quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Clarice Lispector - Crônica





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Clarice Lispector

 O PRIMEIRO LIVRO DE CADA UMA DE MINHAS VIDAS*



Perguntaram-me uma vez qual fora o primeiro livro de minha vida. Prefiro falar do primeiro livro de cada uma de minhas vidas. Busco na memória e tenho a sensação quase física nas mãos ao segurar aquela preciosidade: um livro fininho que contava a história do patinho feio e da lâmpada de Aladim. Eu lia e relia as duas histórias, criança não tem disso de só ler uma vez: criança quase aprende de cor e, mesmo quase sabendo de cor, relê com muito da excitação da primeira vez. A história do patinho que era feio no meio dos outros bonitos, mas quando cresceu revelou o mistério: ele não era pato e sim um belo cisne. Essa história me fez meditar muito, e identifiquei-me com o sofrimento do patinho feio – quem sabe se eu era um cisne?


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Quanto a Aladim, soltava minha imaginação para as lonjuras do impossível a que eu era crédula: o impossível naquela época estava ao meu alcance. A ideia do gênio que dizia: pede de mim o que quiseres, sou teu servo – isso me fazia cair em devaneio. Quieta no meu canto, eu pensava se algum dia um gênio me diria: “Pede de mim o que quiseres.” Mas desde então revelava-se que sou daqueles que têm que usar os próprios recursos para terem o que querem, quando conseguem.


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Tive várias vidas. Em outra de minhas vidas, o meu livro sagrado foi emprestado porque era muito caro: Reinações de Narizinho. Já contei o sacrifício de humilhações e perseveranças pelo qual passei, pois, já pronta para ler Monteiro Lobato, o livro grosso pertencia a uma menina cujo pai tinha uma livraria. A menina gorda e muito sardenta se vingara tornando-se sádica e, ao descobrir o que valeria para mim ler aquele livro, fez um jogo de “amanhã venha em casa que eu empresto”. Quando eu ia, com o coração literalmente batendo de alegria, ela me dizia: “Hoje não posso emprestar, venha amanhã.” Depois de cerca de um mês de venha amanhã, o que eu, embora altiva que era, recebia com humildade para que a menina não me cortasse de vez a esperança, a mãe daquele primeiro monstrinho de minha vida notou o que se passava e, um pouco horrorizada com a própria filha, deu-lhe ordens para que naquele mesmo momento me fosse emprestado o livro. Não o li de uma vez: li aos poucos, algumas páginas de cada vez para não gastar. Acho que foi o livro que me deu mais alegria naquela vida.


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Em outra vida que tive, eu era sócia de uma biblioteca popular de aluguel. Sem guia, escolhia os livros pelo título. E eis que escolhi um dia um livro chamado O lobo da estepe, de Herman Hesse. O título me agradou, pensei tratar-se de um livro de aventuras tipo Jack London. O livro, que li cada vez mais deslumbrada, era de aventura, sim, mas outras aventuras. E eu, que já escrevia pequenos contos, dos 13 aos 14 anos fui germinada por Herman Hesse e comecei a escrever um longo conto imitando-o: a viagem interior me fascinava. Eu havia entrado em contato com a grande literatura.

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 Katherine Mansfield

Em outra vida que tive, aos 15 anos, com o primeiro dinheiro ganho por trabalho meu, entrei altiva porque tinha dinheiro, numa livraria, que me pareceu o mundo onde eu gostaria de morar. Folheei quase todos os livros dos balcões, lia algumas linhas e passava para outro. E de repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu! E, contendo um estremecimento de profunda emoção, comprei-o. Só depois vim a saber que a autora não era anônima, sendo, ao contrário, considerada um dos melhores escritores de sua época: Katherine Mansfield.


