar a sua vara de pesca que caíra na água.

Narrada em terceira pessoa, intercalada por idas e vindas, irrompendo, às vezes, o discurso direto e o discurso indireto livre. O tempo narrado compreende quatro dias na vida dos personagens, desde a Sexta
à tarde, quando Orlando caiu no rio, o Sábado e Domingo de buscas, até Segunda feira, quando o corpo foi encontrado.

Já de início, pode-se ver a força narrativa de Jádson, as belas imagens com que trabalha, consubstanciadas pela força lírica do seu texto. Como se pode conferir neste trecho:
“José havia remado a tarde inteira, por mais de dez quilômetros, rio abaixo, e também havia procurado ao longo do delta, nos baixios e nos remansos e agora estava exausto. Subia a ladeira que dava no vilarejo, onde uma lua gorda, amarela, nascia atrás da colina da igreja. Quando passava, as pessoas olhavam-no em silêncio, e José as cumprimentava e baixava a cabeça e as pessoas também baixavam a cabeça. Era um coro só, o coro do silêncio. José vinha adoecido daquele crepúsculo rápido e sangrento, daquele fim de inverno chuvoso, que ainda repercutia no horizonte em forma de relâmpagos esparsos.(...)”.

Com assomada capacidade perceptiva Jádson Barros Neves consegue, pela plasticidade de suas imagens, compor a atmosfera propícia para o fato narrado, como quando descreve a velha casa onde moram José e Suzana e, outrora, Orlando:

“A casa onde ela morava era velha, pintada de um amarelo corrompido pela ação das intempéries e descascada pelo sol. Esquecida, quase abandonada há anos, suas duas portas, suas três janelas fechadas, com fendas na madeira, guardando o silêncio e a poeira de muito tempo de esquecimento”.
Assim como a descrição encimada, muitos outros belos trechos são marcadamente inesquecíveis, como o que segue:

“Ela concordou mais uma vez com a cabeça e José foi fechando os olhos lentamente, contemplando a imensa lua amarela que sangrava perto da janela e lembrando do quanto era bonita a chuva no delta. Vira-a à tarde, uma cortina escura, que cavalgou escurecendo o horizonte”.

Percebe-se aqui, pelas passagens lidas e superficialmente analisadas, o pleno domínio da narrativa curta por Jádson Barros, a primazia com que tece as tensões nas suas histórias, sempre carregadas de muita reflexão e humanidade. Um voltar-se sobre si mesmo, revelando e encobrindo, causando no leitor a vontade de seguir adiante, como bem nos ensina Wendel Santos:

“O conto forma-se sob o anseio de duas tensões: o de revelar e o de encobrir. Tais tensões podem compor-se de modo o mais diverso. Há o conto que alterna revelação e encobrimento; há o conto que, de início, revela um mínimo suficiente para despertar a curiosidade leitora e, em seguida, numa ordem de crescimento constante, encobre seu objeto até o ponto em que é necessário outra vez revelá-lo(...)”

Jádson sabe muito bem do que fala Wendel Santos. Ele tem pleno domínio da técnica e da arte da escrita, sem falar no seu apurado senso estético. Adentrar a sua obra é permitir-se participar desse jogo, dessas tensões, para uma jornada de acontecimentos. O leitor está convidado a conhecer mais de perto o poder criativo deste autor tocantinense, que, sem medo de errar, faz parte do que de melhor há na Literatura Brasileira. Boa leitura!.

Fonte da Imagem: com conto

domingo, 10 de novembro de 2013

Francisco Perna Filho - Ensaio Curto

Carlos Fuentes



ESPAÇO E PRECONCEITO


Há muito que ouço e leio julgamentos do tipo: “esses são poetas menores”, “aqueles são poetas maiores”. Fale-se muito, classifica-se sem critérios, abusa-se de chavões, mas consistentemente nada se tem de concreto. Sobressaindo-se os ditos “Grandes” os “consagrados”, os “intocáveis”, donos de uma obra magistral. “A melhor de todas”. Já ouvi muito dos “ditos consagrados” e olha que as academias, os salões, as agremiações, estão cheios desses imortais indivíduos, tão sonhadores nem quem tempo têm para realidade.

