quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Brasigóis Felício - Ensaio curto


A glória de criar galinhas



“Muito da literatura não vale um dente de alho”. Se a matéria da literatura não pulsa, e se não sangra, a tão glorificada criação não teria a dignidade que pode ter uma criação de galinhas. Compartilho com o pensamento de Raduan Nassar, um escritor genial, que renunciou à literatura, depois de consagrar-se, com a publicação de Lavoura arcaica e Um copo de cólera. Penso que os escritores e artistas, em geral (e aí eu me incluo) padecem de enxurrilho e incontinência verbo-borral, e danam a produzir livros, quadros e músicas às pencas, sendo a maioria repetição do já feito, e de qualidade bem chinfrin, depois de haverem criado o que neles foi um instante de beleza e perfeição, em que a forma entrou em acordo com o conteúdo.


As pessoas que se dizem artistas deveriam ter o senso da prudência e parar quando tenham atingido o seu auge. Gênios da literatura, depois de produzir obras canônicas e culminantes, de repente, não mais que de repente, param de produzir. Não são acometidos de remorsos ou dramaticidades. Já o contrário não acontece com a chusma das mediocridades. Produzem por vício ou no piloto automático, numa compulsão de doença. O que atropela o bom senso, e atravessa o samba, não é o buraco no fole da sanfona, mas a cilada do facilitário. Por não encontrarem dificuldades em exercitar sua mediocridade, e por terem abundante leitorado sintonizado com a mediania, seguem a diluir a si mesmos, aviando a mesma interminável receita, como certos mendigos de rua.


Não é preciso ir e olhar muito longe para se aquilatar o quanto a desmedida e até mesmo o sucesso vem matando ou diluindo a produção de muitos de nossos melhores artistas e escritores que trabalham em Goiás, ou em outros lugares mais cotados. Não citarei nomes; para não dizerem que só tenho olhos para enxergar a abundância alheia, falo de mim mesmo. Reconheço que sou um caso de produção compulsiva, que sai em jorros, como se eu não pudesse não escrever. Muitos são os que dizem ser o Hotel do tempo, publicado em 82, o melhor livro de poesia já saído da minha lavoura de palavras.


Em prosa, até hoje citam como momentos mais densos e verdadeiros, o Diários de André, livro censurado pela ditadura militar, em 1975, que agora relanço, em nova versão, e Monólogos da angústia, livro de contos indicado para o vestibular da UFG. Deveria ter parado aí mas, acreditando poder escrever algo melhor, continuei parindo livro após livro, sem atingir o nível daqueles. Van Gogh talvez tenha tido a trágica sorte de morrer muito cedo, depois de, movido pelo sofrimento e o desespero, produzir uma arte imortal. Ele próprio teve consciência dos riscos que correm os artistas, ao repetir a si mesmo, tornando-se menores do que são quando escreveu, em carta a Théo: “A arte é um combate. Na arte é preciso dar o sangue. Eu preferiria não dizer nada, do que me exprimir frouxamente”.


Ao participar de uma Bienal do Livro, em São Paulo, e lá pude ver o quanto de lixo literário as editoras estão empurrando ao mercado. Agora, na Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, vi a situação periclitar mais ainda – se antes era o lixo da sub-literatura o que editoras apresentavam ao leitorado, agora nem de tal enxurrilho se trata mais – autores nem são mais levados em conta. Agora trata-se de apresentar obras presepadas sobre personas & celebridades, tratando adultos como se fossem crianças, “treinando” crianças para o encantamento com a aventura de ler estimulando as primitivas camadas do cérebro batraquiano, que interessa-se tão somente por aquilo que se pode perceber estando em movimento.


