sábado, 31 de dezembro de 2011

Vera Lúcia de Oliveira - Poema


MEMÓRIA




abundância de rastros
que não se cancelam
fascinados pelo assombro
de atravessar as esperas
com seus passos abortos
subindo pelas artérias
em busca de outro corpo


(Do livro Entre as junturas dos ossos, Ministério da Educação, 2006, Brasília (Prêmio “Literatura para Todos”, 2006)
Imagem retirada da Internet: passos

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Vera Lúcia de Oliveira - Poema


OS PÁSSAROS




os pássaros de pedra dilatam as oferendas
os pássaros de carne batem-se contra as grades
os pássaros de lata arrulham nas ferrovias dos nervos
os pássaros de madeira mascam o macio dos músculos
os pássaros de papel voam para dentro das crases
os pássaros de carvão rabiscam suas asas no ventre
os pássaros de fogo puxam os pássaros de chuva
os pássaros de pano acalentam os pássaros de pranto


(Do livro Entre as junturas dos ossos, Ministério da Educação, 2006, Brasília (Prêmio “Literatura para Todos”, 2006)
Imagem retirada da Internet: pássaros

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Vera Lúcia de Oliveira - Poema


PAISAGEM




solidão de morros
solidão de tetos mudos
solidão congênita de estradas
um cão manco um passante
apressado
uma touceira
um muro
uma calçada


Imagem retirada da Internet: solidão


(Do livro Entre as junturas dos ossos, Ministério da Educação, 2006, Brasília (Prêmio “Literatura para Todos”, 2006)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Vera Lúcia de Oliveira - Poema


A LAMA




a lama de que brotou o osso
a lama de casa própria
pegadiça e lenta
a lama
de fundo de quintal
a lama de chuva fina
(ancoradouro
de enxurradas)

a lama por onde deflui
a essência do nosso sangue
a lama onde roça
o nosso pisado
a lama de que se molda
a substância
do cordão umbilical


(Do livro Entre as junturas dos ossos, Ministério da Educação, 2006, Brasília (Prêmio “Literatura para Todos”, 2006)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Vera Lúcia de Oliveira - Poema


ONDE




onde vou buscar as areias
onde vou buscar o barulho
do branco no sol
a palavra do branco
e seu avesso
onde vou buscar as pegadas
no branco
os ossos moídos no branco
os cemitérios brancos


(Do livro Entre as junturas dos ossos, Ministério da Educação, 2006, Brasília (Prêmio “Literatura para Todos”, 2006)


Imagem retirada da Internet: cemitério

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Vera Lúcia de Oliveira - Poema


PELO FOGO DA FALA




pelo fogo das palavras
pela sarça ardente das palavras
pisando por rugas de telhas
enquanto o coração crescia

pelo fogo da fala
pelo pavio secreto da língua
pela fagulha ardente
crescia meu coração
como crescem as folhas
que o vento arrasta no ardor da combustão


(Do livro Entre as junturas dos ossos, Ministério da Educação, 2006, Brasília (Prêmio “Literatura para Todos”, 2006)

Imagem retirada da Internet: centelha

domingo, 25 de dezembro de 2011

Vera Lúcia de Oliveira - Poema



 

Neste final de ano, o Banzeiro Textual apresenta uma coletânea de  Poemas de Vera Lúcia de Oliveira, gentilmente organizada pela Autora para este Blog. Vera é uma das maiores vozes da Poesia Brasileira Contemporânea. 

Vera Lúcia de Oliveira é doutora em Línguas e Literaturas Ibéricas e Ibero-Americanas pela Università degli Studi di Palermo (Itália). Atualmente ensina Literatura Portuguesa e Brasileira na Università degli Studi di Perugia (Itália). O livro inédito La carne quando è sola, escrito originalmente em italiano, foi o vencedor do Prêmio Internacional de Poesia Piero Alinari, organizado pela Fundação Alinari, de Florença, em colaboração com Cátedra Giuseppe Ungaretti da Columbia University, de New York. O mesmo será publicado pela editora SEF (Società Editrice Fiorentina). Em 2006, o Ministério da Educação outorgou-lhe o Prêmio Literatura para Todos, na categoria de poesia, pelo livro Entre as junturas dos ossos, publicado pelo MEC em 110 mil exemplares e distribuído nas bibliotecas de todo o Brasil. Em 2005, recebeu o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras com o livro A chuva nos ruídos, publicado pela Escrituras. Recebeu também outros prêmios nacionais e internacionais de poesia e seus poemas foram traduzidos e publicados em várias antologias no Brasil, Itália, Alemanha, Estados Unidos, Romênia, Espanha e Portugal. Tradutora e divulgadora da literatura brasileira na Itália, escreve tanto em português como em italiano. Organizou antologias de vários poetas brasileiros e portugueses, entre os quais Nuno Judice, Lêdo Ivo e Carlos Nejar.

Entres os livros publicados, de poesia e ensaios, estão Geografia d'ombra (poesia), Fonèma Venezia, 1989; Tempo de doer/Tempo di soffrire (poesia), Pellicani, Roma, 1998; La guarigione (poesia), La Fenice, Senigallia, 2000; Poesia, mito e história no Modernismo brasileiro (ensaio), Editora da Unesp e Edifurb, São Paulo, 2002; A chuva nos ruídos (antologia poética), São Paulo, Escrituras, 2004; Verrà l'anno (poesia), Fara, Santarcangelo di Romagna, 2005; Storie nella storia: le parabole di Guimarães Rosa (ensaio), Pensa, Lecce, 2005; No coração da boca (poesia), São Paulo, Escrituras, 2006; A poesia é um estado de transe (poesia), São Paulo, Portal Editora, 2010; La carne quando è sola (poesia), Firenze, Società Editrice Fiorentina, 2011.




nem todo verbo
há de sangrar
na vértebra
também com anestesia
se há de se ir
dissecá-lo

para que não se perca
a parte dentro do nome
o que se desgruda por último
a margem ao redor do nome
o que perscruta em nossa boca
a ausência do pronome


(Do livro A chuva nos ruídos, Escrituras, 2004, São Paulo (Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, 2005).

Imagem retirada da Internet: significante

sábado, 24 de dezembro de 2011

Fiódor Dostoiévski - Conto


A árvore de Natal na casa de Cristo




Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se esvolar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa. No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária, reumática, que outrora tinha sido babá e que morria agora sozinha, soltando suspiros, queixas e imprecações contra o garoto, de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. No corredor ele tinha encontrado alguma coisa para beber, mas nem a menor migalha para comer, e mais de dez vezes tinha ido para junto da mãe para despertá-la. Por fim, a obscuridade lhe causou uma espécie de angústia: há muito tempo tinha caído a noite e ninguém acendia o fogo. Tendo apalpado o rosto de sua mãe, admirou-se muito: ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes. "Faz muito frio aqui", refletia ele, com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta; depois, ao cabo de um instante, soprou os dedos para esquentá-los, pegou o seu gorrinho abandonado no leito e, sem fazer ruído, saiu do cômodo, tateando. Por sua vontade, teria saído mais cedo, se não tivesse medo de encontrar, no alto da escada, um canzarrão que latira o dia todo, nas soleiras das casas vizinhas. Mas o cão não se encontrava alí, e o menino já ganhava a rua.

