sexta-feira, 28 de setembro de 2018

O Passado Remoto - Giovanni Papini





Someday I'll get there...until then I'll just dream with my antique post card.....
Cartão postal: Torre Eiffel 1908





PRIMAVERA EM PARIS




         Nunca vi Paris tão jubilosamente inundada de sol e de inteligência como na Primavera de 1914. Parecia que a velha Europa, antes de se envolver no manto de fogo e de luto, quisera oferecer a si própria uma última course aux flambeaux, num dos seus mais famosos boulevards.
        O tempo estava quase sempre bonito, o céu tinha a amenidade perlada do mais cordial setentrião, a gente parecia contente de viver, e de viver precisamente naquela germinante estação. Nas árvores, que se erguiam entre as fortalezas burguesas dos grandes palácios negros, despontavam as primeiras folhas, a despeito do ar que cheirava a gasolina e a asfalto ainda húmido.
         Por toda a parte reinava uma vida alacridade, uma temeridade de experiências, uma vontade de tentar e ir mais além que dava alma e coragem aos mais ensonados, esperanças e embriaguez  aos mais arrojados aventureiros. Por toda a parte se falava em teorias novas, nasciam novas revistas, abriam-se novas exposições, novos poetas e pintores se revelavam. Pareci o festim de Alexandre, antes do incêndio da Babilônia.
         Fora até lá com Soffici e Carrà. Também Marinetti e Palazzeschi vieram por uns dias. Mais do que nunca Paris era a Alexandria da cultura moderna, onde convergiam homens vindos de toda a Europa. Os pintores mais famosos chamavam-se Picasso e Juan Gris, Modigliani e Van Dongen; os escultores mais célebres, Rosso e Archipenko; e também os escritores acorriam de toda a Europa.
Giovanni Papini, Marinetti, Palazzeschi: amigos futuristas
          Nos primeiros dias, logo me encontrei com o inesquecível Guillaume Apollinaire, escritor francês nascido em Roma, de mãe polaca. Corria a lenda, em Paris, de que era filho de um cardeal, talvez porque a sua corpulência e, sobretudo, a arguta bonacheirice do seu rosto largo tinham qualquer coisa de prelatício, qualquer coisa que recordava a adiposa malícia do Leão X, de Rafael. Naqueles tempos, Apollinaire era um dos mais audazes e discutidos escritores que havia em Paris, e a ele se devia, além do mais, a teoria e o êxito da pintura cubista. Mas não tinha nada do hirsuto refractário das passadas guerras literárias e artísticas. Parecia um senhor afável, um fidalgo fantaisiste, mas de garbo requintado, e, como dizem os Franceses, era de commerce agréable. Tinha uma vastíssima cultura de primeira mão, conhecia os segredos e os mistérios das doutrinas antigas e da literatura proibida, e era um curioso de tudo aquilo que não chamasse a curiosidade da gente comum; sabia muitas línguas e, entre elas, o italiano. Tinha já publicado Alcools, que revelaram um poeta original, liberto das peias do Simbolismo e, pelos seus romances, pode contar-se entre os precursores do Surrealismo: creio até que o termo foi invenção sua. Fundara, havia há pouco, uma revista, Les Soirées de Paris, onde também eu publiquei um artigo – um paralelo entre Croce e Bergson –, e até estive instalado com Carrà no apartamento do Boulevard Raspail que era a redação das Soirées: estranha redação, sempre deserta, onde apenas aparecia, mas raramente, o taciturno e fantástico secretário de Apollinaire, o barão Mollet.

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Guillaume Apollinaire
        
     Muitas belíssimas horas passamos com Apollinaire. Um dia, acompanhava-nos aos marchands de tableaux que sustentavam a pintura cubista; outro dia, a uma exposição de vanguarda; à noite levava-nos aos bals musette ou às ruelas misteriosas onde os negociantes de bananas tinham as suas lojas e os seus bares; umas vezes, ao Cirque d’Hiver ou ao Vieux Colombier, onde, pela primeira vez, vi o drama mais famoso de Synge: The Playboy of the Western Worel. Íamos também a casa dele, um último andar do Boulevard Saint-Germain, onde ocupava, sozinho, muito mais divisões espaçosas, cheias de livros, de máscaras japonesas, de esculturas negras e de quadros cubistas.
      Não se julgue, porém, que me considerava a mim e aos meus amigos como provincianos aos quais se divertia a fazer de cicerone numa Paris excêntrica. Sabia perfeitamente que o nosso movimento florentino e italiano estava a par de todos os movimentos europeus do género, e tratava-nos como bons companheiros de procura e de batalha. Ele próprio mandou alguns dos seus escritos à Lacerba, que era então dirigida por mim e por Soffici.


