quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Francisco Perna Filho - Conto



Do lado de cá 




                                                                                                           
Era sexta feira, me lembro bem, eu acabara de deixar a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, quando ouvi pelo rádio do carro a notícia fatídica, estava atônita, descontrolada, enfiei as mãos no apito, joguei o carro para o acostamento, não sabia mais o que fazer. Só pensava no pior. “São inúmeros os cadáveres, não se sabe ao certo, quantos são. Uma verdadeira chacina”, dizia o locutor da Rádio Bandeirantes. 
                                                                                                                                                                     
São pavorosos os olhos da morte, mas pavor mesmo é quando ela vai em direção à vítima, sem lhe dar tempo, como o projétil que ganha velocidade e consistência impulsionado pelo ódio de quem desfere o tiro.

Não importa como, apenas mata-se ou morre-se. Ou você está do lado de cá ou você está do outro lado. Matar ou morrer pode ser conjugado a qualquer tempo, em qualquer lugar. Pode ser agora, como ele aí no chão, estrebuchando. Pode ser depois, no futuro, como foi comigo, quando jurei matá-lo.
 
Quando abri os olhos, o ambiente era outro, calmo, as pessoas usavam branco. Levantei um pouco a cabeça e pude ver a minha mãe que se aproximava, a percebi um tanto abatida, quis chorar, mas não o fiz, até porque não me lembrava de quase nada. Naquele momento dei-me conta de que estava num hospital, de que havia batido o carro. Apenas flashes, apenas confusão mental. “Ele morreu, o Marquinhos morreu, o seu primo estava entre os mortos do Carandiru”, disse a minha mãe. “Foi brutalmente assassinado, como qualquer um ali.” Não lhe deram chance alguma. Coitado, tinha apenas vinte e dois anos. Não acreditei, o que era flash foi tomando consistência, lembrei-me da notícia ouvida no rádio do carro. Quis levantar-me, mas fui contida pela enfermeira.
 
Nada arrefece o ódio, principalmente quando ele é de morte, pois contraria os ditames do perdão. O que vale mesmo é a intenção, a vontade de consumar o ato. A certeza de que não vamos falhar. Dependendo da vítima, o projétil pode ser de chumbo, prata ou ouro, mas para ele foi de chumbo mesmo, com a sua própria arma, um único e exclusivo tiro, à queima-roupa: pá! Assim mesmo, seco, como a batida de uma acha de lenha. O que importava naquele momento era o ódio, era o alvo.
 
Ainda era cedo, acabáramos de transar, porque amor mesmo eu não fazia, eu não trazia este sentimento comigo, até porque, mesmo que quisesse, não poderia, eu não estava ali para amar, apesar dos momentos agradáveis que vivemos e dos presentes que ele me dava. Eu já havia me vestido, ele insistira em deitar-se no sofá, falei para ele do recado na secretária eletrônica, da declaração de amor que ficara gravada. Perguntei quem era aquela mulher. Ele, ríspido, gritou comigo, falou que eu era paranóica, ciumenta, que daquele jeito não dava mais para continuar. Pedi explicação, ele esquivou-se, falei que não aceitaria aquela vagabunda entre a gente, ele retrucou. Levantou-se bruscamente, veio em minha direção, era o que eu precisava, dei um passo para trás, peguei a arma que ele guardava na estante lateral (ele tinha uma em cada lugar estratégico da casa, disso eu sabia, motivos das minhas hesitações), engatilhei-a, ele tentou me conter, pediu “por favor”, disse que me amava. Mas não adiantava mais, era tudo o que eu precisava. Naquele momento só me lembrei do coronel autorizando a invasão ao presídio, talvez imaginasse que estivesse fazendo uma limpeza justa. “Eram todos bandidos, mesmo”, só não pensou nas conseqüências, pensou que aqueles “ali” não tivessem família, que ninguém choraria por eles. Mais grave, entre os mortos, muita gente era primária, estava ali por interpretações mal feitas de algum juiz. 

Aos olhos da sociedade, o que eu fiz foi bárbaro, não tão bárbaro como o meu estratagema para atraí-lo, para seduzi-lo e matá-lo. Lembro-me bem, foi nos jardins, na casa de um ex-professor da faculdade, que era muito amigo do coronel. A partir dali, ensaiei cada lance, cada jogada. Muitas vezes vacilei, senti vergonha de mim, mas resisti. 


Se eu me arrependo? Claro que não, só sinto por não estar atenta às câmeras de segurança. Vacilei, mas quem não vacila? 

Imagem retirada da Internet: alvo