Senhor! que grande cidade! Nunca tinha visto nada parecido, De lá, de onde vinha, era tão negra a noite! Uma única lanterna para iluminar toda a rua. As casinhas de madeira são baixas e fechadas por trás dos postigos; desde o cair da noite, não se encontra mais ninguém fora, toda gente permanece bem enfunada em casa, e só os cães,às centenas e aos milhares,uivam, latem, durante a noite. Mas, em compensação, lá era tão quente; davam-lhe de comer... ao passo que ali... Meu Deus! se ele ao menos tivesse alguma coisa para comer! E que desordem, que grande algazarra ali, que claridade, quanta gente, cavalos, carruagens... e o frio, ah! este frio! O nevoeiro gela em filamentos nas ventas dos cavalos que galopam; através da neve friável o ferro dos cascos tine contra a calçada;toda gente se apressa e se acotovela, e, meu Deus! como gostaria de comer qualquer coisa, e como de repente seus dedinhos lhe doem! Um agente de policia passa ao lado da criança e se volta, para fingir que não vê.

Eis uma rua ainda: como é larga! Esmaga-lo-ão ali, seguramente; como todo mundo grita, vai, vem e corre, e como está claro, como é claro! Que é aquilo ali? Ah! uma grande vidraça, e atrás dessa vidraça um quarto, com uma árvore que sobe até o teto; é um pinheiro, uma árvore de Natal onde há muitas luzes, muitos objetos pequenos, frutas douradas, e em torno bonecas e cavalinhos. No quarto há crianças que correm; estão bem vestidas e muito limpas, riem e brincam, comem e bebem alguma coisa. Eis ali uma menina que se pôs a dançar com um rapazinho. Que bonita menina! Ouve-se música através da vidraça. A criança olha, surpresa; logo sorri, enquanto os dedos dos seus pobres pezinhos doem e os das mãos se tornaram tão roxos, que não podem se dobrar nem mesmo se mover. De repente o menino se lembrou de que seus dedos doem muito; põe-se a chorar, corre para mais longe, e eis que, através de uma vidraça, avista ainda um quarto, e neste outra árvore, mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades, bolos de amêndoa, vermelhos, amarelos, e eis sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. A cada instante, a porta se abre para um senhor que entra. Na ponta dos pés, o menino se aproximou, abriu a porta e bruscamente entrou. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo, meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão, abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-la. O menino apertou o passo para ir mais longe - nem ele mesmo sabe aonde. Tem vontade de chorar; mas dessa vez tem medo e corre. Corre soprando os dedos. Uma angústia o domina, por se sentir tão só e abandonado, quando, de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém, que olha com curiosidade. Em uma janela, através da vidraça, há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino, dois outros estão em pé junto de e tocam violinos menores, e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças, olham uns para os outros, enquanto seus lábios se mexem; falam, devem falar - de verdade - e, se não se ouve nada, é por causa da vidraça. O menino julgou, a princípio, que eram pessoas vivas, e, quando finalmente compreendeu que eram bonecos, pôs-se de súbito a rir. Nunca tinha visto bonecos assim, nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente, desejaria chorar, mas era tão cômico, tão engraçado ver esses bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém o puxava por trás. Um moleque grande, malvado, que estava ao lado dele, deu-lhe de repente um tapa na cabeça, derrubou o seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira. O menino rolou pelo chão, algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado, ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha, sem saber para onde. Atravessou o portão de uma cocheira, penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. "Aqui, pelo menos", refletiu ele, "não me acharão: está muito escuro."

Sentou-se e encolheu-se, sem poder retomar fôlego, de tanto medo, e bruscamente, pois foi muito rápido, sentiu um grande bem-estar, as mãos e os pés tinham deixado de doer, e sentia calor, muito calor, como ao pé de uma estufa. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! "mais um instante e irei ver outra vez os bonecos", pensou o menino, que sorriu à sua lembrança: "Podia jurar que eram vivos!"... E de repente pareceu-lhe que sua mãe lhe cantava uma canção. "Mamãe, vou dormir; ah! como é bom dormir aqui!"

- Venha comigo, vamos ver a árvore de Natal, meu menino - murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura.

Ele ainda pensava que era a mãe, mas não, não era ela. Quem então acabava de chamá-lo? Não vê quem, mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro, estende-lhe os braços e... logo... Que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro, nunca tinha visto árvores semelhantes! Onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha, tudo resplandece, e em torno, por toda parte, bonecos - mas não, são meninos e meninas, só que muito luminosos! Todos o cercam, como nas brincadeiras de roda, abraçam-no em seu vôo, tomam-no, levam-no com eles, e ele mesmo voa e vê: distingue sua mãe e lhe sorrir com ar feliz.

- Mamãe! mamãe! Como é bom aqui, mamãe! - exclama a criança. De novo abraça seus companheiros, e gostaria de lhes contar bem depressa a história dos bonecos da vidraça... - Quem são vocês então, meninos? E vocês, meninas, quem são? - pergunta ele, sorrindo-lhes e mandando-lhes beijos.

- Isto... é a árvore de Natal de Cristo - respondem-lhe. - Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo, uma árvore de Natal, para os meninos que não tiveram sua árvore na terra...

E soube assim que todos aqueles meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele, mas alguns tinham morrido, gelados nos cestos, onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo; outros tinham morrido junto às amas, em algum dispensário finlandês; uns sobre o seio exaurido de suas mães, no tempo em que grassava, cruel, a fome de Samara; outros, ainda, sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. Mas todos estão ali nesse momento, todos são agora como anjos, todos juntos a Cristo, e Ele, no meio das crianças, estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães... E as mães dessas crianças estão ali, todas, num lugar separado, e choram; cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas, abraçam-nas, e com suas mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas, recomendando-lhes que não chorem mais, que eles estão muito bem ali...

E nesse lugar, pela manhã, os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha. Procurou-se a mãe... Estava morta um pouco adiante; os dois se encontraram no céu, junto ao bom Deus.


Imagem retirada da Internet: Criança faminta.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Pablo Neruda - Poema



Foto by Walter Rosa
A canção desesperada


Emerge a tua lembrança da noite em que estou.
O rio junta ao mar o seu lamento obstinado.

Abandonado como o cais de madrugada.
É a hora de partir, oh abandonado!

Sobre meu o coração chovem frias corolas.
Oh porão de escombros, feroz caverna de náufragos!

Em ti se acumularam as guerras e os voos.
De ti alcançaram as asas dos pássaros do canto.

Tudo engoliste, como a distância.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!

Era a alegre hora do assalto e do beijo.
A hora do espanto que ardia como um farol.

Ansiedade de piloto, fúria de um megulhador cego
turva embriaguez de amor, Tudo em ti foi naufrágio!

Na infância de nevoa minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, Tudo em ti foi naufrágio!

Tu senti-se a dor e te agarraste ao desejo.
Caiu-te uma tristeza, Tudo em ti foi naufrágio!

Fiz retroceder a muralha de sombra.
andei mais para l do desejo e do ato.

Oh carne, carne minha, mulher que amei e perdi,
e em ti nesta hora úmida, evoco e canto.

Como um copo albergaste a infinita ternura,
e o infinito esquecimento te espedaçou como a um copo.

Era a negra, negra solidão das ilhas,
e ali, mulher de amor, me acolheram os teus braços.

Era a sede e a fome, e tu foste a fruta.
Era a dor e as ruínas, e tu foste o milagre.

Ah mulher, não sei como me pudeste conter
na terra de tua alma, e na cruz dos teus braços!

Meu desejo de ti foi o mais terrível e curto,
o mais revolto e ébrio, o mais tenso e ávido.

Cemitério de beijos,ainda há fogo nas tuas tumbas,
ainda os cachos ardem bicados de pássaros.

Oh a boca mordida, oh os beijados membros,
oh os famintos dentes, oh os corpos trançados.

Oh a cópula louca da esperança e esforço
em que nos unimos e nos desesperamos.