Para a realidade literária, aquela que bate à porta, que clama para ser lida e ouvida. Aquela que está na rua, nas velhas cidades, na universalidade dos becos, no lirismo da despedida. Uma realidade que pulsa na Internet, nos blogs, nos fóruns, nas revistas eletrônicas, exemplo, a Bula.

Franz Kafka
Lembro-me de ouvir por aí, da boca de muitos intelectuais, que eles jamais escreveriam para blogs, para revistas eletrônicas, que isso seria rebaixar-se; que tais espaços não tinham a nobreza para comportar tamanha erudição e imortalidade. Que bobagem! Eu dizia, e ficava observando, escrevendo, refletido. E vi quando as coisas começaram a mudar, quando os nossos intelectuais, os renomados, passaram a descobrir o alcance que tem a Internet. Descobriram também que revistas como esta não se faz do dia para noite, é preciso paciência, seriedade, determinação e bom conteúdo.

A propósito do que estou dizendo, lembrei-me de Julio Cortázar, escritor argentino, numa entrevista concedida ao jornalista uruguaio Omar Prego, ao ser perguntado sobre as influências sofridas pelos autores latino-americanos, e a resistência deles em aceitar tais influências, principalmente quando os pais intelectuais eram, também, latinoamericanos. E, mais ainda, a recusa desses escritores a escreverem o que consideravam como gêneros menores: romances policiais, rádionovelas e memórias.

Julio Cortázar
A esse questionamento, que agora transcrevo, Julio Cortázar, inteligentemente, responde perguntando: “Será que isso não vem das falsas categorias de valores que existem na literatura, e em tantas outras coisas nesta vida? Porque em outro nível ocorre o caso de escritores que recusariam, horrorizados, um eventual convite para que escrevessem radionovelas. Porque consideram que a radionovela é um gênero secundário, insignificante, e eles não poderiam concordar em fazer uma coisa dessas. Raciocínio sumamente sofismático, porque tudo se resolveria fazendo boas novelas de rádio, que aliás existem(...)” e completa “(...)Em Cuba, por exemplo, mais de uma vez disse aos escritores cubanos, que se queixam de não serem editados, principalmente os jovens: “vocês se queixam porque não são editados, e na realidade vocês deveriam é tomar de assalto e se apropriar dos novos meios de comunicação cultural de Cuba, ou seja, o rádio e a televisão.” A resposta é sempre a mesma: “Ah, isso não, eu sou poeta”, ou: “Eu sou romancista.” Consideram indigno pôr a mão em outros meios de comunicação”. Pena não ter ele, Cortázar, durado para contemplar, estupefato, a explosão que é a Internet. Talvez dissesse - como diria meu pai: - Um colosso!

Rompido o preconceito, abertas as portas da interatividade, muitos questionamentos surgem, suscitados pelo espaço democrático que temos aqui na Bula, um desses questionamentos diz respeito ao que foi colocado logo atrás a respeito da fala de Cortázar e do que mencionei no início deste texto: o quanto somos preconceituosos quando o assunto é arte, principalmente Literatura e, mais ainda, quando essa literatura é brasileira.
Juan Rulfo
Na edição passada - há uma discussão sobre o valor de alguns críticos literários, como Harold Bloom: se ele tem ou não tem competência ou se é um mero modismo inventado pela mídia, como também o fora “Claude Levy Straus”. Depois disso, para atender a uma amiga, doutoranda, do Carlos Willian, vieram as batidas listas: “melhores obras”, “maiores autores”(aqui entraria Julio Cortázar, que era altíssimo, e que recebeu de Juan Rulfo, o seguinte comentário: “Tem um coração tão grande que Deus necessitou fabricar um corpo para acomodar esse coração.”), dos “melhores filmes”. Há uma repetição, as mesmas obras, os mesmos autores, algo muito fechado, desconsiderando o quanto de coisa maravilhosa existe na Literatura universal, na Literatura Brasileira Universal. Todas as obras citadas nessas listas têm o seu valor, são grandes, sim, mas se considerarmos que são listas pessoais, são tão iguais, mas tão iguais que parecem não permitir que se fale de outras obras.