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Picasso et le marchand de tableaux Daniel-Henry Kahnweiller,
Villa La Californie 

 , 1958
        Outro escritor muito curioso que então conheci foi Max Jacob, já convertido ao catolicismo, mas que não tinha perdido nada da sua índole enigmática, caprichosa e por vezes diabólica. Max Jacob era muito diferente do amigo Apollinaire. Também ele tinha algo de padre, mas padre sem sotaina, vadio, pobre e parasita, um tanto vicioso, um tanto genial, um tanto equívoco. Tinha uma cara esquisita, de jovem envelhecido antes do tempo, uma cara vincada e gasta, não sei se pela ascese ou pela sensualidade: uma cara com tanto de santo como de feiticeiro. Tinha já publicado uns livros, entre os quais a lenda de Saint Matorel, mas com pouco êxito. Ele próprio vendia estes volumes pelas casas dos amigos, e para os tornar mais apetecidos apunha-lhes dedicatórias em versos. A mim, por exemplo, quis-me vender uma recolha de contos célticos, intitulada La côte, com esta curiosa dedicatória, que alude à minha “antifilosofia”.

Lorsque tout est fini
Qu’on attend les desastres
Il arrive des astres
Celui qui doit lancer la foudre et le balastre
Pour faire mourir enfin toute philosophie
                                      te voici, Papini.

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Poeta Max Jacob
         Encontrava-o muitas vezes em casa de Roch Grey, pseudónimo literário de uma senhora russa de bizarro talento, fautora e protectora da arte de vanguarda, que possuía, entre outros, alguns dos mais belos quadros do douanier Rousseau que jamais vi. Numa noite em que lá estava muito mais gente – e creio que também lá estavam os irmãos Tharaud – Max Jacob, excitado pelo vinho e pelas conversas, quis, por força, exibir-se numa dança inédita, e não posso esquecer o seu corpo ossudo e desengonçado, apertado num fatito preto e rematado pelo seu rosto compungido de sátiro devoto, de polichinelo místico. Também íamos frequentemente – eu, Soffici e Carrà – a casa de Picasso, onde apareciam muitos pintores franceses e estrangeiros e, uma vez por semana, à então famosa Closerie des lilás, onde se reuniam artistas e escritores de todas as escolas e de todas as raças, e onde conheci Paul Fort, o prince des poètes. Paul Fort tinha, na verdade, qualquer coisa de um príncipe destronado: algo triste, algo cansado, algo distraído, com uma nobre face em que brilhavam dois olhos escuros e profundos de grande visionário. Dirigia, então, Vers et Prose, e era muito ajudado pela mulher, uma senhora simples mas inteligente. Recordo-me de uma longa corrida de fiacre que fiz com ela, por alguns bairros de Paris, em busca de um exemplar dos Chants de Maldoror, do conde de Lautréamot, que não estavam ainde em moda nem reeditados, e de que Paul Fort queria extrair umas páginas para Vers et Prose.
        Muitos outros escritores, célebres ou esquecidos, conheci eu naqueles dias, mas tão fugazmente que não vale a pena recordá-los. Acrescentarei um único.
Forte, paul
Poeta Paul Fort
         Uma das noites mais memoráveis daquela minha estada primaveril em Paris foi a que passei em casa de Constatino Balmont, amigo do meu amigo Jurghis Baltrusaitis e que era, naquela época, um dos mais famosos e falados poetas da Rússia, autor, entre outros, de um volume de versos intitulado Queremos Ser como o Sol.
         Balmont era ainda novo e bem conservado – não atingira ainda os cinquenta anos – e, com a sua cabeleira abundante, os seus longos bigodes e a sua barba em bico, mais parecia um mosqueteiro moscovita de que um homem de letras. Acolheu-nos festivamente e apresentou-nos às numerosas pessoas que enchiam uma sala, não muito grande. Havia muitos russos de Paris e, se bem me lembro, também lá estava o poeta Valério Brjussof. Mas, sobretudo, muitas mulheres, solteironas “cerebralistas” quase todas, em busca de ilusões perdidas e de novos amores. Balmont, naquela noite, mostrava-se digno do título do seu livro: cintilante, brilhante, radiante como o sol que tanto amava. Declamou vários poemas seus, primeiro em russo, depois em francês, com uma voz musicalmente sedutora, e com gestos comedidos de antigo fidalgo. Havia naquelas poesias imagens vívidas e quentes, e sobretudo invocações e recordações de uma vida aberta e triunfante, de uma vida mais cheia de frutos e de alegrias, de uma vida tropical e solar.
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Poeta simbolista russo Constatino Balmont
        
Antes de se despedir de nós, Balmont prometeu que iria a Itália, que iria mesmo a Florença, e que nos avisava. De facto, passado alguns meses escreveu-me a dizer que tinha chegado à minha cidade e, uma tarde, por volta das cinco horas, eu e Soffici fomos ter com ele a uma pensão da Piazza Indipendenza, onde estava hospedado. Indicaram-nos o seu quarto e batemos à porta. Não tivemos resposta. Batemos com mais força. E, então, ouvimos, do lado de dentro, uma voz surda e rouca de ébrio, muito diferente da que conhecêramos em Paris:

         – Não posso. Voltem dentro de duas horas.

