segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Gilberto Mendonça Teles - Poema


Ballet


Teu nome dança na palavra. Acerta
o timbre das vogais e, a cada instante,
se faz gleba e glicínia, descoberta
de um gêiser no vapor da consoante.

É ele que reluz na letra L,
no corpo da mulher que, airosa e fina,
se exibe no poema e, pele a pele,
deixa no ar seu perfil de bailarina.

É dele que provêm a forma, o estilo,
a beleza sem fim e sem começo:
o segredo maior e mais tranquilo
para ser dito apenas pelo avesso.



In. Linear G. São Paulo: Hedra, 2010, p.78.
Imagem retirada da Internet: Bailarina

domingo, 30 de janeiro de 2011

Gilberto Mendonça Teles - Poema


















Simplesmente


Não quero mais ouvir falar de poesia
antiga tradicional ou moderna
trovadoresca clássica ou barroca
arcádica romântica ou realista

Não quero mais ouvir falar de poesia
simbolista unanimista ou futurista
vanguardista cubista ou dadaísta
surrealista ou modernista

épica lírica satírica ou dramática
religiosa mística ou goliardesca
cósmica anacreôntica ou semiótica

e muito menos de poesia
bucólica cortês, popular ou engajada
abstrata concreta cinética pura impura
experimental visual sonora ou táctil

Quero é pedir como Mário Quintana
- Retire todos os adjetivos e estará
ressalvada a Poesia.
Eu quero a Poesia, simplesmente.


In. Linear G. São Paulo: Hedra, 2010, 40-1.

sábado, 29 de janeiro de 2011

João Guimarães Rosa - Poema



Consciência Cósmica




Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...


Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...


Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir, se me retasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...



In. Magma - Fonte: Jornal de Poesia
Imagem by Alexandre Lettnin: redemoinho

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

João Guimarães Rosa - Poema


Luar



De brejo em brejo,
os sapos avisam:
--A lua surgiu!...


No alto da noite as estrelinhas piscam,
puxando fios,
e dançam nos fios
cachos de poetas.


A lua madura
Rola,desprendida,
por entre os musgos
das nuvens brancas...
Quem a colheu,
quem a arrancou
do caule longo
da via-láctea?...


Desliza solta...


Se lhe estenderes
tuas mãos brancas,
ela cairá...



In. Magma - Fonte: Jornal de Poesia
Imagem retirada da Internet: Luar

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

João Guimarães Rosa - Poema


No Araguaia – I




Nestas praias sem cercas e sem dono
do velho Araguaia,
achei um amigo, escuro,
de cara pintada a jenipapo e urucum:
o carajá Araticum – uassu



Seus músculos são cobras grossas
que incham sobre o couro moreno;
suas narinas têm sete faros;
e nos seus ouvidos há cordas sutis, onde ressoa o pio
curto e triste,
que, mais de um quilometro distante,
solta o patativo borrageiro.



Quando o rio ensolado enruga, em qualquer ponto,
a lâmina lisa de níquel molhado,
ele traduz , na esteira da mareta,
com o binóculo faiscante dos olhos,
o tamanho e a raça do peixe navega escondido.
E a flechada vai arpoar, certeira , debaixo d’água,
o pacamã ou o pirarucu.



A mata não lhe dá mais surpresas
(tem vinte presas onça preta no colar),
nem o rio lhe conta mais novidades
(ele é capaz de flutuar , até dormindo,
correnteza abaixo, como um pau de pita).



Hoje eu lhe perguntei:
--“Como foi feito o mundo,
ó meu patrício Araticum Uassu?...”
Ele riu, deu um mergulho no rio,
e emergiu, com a cabeleira em gotas,
sem precisar de falar...
— “Bem, mas o que é mesmo a vida, meu irmão moreno?...”


Araticum-uassu riu com mais gosto ainda,
e saiu a remar, com esforço simulado,
tangendo a piroga corredeira acima...
--“Muito bem, amigo, quero saber, agora,
o que pensas do amor...”


Desta vez ele não riu --- franziu o rosto,
e jogando fora o remo de taquara,
deitou-se na canoa, indiferente,
com olhos fechados, braços cruzados,
e deixando-se levar pela corrente, à-toa,
sumiu na curva,atrás do saranzal...