Se antes poetinhas municipais, que têm grana para alugar um stand, junto a outros, escribas federais, com direito a tirar ouro do nariz por artes e malazartes de coxas & alcovas, e outras cochambrações, impingiam seus vagidos egolátricos aos incautos, hoje nem isto se vê mais. E o que foi deplorável, em face do avançar da calamidade, passa a despertar inveja e saudade. Enquanto pouco nada de bom e verdadeiro surge entre os ditos “novos valores”, paira, como nuvem de sombria mesmice, a impressão que fica, no entanto, é a de que muitos, dentre os que eram bons, uma vez corrompidos pelo Deus monetário do mercado, que lhes exige um besteirol por ano, deveriam ter parado, a bem de sua própria história, em prol da literatura, e rarefeito leitorado que ainda existe, em nosso tempo impregnado de mídias indutoras da alienação e do vazio.


No mais, é como escreveu Raduan Nassar, quando abandonou a literatura, por não acreditar que ela possa expressar o mistério da vida: “Hoje, finalmente, estou perto de realizar o que mais queria, quando criança: criador! Nada a ver, é claro, com a auto-suficiência exclusiva dos artistas (Deus os tenha!), que estou falando simplesmente em criador de bichos. Aliás, já suspeitei, mais de uma vez, que não há criação artística que se compare a uma criação de galinhas”. ´Se tal declaração não bastar, para explicar o chá de sumiço que deu a si mesmo, como resposta a seu desencanto com as pessoas, a literatura e a realidade tal como a construímos, Raduan falou: “Fiz um acordo com o mundo. Em troca de seu barulho, dou-lhe o meu silêncio”.


Imagem retirada da Internet: Livro

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Pettras Felício - Crônica

O sincericídio do Tiririca


Pettras Felício *



Falo nesta crônica da tentativa de assassinato político do Tiririca, que se propõe a ser palhaço político em uma casa onde tantos militam, impávido-colossos, como arautos boquirrotos de causas inconfessáveis e abaixo de qualquer suspeita. Muitos o criticam e deploram, embora centenas de milhares, em ato de irresponsabilidade ou de protesto, se dizem dispostos a dar-lhe o seu sagrado voto. Sendo eleito, mesmo fazendo palhaçadas de todo tipo, não será mais lamentável do que as brigadas companheiras, a defender com unhas e dentes a roubania e os desmandos dos governos.

Muitos tem erguido alto a luz de seus fachos e gritado a plenos pulmões contra a carnavalização da política, representada, dizem, pelo palhaço Tiririca. Defensores da alta política, do fino jogo ideológico, senhores versados nas ciências e nos meandros da política estão envergonhados com a jocosidade, licenciosidade, ou deboche mesmo, com que Tiririca, e outros de maquiagem mais branda e nariz menos encarnado, que conseguem ocultar a origem arlequinesca, tem se conduzido na presente eleição.

Que o "pagliacci" em questão não possui credenciais ou predicados morais, intelectuais ou propositivos para o exercício das funções que pleiteia é um fato. Aliás, como diria Nelson Rodrigues, é uma obviedade ululante. Mas, dentre os outros, que pleiteiam ou que já ocupam tais funções, quais ou quantos efetivamente os tem? Nenhum problema em eleger um Clodovil, um Netinho, um jogador de futebol qualquer ou um KLB?

A questão central repousa, portanto, não nos méritos ou pressupostos políticos, ideológicos morais ou intelectuais que o candidato possui ou se isso lhe falta. A revolta não é contra nos fazerem de idiotas, nos tratarem como trouxas, nos tomarem por imbecis e sim, contra o fato de alguém assumir que o está fazendo.

Se um Tiririca diz não ter declarado bens por os haver transferido a familiares a fim de evitar que os cobradores ou mesmo a justiça lhos tomassem, o caso é de aviltante falsidade ideológica. Agora, quando políticos de já larga carreira, obviamente já afortunados pelo tempo de contato com o úbere do erário, seja pela larga remuneração que recebem, seja pelo domínio de técnicas de rapinagem, declaram patrimônio sabidamente inferior às suas reais posses, ou quando declaram agora, patrimônio inferior ao de pleito ou pleitos anteriores, nenhuma voz se levanta. Onde a luz das altas consciências? Onde os brados de revolta cívica? Onde a indignação dos que nos resguardam a pequena, mas ainda viva, reserva moral? Nada. Somente o cínico silêncio da complacência!