         Compreendemos que Balmont, conforme era seu hábito e de outros poetas, passara a noite a beber e, apesar de estar já próxima outra noite, não tinha ainda curtido a bebedeira. Apaixonado pelo sol, o nosso caro Balmont tinha de contentar-se, nos países temperados, com o “calor do sol que se faz vinho”, para utilizar a expressão de Dante.
         Mas voltemos a Paris. Os dinheiros, infelizmente, estavam a chegar ao fim – apesar duns pequenos vales do amigo editor Vallecchi – e era preciso regressar a casa. Numa das últimas manhãs antes da partida, estava a escrever um artigo para Lacerba, mesmo junto à janela, no rés-do-chão onde estava instalada a redação das Soirées de Paris. De repente, senti bater nos vidros. Levantei a cabeça e vi uma rapariga que me sorria e me dizia adeus, acenando com um ramo de violetas que tinha na mão. Não a reconheci – de facto, nunca a tinha visto antes – e limitei-me a corresponder, com sorrisos e com gestos, ao gentil cumprimento da desconhecida. Era provavelmente, uma estudante, ou talvez uma costureirinha que a minha cabeça desguedelhada, debruçada sobre o papel, levara a parar, demonstrando daquela maneira carinhosa a sua pena ou a sua simpatia pelo desgraçado poeta que, em vez de andar lá fora a gozar o sol, estava ali fechado, dobrado a alinhavar palavras.


Revista literária da cidade de Florença
        Aquele jovem sorriso, aquele ramo de violetas, aquela imagem de rapariga desconhecida e todavia amiga, ficaram-me na memória como o extremo cumprimento daquela primavera feliz, como o símbolo afectuoso daquela cidade ardente e acolhedora, que nada pressentia ainda da guerra que dentro em pouco iria agitá-la e entrenebrecê-la.
        Poucos dias depois, regressei a Florença. Voltei a Paris diversas vezes, mas nunca mais encontrei aquela arejada animação, aquela fervorosa ansiedade de descoberta, aquela atmosfera de audaciosa aventura intelectual que tanto me tinham confortado e exaltado na remota Primavera de 1914.

In. O Passado Remoto. Trad. Amandina Puga. Lisboa:Editorial Verbo, 1971, P.204-208.

Fonte das imagens: 

1- https://br.pinterest.com/pin/133137732703619014/    
2- https://www.ecodelnulla.it/la-pulce-e-lelefante
3- https://daliteratura.wordpress.com/2014/08/26/imagens-literarias-7-guillaume-apollinaire/
4-http://www.artnet.com
5-https://br.pinterest.com/pin/539517230342823809/?lp=true
6-https://www.britannica.com/biography/Paul-Fort
7- https://www.pinterest.es/pin/474918723192056152/
8-https://es.wikipedia.org/wiki/Lacerba

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Giovanni Papini - O Afago do Anticristo


  



De Inverno, quando o tempo estava sereno e havia sol, a minha mãe levava-me, antes do cair da tarde, até Lungarno[1], para ver quem voltava das Cascine[2]. Naqueles tempos, senhores e estrangeiros todos os dias se dirigiam, como num ritual, ao longo do rio, até o túmulo do príncipe indiano, e voltavam depois juntos para a cidade. Aquele festivo regresso era um dos espetáculos mais caros aos Florentinos, que então se contentavam com pouco. Até os mais pobres assistiam com agrado àquele desfilar de carruagens reluzentes, puxadas por parelhas a trote e guiadas por cocheiro majestosos, de botas altas e cocares. Lá dentro, seguiam belas senhoras, luxuosamente agasalhadas, segundo a moda de então, e sorridentes senhores de barba loira, com altas e vistosas cartolas na cabeça. Passavam ainda, à mistura, carros de aluger e de praça com passageiros de menor categoria, mas o conjunto assumia uma nota alegre de nobreza, de graça e de fausto. Entre as demais, destacava-se a carruagem do senhor Livingstone, conhecido em toda Florença pelo nome de “Americano”, que conduzia com vaidosa mestria uma equipagem de seis ou oito cavalos baios ou malhados.



O barulho das rodas e dos cascos ferrados, o tinir dos guizos, o ruído dos passos e das vozes dos espectadores davam àquele regresso solene um ar de festa de toda a gente.
Sempre que a minha mãe me levava, naquela hora de magnificência, aos Lungarni, vestia-me melhor do que habitualmente. Era ela que me convencionava, com bocados de veludo velho, uns chapéus redondos, que mais ajudavam a realçar a beleza dos meus cabelos compridos e encaracolados, que em macios anéis me caíam pelas costas. Para a minha mãe, era muito importante que eu parecesse um menino rico e sobretudo forasteiro: a cabeleira loira e olhos azuis favoreciam aquela sua inocente mania ou vaidade. E, de facto, por vezes, um outro estrangeiro dirigia-me algumas palavras numa língua que desconhecíamos, mas que, pelo sorriso que os acompanhavam, se entendia serem de cumprimento.