In. Magma - Fonte: Jornal de Poesia

Imagem retirada da Internet: Araguaia

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

T.S. Eliot - Poema

T.S. EliotT.S. EliotT.S. EliotT.S. Eliot

ERONTION's



Thou hast nor youth nor age, But, as it were,
an after dinner's sleep, Dreaming on both.
(William Shakespeare, Measure for Measure,
"Não és jovem nem velho, / mas como, se após o jantar
adormecesses,/ Sonhando que ambos fosses.")





Eis-me aqui, um velho em tempo de seca,
Um jovem lê para mim, enquanto espero a chuva.
Jamais estive entre as ígneas colunas
Nem combati sob as centelhas de chuva
Nem de cutelo em punho, no salgado imerso até os joelhos,
Ferroado de moscardos, combati.
Minha casa é uma casa derruída,
E no peitoril da janela acocora-se o judeu, o dono,
Desovado em algum barzinho de Antuérpia, coberto
De pústulas em Bruxelas, remendado e descascado em Londres.
O bode tosse à noite nas altas pradarias;
Rochas, líquen, pão-dos-pássaros, ferro, bosta.
A mulher cuida da cozinha, faz chá,
Espirra ao cair da noite, cutucando as calhas rabugentas.
E eu, um velho,
Uma cabeça oca entre os vazios do espaço.


Tomaram-se os signos por prodígios: "Queremos um signo!"
A Palavra dentro da palavra, incapaz de dizer uma palavra,
Envolta nas gazes da escuridão. Na adolescência do ano
Veio Cristo, o tigre.
Em maio cqrrupto, cornisolo e castanha, noz das
faias-da-judéia,
A serem comidas, bebidas, partilhadas
Entre sussurros; pelo Senhor Silvero
Com suas mãos obsequiosas e que, em Limoges,
No quarto ao lado caminhou a noite inteira;
Por Hakagawa, a vergar-se reverente entre os Ticianos;
Por Madame de Tornquist, a remover os castiçais
No quarto escuro, por Fraülein von Kulp,
A mão sobre a porta, que no vestíbulo se voltou.
Navetas ociosas
Tecem o vento. Não tenho fantasmas,
Um velho numa casa onde sibila a ventania
Ao pé desse cômoro esculpido pelas brisas.


Após tanto saber, que perdão? Suponha agora
Que a história engendra muitos e ardilosos labirintos,
estratégicos
Corredores e saídas, que ela seduz com sussurrantes ambições,
Aliciando-nos com vaidades. Suponha agora
Que ela somente algo nos dá enquanto estamos distraídos
E, ao fazê-lo, com tal balbúrdia e controvérsia o oferta
Que a oferenda esfaima o esfomeado. E dá tarde demais
Aquilo em que já não confias, se é que nisto ainda confiavas,
Uma recordação apenas, uma paixão revisitada. E dá cedo
demais
A frágeis mãos. O que pensado foi pode ser dispensado
Até que a rejeição faça medrar o medo. Suponha
Que nem medo nem audácia aqui nos salvem. Nosso heroísmo
Apadrinha vícios postiços. Nossos cínicos delitos
Impõem-nos altas virtudes. Estas lágrimas germinam
De uma árvore em que a ira frutifica.


O tigre salta no ano novo. E nos devora. Enfim suponha
Que a nenhuma conclusão chegamos, pois que deixei
Enrijecer meu corpo numa casa de aluguel. Enfim suponha
Que não dei à toa esse espetáculo
E nem o fiz por nenhuma instigação
De demônios ancestrais. Quanto a isto,
É com franqueza o que te vou dizer.
Eu, que perto de teu coração estive, daí fui apartado,
Perdendo a beleza no terror, o terror na inquisição.
Perdi minha paixão: por que deveria preservá-la
Se tudo o que se guarda acaba adulterado?
Perdi visão, olfato, gosto, tato e audição:
Como agora utilizá-los para de ti me aproximar?


Essas e milhares de outras ponderações
Distendem-lhe os lucros do enregelado delírio,
Excitam-lhe a franja das mucosas, quando os sentidos esfriam;
Com picantes temperos, multiplicam-lhe espetáculos
Numa profusão de espelhos. Que irá fazer a aranha?
Interromper o seu bordado? O gorgulho
Tardará? De Bailhache, Fresca, Madame Cammel, arrastados
Para além da órbita da trêmula Ursa
Num vórtice de espedaçados átomos. A gaivota contra o vento
Nos tempestuosos estreitos da Belle Isle,
Ou em círculos vagando sobre o Horn,
Brancas plumas sobre a neve, o Golfo clama,
E um velho arremessado por alísios
A um canto sonolento.
Inquilinos da morada,
Pensamentos de um cérebro seco numa estação dessecada.