In. Aprendendo a viver. Rio de Janeiro: Rocco Digital. p. 19-20
* Esta crônica foi originalmente publicada no Jornal do Brasil, em 24 de fevereiro de 1973.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Conto - João Guimarães Rosa




Resultado de imagem para capa da primeira edição de "Primeiras Estórias", de João Guimarães Rosa

Famigerado



        Foi de incerta feita — o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça? Eu estava em casa, o arraial sendo de todo tranquilo. Parou-me à porta o tropel. Cheguei à janela.
         Um grupo de cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à minha porta, equiparado, exato; e, embolados, de banda, três homens a cavalo. Tudo, num relance, insolitíssimo. Tomei-me nos nervos. O cavaleiro esse — o oh-homem-oh — com cara de nenhum amigo. Sei o que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida.
        Nenhum se apeava. Os outros, tristes três, mal me haviam olhado, nem olhassem para nada. Semelhavam a gente receosa, tropa desbaratada, sopitados, constrangidos coagidos, sim. Isso por isso, que o cavaleiro solerte tinha o ar de regê-los: a meio-gesto, desprezivo, intimara-os de pegarem o lugar onde agora se encostavam. Dado que a frente da minha casa reentrava, metros, da linha da rua, e dos dois lados avançava a cerca, formava-se ali um encantoável, espécie de resguardo. Valendo-se do que, o homem obrigara os outros ao ponto donde seriam menos vistos, enquanto barrava-lhes qualquer fuga; sem contar que, unidos assim, os cavalos se apertando, não dispunham de rápida mobilidade. Tudo enxergara, tomando ganho da topografia. Os três seriam seus prisioneiros, não seus sequazes. Aquele homem, para proceder da forma, só podia ser um brabo sertanejo, jagunço até na escuma do bofe. Senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso. Eu não tinha arma ao alcance. Tivesse, também, não adiantava. Com um pingo no i, ele me dissolvia. O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo O. O medo me miava. Convidei-o a desmontar, a entrar.
       Disse de não, conquanto os costumes. Conservava-se de chapéu. Via-se que passara a descansar na sela — decerto relaxava o corpo para dar-se mais à ingente tarefa de pensar. Perguntei: respondeu-me que não estava doente, nem vindo à receita ou consulta. Sua voz se espaçava, querendo-se calma; a fala de gente de mais longe, talvez são-franciscano. Sei desse tipo de valentão que nada alardeia, sem farroma. Mas avessado, estranhão, perverso brusco, podendo desfechar com algo, de repente, por um és-não-és. Muito de macio, mentalmente, comecei a me organizar. Ele falou:

"Eu vim preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada..."

     Carregara a celha. Causava outra inquietude, sua farrusca, a catadura de canibal. Desfranziu-se, porém, quase que sorriu. Daí, desceu do cavalo; maneiro, imprevisto. Se por se cumprir do maior valor de melhores modos; por esperteza? Reteve no pulso a ponta do cabresto, o alazão era para paz. O chapéu sempre na cabeça. Um alarve. Mais os ínvios olhos. E ele era para muito. Seria de ver-se: estava em armas — e de armas alimpadas. Dava para se sentir o peso da de fogo, no cinturão, que usado baixo, para ela estar-se já ao nível justo, ademão, tanto que ele se persistia de braço direito pendido, pronto meneável. Sendo a sela, de notar-se, uma jereba papuda urucuiana, pouco de se achar, na região, pelo menos de tão boa feitura. Tudo de gente brava. Aquele propunha sangue, em suas tenções. Pequeno, mas duro, grossudo, todo em tronco de árvore. Sua máxima violência podia ser para cada momento. Tivesse aceitado de entrar e um café, calmava-me. Assim, porém, banda de fora, sem a-graças de hóspede nem surdez de paredes, tinha para um se inquietar, sem medida e sem certeza.

— "Vosmecê é que não me conhece. Damázio, dos Siqueiras... Estou vindo da Serra..."

      Sobressalto. Damázio, quem dele não ouvira? O feroz de estórias de léguas, com dezenas de carregadas mortes, homem perigosíssimo. Constando também, se verdade, que de para uns anos ele se serenara — evitava o de evitar. Fie-se, porém, quem, em tais tréguas de pantera? Ali, antenasal, de mim a palmo! Continuava:

— "Saiba vosmecê que, na Serra, por o ultimamente, se compareceu um moço do Governo, rapaz meio estrondoso... Saiba que estou com ele à revelia... Cá eu não quero questão com o Governo, não estou em saúde nem idade... O rapaz, muitos acham que ele é de seu tanto esmiolado..."
      Com arranco, calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar.
       O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, inseqüentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava: E, pá:

— "Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... faz-megerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?