Giovanni Papini

De bom grado nos encostávamos, para gozar melhor a luxuosa torrente de carruagens, à frontaria de um grande hotel, de bossagens de mármore branco, e eu gostava de acariciar com as mãos aquele mármore liso, aquecido pelo sol. Um dia, quando estávamos encostados à tal parede branca, passaram junto a nós dois homens de elevada estatura, sem dúvida estrangeiros. Um deles, vendo-me parou e olhou para mim. Também eu, um tanto admirado, o fixei até que me ficasse gravada na memória sua estranha figura. Usava lentes muito grossa e uns enormes bigodes; o rosto era largo e gordo, mas grave e um pouco triste. De repente estendeu a mão direita, acariciou por momentos, com afectuosa delicadeza, os meus caracóis loiros e disse umas palavras ao companheiro. Depois, ambos continuaram o seu caminho e não os vi mais. Minha mãe estava toda radiante com aquela homenagem, se bem que habitual, ao seu filho, tão diferente dos outros. Por muito tempo ficou em mim a estranha imagem daquele homem de grandes bigodes, que me tinha olhado e afagado, tanto mais que semelhantes gestos de admiração me eram dirigidos quase sempre por mulheres.
Muitos anos depois, aconteceu-me ver num livro um retrato parecidíssimo com o desconhecido que tinha parado diante de mim, naquele dia distante. O coração sobressaltou-se-me  de comovida admiração: era o retrato de Frederico Nietzsche.

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Friedrich Nietzsche
Não seria acaso um engano da minha fantasia juvenil, tão seduzida naquele princípio de século pelo poeta filósofo de Röcken? Mas alguns anos depois, quando foram publicadas as cartas de Nietzsche, tive a confirmação de que o incógnito acariciador dos meus cabelos fora, na verdade, o autor de Zaratustra. Precisamente naquele ano da minha recordação, um alemão, seu admirador, Paulo Lanski, diretor do Hotel da Floresta de Vallombrosa, convidara-o como seu hóspede, e Nietzsche passara alguns dias em Florença, pela última vez. E ainda hoje estou certo de que o futuro escritor da História de Cristo foi afagado um instante, num claro pôr-de-sol de Outono, pela mão que escreveu O Anticristo.
Tradução de Armandina Puga



[1] Ruas que marginam o rio Arno, em Florença. – N. do T.
[2] Arredores de Florença. – N. do T.

In. O Passado Remoto. Lisboa: Editorial Verbo, 1971, p.9-10.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Da minha terra à Terra





Sebastião Salgado 

Um retrato verbal do fotógrafo



Capa do livro de Isabelle Francq




Fotógrafo brasileiro multipremiado e de renome internacional,  Sebastião Salgado conta, em seu livro "Da minha terra à Terra", escrito pela jornalista Isabelle Francq , aspectos mais variados de sua vida pessoal e profissional;  esta repleta de acontecimentos interessantes, colhidos em suas andanças pelo mundo em busca de fotografias




Sinésio Dioliveira


"Da minha terra à Terra", livro lançado pela Editora Paralela, é fruto de uma série entrevistas que Sebastião Salgado, o mais premiado dos fotógrafos brasileiros e de renome internacional, concedeu à jornalista Isabelle Francq. Na apresentação da obra, ela ressalta que a escreveu para "fazer a voz de Sebastião falar" e assim lhe permitir mostrar "sua história pessoal, as raízes políticas, éticas e existenciais de seu engajamento fotográfico" até então "ignoradas", fato, segundo Francq, contrário às suas fotografias, que são conhecidas e premiadas mundialmente.

Dividido em 25 capítulos, "Da minha terra à Terra" tem início com "Para começar: 'Gênesis'", onde Salgado, já na primeira frase, observa que a paciência é uma característica imprescindível ao fotógrafo: "Quem não gosta de esperar não pode ser fotógrafo. (...) É preciso descobrir o prazer da paciência."  Para ilustrar a sua observação, ele fala de sua ida em 2004 à Ilha Isabela, em Galápagos, onde tentou fotografar logo de imediato uma tartaruga enorme e não teve êxito, pois, na medida em que se aproximava do animal, ele fugia. Salgado conta que teve de se fazer uma tartaruga para conseguir registrá-la: "fiquei agachado e comecei a caminhar na mesma altura que ela, com palmas e joelhos no chão".

A escolha de Galápagos para dar início à série Gênesis, conta o fotógrafo, tem a ver com o périplo científico realizado pelo naturalista britânico Charles Darwin aos 22 anos, de 1831 a 1836, a bordo do navio Beagle, que percorre a costa do Pacífico e a América do Sul, que é onde entra Galápagos, na qual Salgado ficou por três meses. Ele cita que "decidiu seguir os passos de Darwin" após a leitura do livro "A viagem do Beagle", que é um relato darwiniano nas áreas de biologia, geologia e antropologia, o qual fundamentou sua Teoria da Evolução, que assim serviu de base para seu livro "Origens das Espécies".