(tradução: Ivan Junqueira)


Imagem: Idem

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Carlos Nejar - Poema


Luiz Vaz de Camões



Não sou um tempo
ou uma cidade extinta.
Civilizei a língua
e foi resposta em cada verso.
E à fome, condenaram-me
os perversos e alguns
dos poderosos. Amei
a pátria injustamente
cega, como eu, num
dos olhos. E não pôde
ver-me enquanto vivo.
Regressarei a ela
com os ossos de meu sonho
precavido? E o idioma
não passa de um poema
salvo da espuma
e igual a mim, bebido
pelo sol de um país
que me desterra. E agora
me ergue no Convento
dos Jerônimos o túmulo,
que não morri.
Não morrerei, não
quero mais morrer.
Nem sou cativo ou mendigo
de uma pátria. Mas da língua
que me conhece e espera.
E a razão que não me dais,
eu crio. Jamais pensei
ser pai de santos filhos.


Imagem retirada da Internet: Camões

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Carlos Nejar - Poema


Construção da noite



No casulo há um homem
mas o fundo é o outro lado.
No casulo de seu tempo há um homem,
mas o fundo é o outro lado.
É o casulo onde o homem foi achado,
mas o fundo é o outro lado.
É o terreno onde o homem foi lavrado,
mas o fundo é o outro lado.
É a treva onde o homem foi fechado,
mas o fundo é o outro lado.
É o silêncio de um homem soterrado,
mas o fundo é o outro lado.
Mas o fundo é o outro lado.

É a infância que nasce sobre o morto,
é a infância que cresce sobre o morto,
é o sol que madruga no seu rosto,
é um homem que salta do sol posto
e convoca outros homens para o sonho
e mistura-se à terra
e mistura-se ao sonho.

E o canto recomeça além do sonho,
além da escuridão, além do lago.
Mas o fundo é o outro lado,
mas o fundo principia sem passado,
sem os montes, sem os barcos, sem o lago.

Tua vida verdadeira é o outro lado.
Tua terra verdadeira é o outro lado.
Tua herança verdadeira é o outro lado.

Tudo cessa.
Tudo cessa,
tudo cessa.
Mas o mundo
é o outro lado
que começa.


In. Página do Autor

Imagem retirada da Internet: Casulo

Walt Whitman - Poema


CANTO DO UNIVERSAL



1

Vem, disse a Musa,

Canta para mim um canto que nenhum poeta ainda cantou,

Canta para mim o universal.



Nesta larga terra nossa,

Em meio à desmedida vulgaridade e à escória,

Encerrada e segura em seu coração central,

Aninha-se a semente da perfeição.



Uma parte, maior ou menor, para cada vida,

- Nenhuma vida nasce, sem que ela haja nascido - oculta ou à mostra a semente espera



2

Vede! A torreante ciência de olhos agudos,

A modernidade contemplando como do alto dos picos,

A dizer fiats sucessivos e absolutos.



Vede, contudo, a alma acima de tôda ciência:

Para ela a história juntou como cascas em redor do globo,

Para ela todas as miríades de estrelas giram através do céu.



Em rotas espiradas, com longas voltas,

(Como um navio que muito muda de curso no mar,)

Para ela o parcial flui rumo ao permanente,



Para ela o real busca o ideal.

Para ela é que se dá a evolução mística,

Não apenas o correto se justifica, o que chamamos mal também se justifica.



Saindo das máscaras, não importa quais,

Do grande tronco a apodrecer, da astúcia, do logro e das lágrimas

A saúde e a alegria, a alegria universal.



A originar-se da parte principal, do mórbido e do raso,

Da maioria má, das várias e incontáveis fraudes dos homens e dos Estados,

Elétrico, antisséptico, penetrando, cobrindo tudo,

Somente o bem é universal.



3

Sobre a doença e a aflição que crescem na montanha,

Um passarinho jamais apanhado está pairando, pairando para sempre,

Alto no ar mais puro, mais feliz.



Da nuvem mais escura da imperfeição,

Sempre dardeja um raio de perfeita luz,

Um lampejo da glória celestial.



Para a discórdia da moda, do costume,

Para o doido barulho de Babel, as orgias ensurdecedoras,

Suavizando cada bonança uma canção se escuta, escuta-se apenas,

Dalguma praia distante soando o côro final.