Em um país no qual alguém se esquiva da cumplicidade, quando não da autoria, dizendo simplesmente que não sabia, ou que não poderia ou deveria saber, ou ainda, quando diz "não ser responsável pelo filho de alguém" mesmo que o referido alguém tenha sido posto para que você ali permanecer mesmo tendo saído; enfim, em um país assim, um Tiririca é profilático, um Tiririca é sanitário, um Tiririca é desopilante, um Tiririca é purgativo. Armar-se alguém de pedras e discursos com vistas a atingi-lo é o mesmo que matar baratas a metralhadora. É cuidar da gripe e negligenciar o câncer. É pentear os cabelos na iminência do dilúvio. Quem o faz, é cão que ladra do portão para dentro. É quem chega ao campo após finda a batalha, a tempo ainda de receber a medalha. É quem se jacta de chutar cachorro morto.

A mim, que prefiro a verdade hiperbólica das óperas à mentira cínica; que prefiro a descompostura aberta àquela de gabinetes, de que raramente um vídeo nos dá notícia, um Tiririca é ruim, é péssimo, é aviltante; mas não mais que muitos outros, dos que ora chegam ou que aí já estão.


* Pettras Felício é Escritor, graduado em Direito e professor de literatura

e interpretação de texto em colégios de Goiânia


Imagem retirada da Internet: palhaço

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Isabel Dias Neves – Belinha - Crônica

RECADO A QUEM VIVE NO CERRADO



Viemos a este mundo para aproveitar a vida! Se isto é verdade, nada melhor que usar a natureza para tornar a existência mais prazerosa. Assim, não ligue para as idéias desses ambientalistas nem para as campanhas dos órgãos públicos sobre meio ambiente! Eles estão com os bolsos empilhados de dinheiro. Não pare de usar o Cerrado. Abuse mesmo dele, um biomazinho que nem patrimônio nacional é. Até agora, só conseguimos destruir 48,4% do seu patrimônio. Temos que ser mais eficientes!

Comece a trabalhar pela sua casa. Se houver árvores na calçada, corte-as. Assim, o vento fica mais livre para nos acariciar a pele e o sol, bem mais solto para nos iluminar e aquecer. Dizem que duas árvores substituem um aparelho de ar condicionado, mas chique mesmo não é ter muitas máquinas em casa? Para que sombra? Tem muita gente desocupada e folgada deitada debaixo de árvores. É verdade que elas transformam gás carbônico em oxigênio. No mais, é exagero de cientista. A gente até já se acostumou com o gás carbônico! Como é bonito ver esse mar de carros e motos engalfinhando-se nas ruas e avenidas, lotando todo o espaço! Quando a fumaça que eles expelem estiver muito densa, é só virar o rosto para um lado e seguir em frente. Você já viu alguém morrer, de repente, por causa de poluição?

Agora, em tempos de eleição, solte fogos à vontade. Os comícios ficam bem mais animados e convincentes. Quando sobe às nuvens, o foguete engole oxigênio e solta dois tipos de outros gases tóxicos. Não dê importância a isto. Esse tal oxigênio a gente nem vê, não é mesmo? Se velhos e crianças ficarem com medo do estrondo dos foguetes, que tampem os ouvidos. É muito emocionante vibrar com o volume dos decibéis que o foguete emite, não acha?

Lave a sua calçada com água tratada mesmo. As Companhias de Água tiram muito dinheiro do nosso bolso. Tome seu banho demoradamente. Dá um enorme prazer. Ao escovar os dentes, deixe a torneira aberta. É poético ouvir o barulhinho da água escorrendo na pia. A vida precisa de mais poesia. Além disto, temos 2,66% de água doce em todo o Planeta Terra e 20% de tudo isto está no Brasil. Não há, pois, razão para economias.