E.T.A. Hoffmann
Pensemos, por exemplo, em E.T.A. Hoffmann, Juan Carlos Onetti, Franz Kafka, Carlos Fuentes, RuanRulfo, Autran Dourado, Murilo Rubião, Willian Faulkner, Alenjo Carpentier, e, claro, Gerardo Mello Mourão, autor do grande poema épico “Os Peãs”; do tão maravilhoso: “Invenção do Mar”; e do mais musical deles: “Cânon & Fuga”, do qual transcrevo poema a seguir e aproveito para encerrar parte desta reflexão:
Gerardo Mello Mourão

O que as sereias diziam a Ulisses na Noite do mar


                                                                                                                    Sobre a frase musical de Ivar Frounberg
       “Wassagen die Sirenenals Odysseus vorbeisegelte”



Ninguém jamais ouviu um canto igual
Ao canto que te canto
Escuta: as ondas e os ventos se calaram e a noite e o mar
Só ouvem minha voz – a noite e o mar e tu
Marinheiro do mar de rosas verdes:
Virás: é um leito de rosas e lençóis de jasmim – e ao ritmo
De teu corpo entre a cintura e as ancas
Mais o lençol de aromas de meu corpo
Em monte de pétalas desfeito:
E dormirás comigo
E os que dormem com deusas
Deuses serão
Vem dormir comigo
E comigo
e todas as sereias.
Todas as deusas se entregam
ao amante que um dia possuiu uma deusa
e então todas as fêmeas dos homens
Helenas, Briseidas e a Penélope tua
hão de implorar às Musas – e as Musas a Eros e Afrodite
a volúpia de uma noite contigo.
Não partas!
Se partires
As velas de tua nau serão escassas
Para enxugar-te as lágrimas – e nunca
Nunca mais tocarás a pele das deusas
Nunca mais a virilha das fêmeas dos homens
E nunca mais serás um deus
E nunca mais a melodia de uma canção de amor
Dos hinos do himineu:
Abelhas mortas para sempre irão morar
Na pedra do jazigo de cera
De teus ouvidos cegos.
Mas vem
E vem dormir comigo
E comigo
E minhas mãos irmãs e todas
As sereias do mar
As sereias da terra
E as sereias dos céus.

Texto escrito em maio de 2008.

In. O Rio Tocantins engoliu meu Avô. Goiânia: PUC Goiás/Kelps/Prefeitura de Goiânia, 2012, p.51-54.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Inácio de Loyola Brandão - "De onde vêm esses seres?"

Ignácio de Loyola Brandão - foto by Tribuna de Minas

Beth Brait, no seu livro A Personagem, dedica um capítulo para  ouvir o que alguns escritores contemporâneos têm a dizer sobre os seus personagens: como surgem? de onde vêm, quem são esses seres? Reproduziremos, aqui, ao longo desta semana, tais depoimentos. Hoje, ouviremos o que tem a nos dizer Inácio de Loyola Brandão



Divulgação

Vêm de mim. Sou eu mesmo, uns quarenta por cento. Tem vez que é bem mais: sessenta, cem por cento. Depende da piração. Mas a maior parte das vezes vêm de tudo que me rodeia, das pessoas que estão à minha volta. De gente que vi, observei, convivi, entrevistei, amei. Dizia Hemingway (será que dizia mesmo?) que o escritor não pode ter escrúpulos. Nem com os outros, nem consigo mesmo. Não se confunda falta de escrúpulos com mau-caratismo; são coisas distintas, no caso literário. Se uma pessoa pode fornecer dados ricos para um personagem, por que não utilizá-la?

Bebel foi tirada de uma  estrelinha da tevê Record que tinha sido Miss Luzes da Cidade, um concurso promovido pela Última Hora entre as "beldades" do bairro. Juntei a essa menina as características de uma conhecida estrelinha da televisão paulista, famosa pelas belas pernas e pelo sotaque francês. Inventei umas falas, certas situações, idealizei outras com o conhecimento que tinha dos bastidores da televisão, porque era um dos setores que eu cobria na Última Hora , década de 70. E estava pronto o personagem.

Adelaide, do Não verás país nenhum, foi tirada de uma amiga dona de pensão, onde morei nos princípios de minha chegada a São Paulo. A ela juntei gente de minha família, uma vizinha que era a Adelaide dita e feita. Essa mulher, quieta, tranquila, recatada, "dona-de-casa", fiel cumpridora dos deveres, morreu um dia. E o que apareceu de caso, de romance, de amor, de fofocas! Parece que existiam duas mulheres. Mas será que existiam mesmo? Ou são os mitos populares? Deixo essa ambiguidade no meu romance. Há uma, ou duas Adelaides?