       Disse, de golpe, trazia entre dentes aquela frase. Soara com riso seco. Mas, o gesto, que se seguiu, imperava-se de toda a rudez primitiva, de sua presença dilatada. Detinha minha resposta, não queria que eu a desse de imediato. E já aí outro susto vertiginoso suspendia-me: alguém podia ter feito intriga, invencionice de atribuir-me a palavra de ofensa àquele homem; que muito, pois, que aqui ele se famanasse, vindo para exigir-me, rosto a rosto, o fatal, a vexatória satisfação?

— "Saiba vosmecê que saí ind'hoje da Serra, que vim, sem parar, essas seis léguas, expresso direto pra mor de lhe preguntar a pregunta, pelo claro..."
Se sério, se era. Transiu-se-me.

— "Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem têm o legítimo — o livro que aprende as palavras... É gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias... Só se o padre, no São Ão, capaz, mas com padres não me dou: eles logo engambelam... A bem. Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe perguntei?"

Se simples. Se digo. Transfoi-se-me. Esses trizes:

— Famigerado?
— "Sim senhor..." — e, alto, repetiu, vezes, o termo, enfim nos vermelhões da raiva, sua voz fora de foco. E já me olhava, interpelador, intimativo — apertava-me. Tinha eu que descobrir a cara. — Famigerado? Habitei preâmbulos. Bem que eu me carecia noutro ínterim, em indúcias. Como por socorro, espiei os três outros, em seus cavalos, intugidos até então, mumumudos. Mas, Damázio:

— "Vosmecê declare. Estes aí são de nada não. São da Serra. Só vieram comigo, pra testemunho..."

Só tinha de desentalar-me. O homem queria estrito o caroço: o verivérbio.

— Famigerado é inóxio, é "célebre", "notório", "notável"...

— "Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?"

— Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos...

— "Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?"

— Famigerado? Bem. É: "importante", que merece louvor, respeito...

— "Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?"

Se certo! Era para se empenhar a barba. Do que o diabo, então eu sincero disse:

— Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado — bem famigerado, o mais que pudesse!...

— "Ah, bem!..." — soltou, exultante.

      Saltando na sela, ele se levantou de molas. Subiu em si, desagravava-se, num desafogaréu. Sorriu-se, outro. Satisfez aqueles três: — "Vocês podem ir, compadres. Vocês escutaram bem a boa descrição..." — e eles prestes se partiram. Só aí se chegou, beirando-me a janela, aceitava um copo d'água. Disse: — "Não há como que as grandezas machas duma pessoa instruída!" Seja que de novo, por um mero, se torvava? Disse: — "Sei lá, às vezes o melhor mesmo, pra esse moço do Governo, era ir-se embora, sei não..." Mas mais sorriu, apagara-se-lhe a inquietação. Disse: — "A gente tem cada cisma de dúvida boba, dessas desconfianças... Só pra azedar a mandioca..." Agradeceu, quis me apertar a mão. Outra vez, aceitaria de entrar em minha casa. Oh, pois. Esporou, foi-se, o alazão, não pensava no que o trouxera, tese para alto rir, e mais, o famoso assunto.

Texto extraído do livro "Primeiras Estórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988. 

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

O Passado Remoto - Giovanni Papini





Someday I'll get there...until then I'll just dream with my antique post card.....
Cartão postal: Torre Eiffel 1908