Você não considera fantástica a invenção dos plásticos? Eles facilitam demais a nossa vida e, assim, podemos ter mais tempo para o lazer. Chato é suportá-los após o uso. Livre-se, então, deles, jogando-os nos rios e riachos que são muito preguiçosos. Demoram 400 anos para destruírem material plastificado, mas, no final, fazem seu trabalho direitinho. Em mananciais ricos em plásticos, os peixes desaparecem, porém, há muita carne bovina para o churrasco e outros pratos deliciosos. Os pastos estão abarrotados de boi gordo para o corte e para o lucro! Isto não é bom?

Você está percebendo que vendavais, enchentes e secas estão ocorrendo por esse mundo afora? É lamentável, não é? Mas, por que o povo dessas lonjuras não se cuida? Por que não muda de lugar? Por que não destitui seus governos corruptos? Nós é que temos sorte. Este calor e sequidão, de agora, é por pouco tempo. Além disto, estamos distantes de tragédias. Nossos governantes cuidam muito bem da nossa vida, trazendo-nos progresso. São honestos e só pensam no bem público. É verdade que, de vez em quando, alguns escorregam, mas são humanos e trabalham demais também.

Alguma coisa do que foi dita até agora está sustentada pelo Paradigma Científico, idealizado por Descartes, Newton e por outros cientistas ilustres. Segundo uma das suas idéias, que já duram 300 anos, a natureza tem que colaborar com a ciência, deixando-se torturar para dar lugar aos inventos. Afinal, não é a ciência que está salvando e alongando nosso tempo de viver? Boa vida para você


Isabel Dias Neves é Mestre em Educação, poetisa e escritora. E-mail: labelle@brturbo.com.br


Imagem retirada da Internet: cerrado

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Alexandre Bonafim - Poema









CELEBRAÇÃO DAS MARÉS


I

Um risco de veleiros em fuga

sempre foi o teu nome.

Arquipélagos de incandescentes pássaros

os teus olhos. Os frutos do sal,

a íris do sol na filigrana das águas,

os cardumes do outono, clamam em teus pulsos

a presença de um fogo vivo,

cicatriz de um oceano em fúria.



Sempre foi o teu nome as marés.

Em cada palavra do teu ser,

navegam barcos de pólen,

peixes de constelações ardentes.

Em cada silêncio dos teus gestos,

nasce o azul dos cavalos marinhos,

movimento dos remos singrando o mistério.



O teu nome sempre foi os promontórios,

as ilhas desvairadas pelo verão.

Sobre tua nudez repousam

a brancura das velas infladas,

a plena luminosidade do meio-dia.



Em teu destino os corais tramaram

a encantação das estrelas marinhas,

a memória dos búzios.

Essa é a convocação das marés:

fazer do teu rosto o destino das ondas,

a areia desfeita nas orlas.



No teu nome o sono das crianças

apascentou a cólera dos naufrágios.


Imagem retirada da Internet: marés

domingo, 26 de setembro de 2010

Sinésio Dioliveira - Poema



Meu re-Seio
é encontrá-lo árido pra mim
e meus lábios morrerem de sede.
Sei-o de cor
na ponta da língua.



Imagem retirada da Internet: seio

sábado, 25 de setembro de 2010

Anna Akhmátova (Anna Andreyevna Gorenko) - Poema

    Aprendi a viver com simplicidade



    Aprendi a viver com simplicidade, com juízo,

    a olhar o céu, a fazer minhas orações,

    a passear sozinha até a noite,

    até ter esgotado esta angústia inútil.


    Enquanto no penhasco murmuram as bardanas

    e declina o alaranjado cacho da sorveira,

    componho versos bem alegres

    sobre a vida caduca, caduca e belíssima.

    Volto para casa. Vem lamber a minha mão

    o gato peludo, que ronrona docemente,

    e um fogo resplandecente brilha

    no topo da serraria, à beira do lago.