Em Gênesis, Salgado troca o foco das questões sociais para fotografar animais, vegetais e minerais


A reputação profissional de Salgado é tanta que ele é tema do filme de documentário  "O sal da terra", que tem a direção do alemão Win Wenders e do brasileiro Juliano Salgado, filho mais velho de Sebastião, que já acompanhou o pai em várias "reportagens" (termo usado pelo fotógrafo) na Ásia e África. "Ele conhece todos os meus gostos em imagens e viagens. Com certeza não foi por acaso que se tornou cineasta", diz Salgado. "O sal da terra", que é uma produção da companhia francesa Decia, foi um dos pré-indicados para o Oscar 2015, isso num universo de 134 filmes.

Seu outro filho é Rodrigo Salgado, um jovem de 23 anos, que é portador da Síndrome de Down, termo que Salgado não usa no livro, mas sim a palavra "trissômico." Palavra esta que vem de trissomia, que é a presença de três cromossomas de um tipo específico, quando o certo são dois. Rodrigo, segundo o pai, veio para melhorar a vida dele e da esposa, Lélia Wanick Salgado, que é arquiteta e autora dos projetos gráficos da maioria dos livros do marido, que a define como "esposa, companheira e sócia em tudo na vida".  Sobre a vinda do filho, diz: "Adquirimos (ele e Lélia) uma visão de mundo completamente diferente daquela que tínhamos quando eu era 'normal' e tínhamos apenas um filho 'normal' (Juliano) e vivíamos num mundo de pessoas supostamente 'normais.'"

O nascimento de Rodrigo fez com que o casal ficasse decepcionado com alguns amigos bem próximos, que se afastaram deles. "Alguns não conseguiam vê-lo. Isso me fez sofrer muito", relata Salgado, que, mesmo entristecido com o distanciamento desses amigos, diz que  "é preciso compreender" para não se tornar "amargo". O casal inclusive chegou a pensar em fazer "uma cirurgia reparadora para atenuar os efeitos da trissomia no rosto" do filho, mas os dois perceberam que operação "não fazia sentido" para Rodrigo, mas apenas para eles.

Sobre sua infância, vivida em Aimorés, cidade mineira, Salgado conta que "a Mata Atlântica cobria a metade do vale", onde seu pai tinha fazenda, "mas isso antes de o Brasil entrar numa economia de mercado e começar, como no resto do mundo, a devastar suas florestas". Um tom saudosista de sua infância, marcada de "lembranças maravilhosas", marca seu relato. "Minha infância ainda é, para mim, um período fabuloso. Continuo nutrindo um amor imenso por aquela terra," conta. E certamente é esse "amor imenso por aquela terra" que fez com que Salgado e Lélia adquirissem as terras onde Salgado nasceu e assim nela criassem o Instituto Terra, que fez voltar a vida à "terra feia e pobre", aspectos resultantes do desmatamento.

Esse gesto salgadiano não deixa de lembrar a atitude do personagem machadiano Bentinho, do livro “Dom Casmurro”, que, para "atar duas pontas da vida" (a velhice e a adolescência) comprou a casa em que viveu na aurora da vida. Ao contrário do personagem ficcional, que não se sentiu realizado em seu propósito e chegou a dizer que o que estava fazendo era como colocar tinta preta nos cabelos brancos, Salgado está muito feliz com a transformação ambiental que ele e a esposa promoveram via Instituto Terra, que conseguiu recompor o que a fazenda foi. A tinta no cabelo de Bentinho nos leva a Salgado, que não tem problema de calvície. Ele simplesmente passou a raspar os cabelos todos os dias desde 1994, quando teve os cabelos e a barba "infestados por parasitas".



Também vamos encontrar no livro um Salgado envolvido com a vida política do Brasil, e Lélia também, e isso no período militar; fato que levou os dois a saírem do país: foram para França e lá obtiveram cidadania francesa. 

O atentado do ex-presidente Ronald Reagan, ocorrido em março de 1980, também foi alvo das lentes do fotógrafo, que faz o seguinte relato do episódio: "Vi seis tiros de revólver serem disparados sobre o staff presidencial. Reagan não foi atingido diretamente, mas uma bala ricocheteou no veículo presidencial e se alojou em seu peito." Por ter conhecido um fotógrafo que citava em sua apresentação que havia registrado a morte de Bob Kennedy (irmão do ex-presidente americano John Kennedy também assassinado cinco anos antes do irmão, que, na época de sua morte era senador), isso fez Salgado abandonar esse tipo de trabalho. Decisão tomada por ele e esposa para evitar que ele não ficasse conhecido como o fotógrafo que registrou o atentado contra Reagan.