E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavra mal começada nos lábios.

Esse foi o meu destino e nele viajou a minha vontade,
e nele caiu a minha vontade, Tudo em ti foi naufrágio!


De tombo em tombo ainda chamejastes e cantaste.
De pé como um marinheiro na proa de um navio.

Ainda floreceste em cantos, ainda rompestes em correntezas.
Oh porão de escombros, poço aberto e amargo.

Pálido mergulhador cego, desventurado fundeiro,
descobridor perdido, Tudo em ti foi naufrágio!

É a hora de partir, a dura e fria hora
que a noite prende a todo horário.

O cinturão ruidoso do mar cinge a costa.
Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.

Abandonado como o cais na madrugada.
Só a sombra trêmula se retorce em minhas mãos.

Ah mais para lá de tudo. Ah mais para lá de tudo.
É a hora de partir. Oh abandonado.


Tradução de Eliane Zagury


In.Neruda: Antologia Poética. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999, p.48-51.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Francisco Perna Filho - Poema


VIDENTE



O olho
que vê o não visto
precipita-se
na visão do que não há.

A luz
que trespassa a ausência
converte-se
em ponto cego.

A palavra
que transcende o real
magnifica-se
em metáforas silentes.


Imagem retirada da Internet: Olho 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Jules Morot - Poesia Francesa Contemporânea


MOZART



Leem-se os gregos
suecos, alemães
ou a doce língua
de não sei quantos
de não sei que imóvel pedaço de página
claves de sol
talvez o latim o alano o islandês
e é sempre a mesma música
sempre como um veio numa flor grossa obscena
Diz um   um alfinete   diz outro
um parafuso
pois sim
uma fina difusa coisinha semimorta
semi-deitada
semi-cerrada
uma inteligente coisa muda
maior que um tiro na orelha
pois não
uma espécie de porta
de dor discreta.

Meu bom senhor
olhai
nos prados nas tabernas
nos ermitérios
nos armários
um rasto de cão

Nos óculos do primeiro violino
tudo desaparece.

Tendes vós sono, desejo
de novas estações? Tendes florins?
Tendes, acaso, em dias
já passados
mãos musicais, sinais
de outras mortes?



in “Le mardi-gras” (Honfleur – 2003/8)
Trad. Nicolau Saião


Imagem retirada da Internet:Mozart


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Rosa María Teixidor - Poema



Orfeo en el inframundo



te miro a los ojos del abismo
donde ya
no hay salvación para los dos.

***
La mujer gigante
mueve la cola de serpiente
y mira por la ventana la naturaleza muerta.

***
Soledad
que paseas en el palacio de arena
y bailas  con los zapatos de cristal
una triste canción.

***
Eres la mujer invisible
y remas entre las baldosas,
buscando las estrellas que dejaste escritas cuando te marchaste.
***

Fonte: LaOtra
Imagem retirada da Internet: Orfeu

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Rosa María Teixidor - Poesia



El ruido de los pájaros en la máquina 
de escribir



Estoy muerta y vivo en el infierno.
Soy yo, la que habla con los muertos.
En el nuevo mundo
el diablo escucha la Novena sinfonía de Beethoven.
Destruyes las cadenas que el consejero
te advirtió siempre no traspasar.
Y has cambiado de piel
sabiendo que al cruzar la puerta
el eco de tus palabras te seguirá a donde vayas.

***
Tú,
ya no eres tú
eres alguien
que ha roto las ramas del árbol
y se mece en los brazos de Hermes.

***
Con unas tijeras
recorto lo que queda de mí.

***
El tejado está ardiendo
y millones de estrellas te observan.

***
Gritas porque te salen hormigas de los ojos
y tus dedos son serpientes
que trepan por los muros de las casas vecinas.
No puedes dormir
te escondes detrás de las cortinas
y tienes la mirada de un vagabundo
pidiendo limosna en la boca del metro.

***
En la tela de una araña parpadean tus ojos de mortal.

***
Los puntos, las rayas, las comas
son sólo susurros disfrazados.
Y eres, tú,
un recorte de mi pensamiento.

***
Te quiero,
aunque tú ya no me ames,
en tu traje de domingo
con tu silencio
y las no palabras.

***
Soy lágrima en reposo
cuerpo que se diluye
junto a la mirada
de tu púlpito sangriento.
***


Rosa Teixidor (Gerona, 1978) é atriz com formacão na Escola El Galliner, de Gerona, e La Riereta Teatre, de Barcelona. Também é  diplomada no Magistério e Licenciada em Comunicacão  Audiovisual pela Universidade Aberta da Catalunha. Em 2010, publicou seu primeiro livro de poemas: A cidade de Âmbar (Editorial El Llop Ferotge).


Fonte: LAOTRA
Imagem retirada da Internet: máquina de escrever

domingo, 18 de dezembro de 2011

Amandio Sobral - Conto



A podridão viva

Quem pode saber ao certo, as feras horrendas, fantásticas, os monstros de outras idades que a tenebrosa África esconde no âmago das suas imensas florestas negras e no fundo de suas grandes lagoas escuras? 





NOTA:
Isto não é conto, nem um produto da imaginação do novelista.
É apenas a reprodução fiel, autêntica, da narrativa encontrada no testamento do grande sábio paleontólogo inglês Lord Arthur Brent, que declara tê-Ia ouvido de Sir Ronald Tealer, presidente da poderosa Ivory TealerManufacruring C. Ltd. de Londres, Cape Town e Bombay, que durante muitos anos viveu nas selvas inexploradas daimensa África Austral.
Esses dois cavalheiros, um, glória da ciência mundial, outro, de palavra acatadíssima no alto mundo financeirodos dois continentes, eram incapazes de uma narrativa menos verídica.

¤

No alto comércio de Londres chamavam-no por um apelido original: "O homem que tem medo d' África". 

Espadaúdo, alto, muito queimado do sol, olhos de um verde sombrio, cabelos inteiramente brancos, andar firme e ar resoluto, era um cavalheiro extremamente simpático, que impunha respeito à primeira vista.

Uns davam-lhe trinta e poucos anos, outros garantiam ter, já há muito tempo, dobrado o cabo tormentoso dos cinqüenta. Eu à primeira vez que o vi, no confortável escritório da sua casa matriz de Regent Street, calculei não ter SirRonald Tealer celebrado ainda o quadragésimo sexto aniversário.

Contavam desse verdadeiro rei do marfim as histórias mais absurdas, porém, o certo é que passara a mocidade nos inóspitos sertões do Continente Negro, onde adquirira-à força de sofrimentos e perigos, essa resolução pronta e a vontade de ferro que o faziam temido e respeitado no alto mundo financeiro da City.

Entretanto  – coisa original!  – não podia ouvir, de súbito, a palavra África. Tornava-se pálido, os seus olhos abriam-se desmesuradamente, e todo ele tremia como se um acesso repentino de frio lhe gelasse o corpo de atleta.

Felizmente essas terríveis manifestações passavam logo. Sem dúvida, alguma horrenda recordação do continente dos hipopótamos e dos leões abalava aquele grande dominador. Daí as histórias mais ou menos fantásticas que circulavam a respeito de suas aventuras africanas.

Um dia fui procurado no meu modesto laboratório do Museum pelo riquíssimo rei do marfim.

Disse, ferindo-me a modéstia, que há muito tempo pretendia visitar-me e "travar relações com um dos maiores paleontólogos do Reino Unido". Desejava também ver a minha livraria técnica que, modéstia à parte, pude afirmar ser a mais completa biblioteca nesse ramo das ciências naturais. Queria conhecer todos os monstros que povoaram aterra, nas eras antidiluvianas.