    Só de vez em quando o silêncio é interrompido

    pelo grito da cegonha pousando no telhado.

    Se vieres bater à minha porta,

    é bem possível que eu sequer te ouça.



Tradução de Lauro Machado Coelho



Anna Akhmátova. Antologia Poética. Seleção, tradução, apresentação e notas de Lauro Machado Coelho.
Porto Alegre: L&PM.
Imagem retirada da Internet: Anna

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Affonso Romano de Sant'Anna - Poema


Separação




Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.



Imagem retirada da Internet: separação

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Francisco Perna Filho - Poema

[fogofatuo.jpg]

COBRA DE FOGO





Não sabem os homens
que o fogo consome,
assim como a água,
tudo que vê.
Um corredor de fogo,
uma serpente de labaredas,
uma convulsão de calor e amarelidão.
O cerrado treme,
grita,
estrala.
Rapidamente,
é consumido.
Os homens,
endemoniados,
roubam dos deuses o fogo,
e lançam suas chamas,
queimando o seco
que brotaria,
o verde ainda tenro.
Os homens,
sem escrúpulos,
sem culpa,
sem misericórdia,
roubam da natureza a vida.
De um lado,
o rio,
“cobra de vidro”,
singra.
Do outro,
o cerrado,
cobra de fogo,
sangra.
Os homens,
senhores do fogo,
zombam dos deuses,
ao anunciarem a sua incúria,
a sua insensatez,
passeando pelas ruas largas da cidade,
nos seus carros de som.
Os bairros,
doídos de abandono,
com suas ruas engasgadas de fumaça,
gemem desolados.
As casas,
que também gritam,
vomitam a fuligem das queimadas folhas,
o pó que se alastra pelos seus alpendres,
assistidas pelo mormaço desses longos dias.



Palmas, 21 de setembro de 2010

Imagem retirada da Internet: cobra de fogo

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Anna Akhmátova (Anna Andreyevna Gorenko) - Poema


LENDO "HAMLET"



I


No cemitério, à direita, cobriu-se o túmulo de pé
e, por trás dele, brotou um rio azul.
Tu me disseste; "Então
vai para o convento
ou casa-te com um idiota..."
Só os príncipes falam sempre assim.
Mas eu lembro dessas palavras:
deixem que elas flutuem por cem séculos
como um manto de arminho jogado sobre os meus ombros.


II


E como por engano
eu disse: "Tu..."
Iluminou-se a sombra com o sorriso
suave de meu amado.
Esse é o tipo de deslize da língua
que faz com que todo mundo fique te olhando...
Mas eu te amo, como quarenta
meigas irmãs.


Anna Akhmátova. Antologia Poética. Seleção, tradução, apresentação e notas de Lauro Machado Coelho. Porto Alegre: L&PM.
Imagem retirada da Internet: Anna


terça-feira, 21 de setembro de 2010

Brasigóis Felício - Crônica

A revolução dos catrumanos



O homem é o único animal que, sabendo-se humano, pode se tornar desumano. Supra-sumo sapiente, embora insano e cruel, inclusive em relação aos seus irmãos. Não saber ter “o poder de ser bom”, que é a vacina mais certa contra todas as formas de maldade. “O alto poder existindo para os braços da maior bondade”, conforme intuiu Riobaldo, nos intervalos das travessias doGrande Sertão:Veredas, em que rasgava gerais, em suas lutas jagunceiras, antes de atravessar a terra sinistra e deserta do Liso do Sussuarão.

Encarnação de milagre foi Riobaldo (um rio baldo), tão tosco e brejeiro, mas tendo clarões da eternidade, ao perceber que existem “semeados na terra” que não fazem parte da humanidade, pois que tendo nascido como pessoas, não conseguiram tornar-se humanos. Separa-os da humanidade “o não saberem das redes de proibições e alianças que presidem as trocas humanas”, como assinala Katrim Holzermayr Rosenfield, em Desenredando Rosa (Topbooks).