Há um relato interessante de Salgado sobre sua entrada na era da fotografia digital. Na era analógica, a cada viagem sua pelo mundo, só de bagagem de mão, ele levava 28 quilos de filme. Só que ocorria o transtorno de passar pela fiscalização de aeroportos, que usava raio X na averiguação de bagagem, e a luz do aparelho, segundo Salgado, acabava alterando as gamas de cinza do filme. Ao aderir ao mundo digital, teve de levar consigo nas viagens por várias países africanos alguns paineis solares.

Na série Êxodos, Salgado direciona sua lente para o sofrimento homem, que é mostrado de todo modo bem intenso

"Para carregar as baterias, transportávamos paineis solares, muito leves e dobráveis, e pequenas baterias secundárias para armazenar energia", conta. O fotografia digital evitou muitos transtornos a Salgado, que se diz apegado ao mundo preto-e-branco: "Não preciso do verde para mostrar as árvores, nem do azul para mostrar o mar ou o céu."


Lógico que o livro "Da minha terra à Terra" deixou muitos fatos da vida de Salgado de fora. Fato também presente neste texto devido ao espaço destinado a ele. Em síntese, pode-se dizer que a obra é um retrato interessante de Salgado, só que não de corpo inteiro, mas o que mostra é interessante e faz as pessoas que admiram o fotógrafo a admirá-lo ainda mais.



Na conclusão da obra, ele fala da prisão das pessoas entre paredes, que assim "erguem barreira" entre elas e a natureza. E isso tornam as pessoas "incapazes de ver, sentir... de ver pássaros pelo vidro da janela e imaginar que esse pássaro é o amor do outro, com o qual faz amor; que ele ama seus filhotes, que constrói seu ninho naquela árvores , que depende do vento".  Salgado se diz admirado com a árvore, dizendo que ela "é a única máquina capaz de transformar o CO2 em oxigênio".

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Resistência e Linguagem: O Inventário Poético de Ítalo Francisco Campos



Nesta Edição, a Revista Banzeiro traz a poesia de Ítalo Francisco Campos. Ítalo é goiano de  Uruaçu, mas vive em Vitória,Espírito Santos, desde 1976.Psicanalista e psicólogo formado pela UFMG, é Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória. É também membro da Academia Espírito-santense de Letras e da Academia Uruaçuense de Letras. É criador do Varal de Poesia, evento cultural que se realiza anualmente no Vagão Espaço de Arte, em Manguinhos (Serra/ES). Com ampla participação na vida cultural e política da cidade, o autor colabora regularmente na imprensa com artigos e resenhas. Destaca-se ainda sua participação como organizador de importantes publicações na área da saúde: "Drogas em Debate" (1991); "DST/AIDS: uma experiência capixaba" (2003); e "Vidas Interrompidas" (2009). Escreveu e publicou "Interiores" (1995); "O Sádio e o Mentecap-to" (1998); "Sabor da Letra" (1999); "Anil Bucólica(s)" (2006); e "Embaralhando Palavras" (2011).




Filho de escritor, irmão de poeta, Ítalo passeia com desenvoltura pelas sendas da poesia. Na sua poética estão consubstanciadas memória e história, não somente a memória do passado, de evocação, mas a memória do futuro, na qual se projeta, num ir e vir constantes.Consciente da fluidez do tempo e da perecibilidade das coisas, deles se alimenta e com eles constrói o seu mundo particular, via linguagem, no qual pode transitar sem os empecilhos dos opressos dissabores da sua contemporaneidade.

Poeta, psicólogo, psicanalista, tem nas formas o substrato de suas representações poéticas, sejam líricas,épicas ou dramáticas, não importa, o que importa mesmo é a plenitude de sua tessitura. Poeta e linguagem fundem-se, dão-se as mãos, se fazem, como no dizer do poeta e crítico literário mexicano Octavio Paz (1996, p.116-17): "A linguagem cria o poeta e só na medida que as palavras nascem, morrem e renascem em seu interior ele é, por sua vez, criador." Ítalo sabe muito bem do que fala  o poeta mexicano, pois é a linguagem sua matéria diária, a cada momento a ela se funde, por ela se faz representar, por meio dela passa a existir. A sua poesia também é resistência, suplanta a estupidez, sempre se refazendo, daquilo que fala Alfredo Bosi (1997, p.117): "Há na poesia como na linguagem (de que ela é a forma suprema), uma capacidade de resistir e de reproduzir-se que parece ter algo das formas da natureza."

A sua poesia é vária, muito bem tecida, traz em si a força das representações humanas, imagens da vida, "signos em rotação. Nela estão presentes o humor, a memória, a metalinguagem e o erotismo, como se poderá comprovar nesta coletânea por nós selecionada.

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O TREM É ESSE

Acordem, vovô Afonso e vovó Leonídia,
Ouçam a toada
Do trem chegando...
Não, não é sonho! Levantem Diva,

Cristovam, Carolina e Olimpia,
Abram os olhos e vejam.
Não é sonho.Vá chamar Adelino.
Acordem, Dito de Jesus, Dulce,
Derci, Luluca e 
Lá vem a Maria Fumaça escrevendo no céu.
Vejam a esperança! Ouçam os pássaros fazendo coro.
Apreciem o vuc-vuc-vuc da máquina de fogo.
Acordem Ditão,
Venham ver o cavalo-de-ferro rompendo o cerrado,
Arrebentando lagoas, espantando os animais.
A onça, o macaco, as capivaras e as antas observam.
O bicho centopeia de patas redondas e olhos brilhantes
Avança.