E, quando comecei a mostrar-lhe as gravuras quase inconcebíveis de alguns dos grandes sáurios do Jurássico, o rei do marfim foi aos poucos se aquecendo, o olhar tornou-se febril, a respiração forçada e abanando a cabeça a cada estampa, dizia surdamente:
 –
Não é esse!... Também não é isso!... Bem me parecia que ainda ninguém o viu. Sou eu o único...

Seriamente intrigado com as palavras e estranhos modos desse homem habitualmente tão frio, calmo, reservado, com habilidade e a custo consegui, naquele momento de intensa agitação nervosa, arrancar do "homem que tem medo d'África" esta narrativa que reproduzo ipsis verbis:

 – Há trinta anos atrás morava eu no Cabo. Começara a ser um dos mais fortes negociantes de marfim de toda a África do Sul.

Farto de ser enganado, roubado escandalosamente pelos negros e meus caçadores brancos, resolvi ir buscar o valioso produto em que comerciava, à própria fonte  – à boca dos elefantes.

Já nessa época esses pacíficos gigantes tornavam-se cada vez mais raros, devido às hecatombes selvagens promovidas pelos régulos indígenas.

Eu e meu sócio  – um bôer leal, duma coragem louca e pontaria infalível (como o provou, mais tarde, em Ladysmith, durante a guerra do Transvaal, dizimando quase sozinho um regimento inteiro da Royal Irish) companhados dum distinto naturalista alemão Dr. Von Spree, que estudava os hábitos dessas montanhas de carne, abalamos, com uma formidável tropa de caçadores nativos, guias, carregadores, quase todos betchuanas e zulus, pelo sertão inexplorado, em direção ao grande rio Zambeze, a elefantolândia daquele tempo.

A nossa viagem foi, como é de supor, penosíssima. Fomes, sedes, febres, chuvas torrenciais, alimentação obrigatória dessa nojenta carne de elefante em que mal penetra o machado, convivência íntima com escorpiões alentados, carrapatos enormes e venenosíssimas moscas tsé-tsé, humor arquievangélico para aturar as mais atrevidas impertinências, descaradíssimas extorsões e até roubos violentos, por parte dos bestiais reisêtes das terras que atravessamos.

A todos os momentos os negros perdiam-se, extraviavam-se, sucumbiam de repente, sem sintomas aparentes de moléstia, ou numa inconsciência absoluta, desertavam com as cargas, em plena selva impenetrável, para irem servir de pasto às feras de dois e quatro pés.

O negro africano semi-selvagem é o supra-sumo da covardia; não possui a menor resistência nervosa,imprescindível à vida ingrata e árdua do explorador, do homem que enfrenta uma natureza desconhecida e hostil.

Formidáveis florestas verde-negras, atapetadas dum húmus balofo e podre, onde se criam os vermes mais nojentos, sucediam-se aos brejos intransponíveis, aos matagais espinhosos, aos alagadiços que exalavam um nauseabundo vapor, abafadiço e mortal.

As noites eram medonhas. O desabar estrondeante das árvores gigantescas carcomidas pelos séculos, os silvos, guinchos e berros ribombavam dentro daquelas brenhas milenárias, confundindo-se com os rugidos dos leopardos, os gritos estrídulos dos elefantes e o ronco do grande leão de juba negra.

A audácia das hienas e lobos era tal que, apesar das fogueiras, vinham ao acampamento roubar as peles de elefante que secavam nos giraus.

O Sr. Conde Von Spree, apavorado ou mordido pela tsé-tsé, enlouqueceu e fugiu de noite pelas brenhas, aos berros e urros.

Dele só encontramos, dias depois, uma perna a decompor-se dentro da bota de couro grosso.

Desaparecido o último guia nativo, uma tarde, perdemo-nos de todo no seio de uns pântanos cobertos degramíneas cortantes, que encobriam, traiçoeiras, as espessas águas lodosas, onde alguns dos nossos foram imediatamente engolidos.

Esqueléticos, semimortos de cansaço, febrentos, cobertos de chagas e parasitos, invadidos dessa apatia peculiar ao negro em perigo, dominados por completo desse fatalismo que os torna indiferentes à sorte mais cruel, caídos por terra, olhos fundos, cavados, delirantes, e um ríctus angustiado nas faces animais, os carregadores não podiam ir mais além. Era o fim!

Pela noite, mal se escondeu o maldito sol de brasas, começou no solo argiloso a brilhar uma estranha fosforescência que, aos poucos, ganhou toda a floresta. Decomposição da matéria orgânica das camadas de folhas caídas? Nunca o soube.

Os negros batiam os queixos de pavor, tapavam infantilmente os rostos com as mãos, aos berros de:  –  Feitiçaria!... Feitiçaria!... Oh-ô-ô-ô-ah!... Uh-u-u-u-ah!...Julguei-me vítima de uma forte alucinação  – delirara de febre o dia inteiro!

 – e, imprudentemente, ingeri uma caixa toda de quinino.

Apoderou-se de mim uma irrefreável vontade de correr, de pular, de subir às árvores. Meio louco, levando na cinta apenas a faca de mato, embrenhei-me na floresta infinda.

Aí, eu vi o monstro! Sim, o terrificante monstro! O ser mais hediondo que se pode imaginar! A podridão viva!...

No âmago de uma floresta, ao pé de uma serrania vulcânica, no meio de uma natureza convulsa, revolta,proveniente de um desses cataclismas de remotas eras, entre penedos gigantes, em que um vento gelado assobiava,ele ergueu-se... Baqueei desfalecente por terra! Jesus, que horror!... Um cheiro podre, a carne decomposta, empestou o ar tonteando os animais a centenas de metros de distância.

Ele não possuía cabeça distinta do corpo. No meio de um colossal ovóide, completamente glabro, gelatinoso,dum roxo desmaiado de chaga rebelde, cheio de pústulas como um morfético, quatro grandes olhos amarelos  –  quatro ou seis?  – duma fixidez e frieza de gelar o sangue, abriam-se desmesurados, perscrutando a mata.

No meio do lodo, encolhido entre as sarças de espinheiros, encharcado dágua fétida das lagoas que transpusera,pregado ao chão, incapaz de mover-me, eu vi  – sim, vi com os olhos!  – essa verdadeira podridão viva, esse horror dos horrores, mexer-se, firmar-se em oito  – Seriam oito ou dez?  – troncos roliços terminados em garras de ave de rapina,curvando as árvores como se fossem ervas.

Saiu de uma espécie de ninho de excrementos, deixando dois ovos negros semelhantes a blocos erráticos.

O fim do corpo abriu-se. Era um orifício profundo como uma caverna, em que fiadas de placas córneas entrechocavam-se como se fossem dentes, e expeliu uma colina de matérias purulentas, esverdeadas.

Depois, as duas patas de frente ergueram-se e introduziram naquela gruta infecta, um elefante vivo que nem gemia, paralisado de terror.

A mastigar, triturando, a estalar os ossos do paquiderme, deslizou no lodo negro e foi, aos poucos, sumindo-sena lagoa espumosa e sombria.

Três meses depois eu convalescia no melhor hospital de Pretória e, apesar de tratado por médicos especialistas,ainda tinha o olhar inquieto, suspeitoso, meio desvairado, cheio de fulgores luminosos, a voz rouca, com inflexõesásperas e bruscas, enfim um todo de legítimo louco, nervos alterados, corpo sacudido de tremores convulsos, ataquesde afonia.

