O Feminino como Força Literária: Autran Dourado, 100 anos
Em entrevista concedida a
Julián Fuks, repórter da Folha de São
Paulo, Autran Dourado fala sobre os seus personagens:
Meus personagens se parecem muito comigo. Eu os conheço muito bem e sofro a angústia que eles sofrem. Não tenho nenhum prazer em escrever. Depois de pronta a obra, aí me dá uma certa satisfação, mas a mesma que dá quando se descarrega dos ombros um fardo pesado. (Folha de São Paulo, 30 mai. 2005; Versão On-line)
Após essa fala, o repórter da Folha de São Paulo pergunta por que
então ele escreve, já que não sente prazer, obtendo a seguinte resposta:
É também uma fatalidade. Você é destinado à literatura, e não a literatura a você. Escrever é uma imitação. A gente escreve feito um menino que vê o livro como um brinquedo e pensa ‘ah, eu quero um’. Quando eu li pela primeira vez Dom Casmurro, eu disse ‘puxa, eu quero o meu’. Daí a necessidade que se tem de ler. Quando estou para escrever, gosto muito de ler um poema, Drummond, João Cabral. Não é o poema que eu vou fazer, mas acho que me prepara. (Folha de São Paulo, 30 mai. 2005; Versão On-line).
Biela
é a personagem central da novela Uma vida
em segredo, publicada pela primeira vez em 1964, cujo título já alude ao
que vai se descortinar no decorrer da narrativa: Biela, corruptela de Gabriela,
personagem principal, órfã de pai e mãe (a mãe, perdera na infância; quando o
pai morreu, ela já estava no início da vida adulta), vai para cidade viver com
os primos Conrado e Constança e com os filhos deles: Mazília, Gilda, Fernanda,
Alfeu e Silvino, deixando para trás seu Fundão, fazenda herdada dos pais.
A história se passa entre o presente e o passado, este representado pela memória de Biela, aquele pela vida na cidade, suas ações e reflexões, fato que já é destacado desde o início da narrativa e se intensifica no decorrer dela.
Rosalina - Oitavo livro de Autran Dourado, Ópera dos mortos (1967) faz parte das
obras maduras do autor. O livro se divide em nove capítulos, ou nove blocos
narrativos: “O Sobrado”, “A Gente Honório Cota”, “Flor de Seda”, “Um Caçador
Sem Munição”, “Os Dentes da Engrenagem”, “O Vento Após a Calmaria”, “A
Engrenagem em Movimento”, “A Semente no Corpo, na Terra”, e “Cantiga de
Rosalina”. Toda a narrativa do romance se estrutura em torno da protagonista Rosalina, filha única de dona Genu e do coronel João Capistrano Honório
Cota. O Coronel, após desiludir-se com a política, isola-se no sobrado com a
família, vivendo lá, a despeito de todo apelo da população de Duas Pontes, até
a consumação dos seus dias. Rosalina, solidária ao pai, também se fecha e segue
a mesma sina, cada vez mais distante do mundo exterior, chegando ao paroxismo
dessa atitude, após a morte dos pais, quando ela se enclausura de fato, tendo
por companhia a preta Quiquina e, mais tarde, o forasteiro Juca Passarinho, com
quem alivia a solidão, nas suas etílicas noites de transbordamento. Assim,
Rosalina cumpre os seus dias, seus vazios e solidão, até o ato final, a
loucura.
Malvina - Considerado como obra-prima e um dos melhores e mais ousados livros de Autran Dourado, Os sinos da agonia (1974), ao contrário do que acontece em algumas obras do autor, não é ambientado em Duas Pontes, mas sim na Vila Rica do Século XVIII, quando as Minas Gerais conheceram a riqueza proporcionada pela extração do ouro e pela criação de gado, a opressão por parte da Coroa Portuguesa, a revolta, e, mais tarde, a decadência. Ali se desenvolve uma história de desejo, traição, opressão e revolta, acentuadamente marcados pela agonia de vidas devastadas pela traição, pelo amor e pelo ciúme.
Pela sua importância, o romance foi amplamente lido
no Brasil e no exterior, sendo traduzido para diversos países, dentre eles a
França, onde foi adotado para os exames de agrégation
das universidades francesas. A obra, inicialmente dividida em três partes
denominadas “Jornadas”, como eram chamados os autos antigamente, evoluiu,
passando a constituir-se de quatro partes, conforme assinala Autran Dourado:
Concebi o livro dividido em três blocos (jornadas, como eram chamados os autos antigamente), cada um com sua visão da história. Não há fusão, mas independência absoluta, cada maneira de ver e narrar é ambígua e mesmo contraditória em relação às outras – os discursos dos três personagens principais, que na verdade são dois, desde que Januário e Gaspar representam as duas faces do mesmo personagem mítico – Hipólito, e Malvina que é Fedra. [...] A divisão em três blocos ou jornadas na segunda versão do romance me pareceu simplista, resolvi cortar o final de cada bloco. Cada final correspondia ao bloco de que se originara: Januário (Hipólito), Malvina (Fedra) e Gaspar (Hipólito), só que em ordem inversa. Vi então que essa divisão e montagem eram apenas arbitrárias, apenas confundiriam. Resolvi, pois tirar um novo partido das três divisões, deixando os seus finais em suspenso, sem solução, de maneira que a figura retórica da ambiguidade (The Seven Types of Ambiguity, de Empson) funcionasse plenamente. (Revista da USP, 1994, p.123)
Autran Dourado, ao criar suas personagens
femininas, assim o faz também com um objetivo a mais: embora repita, em algumas
de suas obras, o paradigma da literatura universal de que mulheres
transgressoras sempre pagam com a vida ou com o enlouque-cimento, consegue ir
além, dando autonomia a essas mulheres, investindo-as de certo poder perante o
mundo masculino, alimentando-as de possibilidades para escaparem das armadilhas
por esse mundo apresentadas.
"Escrever é criar pontes entre o efêmero e o eterno, entre o silêncio e a revelação." Feliz por você nos brindar com essa pérola.
ResponderExcluir{escrever] É também uma fatalidade. Você é destinado à literatura, e não a literatura a você.
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