Na visão de Riobaldo (e, por certo, do mago Rosa), “os nascidos da terra crescem como vegetais, e massacram-se mutuamente, saindo e retornando do ventre da mãe”. Qualquer semelhança com a barbárie que, nos campos e cidades, em tempos de guerra ou de paz, em forma de terrorismo político-religioso, ou de criminalidade organizada, avança como a querer destruir os marcos civilizatórios, não é mera coincidência.

A revolução dos catrumanos (ou a barbárie pura e simples) pode ser vista no fundo de um mar magmático de selvageria e barbárie, espécie de horda das ruas, ou levante do absurdo, no país da cordialidade e do jeitinho. Já não dá para não saber que a banalidade do mal, que teve seu auge nos campos de extermínios nazistas, com a chamada “solução final”, retorna com o terrorismo justificado em nome dos direitos humanos.

Os catrumanos, espécie de Aliens vindos dos abismos da mente humana, não do espaço sideral, clandestinos embarcados em naves embarcadas em guerras nas estrelas, pertencem à grei mortal e mortífera dos atacados pela peste emocional do caráter, no dizer de Wilhelm Reich. Ou acabaram por se transformar em mortos vivos, inimigos ferozes de tudo o que vive, no dizer de Pierre Levy, pós-doutor da cybercultura: “Algumas pessoas estão praticamente mortas por dentro. Buscam sugar a vida de pessoas vivas, mas neuróticas, isto é, que projetam a própria luz nos mortos vivos, incapazes que são de reconhecê-los”.

Dentre os Aliens, mortos vivos e morcenigos (vampiros humanos portadores da peste emocional do caráter, a doença mental dos encouraçados, descritos por Reich) há os fanáticos pelo ódio ao diferente. São capazes de planejar e realizar atentados terroristas que levam à morte centenas ou milhares de pessoas inocentes, pelo simples fato de não rezarem pelos dogmas de seu credo religioso. Mas há também os que matam em nome do que chamam de amor.

Matam em nome da pátria, assim como assassinam levando bandeiras de ideais sublimes de salvação do mundo ou da alma. Matam em nome do que chamam de sua “coerência”, para não levar desaforo para casa, para “lavar a honra”, por motivo fútil, de fama ou infâmia – pois que é vasta, e cresce a perder-se de vista, o câncer coletivo da insanidade humana.

No dizer do professor Roberto Romano, “O terrorista, sem receber votos, faz-se poder Legislativo e decreta leis que devem ser atendidas por qualquer pessoa, mesmo que esta a desconheça. O terrorista, sem eleição, faz-se o poder Executivo de modo ditatorial, e arranca bens e recursos de qualquer indivíduo ou grupo; sem mandato legítimo, faz-se o Judiciário, e só ele julga com justiça o mundo e seus habitantes.

Ele também exerce o poder de polícia, chegando a ser, ele também, carrasco...”. Para ele, o ventre da besta autoritária não está vazio com a morte do nazismo e do stalinismo: “Ele está cheio de ódios que ajudam bandidos a arrancar peles e músculos de crianças desvalidas, mulheres frágeis, velhos trêmulos”.

Da mesma espécie de catrumanos são também os bandidos que assaltam carros, aos gritos de “Sai, vagabunda!”, e arrastam uma criança, como inocente Aquiles, até que seu corpo frágil se desfaça... Os que perpetram tamanha atrocidade ainda encontram quem os defenda: “A culpa é dos que moram em cobertura”, insiste em dizer a autoridade que vive a denunciar que os outros nada fizeram, enquanto ele se obstina em não fazer coisa alguma.

Catrumanos, criminosos hediondos, malandros de navalha e de gravata, existem por toda parte, e se multiplicam como praga, sendo alguns justificados em nome de nobres causas, que traem e aviltam, tão logo sejam eleitos e/ou reeleitos como pais da pátria, enquanto, nas palavras proféticas do poeta irlandês W.B. Yeats, “avança sobre a maré escura do sangue, e a simples anarquia desaba sobre a terra”.