Ninguém quis acreditar na minha narração. Disseram-me ser uma alucinação proveniente dum formidávelenvenenamento pelo quinino. Outros asseguravam-me ser o efeito da picada das moscas tsé-tsé ou de algumaserpente desconhecida, mas os meus carregadores indígenas que bateram as florestas durante dias até meencontrarem desmaiado, a morrer no fundo de uma cova de apanhar leões, juraram todos terem visto na lama o rastode uma fera colossal, desconhecida, bem maior, sem dúvida, que o mais crescido de todos os elefantes.

Infelizmente ninguém pode dar crédito a negros, pois eles me garantiram e trejuraram, várias vezes, que osproboscídeos dormiam pendurados pelas trombas à copa das palmeiras!?...

Liqüidei com felicidade meus negócios e, apurando uma regular fortuna, retirei-me aqui para Londres, onde oanimal mais feroz é o banqueiro.

"Mas, quem pode saber ao certo, as feras horrendas, fantásticas, os monstros de outras idades que a tenebrosaÁfrica esconde no âmago de suas imensas florestas negras e no fundo de suas grandes lagoas escuras?"

(1934)

In. Contos Fantásticos Brasileiros. Org.: Braulio Tavares. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003, p.27-31.
Imagem retirada da Internet: Marfim


sábado, 17 de dezembro de 2011

Carlos Drummond de Andrade - Conto


flor, telefone, moça 


Não, não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava. É doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.

Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga – bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores – ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.

– Sei de um caso de flor que é tão triste!
E sorrindo:
– Mas você não vai acreditar, juro.

Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.

– Era uma moça que morava na Rua Gerenal Polidoro, começou ela. Perto do Cemitério São João Batista.

 Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que não ver nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.

Se o enterro era mesmo muito importante, desses de bispo ou de general, a moça costumava ficar no portão do cemitério, para dar uma espiada. Você já notou como coroa impressiona a gente? Demais. E há a curiosidade de ler o que está escrito nelas. Morto que dá pena é aquele que chega desacompanhado de flores – por disposição de família ou falta de recursos, tanto faz. As coroas não prestigiam apenas o defundo, mas até o embalam. Às vezes ela chegava a entrar no cemitério e a acompanhar o préstimo até o lugar do sepultamento. Deve ter sido assim que adquiriu o costume de passear lá por dentro. Meu Deus, com tanto lugar pra passear no Rio! E no caso da moça, quando estivesse mais amolada, bastava tomar um bonde em direção à praia, descer no Mourisco, debruçar-se na amurada. Tinha o mar à sua disposição, a cinco minutos de casa. O mar, as viagens, as ilhas de coral, tudo grátis. Mas por preguiça pela curiosidade dos enterros, sei lá por quê, deu para andar em São João Batista, contemplando túmulo. Coitada!

– No interior isso não é raro…
– Mas a moça era de Botafogo.
– Ela trabalhava?

– Em casa. Não me interrompa. Você não vai me pedir certidão de idade da moça, nem sua descrição física. Para o caso que estou contando, isso não interessa. O certo é que de tarde costumava passear – ou melhor, “deslizar” pelas ruinhas brancas do cemitério, mergulhada em cisma… Olhava uma inscrição, ou não olhava, descobria uma figura de anjinho, uma coluna partida, uma águia, comparava as covas ricas às covas pobres, fazia cálculos de idade dos defuntos, considerava retratos em medalhões – sim, há de ser isso que ela fazia por lá, pois que mais poderia fazer? Talvez mesmo subisse ao morro, onde está a parte nova do cemitério, e as covas mais modestas. E deve ter sido lá que, uma tarde, ela apanhou a flor.

– Que flor?
– Uma flor qualquer. Margarida, por exemplo. Ou cravo. Para mim foi margarida, mas é puro palpite, nunca apurei. Apanhou com esse gesto vago e maquinal que a gente tem diante de um pé de flor. Apanha, leva ao nariz – não tem cheiro, como inconscientemente já esperava –, depois amassa a flor, joga para um canto. Não se pensa mais nisso.

Se a moça jogou a margarida no chão do cemitério ou no chão da rua, quando voltou para casa, também ignoro. Ela mesma se esforçou mais tarde por esclarecer esse ponto, mas foi incapaz. O certo é que já tinha voltado, estava em casa bem quietinha havia poucos minutos, quando o telefone tocou, ela atendeu.

– Aloooô…
– Quede a flor que você tirou de minha sepultura?
A voz era longínqua, pausada, surda. Mas a moça riu. E, meio sem compreender:
– O quê?

Desligou. Voltou para o quarto, para as suas obrigações. Cinco minutos depois, o telefone chamava de novo.

– Alô.
– Quede a flor que você tirou de minha sepultura?

Cinco minutos dão para a pessoa mais sem imaginação sustentar um trote. A moça riu de novo, mas preparada.

– Está aqui comigo, vem buscar.

No mesmo tom lento, severo, triste, a voz respondeu:
– Quero a flor que você me furtou. Me dá minha florzinha.

Era homem, era mulher? Tão distante, a voz fazia-se entender, mas não se identificava. A moça topou a conversa:
– Vem buscar, estou te dizendo.
– Você bem sabe que eu não posso buscar coisa nenhuma, minha filha. Quero minha flor, você tem obrigação de devolver.
– Mas quem está falando aí?
– Me dá minha flor, eu estou te suplicando.
– Diga o nome, senão eu não dou.
– Me dá minha flor, você não precisa dela e eu preciso. Quero minha flor, que nasceu na minha sepultura.
O trote era estúpido, não variava, e moça, enjoando logo, desligou. Naquele dia não houve mais nada.
Mas no outro dia houve. À mesma hora o telefone tocou. A moça, inocente, foi atender.

– Alô!
– Quede a flor…

Não ouviu mais. Jogou o fone no gancho, irritada. Mas que brincadeira é essa! Irritada voltou à costura. Não demorou muito, a campainha tinia outra vez. E antes que a voz lamentosa recomeçasse:
– Olhe, vire a chapa, já está pau.
– Você tem que dar conta de minha flor, retrucou a voz de queixa. Pra que foi mexer logo na minha cova?
 Você tem tudo no mundo, eu, pobre de mim, já acabei. Me faz muita falta aquela flor.
– Essa é fraquinha. Não sabe de outra?

E desligou. Mas, voltando ao quarto, já não ia só. Levava consigo a idéia daquela flor, ou antes, a idéia daquela pessoa idiota que a vira arrancar uma flor no cemitério, e agora a aborrecia pelo telefone. Quem poderia ser? Não se lembrava de ter visto nenhum conhecido, era distraída por natureza. Pela voz não seria fácil acertar. Certamente se tratava de voz disfarçada, mas tão bem que não se podia saber ao certo se de homem ou de mulher. Esquisito, uma voz fria. E vinha de longe, como de interurbano. Parecia vir de mais longe ainda… Você está vendo que a moça começou a ter medo.
– E eu também.
– Não seja bobo. O fato é que aquela noite ela custou a dormir. E daí por diante é que não dormiu mesmo nada. A perseguição telefônica não parava. Sempre à mesma hora, no mesmo tom. A voz não ameaçava, não crescia de volume: implorava. Parecia que o diabo da flor constituía para ela a coisa mais preciosa do mundo, e que seu sossego eterno – admitindo que se tratasse de pessoa morta – ficara dependendo da restituição de uma simples flor. Mas seria absurdo admitir tal coisa, e a moça, além do mais, não queria se amofinar. No quinto ou sexto dia, ouviu firme a cantilena da voz e depois passou-lhe uma bruta descompostura. Fosse amolar o boi. Deixasse de ser imbecil (palavra boa, porque convinha a ambos os sexos). E se a voz não se calasse, ela tomaria providências.