PRIMAVERA EM PARIS




         Nunca vi Paris tão jubilosamente inundada de sol e de inteligência como na Primavera de 1914. Parecia que a velha Europa, antes de se envolver no manto de fogo e de luto, quisera oferecer a si própria uma última course aux flambeaux, num dos seus mais famosos boulevards.
        O tempo estava quase sempre bonito, o céu tinha a amenidade perlada do mais cordial setentrião, a gente parecia contente de viver, e de viver precisamente naquela germinante estação. Nas árvores, que se erguiam entre as fortalezas burguesas dos grandes palácios negros, despontavam as primeiras folhas, a despeito do ar que cheirava a gasolina e a asfalto ainda húmido.
         Por toda a parte reinava uma vida alacridade, uma temeridade de experiências, uma vontade de tentar e ir mais além que dava alma e coragem aos mais ensonados, esperanças e embriaguez  aos mais arrojados aventureiros. Por toda a parte se falava em teorias novas, nasciam novas revistas, abriam-se novas exposições, novos poetas e pintores se revelavam. Pareci o festim de Alexandre, antes do incêndio da Babilônia.
         Fora até lá com Soffici e Carrà. Também Marinetti e Palazzeschi vieram por uns dias. Mais do que nunca Paris era a Alexandria da cultura moderna, onde convergiam homens vindos de toda a Europa. Os pintores mais famosos chamavam-se Picasso e Juan Gris, Modigliani e Van Dongen; os escultores mais célebres, Rosso e Archipenko; e também os escritores acorriam de toda a Europa.
Giovanni Papini, Marinetti, Palazzeschi: amigos futuristas
          Nos primeiros dias, logo me encontrei com o inesquecível Guillaume Apollinaire, escritor francês nascido em Roma, de mãe polaca. Corria a lenda, em Paris, de que era filho de um cardeal, talvez porque a sua corpulência e, sobretudo, a arguta bonacheirice do seu rosto largo tinham qualquer coisa de prelatício, qualquer coisa que recordava a adiposa malícia do Leão X, de Rafael. Naqueles tempos, Apollinaire era um dos mais audazes e discutidos escritores que havia em Paris, e a ele se devia, além do mais, a teoria e o êxito da pintura cubista. Mas não tinha nada do hirsuto refractário das passadas guerras literárias e artísticas. Parecia um senhor afável, um fidalgo fantaisiste, mas de garbo requintado, e, como dizem os Franceses, era de commerce agréable. Tinha uma vastíssima cultura de primeira mão, conhecia os segredos e os mistérios das doutrinas antigas e da literatura proibida, e era um curioso de tudo aquilo que não chamasse a curiosidade da gente comum; sabia muitas línguas e, entre elas, o italiano. Tinha já publicado Alcools, que revelaram um poeta original, liberto das peias do Simbolismo e, pelos seus romances, pode contar-se entre os precursores do Surrealismo: creio até que o termo foi invenção sua. Fundara, havia há pouco, uma revista, Les Soirées de Paris, onde também eu publiquei um artigo – um paralelo entre Croce e Bergson –, e até estive instalado com Carrà no apartamento do Boulevard Raspail que era a redação das Soirées: estranha redação, sempre deserta, onde apenas aparecia, mas raramente, o taciturno e fantástico secretário de Apollinaire, o barão Mollet.

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Guillaume Apollinaire
        
     Muitas belíssimas horas passamos com Apollinaire. Um dia, acompanhava-nos aos marchands de tableaux que sustentavam a pintura cubista; outro dia, a uma exposição de vanguarda; à noite levava-nos aos bals musette ou às ruelas misteriosas onde os negociantes de bananas tinham as suas lojas e os seus bares; umas vezes, ao Cirque d’Hiver ou ao Vieux Colombier, onde, pela primeira vez, vi o drama mais famoso de Synge: The Playboy of the Western Worel. Íamos também a casa dele, um último andar do Boulevard Saint-Germain, onde ocupava, sozinho, muito mais divisões espaçosas, cheias de livros, de máscaras japonesas, de esculturas negras e de quadros cubistas.
      Não se julgue, porém, que me considerava a mim e aos meus amigos como provincianos aos quais se divertia a fazer de cicerone numa Paris excêntrica. Sabia perfeitamente que o nosso movimento florentino e italiano estava a par de todos os movimentos europeus do género, e tratava-nos como bons companheiros de procura e de batalha. Ele próprio mandou alguns dos seus escritos à Lacerba, que era então dirigida por mim e por Soffici.