Oh! Os olhos abençoados, os corações felizes,

Que vêem, que conhecem o fio condutor, tão fino,

Através do poderoso labirinto.



E tu, América,

Para a culminação do plano, sua idéia e sua realidade,

Para isso (e não para ti mesma) tu chegaste.



Também tu abranges tudo,

Abraçando, levando, acolhendo tudo, tu também, por largos e novos caminhos,

Diriges-te para o ideal.



As fés comedidas de outras terras, as grandezas do passado,

Não são para ti, mas tuas próprias grandezas,

Mas fés e amplitudes divinizantes, absorvendo, compreendendo tudo, Tudo podendo ser escolhido por todos.



Tudo, tudo para a imortalidade,

O amor como a luz silenciosamente envolvendo tudo,

O aperfeiçoamento da natureza abençoando tudo,

As flores, os frutos das idades, pomares divinos e certos,

Formas, objetos, crescimentos, humanidades, amadurecendo em imagens espirituais.



Dá-me, ó Deus, que cante aquela idéia,

Dá-me, dá àquele ou àquela que estimo esta fé inextinguível,

Em Tua totalidade, o que quer que seja recusado não nos recuses,

A crença em teu desígnio envolto em Tempo e Espaço,

Saúde, paz, salvação universal.



É um sonho?

Não, mas sua falta é o sonho,

E, à sua falta, a sabedoria e a vida e a riqueza serão um sonho;

E o mundo inteiro um sonho.




DEUTSCH, Babette. Walt Whitman . Trad. Brenno Silveira e Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Martins; Colofão, 1965. p.219-221: Canto do Universal.
Fonte: UFRGS
Imagem retirada da Internet: América

domingo, 23 de janeiro de 2011

sábado, 22 de janeiro de 2011

Lêdo Ivo - Poema

Os Peixes



Os peixes estão no lago, os dardos escondidos.
Entre as pedras e o lodo eles avançam
túrgidos como o amor.
Venha a mão do desejo turvar a água clara
e eles serão o amor, o sol que penetra em gretas
nupciais,
as espadas cobertas de saliva.



Imagem retirada da Internet: Peixe

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Lêdo Ivo - Poema

Advertência a um Gavião




O gavião sobrevoa
a plantação de tomate.
Meu irmão gavião,
eu não aceito a morte.
Na partilha do mundo
não estarei ao teu lado.
Jamais admitirei
a usurparão do dia.
Só sei enfileirar-me
no cortejo da vida.
Meu caminho me leva
a floresta onde fluem
as fontes escondidas.
Mesmo longe adivinho
uma árvore que tenha
frescor de fruto ou ninho.
Gavião! Gavião!
embaixador do não,
o céu não pode ser
sepultura de pássaros.




Imagem retirada da Internet: Gavião

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro) - Poema

O GUARDADOR DE REBANHOS (XVI)


Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças - tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.


Fonte: Insite
Imagem retirada da Internet: Luís Melancia

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro) - Poema

Se eu morrer novo,sem poder publicar livro nenhum


Se eu morrer novo,
sem poder publicar livro nenhum
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.
Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.


Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.
Não desejei senão estar ao sol ou à chuva -
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.


Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela unica grande razão -
Porque não tinha que ser.


Consolei-me voltando ao sol e a chuva,
E sentando-me outra vez a porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraido.



Fonte: Insite
Imagem retirada da Internet: Livro

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro) - Poema




    O meu olhar é nítido como um girassol



    O meu olhar é nítido como um girassol.

    Tenho o costume de andar pelas estradas

    Olhando para a direita e para a esquerda,

    E de vez em quando olhando para trás...

    E o que vejo a cada momento

    É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

    E eu sei dar por isso muito bem...

    Sei ter o pasmo essencial

    Que tem uma criança se, ao nascer,

    Reparasse que nascera deveras...

    Sinto-me nascido a cada momento

    Para a eterna novidade do Mundo...


    Creio no mundo como num malmequer,

    Porque o vejo. Mas não penso nele

    Porque pensar é não compreender...


    O Mundo não se fez para pensarmos nele

    (Pensar é estar doente dos olhos)

    Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...


    Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...

    Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

    Mas porque a amo, e amo-a por isso

    Porque quem ama nunca sabe o que ama

    Nem sabe por que ama, nem o que é amar...