Acordem, Zé Lobo.
Corram ao terreiro venham ver a 
Locomotiva oitocentista que corre como siriema
Carregando no seu rabo todo tipo de 
Encomenda.
Acorde todo povo da Tapera,
Venham para a porta fazer a festa, cantar alegrias.
Dancem, fortes sertanejos, de mãos dadas, as cirandas 
De saudação.
Todos os mortos e os vivos desta Tapera - Fazenda 
Imaculada Conceição – girando a ciranda no dia seguinte 
Da Imaculada, fez chegar o trem.
Que ela traga, junto com sua avó Santana, o balsamo para esta 
Terra que elas sempre habitaram.
Que Imaculada e Santana 
desarme o forasteiro, fertilize estes campos, abrande os corações..
Que Iraídes e Hildelbrande, de mãos dadas aos Fernandes,
Regue este cerrado de chuva natural, façam correr o riacho,
Cresçam a manga, o abacate, a banana, o arroz o feijão e a cana.
E que, para o ano, no dia da Imaculada, esta fazenda abençoada
Contar o seu progresso em forma de toada,
reverenciar sua beleza e confirmar a paz,
Entre a técnica e a natureza.



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Planejo lhe matar concreta e lentamente,
arrancar seus olhos , nervo óptico, troclear e abducente.
Esses olhos me vêem
como não me gosto, serão enterrados no fundo do mar
para confundirem com o verde,
com nada, com trevas.
Quebrar seus dentes um a um,
esses mesmos que me acariciaram os ouvidos
e fornecê-los ao primeiro artesão,
que fara um troféu.
Sua língua solta de palavras,
oh! estas terão especial tratamento:
hei de arrancá-las, parti-las em pedaços
tão pequenos como cada sílaba
quebradas em letras,
tão pequena matéria ficará
solta no ar.
Planejo lhe matar com minha caneta,
açoitá-la com radical força
sobre seu corpo esgarçado, contorcido,
hei de suplicar, verter lágrimas,
soluços, suores. Sem dor.
Planejo matar você
em mim,
tão profundamente, que também irei
morrer.

In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999, p.13
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Ato I


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Rosno para teus olhos
quando me flecham.
Dão medo! Bebo tua baba de cio
sem nenhum pudor e
obedeço feito vira-lata faminto
ao teu peito arfante. Nem amante sou mais!
Escravo, cativo, objeto
do teu gosto estranho,
alimento de ganância vaginal.
Mais nada!
Balanço meu rabo ao menor afago,
me arrastando aos teu
sapato de rua.
Esses pequenos passos são
de teu coração distraído...
Deito enfim para avançar-me
em ti
e te transformas nesta amorfa
massa sem gosto e choras,
sem poderes dar o que não tens,
comigo.

In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.15.



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.G Ana


Acusa-me de pervertido
que debaixo da saia
diz carinhos.
Você não se convence
que a cara do carinho não tem
idade,
que depois do suspiro, suspiro,
suspiro. Eu desapareço.
Não que não tenha razão,
a idade aumenta o carinho,
diminui a emoção.
Acusa-me de não ter magia,
quando envolvo em seu tesão,
é que pede sempre mais
do que sempre tem à mão.
Acusa-me e excusa-me
de lhe dizer o sim pelo não.
Não que não tenha razão,
a idade aumenta a dúvida,
diminui o coração.
Que faz esta perna sobre
a minha?
Que pesa, chateia e
esquenta.
Não que eu não tenha carinho,
é que a idade aumenta
a dívida, diminui o tesão.
E por que toda essa fala, essa fala,
se o sexo é trem-bala,
Titanic, furacão?

In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.25.

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Mulher



Mulher não nasce,
ela aparece, quando saca em si o vazio
e a ausência.
Mulher não nasce,
ela floresce.
Quando seu ventre arrebenta
o novo, aí desperta. Não
feto, mas fato.
Mulher não nasce,
se faz,
quando contém o não-continente,
quando é, não é,
quando é verdade, ao mesmo tempo, mentira.
Mulher não existe na carne, se não for antes
na mente.
Mulher não nasce,
se cria,
sem forma, de natureza incerta,
no dia-a-dia, às vezes demônio, às vezes gente.
Mulher não nasce.

In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.29.

