sexta-feira, 1 de abril de 2016

Francisco Perna Filho - Seleta de Poemas

Foto by - Rosana Carneiro Tavares - Paris

Esta seleta traz poemas de diversas fases, alguns pertencentes a livros, outros foram publicados esparsamente neste espaço e no Facebook. 

Quando me contenho, me tenho; quando me solto, sou óbvio!




Foto by - Maria Júlia Tavares Perna
Em um tempo qualquer


[Ouvindo a Sinfonia nº 5ª de Gustav Mahler]


Eu vi o Mar
e a face líquida de Deus.
Um transbordamento
desta longa avenida,
no misterioso das águas.

São plenas,
e, daqui de cima,
sob o rumor dos motores a cortar
a carne líquida do Atlântico,
Contemplo os azulegos corcéis
desta aventura,
e precipito-me no desconhecido.

Os rios são como os cavalos selvagens,
rumam em desatino, florescem a seu tempo,
investem no que acreditam. Não respondem a ordens, seguem.

Não estou só,
além de mim,
em um tempo qualquer,
Braços fortes conduzem o trirreme,
mortos de saudades
desferem suas lanças
e se tornam prisioneiro dessas águas.

Países, cidades, praias,
Ilhas de absoluta beleza,
vales, montanhas,
e não lhes ouço o rumor,
apenas sinto a pele tênue de cada canto
a roçar-me o sonho de aventura.

Ali vivem homens que se desdobram em trabalho e contemplação,
A dominar séculos e séculos de incertezas,
De idas e vindas, a compor um tecido de sobrevivência.
Assim como eles,
precipito-me na vastidão dessas águas,
para vencê-las, a despeito de qualquer melífluo canto,
miragem, previsão.

Há, no outro lado dessa textura,
uma sereia à qual me rendo
que nessa longa ausência,
Incansavelmente, tece a minha volta,
Contrariando as previsões da cigana
de que eu jamais cruzaria o mar.

São léguas e léguas,
e os caminhos intensos desta minha navegação
Recobram o menino
de rios e ribeirões,
de grotas e cachoeiras,
desavisado dos trovões da madureza.

falésias, arrecifes, restingas

Daqui a pouco,
e não tardará,
estarei com ela,
e nos saciaremos de nós
Sentar-nos-emos
Em um barco no Sena
Entre um vinho e outro,
solfejaremos velhas canções.

Prossigo na tessitura.
Acima de mim, as estrelas.
É preciso senti-las,
sem descuidar-me das águas,
lá embaixo.

Sagitarius, Ursa Maior, Cruzeiro do Sul

Deuses comentam a minha volta:
Ecce Homo !
Assim como Aquiles,
Que se encantou com Polixena
e sucumbiu à seta de Páris,
morro também de saudade,
mas logo refaço-me
na armadura do herói
que volta para casa.

O mar morrendo em força, o ar se desvanecendo.
Terra à vista: Serras, pastos, gado, homens, muitas vozes.

Vencido o cansaço,
os épicos saltos da embarcação,
Deixo para trás Gigantes e tormentas,
e o mormaço do meu coração.
Vejo, agora, a alva do meu destino,
Sinto o atrito das rodas no chão,
A leveza de quem volta para casa
Desejoso do beijo da mulher amada.

[Poema publicado na Antologia Goyaz-2015. Organização de Adalberto De Queiroz. Goiânia: Livre Pensadores, 2015, p.51-3]


Cafarnaum

velhos armários,
guardando nas suas gavetas
o cheiro aveludado de tantos invernos,
esculpidos em retratos sonâmbulos,
carpidos no ranger de redes
e no murmúrio oblongo de potes de barro.
Nada há de velho que não enterneça.
nem o mofo,
nem o lodo,
nem os anos embotados no imaginário humano.
Nada passa que não nos faça avançar para antes,
para uma anterioridade lírica,
sob a luz das lamparinas
talhadas em ausências e muita solidão.
Nada há de novo que não nos mostre o velho,
o passado,
o que fomos nós,
nos passos tênues dos nossos avós,
                               no lastimoso grito memorial
                               dos nossos corpos na dança secular;
dos nossos corações empedernidos
pelas inúmeras cicatrizes
que clamam refeição.
O que há em nós
é um imenso desejo de reconstituição
de refazimento.
Um desejo
de saciar a nossa fome ancestral,
agora, no presente futuro.


Foto by 4ppt.org
Gauche


O bruto ser que brota
nos olhos finos do gato,
em plena luz refletida.
A loucura da palavra,
que me impede a boca,
no beijo travo da louca
que me assalta o sonho.

Um caminho
que nunca volta,
a porta em desalinho
na sombra que me reflete torto.
O passarinho rouco
em desacelerado canto
um beijo tenso guardado
Quando me levanto.

Tarde tarda tantas vezes o sono,
sou assim assado sempre que me escondo,
me escudo,
me recuso,
nunca me acho.
A fina flor que carrego
morreu de orvalho.