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Picasso et le marchand de tableaux Daniel-Henry Kahnweiller,
Villa La Californie 

 , 1958
        Outro escritor muito curioso que então conheci foi Max Jacob, já convertido ao catolicismo, mas que não tinha perdido nada da sua índole enigmática, caprichosa e por vezes diabólica. Max Jacob era muito diferente do amigo Apollinaire. Também ele tinha algo de padre, mas padre sem sotaina, vadio, pobre e parasita, um tanto vicioso, um tanto genial, um tanto equívoco. Tinha uma cara esquisita, de jovem envelhecido antes do tempo, uma cara vincada e gasta, não sei se pela ascese ou pela sensualidade: uma cara com tanto de santo como de feiticeiro. Tinha já publicado uns livros, entre os quais a lenda de Saint Matorel, mas com pouco êxito. Ele próprio vendia estes volumes pelas casas dos amigos, e para os tornar mais apetecidos apunha-lhes dedicatórias em versos. A mim, por exemplo, quis-me vender uma recolha de contos célticos, intitulada La côte, com esta curiosa dedicatória, que alude à minha “antifilosofia”.

Lorsque tout est fini
Qu’on attend les desastres
Il arrive des astres
Celui qui doit lancer la foudre et le balastre
Pour faire mourir enfin toute philosophie
                                      te voici, Papini.

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Poeta Max Jacob
         Encontrava-o muitas vezes em casa de Roch Grey, pseudónimo literário de uma senhora russa de bizarro talento, fautora e protectora da arte de vanguarda, que possuía, entre outros, alguns dos mais belos quadros do douanier Rousseau que jamais vi. Numa noite em que lá estava muito mais gente – e creio que também lá estavam os irmãos Tharaud – Max Jacob, excitado pelo vinho e pelas conversas, quis, por força, exibir-se numa dança inédita, e não posso esquecer o seu corpo ossudo e desengonçado, apertado num fatito preto e rematado pelo seu rosto compungido de sátiro devoto, de polichinelo místico. Também íamos frequentemente – eu, Soffici e Carrà – a casa de Picasso, onde apareciam muitos pintores franceses e estrangeiros e, uma vez por semana, à então famosa Closerie des lilás, onde se reuniam artistas e escritores de todas as escolas e de todas as raças, e onde conheci Paul Fort, o prince des poètes. Paul Fort tinha, na verdade, qualquer coisa de um príncipe destronado: algo triste, algo cansado, algo distraído, com uma nobre face em que brilhavam dois olhos escuros e profundos de grande visionário. Dirigia, então, Vers et Prose, e era muito ajudado pela mulher, uma senhora simples mas inteligente. Recordo-me de uma longa corrida de fiacre que fiz com ela, por alguns bairros de Paris, em busca de um exemplar dos Chants de Maldoror, do conde de Lautréamot, que não estavam ainde em moda nem reeditados, e de que Paul Fort queria extrair umas páginas para Vers et Prose.
        Muitos outros escritores, célebres ou esquecidos, conheci eu naqueles dias, mas tão fugazmente que não vale a pena recordá-los. Acrescentarei um único.
Forte, paul
Poeta Paul Fort
         Uma das noites mais memoráveis daquela minha estada primaveril em Paris foi a que passei em casa de Constatino Balmont, amigo do meu amigo Jurghis Baltrusaitis e que era, naquela época, um dos mais famosos e falados poetas da Rússia, autor, entre outros, de um volume de versos intitulado Queremos Ser como o Sol.
         Balmont era ainda novo e bem conservado – não atingira ainda os cinquenta anos – e, com a sua cabeleira abundante, os seus longos bigodes e a sua barba em bico, mais parecia um mosqueteiro moscovita de que um homem de letras. Acolheu-nos festivamente e apresentou-nos às numerosas pessoas que enchiam uma sala, não muito grande. Havia muitos russos de Paris e, se bem me lembro, também lá estava o poeta Valério Brjussof. Mas, sobretudo, muitas mulheres, solteironas “cerebralistas” quase todas, em busca de ilusões perdidas e de novos amores. Balmont, naquela noite, mostrava-se digno do título do seu livro: cintilante, brilhante, radiante como o sol que tanto amava. Declamou vários poemas seus, primeiro em russo, depois em francês, com uma voz musicalmente sedutora, e com gestos comedidos de antigo fidalgo. Havia naquelas poesias imagens vívidas e quentes, e sobretudo invocações e recordações de uma vida aberta e triunfante, de uma vida mais cheia de frutos e de alegrias, de uma vida tropical e solar.
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Poeta simbolista russo Constatino Balmont
        