A providência consistiu em avisar o irmão e depois o pai. (A intervenção da mãe não abalara a voz.) Pelo telefone, pai e irmão disseram as últimas à voz suplicante. Estavam convencidos de que se tratava de algum engraçado absolutamente sem graça, mas o curioso é que, quando se referiam a ele, diziam “a voz”.

– A voz chamou hoje? Indagava o pai, chegando da cidade.
– Ora. É infalível, suspirava a mãe, desalentada.

Descomposturas não adiantavam, pois, ao caso. Era preciso usar o cérebro. Indagar, apurar na vizinhança, vigiar os telefones públicos. Pai e filho dividiram entre si as tarefas. Passaram a freqüentar as casas de comércio, os cafés mais próximos, as lojas de flores, os marmoristas. Se alguém entrava e pedia licença para usar o telefone, o ouvido do espião se afiava. Mas qual. Ninguém reclamava flor de jazigo. E restava a rede dos telefones particulares. Um em cada apartamento, dez, doze no mesmo edifício. Como descobrir?
O rapaz começou a tocar para todos os telefones da Rua General Polidoro, depois para todos os telefones das ruas transversais, depois para todos os telefones da linha dois-meia… Discava, ouvia o alô, conferia a voz – não era –, desligava. Trabalho inútil, pois a pessoa da voz devia estar ali por perto – o tempo de sair do cemitério e tocar para a moça – e bem escondida estava ela, que só se fazia ouvir quando queria, isto é, a uma certa hora da tarde. Essa questão de hora também inspirou à família algumas diligências. Mas infrutíferas.

Claro que a moça deixou de atender telefone. Não falava mais nem com as amigas. Então a “voz”, que não deixava de pedir, se outra pessoa estava no aparelho, não dizia mais “você me dá minha flor”, mas “quero minha flor”, “quem furtou minha flor tem que restituir”, etc. Diálogo com essas pessoas a “voz” não mantinha. Sua conversa era com a moça. E a “voz” não dava explicações.

Isso durante quinze dias, um mês, acaba por desesperar um santo. A família não queria escândalos, mas teve de queixar-se à polícia. Ou a polícia estava muito ocupada em prender comunista, ou investigações telefônicas não eram sua especialidade – o fato é que não se apurou nada. Então o pai correu à Companhia Telefônica. Foi recebido por um cavalheiro amabilíssimo, que coçou o queixo, aludiu a fatores de ordem técnica…

– Mas é a tranqüilidade de um lar que eu venho pedir ao senhor! É o sossego de minha filha, de minha casa. Serei obrigado a me privar de telefone?
– Não faça isso, meu caro senhor. Seria uma loucura. Aí é que não se apurava mesmo nada. Hoje em dia é impossível viver sem telefone, rádio e refrigerador. Dou-lhe um conselho de amigo. Volte para sua casa, tranqüilize a família e aguarde os acontecimentos. Vamos fazer o possível.

Bem, você já está percebendo que não adiantou. A voz sempre mendigando a flor. A moça perdendo o apetite e a coragem. Andava pálida, sem ânimo para sair à rua ou para trabalhar. Quem disse que ela queria mais ver enterro passando? Sentia-se miserável, escravizada a uma voz, a uma flor, a um vago defunto que nem sequer conhecia. Porque – já disse que era distraída – nem mesmo se lembrava da cova de onde arrancara aquela maldita flor. Se ao menos soubesse…

O irmão voltou do São João Batista dizendo que, do lado por onde a moça passeara aquela tarde, havia cinco sepulturas plantadas. A mãe não disse coisa alguma, desceu, entrou numa casa de flores da vizinhança, comprou cinco ramalhetes colossais, atravessou a rua como um jardim vivo e foi derramá-los votivamente sobre os cinco carneiros. Voltou para casa e ficou à espera da hora insuportável. Seu coração lhe dizia que aquele gesto propiciatório havia de aplacar a mágoa do enterrado – se é que os mortos sofrem, e aos vivos é dado consolá-los, depois de os haver afligido.

Mas a “voz” não se deixou consolar ou subornar. Nenhuma outra flor lhe convinha senão aquela, miúda, amarrotada, esquecida, que ficara rolando no pó e já não existia mais. As outras vinham de outra terra, não brotavam de seu estrume – isso não dizia a voz, era como se dissesse. E a mãe desistiu de novas oferendas, que já estavam no seu propósito. Flores, missas, que adiantava?

O pai jogou a última cartada: espiritismo. Descobriu um médium fortíssimo, a quem expôs longamente o caso, e pediu-lhe que estabelecesse contato com a alma despojada de sua flor. Compareceu a inúmeras sessões, e grande era sua fé de emergência, mas os poderes sobrenaturais se recusaram a cooperar, ou eles mesmos são impotentes, quando alguém quer alguma coisa até sua última fibra, e a voz continuou, surda, infeliz, metódica. Se era mesmo de vivo (como às vezes a família ainda conjeturava, embora se apegasse cada dia mais a uma explicação desanimadora, que era a falta de qualquer explicação lógica para aquilo), seria de alguém que houvesse perdido toda noção de misericórdia; e se era de morto, como julgar, como vencer os mortos? De qualquer modo, havia no apelo uma tristeza úmida, uma infelicidade tamanha que fazia esquecer o seu sentido cruel, e refletir: até a maldade pode ser triste. Não era possível compreender mais do que isso. Alguém pede continuamente uma certa flor, e esta flor não existe mais para lhe ser dada. Você não acha inteiramente sem esperança?
– Mas, e a moça?
– Carlos, eu preveni que meu caso de flor era muito triste. A moça morreu no fim de alguns meses, exausta. Mas sossegue, para tudo há esperança: a voz nunca mais pediu.

(1951)


In. Contos Fantásticos Brasileiros. Org.: Braulio Tavares. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003, p.21-25.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Marcos Crotto - Conto Vencedor do Concurso Juan Rulfo