Foto by mochileiro.com
Montanha


A palavra pesada
persegue a pedra,
revela o austero pulsar do silêncio
e, com ele, inaugura um olhar de montanha.
Do alto, a alma encanta-se
e o olhar precipita-se em direção ao luzir da cidade.
Do baixo, o corpo, enfermo, claudica
e os braços perdem-se na impotência primordial
de uma escalada.
A montanha é sentida
e nela diviso o inferno e o paraíso
da Babel recriada.
Estando no centro,
a minha alma assesta a caverna
na recomposição do paraíso Dantesco.
Dessa forma,
a montanha enternece o poeta
e a palavra mais leve
revela a montanha/palavra
Refletida no olhar.


Foto by ebc

Aboio 


Oh, Jerusalém!
A palestina sangra na menina dos teus olhos.
E pálida fica a tarde aturdida pelos canhões
amortecidos nos corpos espalhados pelo rio dos meus sentimentos.

Sentir o arranque do carro,
a distância da bala consumida pelo peito inocente da menina que vende flores em Copacabana.

Praga se faz aqui,
E em toda primavera nos sentimos invadidos
pelos soldados da incompreensão,
que marcham enraivecidos como os canhões na praça vermelha;
como os pássaros nas torres gêmeas;
quando as suas caras pálidas transbordam incertezas,
soldados que estão na própria máquina que conduzem.
Deuses do próprio umbigo,
amaldiçoados em rastros de ferro e fogo.

Famintos,
Os governantes desconhecem as águas na quais se banham.
Infelizes, não se comovem com o aboio da terra maltratada,
estriada, ressequida.

Infames, são a pura erva que mata o gado que somos.
Muitas outras dores passam a largo,
E não há remédio que possa acalmá-las.
Muitos outros gritos repercutem,
Como a mulher que grita desesperada
Pelas ruas de Bagdá.
Cavalos marcham em disparada.
Fora os ídolos!
Somente a ideia dos reis em marcha,
Os santos quebrados a cada um que se desfaz.
As aldeias estão às escuras,
A estrela não brilha mais,
E os homens gravitam no velho ábaco.
Olvidados o grito da terra,
Os sons metálicos das dores milenares,
e a menina órfã é rasgada como brinquedo de exploradores,
tão sedentos como os senhores da guerra.
Cravam-nas, as lanças, fardo de suas misérias capitalistas,
no corpo ingênuo da menina
de pernas finas,
bracinhos frágeis,
ventre deformado,
gestando o martírio de cana e etanol.

Oh, malditos!
Cearão a lama que produzem,
Nadarão nos tanques dos seus martírios.
Depois, embriagados chorarão a fome
A miséria da alma,
Os sons da fúria de uma cegueira ensaiada.

Oh, infames!
Visionários da própria destruição.
Assestarão os seus olhos para além do que podem entender,
E não enxergarão nada mais do que terra degradada,
Silêncio em decomposição,
Saudade e desmantelo
Na dor profunda do cerrado que se desintegra.

Ei boi! Ei boi! Ei boi!

[Poema premiado no Prêmio (novos talentos) SESI de Poesia - Goiânia - 2007]


Foto by www.momes.net
Por um sono


O pássaro pousa no sonho
um cantar de prata,
e a densa plumagem que o abriga
é de um verde inacabado,
de um amarelo rubro,
de presumida ferida.
O homem que sonha o pássaro,
aos olhos do pássaro,
é um gigante e,
por um instante,
parece tocá-lo com um grito.
O pássaro sonhado carrega
nas asas muitas pedras,
perseguições
e desencantos,
por estar preso ao sonho,
a um visgo tão ilusório quanto a sua existência.
O homem ainda é um menino
e acostumou-se a sonhar pássaros
para aprisioná-los nos seus poemas.




Anotações


Fundada em lonjura,
a saudade é áspera.
Farpado arame,
pintura descascada.

Turvo canto,
lânguido e impessoal
como a ausência,
sem defesa na hora que ataca,
como a fera que espreita e devora.

In. Refeição. Goiânia: Kelps, 2001, p.43.



óleo sobre tela - by Francisco Perna Filho

 Afeição



Como o ferro ao ímã,
um corpo retém outro corpo,
a vítima, o algoz
a submissão retém o abandono.

O sono retém a vigília,
o sonho retém o real,
a ilusão retém a vida,
a tristeza, o carnaval.

O dia retém a noite,
a sanidade, o transtorno,
O casulo, a borboleta,
o sexo retém o gozo.

A terra retém a seca,
a alegria, o instante,
o cacto retém a sede,
a rua, o passante.

o tapa retém o rosto,
o pensamento, a palavra
o silêncio retém o som,
o tudo retém o nada

O poema retém o verso,
linguagem, mundo e ritmo.
Deus retém o ateu,
o poeta retém o crítico.
O final retém o começo,
O infinito, o finito.




Metáfora


Agreste,
a flor de couro floresce
nas fedas do acaso.
O tempo a dedilhar-lhe as entradas,
as entranhas,
os vazios,
na secura do sertão.
Serena,
A flor de couro floresce
na relva esquecida,
no comprido lamento
dos chocalhos,
no guizo das serpentes
a espreitá-la.
Alheia,
a flor de couro floresce desencantada,
e na sua fome de cactos e pedras
desconhece outras fomes
que se avizinham.
Agreste,
a flor de couro floresce
para a colheita.