Antes de se despedir de nós, Balmont prometeu que iria a Itália, que iria mesmo a Florença, e que nos avisava. De facto, passado alguns meses escreveu-me a dizer que tinha chegado à minha cidade e, uma tarde, por volta das cinco horas, eu e Soffici fomos ter com ele a uma pensão da Piazza Indipendenza, onde estava hospedado. Indicaram-nos o seu quarto e batemos à porta. Não tivemos resposta. Batemos com mais força. E, então, ouvimos, do lado de dentro, uma voz surda e rouca de ébrio, muito diferente da que conhecêramos em Paris:

         – Não posso. Voltem dentro de duas horas.

         Compreendemos que Balmont, conforme era seu hábito e de outros poetas, passara a noite a beber e, apesar de estar já próxima outra noite, não tinha ainda curtido a bebedeira. Apaixonado pelo sol, o nosso caro Balmont tinha de contentar-se, nos países temperados, com o “calor do sol que se faz vinho”, para utilizar a expressão de Dante.
         Mas voltemos a Paris. Os dinheiros, infelizmente, estavam a chegar ao fim – apesar duns pequenos vales do amigo editor Vallecchi – e era preciso regressar a casa. Numa das últimas manhãs antes da partida, estava a escrever um artigo para Lacerba, mesmo junto à janela, no rés-do-chão onde estava instalada a redação das Soirées de Paris. De repente, senti bater nos vidros. Levantei a cabeça e vi uma rapariga que me sorria e me dizia adeus, acenando com um ramo de violetas que tinha na mão. Não a reconheci – de facto, nunca a tinha visto antes – e limitei-me a corresponder, com sorrisos e com gestos, ao gentil cumprimento da desconhecida. Era provavelmente, uma estudante, ou talvez uma costureirinha que a minha cabeça desguedelhada, debruçada sobre o papel, levara a parar, demonstrando daquela maneira carinhosa a sua pena ou a sua simpatia pelo desgraçado poeta que, em vez de andar lá fora a gozar o sol, estava ali fechado, dobrado a alinhavar palavras.


Revista literária da cidade de Florença
        Aquele jovem sorriso, aquele ramo de violetas, aquela imagem de rapariga desconhecida e todavia amiga, ficaram-me na memória como o extremo cumprimento daquela primavera feliz, como o símbolo afectuoso daquela cidade ardente e acolhedora, que nada pressentia ainda da guerra que dentro em pouco iria agitá-la e entrenebrecê-la.
        Poucos dias depois, regressei a Florença. Voltei a Paris diversas vezes, mas nunca mais encontrei aquela arejada animação, aquela fervorosa ansiedade de descoberta, aquela atmosfera de audaciosa aventura intelectual que tanto me tinham confortado e exaltado na remota Primavera de 1914.

In. O Passado Remoto. Trad. Amandina Puga. Lisboa:Editorial Verbo, 1971, P.204-208.

Fonte das imagens: 

1- https://br.pinterest.com/pin/133137732703619014/    
2- https://www.ecodelnulla.it/la-pulce-e-lelefante
3- https://daliteratura.wordpress.com/2014/08/26/imagens-literarias-7-guillaume-apollinaire/
4-http://www.artnet.com
5-https://br.pinterest.com/pin/539517230342823809/?lp=true
6-https://www.britannica.com/biography/Paul-Fort
7- https://www.pinterest.es/pin/474918723192056152/
8-https://es.wikipedia.org/wiki/Lacerba

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Giovanni Papini - O Afago do Anticristo


  