O Souza leva uma carga minha. O meu lado acomodado, apático, o deixa por lá. Tirei-o também de um amigo inteligente e lúcido, mas pessimista. Para que lutar? Misturei num liquidificador, onde botei alguns conceitos meus a respeito da classe média: omissa, reacionária, medrosa, conservadora etc. Acrescentei lampejos de  conscientização e lucidez - estava pronto.

O personagem sem nome do Dentes ao sol foi inteiramente baseado em dois pontos: 1) o meu medo de nunca ter saído de Araraquara; passei a imaginar o que seria a minha vida lá, se eu tivesse ficado, consciente de que não tinha tido coragem; 2) um amigo que realmente ficou e depois tentou até o suicídio.

Disso resultou aquele homem que nunca procurou fazer as coisas que sonhava. E passou a viver na terrível angústia do: "e se eu tivesse tentado?" Tentar e fracassar não é problema. O suicídio, o veneno lento, é a dúvida: teria dado certo?

Anoto falas, frases, tiques, trejeitos, mania dos outros e vou jogando nos personagens. Tento também me ver através deles, me autocriticar. Vivo com uma agendinha no bolso, anoto escondido. Senão esqueço.

Nos meus primeiros livros (Dente ao sol, Bebel que a cidade comeu e Pega ele, Silêncio) o personagem Bernardo (meu alter ego) é constante. Em Zero, ele já aparece rápido, sentado em cima de uma saca de feijão. Meio decadente. Em Dente ao sol, ele é criticado por uma pessoa da cidade de onde veio.

Em Bebel, há um instante em que a personagem vai a um enterro. O enterro de uma atriz de teatro que morreu de acidente. A história da atriz, Ana Maria, veio no livro seguinte e se chama "Túmulo de vidro".

A personagem de "Camila numa semana" (conto do Pega ele, Silêncio) foi baseada numa menina que existiu realmente e tinha até esse nome. Estudante universitária, depois esteve envolvida na clandestinidade, sofreu, acabou se matando. Era uma belíssima menina, que frequentava muito o teatro Oficina no começo dos anos 60, chegou a namorar o Zé Celso. Espécie de paixão de todo mundo. Ela adquiriu no livro o rosto de Jean Seberg, que era o mito da minha geração. A personagem do incrível Acossado, de Godard, que tanto marcou a gente.

Acabo de me lembrar que não falei do José e da Rosa, os dois do Zero. Sabe que tem muito estudante que me pergunta: - Zero vem de Zé mais Ro, abreviatura de Rosa?

Olha que é engraçado.
Os dois foram uma misturada das mais loucas. Punha o que vinha na cabeça, sem preocupações tipo: combina com o personagem? Está dentro da linha psicológica? Ajusta-se? Não está ficando ambíguo? Paradoxal? Contraditório? Acho que este meu "não importar" é que conduziu ao personagem (talvez) melhor acabado, mais brasileiro, "real", típico, modelo do nosso homem em determinado momento. Claro que o fato de minha literatura, não de toda a brasileira. Zé e Rosa foram colagens alucinantes, delirantes, pedaços, segmentos, fragmentos de tudo que rodava vertiginosamente em torno de mim, no final dos anos 60. Mandei ver. Com liberdade mesmo, sem pensar em estrutura, coerências, linhas, porque todo o país andava desestruturado. Andava? Houve até um crítico que passou o tempo todo a perguntar: mas onde está o eixo do livro? Mandei uma carta à revista Escrita dizendo que o eixo do livro poderia ser encontrado
 em qualquer casa de auto-peças.