Brasigóis Felício é Poeta e Jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.


Imagem retirada da Internet: silhueta

Paulo Henriques Brito - Poema



elogio do mal





1


A uma certa distância

todas as formas são boas.

Em cada coisa, um desvão;

em cada desvão não há nada.

À mão direita, a explicação

perfeita das coisas. À esquerda,

a certeza do inútil de tudo.

Ter duas mãos é muito pouco.

Por isso, por isso os nomes,

os nomes que embebem o mundo,

e os verbos se fazem carne,

e os adjetivos bárbaros.


2


O mundo se gasta aos poucos.

A coisa se basta a si mesma,

mas não basta ao que pensa

um mundo atulhado de coisas

que se apagam sem pudor,

que se deixam dissipar

como quem não quer nada.

Existir é muito pouco.

Por isso, por isso os nomes,

os nomes que se engastam nas coisas

e sugam o sangue de tudo

e sobrevivem ao bagaço

e negam a tudo o direito

de só durar o que é duro,

e roubam do mundo a paz

de não querer dizer nada.


3


Bendita a boca,

essa ferida funda e má.




In.Antônio Miranda

Imagem retirada da Internet:mãos

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Joaquim Cardozo - Poema

O RELÓGIO


Quem é que sobe as escadas
Batendo o liso degrau?
Marcando o surdo compasso
Com uma perna de pau?

Quem é que tosse baixinho
Na penumbra da ante-sala?
Por que resmunga sozinho?
Por que não cospe e não fala?

Por que dois vermes sombrios
Passando na face morta?
E o mesmo sopro contínuo
Na frincha daquela porta?

Da velha parede triste
No musgo roçar macio:
São horas leves e tenras
Nascendo do solo frio.

Um punhal feriu o espaço. . .
E o alvo sangue a gotejar,
Deste sangue os meus cabelos
Pela vida hão de sangrar.

Todos os grilos calaram
Só o silêncio assobia;
Parece que o tempo passa
Com sua capa vazia.

O tempo enfim cristaliza
Em dimensão natural;
Mas há demônios que arpejam
Na aresta do seu cristal.

No tempo pulverizado
Há cinza também da morte:
Estão serrando no escuro
As tábuas da minha sorte.


Imagem retirada da Internet: relógio

domingo, 19 de setembro de 2010

Carlos Drummond de Andrade - Poema

Madrigal Lúgubre


Em vossa casa feita de cadáveres,

ó princesa! ó donzela!
Em vossa casa, de onde o sangue escorre,
quisera eu morar.


cá fora é o vento e são as ruas varridas de pânico,
é o jornal sujo embrulhando fatos, homens e comida guardada.

Dentro, vossas mãos níveas e mecânicas tecem algo parecido com um véu.

O mundo, sob a neblina que criais, torna-se de tal modo espantoso

que o vosso sono de mil anos se interrompe para admirá-lo.

Princesa: acordada, sois mais bela, princesa.
E já não tendes o ar contrariado dos mortos à traição.
arrastar-me-ei pelo morro e chegarei até vós.
tão completo desprezo se transmudará em tanto amor...

Dai-me vossa cama, princesa,
vosso calor, vosso corpo e suas repartições,
oh dai-me! que é tempo de guerra,
tempo de extrema precisão.


Não vos direi dos meninos mortos
(nem todos mortos, é verdade,
alguns, apenas mutilados).


In. Sentimento do Mundo. Rio de Janeiro: Record, 2002,p.69.

Imagem retirada da Internet: na rua

sábado, 18 de setembro de 2010

Carlos Drummond de Andrade - Poema


Lembrança do mundo antigo




Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo.
Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!


In.Sentimento do Mundo. 2ªed, Rio de Janeiro: Record, 2002, p.71.
Imagem retirada da Internet: criança