De Inverno, quando o tempo estava sereno e havia sol, a minha mãe levava-me, antes do cair da tarde, até Lungarno[1], para ver quem voltava das Cascine[2]. Naqueles tempos, senhores e estrangeiros todos os dias se dirigiam, como num ritual, ao longo do rio, até o túmulo do príncipe indiano, e voltavam depois juntos para a cidade. Aquele festivo regresso era um dos espetáculos mais caros aos Florentinos, que então se contentavam com pouco. Até os mais pobres assistiam com agrado àquele desfilar de carruagens reluzentes, puxadas por parelhas a trote e guiadas por cocheiro majestosos, de botas altas e cocares. Lá dentro, seguiam belas senhoras, luxuosamente agasalhadas, segundo a moda de então, e sorridentes senhores de barba loira, com altas e vistosas cartolas na cabeça. Passavam ainda, à mistura, carros de aluger e de praça com passageiros de menor categoria, mas o conjunto assumia uma nota alegre de nobreza, de graça e de fausto. Entre as demais, destacava-se a carruagem do senhor Livingstone, conhecido em toda Florença pelo nome de “Americano”, que conduzia com vaidosa mestria uma equipagem de seis ou oito cavalos baios ou malhados.



O barulho das rodas e dos cascos ferrados, o tinir dos guizos, o ruído dos passos e das vozes dos espectadores davam àquele regresso solene um ar de festa de toda a gente.
Sempre que a minha mãe me levava, naquela hora de magnificência, aos Lungarni, vestia-me melhor do que habitualmente. Era ela que me convencionava, com bocados de veludo velho, uns chapéus redondos, que mais ajudavam a realçar a beleza dos meus cabelos compridos e encaracolados, que em macios anéis me caíam pelas costas. Para a minha mãe, era muito importante que eu parecesse um menino rico e sobretudo forasteiro: a cabeleira loira e olhos azuis favoreciam aquela sua inocente mania ou vaidade. E, de facto, por vezes, um outro estrangeiro dirigia-me algumas palavras numa língua que desconhecíamos, mas que, pelo sorriso que os acompanhavam, se entendia serem de cumprimento.


Giovanni Papini

De bom grado nos encostávamos, para gozar melhor a luxuosa torrente de carruagens, à frontaria de um grande hotel, de bossagens de mármore branco, e eu gostava de acariciar com as mãos aquele mármore liso, aquecido pelo sol. Um dia, quando estávamos encostados à tal parede branca, passaram junto a nós dois homens de elevada estatura, sem dúvida estrangeiros. Um deles, vendo-me parou e olhou para mim. Também eu, um tanto admirado, o fixei até que me ficasse gravada na memória sua estranha figura. Usava lentes muito grossa e uns enormes bigodes; o rosto era largo e gordo, mas grave e um pouco triste. De repente estendeu a mão direita, acariciou por momentos, com afectuosa delicadeza, os meus caracóis loiros e disse umas palavras ao companheiro. Depois, ambos continuaram o seu caminho e não os vi mais. Minha mãe estava toda radiante com aquela homenagem, se bem que habitual, ao seu filho, tão diferente dos outros. Por muito tempo ficou em mim a estranha imagem daquele homem de grandes bigodes, que me tinha olhado e afagado, tanto mais que semelhantes gestos de admiração me eram dirigidos quase sempre por mulheres.
Muitos anos depois, aconteceu-me ver num livro um retrato parecidíssimo com o desconhecido que tinha parado diante de mim, naquele dia distante. O coração sobressaltou-se-me  de comovida admiração: era o retrato de Frederico Nietzsche.

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Friedrich Nietzsche
Não seria acaso um engano da minha fantasia juvenil, tão seduzida naquele princípio de século pelo poeta filósofo de Röcken? Mas alguns anos depois, quando foram publicadas as cartas de Nietzsche, tive a confirmação de que o incógnito acariciador dos meus cabelos fora, na verdade, o autor de Zaratustra. Precisamente naquele ano da minha recordação, um alemão, seu admirador, Paulo Lanski, diretor do Hotel da Floresta de Vallombrosa, convidara-o como seu hóspede, e Nietzsche passara alguns dias em Florença, pela última vez. E ainda hoje estou certo de que o futuro escritor da História de Cristo foi afagado um instante, num claro pôr-de-sol de Outono, pela mão que escreveu O Anticristo.
Tradução de Armandina Puga



[1] Ruas que marginam o rio Arno, em Florença. – N. do T.
[2] Arredores de Florença. – N. do T.

In. O Passado Remoto. Lisboa: Editorial Verbo, 1971, p.9-10.