    Amar é a eterna inocência,

    E a única inocência não pensar...



    In. O Guardador de Rebanhos - Fonte: Insite
    Imagem retirada da Internet: caminhante

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Leila Miccolis - Poema


SEREIA, JANAÍNA, IEMANJÁ




Vem meu veleiro navegar-me lendas
que abro oceanos nunca desbravados,
as portas líquidas dos meus reinados,
e armo de pérolas as nossas tendas...

Vê-me a nudez – afasta as alvas rendas,
que encontrarás tesouros afundados;
só que talvez, pra teres tais agrados,
ao mar pra sempre tua vida prendas.

Se mesmo assim o novo lar não temes,
se não recuas, e se ainda gemes,
por meu amor, sedento de paixão,

cheia de luzes, colorida amante,
eu verde, azul, e em brilhos deslumbrantes,
refratarei-me em tuas redes-mãos.



In. Jayrus

Imagem retirada da Internet: sereia

domingo, 16 de janeiro de 2011

Leila Miccolis - Poema

Confissão




Dizem que o amor é cego,
não nego,
por isso te abro os olhos:
não tenho bens nem alqueires,
eu não sou flor que se cheire,
nem tão boa cozinheira,
(bem capaz que ainda me piches
por só comer sanduíches),
minha poesia é fuleira,
tenho idéias de jerico,
um cio meio impudico
como as cadelas e as gatas,
às vezes me torno chata
por me opor ao que comtemplo,
sei que sou péssimo exemplo,
por pouca coisa me grilo,
talvez por mim percas quilos,
eu não sei se valho a pena,
iguais a mim, há centenas,
desejo te ser sincera.
Mas no fundo o amor espera
que grudes qual carrapicho:
são tão grandes meu rabicho
e minha paixão por ti,
que não estão no gibi...
Ao te ver, viro pamonha,
sem ação, e sem vergonha
o meu ser inteiro goza.
Por isso, pra encurtar prosa,
do teu corpo, cada poro
eu adoro adoro adoro...



In. Jayrus

Imagem retirada da Internet:

sábado, 15 de janeiro de 2011

Leila Miccolis - Poema


A Seco




Tem coisas que a gente só diz de porre,
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à toa e foi tolice.
Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez,
responsáveis por tamanha estupidez.
E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao "estado normal",
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose afetiva.




In. Jayrus

Imagem retirada da Internet: bebida

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Luiz de Aquino - Poema


















RIO QUENTE E EU




Na minha terra existe um rio.

Pequeno curso, pequeno caudal

que deságua límpido

nas turvas águas do Piracanjuba.


Corre alegre, borbulhante,

mantendo constante

a água clara

a trinta e sete graus.


Persistente, meu pequeno Rio Quente!

Foi ele a imagem primeira

do que chamei de rio.


Mas não é ele, ainda,

um rio de verdade. É ribeirão;

e na cidade (pouco mais que vila),

o Córrego de Caldas,

miúdo e manso: hospitaleiro

para o banho, farto de lambaris

de ingênuas pescarias.

Rio mesmo

é o Corumbá, violento e forte.

Vem do norte

e reforça o Paranaíba,

que nasce em Minas.


Rios são assim, feito a vida. Tímidos

primeiro, crescentes depois.

E viram grandes

quando grandes somos também

tal como grande nos parece o mundo.


Saudade de ser córrego:

hospitaleiro e manso.


In. Luiz de Miranda

Foto by Ricardo Borges Gonçalves

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Luiz de Aquino - Poema
















A CASA NASCE DAS ÁGUAS





A casa de Aninha, a casa grande

na beira da ponte,

dá mão ao tempo e espera outro século.


Mas a casa está só.

Não há mais quem lhe varra o chão

e espane pó das histórias.


O tacho de cobre não coze mais doces:

Aninha descansa em São Miguel.

Não mais as histórias dos becos nem livros de cordel.


Doce Ana doutros anos,

força e voz, tempo e tempero.


Foi-se Ana, a cordeleira, cordilheira feito humana,

canto e coro, coralina, voz menina, canto forte

cristalina voz poesia.


A casa nasce das águas

à beira da ponte, à beira do tempo.

A casa escura das águas.

Rio Vermelho resmunga.

Rio velho, triste...

Rabugento, o Rio Vermelho.



In. SARAU. Goiânia: Edição do autor, 2003. p.152.

Foto by Zemaria: Casa de Cora