             Marcos Crotto
Comunión


Caminaba entre las tumbas. No había más de veinte, adornadas con flores y cintitas. Una huerta de cruces perdida en la cordillera recibiendo los colores del cielo. Dejó la mochila sobre una lápida y en la pantalla de su cámara digital congeló una cruz de madera armada con dos troncos y un Cristo tallado en la corteza. Me gustaría que me enterraran en un lugar así, dijo. La piel blanca que la musculosa dejaba libre se le había puesto algo rosa en esos días. Le sacó fotos a un pajarito amarillo que movía la cabeza encima de una lápida y a un abejorro que se metía una y otra vez en la trompeta de una flor que se abrazaba a una cruz de hierro. Se sentó en una piedra y prendió un porro. Es como si los propios muertos, después de recorrer toda la tierra, hubiesen decidido entrar allí, dijo, en este lugar apartado de los hombres, y dormir para siempre en la roca de colores tan cerca del cielo. Christophe, que la esperaba apoyado contra la puerta del Mitsubishi, de brazos cruzados, oculto detrás de sus anteojos negros, le contestó que ya estaba fumada y le pidió que se apurara, quería llegar antes que se hiciese de noche.
Ya de nuevo en el auto, Virginie miró las fotos en la pantalla de su notebook. Le gustó una especialmente: se veía una tumba armada con ladrillos y una reja de lanzas en las que se entrelazaban flores azules y jarrones de cerámica; detrás de la tumba crecían yuyos verdes que contrastaban con los colores de las flores; más abajo, jirones de nubes deambulaban entre los pliegos de los cerros, de modo que el cementerio estaba arriba de la nube; al fondo resurgía una montaña vertical, el cielo y la tierra se confundían en esa imagen. La puso como protector de pantalla, reemplazando a su casa de Bordeaux en una mañana fría pero de sol.
            El GPS adherido al parabrisas indicaba la existencia de arroyos, lechos secos, minados por piedras blancas que parecían osamentas de peces. Por algo el pueblo al que iban se llamaba Aguas Secas. Las paredes de la montaña doblaban con el camino. Naranjas, verdes, turquesas, amarillas, rojas. La montaña, dijo Virginie, era la paleta inmensa de un pintor que prepara los colores y que después no la toca porque advierte que la paleta es el cuadro. Sólo colores. Ese paisaje era lo mismo. La fuerza de los colores aislados de la materia. Él le preguntó si pensaba que encontrarían el cuadro en Aguas Secas. Ella se encogió de hombros y miró un rato la foto del cementerio, cerró la notebook, se reclinó contra la ventanilla, tal vez podía dormir. Christophe puso el disco de Ravel. De a gotas caía la fuerza del piano. Es una música lenta pero que no deja de avanzar, es mágica, dijo Virginie, descalza y apoyando los pies contra el parabrisas. Christophe le preguntó si la había tocado en algún concierto. Sí, dijo Virginie, me volví loca estudiándola, encima con Ravel hay que contar una historia desde las sensaciones, escuchá esta parte, ¿ves?, las notas imitan las campanadas que velan a un ahorcado, se repiten las campanas y se repite el miedo a la muerte, que va creciendo. No es una música, es una atmósfera que toca una música.
El camino ya parecía un serrucho, el disco empezó a saltar, las notas se repetían o volvían atrás. Mejor apagarlo y abrir la ventanilla. No sé por qué dejé el piano, dijo Virginie. Ya vas a volver, dijo él. Sí, no sé. Entró el aire de la montaña y el errático ruido del motor que ya empezaba a sufrir el esfuerzo de la altura. Pasaron dos o tres cementerios más, el paisaje se secaba, pocas plantas, cada vez más rocas, la tierra desnuda y naranja, las montañas parecían jarrones de arcilla.
Llegaron a Aguas Secas. La poca gente que caminaba por la calle de piedra era vieja, con los rostros curtidos por el sol. Vestían ropas de colores alegres algo erosionados por el uso. Delante del auto una señora arreaba a sus cabras y en la vereda una nena en bicicleta los miraba con un dedo metido en la nariz. Virginie le mostró la cámara, como preguntándole si le podía sacar una foto; la nena pedaleó calle arriba.
Bajaron del auto. Las casas eran blancas, todas parecidas. Ya casi no quedaba nada de pueblo cuando vieron, al final de una curva, una pared grande de roca medio negra, un balcón arrodillado hacia un precipicio. Arriba de la roca había un cura, sentado, mirando las montañas, y alrededor del cura parecía estar concentrado todo el pueblo, en distintos niveles. Algunos sentados sobre piedras, otros de pie, algunos con los ojos cerrados, otros mirando al cura. A veces los miraban, como si no entendieran qué hacían dos turistas en ese lugar. Virginie recordó esa escena de Ben Hur en la que Cristo predica en el monte. Una viejita arrugada lloraba. Virginie le sacó una foto. Después se acercó un poco más al cura y también le sacó una foto. Era rubio, de barba, flaco, parecía más un conquistador que un cura. Perdieron el tiempo de cuánto duró esa oración, al atardecer. Al final, el cura se puso de pie y caminó por un caminito bien marcado. Todos lo siguieron: la vieja que lloraba, un tipo encima de un burro, la nena de la bicicleta. Dos o tres señoras cantaban, no muy afinadas. Llegaron de nuevo al pueblo por un caminito que ascendía y descendía entre arbustos espinosos y duros. La capilla era blanca como las casas y con un campanario exageradamente alto, le pareció a Virginie. Alguien empezó a sonar las campanas y el sonido rodó cerros abajo con una avalancha de ecos.
Los bancos de madera rechinaban a medida que los ocupaban. Virginie no sabía que el olor denso era guano de murciélago. Se hizo una fila para comulgar. Todavía había luz. Comulgaban y después se arrodillaban en los bancos o rezaban de pie, mirando al piso o al Cristo demasiado lastimado que colgaba del techo. Ellos, por respeto, también lo miraban, tratando de incorporarse a esa oración comunitaria, aunque casi al mismo tiempo advirtieron el cuadro, detrás del Cristo, en la pared del altar.
Virginie caminó por los laterales y se acercó lo más que pudo sin ser indiscreta. Le temblaron las piernas. Le sacó fotos al Cristo, como para disimular, y después al cuadro. La comunión de los pastores estaba en una capilla anclada en las montañas, a más de diez mil kilómetros de donde había sido pintado quinientos años atrás. 
            Los fieles se perdieron en los cerros. Las puertas de las capillas quedaron abiertas. El cura había desaparecido detrás del altar con la viejita que le hacía de ayudante. Pudieron acercarse más al cuadro. Tendría unos dos metros de largo por uno y medio de alto. A pesar del polvo y de la mugre acumulada se adivinaban figuras de hombres y de mujeres que languidecían en la cima de un cerro. Había granjeros, una vieja con un telar, un burro, un pastor con sus cabras, alguien que podía ser un sacerdote. Otros cerros continuaban en distintos planos, secos, como cubiertos de un manto de cuero de toro. Gris y negra la tierra. En cambio, el cielo regalaba colores alegres que se encendían unos a otros. Los hombres y las mujeres del cuadro levitaban con esas pinceladas características del pintor. Como algunos pájaros de montaña, esas figuras ya eran más del cielo que de la tierra.  

El cura salteó churrascos con cebollas y les ofreció el vino dulce que usaba para la misa. Ellos quisieron comer poco, tal vez para mostrarse civilizados, pero el aire de la altura y el humo de la marihuana les había inflado el hambre y limpiaron los platos. Les parecía increíble que el cura hablara tan bien francés. El cura les comentó que su abuela había nacido en Francia, ella le había enseñado. No se interesó demasiado por la vida de ellos ni tampoco quería hablar de él. Apenas comió unos bocados de cebolla con pan. Al final de la cena, Christophe le pidió si les podía mostrar de nuevo la capilla. La recorrieron, cada uno sosteniendo un candelabro con velas encendidas. Cuando llegaron al cuadro, Christophe fingió sorpresa, dijo que era lindo y que le gustaría comprarlo. El cura contestó que todo lo que estaba allí pertenecía a la comunidad de los cerros. Virginie comentó que le encantaría llevarse el cuadro así recordaba su viaje por esa parte del mundo, era tan lindo ese lugar, y el cuadro mostraba muy bien todo eso, seguramente lo había pintado alguien de la zona, dijo acercando una vela a la tela. Se iluminaron los ojos del burro y de un pastor. El cura sonrió y explicó de nuevo que el cuadro pertenecía a la comunidad. Hablaba lento y siempre como si mirara un poco más allá de aquello que enfocaba. No le importaron los tres mil dólares que ofreció Virginie. Christophe dijo que tal vez podían pagar hasta diez mil, aunque el cuadro ni tenía firma, seguro que era de un pintor desconocido, y estaba arruinado de humedad, dijo ella, y de polvo, dijo él, pero igual subían la oferta, la gente de esa zona era demasiado pobre. El cura los miró y dijo que la comunidad apreciaba ese cuadro, no estaba en su poder venderlo, eso dependía de Dios. ¿Y cómo hablamos con Él?, preguntó Christophe, riéndose.