[Um dos vencedores do Prêmio Off Flip -Paraty -2014]

candeeiro

Silêncios


Silenciar como pedras,
tornar imóvel o distante,
pura embarcação.
A rede,
a vela,
a curva e a canção
caminham e me enfunam.
Morrer nas pequenas coisas:
no papel amassado da não inspiração,
na toalha embotada de Toddy e pão,
no candeeiro sem lume e sem esperança.
O gume mata o sono e o sonho.
Tudo se desbota.


Foto by Buzz Mag


Instante


A suposta lua que veríamos,
                          não a temos.
Somente as dálias,
os hibiscos,
o bule de café,
a sala bem arrumada,
dialogam com o nosso silêncio.

Tudo parece tão terno,
                           bem acabado,
perfeito para o amor prometido,
invetado em palavras raras,
prontas para serem ditas.

Lá fora,
           a chuva,
                a vida sonolenta,
a sirene d i s t a n t e,
as sonambúlicas palavras da madrugada
pronunciadas no sexo barato de alguma prostituta.

Aqui,
     nos   reclinamos,
propensos ao mundo,
                  ao tempo,
                              ao gozo,
quedos nas nossas vontades,
nos nossos vazios,
nos nossos delírios.


Fonte l'humanité
Em vias


Pelo corredor do hospital
grande luta é travada:
a alegria do menino sereno
fora atropelada pelo monótono
amargor da velhice.
Não sabeis a quem recorrer.
Não basta o grito rumoroso de socorro
no perene desespero de quem avança
pelos rios do envelhecimento/envilecimento.
Ninguém ouvirá vosso grito.
Melhor não tivésseis memória,
porquanto não sofreríeis agora.
Todos os sóis que canonizastes
foram se perdendo nos secos galhos
de outono.
E a firme voz que tínheis
fora brutalmente amarfanhada e esquecida.
A estrela que sempre vos guiara,
petrificou-se em um bar qualquer
para seguir os errantes caminhos da noite.
Não tereis como vos socorrer.
Quebrastes todos os vossos espelhos,
rasgastes todas as fotografias da vossa infância,
perdestes o rumo de vossa casa.
Sois só.
Agora, demasiado fraco,
congelas algumas lembranças
para ensaiar o grande salto.
O que de vós fora feito, homem bom.

In. Refeição. Goiânia: Kelps, 2001




 Maça


A maçã de Gregor Sansa,
maçã lírica de Bandeira,
maçã na geladeira,
em cima da mesa,
no café da manhã.
A maçã amarelada,
maçã verde
encarnada.
Maçã do rosto,
do desgosto,
da sabedoria,
de Adão e Eva.
Maçã de ouro,
Pomo da discórdia,
da imortalidade
no Jardim das Haspérides.
Maçã do Canto dos Cânticos,
da fecundidade divina.
Maçã metálica,
poética,
maçã da vida,
sintética.
Robótica,
virtual.
Maçã inspirada
de Jobs,
fotográfica,
de jornal.
Maçã mordida,
cortada,
comida,
abusada.
Maça científica
mágica,
espiritual.
Maçãs azuis
dos meus sonhos,
todo bem,
todo mal.


www.infobae.com

Sob os olhos de Deus


Colho cores nesta manhã:
azuis, ocres, cinzas e amarelos.
são feixes de luz
emergindo da primavera.
Colho pássaros em arribação,
em voos tímidos,
planando sob os olhos de Deus.
Sirvo-me de um pedaço de cada coisa,
silenciadas no meu coração,
quando volto para casa.


Óleo sobre papel - Francisco Perna Filho

A Bailarina cega




Um, dois, três, quatro,
Um pássaro em cada passo,
A bailarina cega ignora os espelhos
e a geometria do palco,
e se reconhece no voo da alma.

A bailarina acerta, quando erra,
decerto não sabe das trilhas,
trilha o próprio  passo,
Iluminada adeja, feito pássaro,
enflorescida esparge sua arte,
encantando a plateia embevecida.

Imagina-se nobre, leve,
aprende e ensina,
em cada voo, um sonho, uma nova vida:

Pássaro de fogo, Coppélia,
A Bela Adormecida, Giselle,
O Quebra-Nozes, qualquer um.
Passé, pirouette, atitude, Sissone,
o equilíbrio do corpo, o enlevo da alma,
o voo lírico que a arte embala,
fazem-na a própria luz.

 

Especulação

  
Estava ali, o terreno intato,
golpeado a lâmina sem nenhum respeito,
censurado pelas casas vizinhas,
sofrendo sem emitir sequer um grito.

O homem veio para apreciá-lo,
mas beleza ele não tinha não:
incerto, sujo, cheio de ervas,
só serviria para especulação.

Tão preso ao chão, ele imprimia estilo,
de chão batido e dureza autêntica,
queimaram-lhe a pele sem nenhum cuidado,
cercaram-lhe o corpo com arame ardente

ficou assim, sem reclamar de nada
por um bom tempo amargurou desertos
sentiu-se só e planejou ir embora
numa segunda feira desapareceu.