Gêneses



Várias palavras me fizeram,
meu jeito, meu gesto, meu ser.
Todas as tomei para mim,
assim me construindo.
Umas não foram ditas (apenas ausentes),
outras mal-ditas e, ainda outras,
entre-dentes.
Assim me fizeram.
Vários momentos me fizeram,
aqueles sem palavras,
as que eu não pude dar,
hoje eu busco.
E busco outras palavras
dessas mesmas que me fizeram,
para ouvi-las de novo.
Por outro lado.
Algumas cenas me fizeram
que represento sempre
como ator surdo,
num palco imaginado.
Várias palavras me fizeram
sem que eu as tenha pronunciado.
Adjetivos e verbos como puzzle
assim sou colado.
A palavra me desmancha e cura.
Se numa face me singulariza
e me apaga,
na outra pluraliza, não sou
nada.
Várias palavras me fizeram...


In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.39.

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Poetar I




Desmanchar os versos
dos seus termos,
fazer liberdades
sem nexo, rima.
À palavra, sua força
nenhuma.
Retirar da palavra
o senso. O tempo,
o ritmo. Fazê-la nua, crua,
sonsa.
Tirar sua roupa,
abrir as perna,
rasgar seu véu,
estuprar...
Descoser cada palavra,
libertá-la de todo sentido,
até virar puro
concreto-matéria
som.
Cozinhar o verso,
fervê-lo na língua
até desprendê-lo,
descondensá-lo ao
sumo,
fazer essência.
Nenhuma!

In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.40.

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Poetar II



Quebrar as frases, as crases,
retirar pontos
e vírgulas.
Fazê-las planas, plenas
pardacentas. Som. Som. Som!
Furar os termos,
rebentar ouvidos,
fazê-lo apenas -
mente borda,
mancha. Lembrança.
Destruir cada texto,
fazer nascer,
novo.
Entre partes.
Debulhar cada frase,
torná-la grão, apenas
grão.
Diluir cada palavra
até seu traço,
sua desmatéria,
seu real.
Destilar cada sílaba,
até o não possível sorvê-la.
Estar apenas
eu, o resto.

In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.41.


Poesia



Pensei que poesia fosse
um grito, um urro,
um murro. Chute no saco!
Vulcão, trovão, coisa parecida,
padecia. Não conseguia
escrevê-la. Poesia comigo,
prezado amigo, é modo de ser.
Não estável, recitável, reciclável.
Poesia é ato, que realiza nos modos,
certamente das palavras.
Metáfora, metonímia,
induzida, percorre sob a linha.
Poesia é conversa com ninguém - 
que certamente existe -
não tem sotaque, nem destaque,
nem bordão.
Poesia é também sussurro, prolongado,
às vezes parto cesário.
Minha poesia (tem hora)
é feito velha senhora,
conta conto repetido
com quem adia a morte.
Outras vezes é como suporte
que orienta, aguenta, faz ponte.
Ponte apenas!
Para nada.


In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.42.

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A palavra
para Elisa Lucinda


A palavra, amiga Elisa,
não é a roupa do
sentido. É ao contrário.
O sentido veste a palavra,
enclausurada. Deixa-a presa,
tira a surpresa!
O sentido, Elisa,
é o que cobre a palavra,
dá-lhe finitude, tempo,
magnitude.
É uma represa!
O sentido mata a palavra.
Mas esta não morre,
outros sentidos a socorrem.
Eles são tantos que as palavras
resiste.
A todos os ouvidos,
a todos os sentidos,
a todo carrasco,
a todo sandido.
A palavra não precisa do
sentido.
Ela precisa do som, do ar,
do desejo:
de Elisa.

In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.43.

Prevenção



Sou um homem prevenido
que ao menor novo ruído
me devolvo ao caixão,
(que é feito de palavras)
sentenças-de-ordens,
idealização!


In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.47.


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Viver

Viver, mistério de colar
e descolar pedaços,
deixando espaços para
a alma do mundo
que carregas.
Produzir colagens,
transformar,
criar do nada
um sentido.

In. Sabor das Letras, Vitória: EDIT, 1999,p.53.



The days of creation - Sir Edward Burne-Jones

Dezenas de anjos receberam
minha mãe no céu.

Dez eram árabes e judeus
do tempo de Jericó,
outros dez anjos eram índios
da costa brasileira qu morreram
de espelhos e bugigangas.

Dez eram sertanejos
com berrantes, chibata e gibão.
Outros dez eram crianças
natimortas no sertão.

Dez anjos eram negros
da Cabina de Luanda,
roupas coloridas,
danças de quimbanda.

Outros dez eram andarilhos
das estradas do Brasil,
e dez anjos eram músicos
em suas alegrias.

Outros anjos eram seus filhos
Ilionei e eu,
que fui ao céu
só para saudá-la.


In. Elegia.Vitória: Flor & Cultura, 2012, p.52.


Créditos:

As imagens aqui utilizadas foram colhidas na Internet, livremente, sem autorização expressa dos seus donos, para os quais expresso os mais sinceros agradecimentos.

Obras citadas nesta publicação:

PAZ, Octavio. Signos em rotação. Trad. Sebastião Uchôa Leite. São Paulo: Perspectiva, 1996.
BOSI, Alfredo. O Ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1997.