El cura entró en el cuarto pegado a la sacristía. Preparó dos camas para ellos y después lo vieron tirarse entre unos perros flacos. ¿Por qué no duerme en una cama?, le preguntó Virginie. Así le ofrezco el sacrificio a Dios, dijo, ya acostado sobre el suelo. También les dijo que se despedía ahora de ellos, en unas horas, en plena noche, saldría en burro hacia los cerros, había casas arriba, estaría unos días administrando sacramentos.
Virginie se acostó en una cama y Christophe salió a fumar tabaco. Miró el brillo rabioso del cielo, enmarcado por las cumbres. Entonces le pareció que el cuadro estaba bien en ese lugar: un pueblo levitando entre la potencia de las montañas y las riquezas brillantes que esperan del otro lado de la noche.
Los murciélagos revoleteaban alrededor del campanario, cazando insectos.         

            Aunque el cura ya había partido con el burro, ellos caminaban en silencio, casi en puntas de pie, como si la capilla fuera un museo minado de alarmas. Virginie colocó la tela enrollada dentro de un tubo de aluminio. Fueron hacia el Mitsubishi, lo empujaron y saltaron a los asientos cuando el auto tomó velocidad por el efecto de la pendiente. Christophe prendió el motor, aceleró, pero las piedras golpeaban la panza del auto. Había que tranquilizarse o romperían el cárter de aceite. Apenas se veía el camino que despertaban los faros y que se hundía y resurgía entre piedras. Menos mal que tenían el GPS. De los matorrales saltaban tucuras de lado a lado, atravesando la luz de los faros. No hablaban. A veces, Virginie miraba para atrás y tocaba el cilindro que contenía la tela que ella había desprendido del marco con su navaja. En doce horas, tal vez diez, llegarían a Chile cruzando por el Paso de Jama. Tenían documentos diplomáticos, nadie molestaría. Virginie bajó la ventanilla. Le sorprendió el aire húmedo, enseguida se largó a llover, gotas que estallaban en el parabrisas, aisladas unas de otras. Después ya fue una lluvia pareja, vertical y monótona, interrumpida por algún trueno que vibraba en las montañas.
Los limpiaparabrisas apartaban el agua con su coreografía. Llovía con calma, una lluvia mansa que no golpeaba la tierra sino que la bañaba.
            Los sobresaltó el primer arroyo. Donde ayer había un lecho resquebrajado ahora pasaba una cuerda de agua marrón. Christophe metió las ruedas de a poco, el agua rascó la panza del auto, las ruedas volvieron a apoyar el peso del Mitsubishi sobre la tierra.
            Ahora llovía fuerte, cascadas de agua que bajaban con viento y peso. Christophe tenía que esquivar las piedras que se habían desprendido de las paredes de roca. A veces Virginie tenía que bajarse para correrlas. Se embarraba las manos y la cara. Por momentos no se veía nada, sólo la lluvia casi encima, empañada por los faros. El agua también caía de las paredes de la montaña. Ese paisaje quieto y silencioso de la tarde anterior ahora era un gigante que movía sus aguas, sus rocas, sus ruidos.
            El Mitsubishi se les quedó en medio de uno de los arroyos. Los faros casi que se hundieron en un pozo, iluminaron el agua desde abajo, como un submarino, el motor se apagó después de toser. Las ruedas sirvieron más de flotadores que de apoyo y el auto empezó a girar empujado por las olas hacia la cascada que rugía al costado del camino. Christophe ayudó a Virginie a subirse al techo del auto y de ahí, colgada de las hojas de una cortadera, pisó tierra firme. Christophe agarró el cilindro y estiró el brazo. Ella tuvo que meterse un poco en el arroyo y alcanzar uno de los extremos. Él también se colgó de las cortaderas para llegar a la tierra. En el cilindro se juntaron las sangres de los dos, las lavó la lluvia.
Se refugiaron debajo de una piedra que salía de la pared. Desde allí vieron cómo la corriente bajaba cada vez más rápido y más gorda. El agua negra pasaba por encima del capó y acercaba el auto a la pendiente. Oscuro, el auto parecía una roca que divide el cauce de un río.

La luna resplandeció en las rejas de lanza y en algunas cruces de hierro. El cementerio estaba ahí nomás. Se sentaron en uno de los banquitos de piedra. Christophe se tiró a dormir, Virginie le pidió que no se durmiera y le preguntó qué harían con todo ese lío. Ni bien el cura volviera de su paseo le subirían la oferta, una muy buena oferta, le harían entender que el cuadro tenía que estar en un museo y que el gobierno francés podría ayudar con donaciones a la comunidad. Tengo frío, dijo Virginie. Habían perdido todas sus cosas. Mañana, cuando baje el agua, las rescatamos del auto, dijo Christophe.

            La luz todavía era azul y no dejaba ver más que sombras de arbustos o rocas no muy lejos. Desde arriba de los cerros se soltaba un cielo turquesa y rosa. Divisaron al Mitsubishi en un desbarranco, cuarenta metros abajo del camino. Apenas se veían las gomas y una puerta entreabierta. Lo demás eran plantas y barro que se le habían pegado como una barba. Imposible bajar hasta ahí, se podían romper una pierna y ahí sí que la cosa sería brava.
            No sabían qué hacer, si caminar, si quedarse ahí. Salió el sol y al rato apareció un hombre a caballo y un chico, seguramente el hijo, encima de un burro. No se pudieron entender. El chico los ayudó a subirse al burro, uno pegado al otro. El hombre iba adelante con su caballo y el chico caminaba y los arrastraba con el bozal. No hablaban. Dejaron el camino de autos y se metieron en una huella marcada por animales. Volvían para el pueblo. Ristras de nubes aparecían desde las montañas, como si la tierra las pariera, y al rato todo el cielo estaba atravesado de largas franjas de nubes grises, parecido a un campo recién arado. Una aventura esto de rastrear arte, dijo Christophe y Virginie se rió. No tengas miedo, le dijo Christophe. Adelante, el hombre guiaba al caballo con silbidos.
Llegaron al pueblo. Los cascos del caballo y del burro sonaban en el empedrado. Apareció la nena con la bici, otra nena con una muñeca que le colgaba de la mano, tres chicos jugaban al fútbol. Los miraron pasar y después siguieron jugando. Se bajaron del burro en la puerta de la capilla. Una viejita arrugada como una nuez se acercó a Virginie con la mano estirada, ella le dio la mano, pero la viejita no quería saludarla, quería el tubo de aluminio. La viejita sacó la tela de adentro y desenrolló ahí mismo los colores alegres del cielo y los grises en las montañas. Afuera del cuadro era al revés. La tierra de colores y el cielo gris. Christophe se lamentó de no saber mejor español, no podía dar explicaciones por lo del cuadro ni hablar de otras cosas, como de fútbol, el cinco del Paris Saint Germain era argentino. Vamos a buscar un teléfono, dijo Virginie.
En el pueblo no tenían mucho que hacer. No había teléfonos, no había autos y tampoco señales del cura. Se sentaron en una vereda. Por lo menos sus ropas ya estaban casi secas. Sonó la campana de la capilla.
— C’est un si bémol.
Sonó de nuevo, y otra vez, y otra vez, y así siguió, y a medida que sonaba hombres y mujeres bajaban de los cerros cargando sus palas, lazos, machetes y demás instrumentos de trabajo. Se reunían frente a una placita, donde se quedaban medios quietos, como pintados. Virginie buscó a la nena de la bicicleta, ya no había chicos en la calle. Miró a la comunidad de los cerros, ahora se movía, ahora avanzaba hacia ellos dos.
Desde arriba del campanario se veían los colores superpuestos de la montaña, y, más abajo, las tumbas blancas de un cementerio.


Fonte: Radio France Internationale
Imagem retirada da Internet: túmulo