Zé e Rosa nasceram de um sem-número de histórias que eu tinha prontas na gaveta. Histórias, ideias, anotações sobre personagens. Gente de São Paulo. Sempre escrevo numa agenda, depois datilografo e guardo em pastas. Um dia, apanhei as pastas e comecei a sacar situações e a escrever, montar o livro. Não foi à toa que Zero demorou nove anos a ficar pronto. Anotações e materiais guardados a partir de 64. Sentei à mesa, firme, entre 67 e 69. Entre 69 e 73 fiquei editando, aparando, limando, empurrando, cortando, tentando seguir aquele conselho de Hemingway a um jovem que queria ser escritor: escreve como se estivesse mandando um telegrama pago do seu próprio bolso. Isto é, cada palavra sai cara. E todo mundo entende a linguagem econômica do telegrama, porque lhe diz respeito. Era isto, síntese. E a história dizer "respeito". Acho que a gente lucra ao ler biografia. Era bom o velho!

Assim, é de mim e do que me rodeia que esses seres vêm. Nenhum extraterreno, todos reais, carne e osso. Se é que personagens podem ser carne e osso.  Mas essa é outra história.

In. BRAIT, Beth. A Personagem. São Paulo: Ática, 1985, p.71-72.

Para saber mais sobre o autor, clique AQUI

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Antônio Torres - "De onde vêm esses seres?"




Beth Brait, no seu livro A Personagem, dedica um capítulo para  ouvir o que alguns escritores contemporâneos têm a dizer sobre os seus personagens: como surgem? de onde vêm, quem são esses seres? Reproduziremos, aqui, ao longo desta semana, tais depoimentos, começando com o Escritor Antônio Torres. Boa leitura! 



Eles vêm do fundo de uma gaveta chamada memória. Aparecem quando menos esperamos. Rondam as nossas noites, nos perseguem por madrugadas a fio. A princípio são imagens vagas, feições humanas de quem mal nos lembramos, sombras de um passado que o presente quer resgatar.

Convivo com esses seres durante meses, às vezes durante anos, até pularem sobre o teclado. Engata a primeira frase, eles, o seres reais que me serviram de ponto de partida para o romance, vão desaparecendo e dando lugar ao que chamamos de personagens. Uma gente que se cria, anda por suas próprias pernas e nos impõe o seu próprio destino.

Foi assim com Um cão uivando para a lua: uma visita de poucas horas a um amigo que se encontrava internado numa clínica psiquiátrica no Rio de Janeiro – e que me abalou profundamente – viria a gerar um personagem chamado “A” e seu duplo “T”. Assumi a primeira pessoa, enquanto narrador-personagem, e até hoje todo mundo pensa que é um romance autobiográfico.

Já em Os homens dos pés redondos a imagem que me perseguia era a de um desenhista que trabalhava comigo num casarão mal-assombrado, na cidade do Porto, Portugal. Ele andava com uma tesoura no bolso e me dizia que ia matar o nosso chefe. Não o fez. E me deu um romance.

Com Essa terra  a história é mais longa. Custou-me duas viagens ao sertão da Bahia. Eu qeria saber quem tinha sido o homem que, depois de muitas idas e vindas no eixo Nordeste-São Paulo, acabou por se enforcar no armador de uma rede. Mas todas as pessoas do lugar se negavam a tocar no assunto. O romance, então, foi se fazendo à medida que eu ia percebendo que a negação dos fatos era o próprio fato, em relação à tragédia daquele homem. Por falta de dados, a pessoa que eu buscava desapareceu. Aí nasceu o personagem.

Carta ao bispo foi escrito em homenagem a um primo meu, um grande amigo, político amador, que queria inserir o nosso pobre lugarejo no mapa do mundo. Ele tomou veneno na casa do bispo de Juazeiro. Me contaram que, envenenado, ele andava por um corredor, deixando marcas de sangue – marcas das suas mãos – nas paredes. Bastou esta cena para me ajudar a criar todo o romance.

Quanto ao Adeus, velho, que conta a saga de uma família de dezoito irmão, foi inspirado por velhos recortes de jornais sobre a prisão, em Salvador, de uma moça do sertão acusada de um crime que não cometera. A imprensa assumiu um papel de juiz e a condenava, provocando um grande escândalo. Isso me chocou.

Finalizando: quanto a mim, o personagem surge com uma lembrança, um fato, qualquer coisa que me toca, no presente, em relação a qualquer coisa que me tocou, profundamente, no passado.


In. BRAIT, Beth. A Personagem. São Paulo: Ática, 1985, p.71-72.
Imagem retirada da Internet: Antônio Torres

Para saber mais sobre Autor, clique AQUI