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Mostrando postagens de maio, 2009

SILÊNCIOS

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Francisco Perna Filho   Silenciar como pedras, tornar imóvel o distante, pura embarcação. a curva e a canção caminham e me enfunam.  Morrer nas pequenas coisas:  no papel amassado da não inspiração,  na toalha embotada de Toddy e pão,  no candeeiro sem lume e sem esperança. O gume mata o sono e o sonho. Tudo se desbota.     Imagem: Velha fritando (cozinhando) ovos (1618), Velásquez

ELEGIA AO DESESPERO

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Francisco Perna Filho   Para Alex Pizzio da Silva Os homens, sozinhos, caminham no rubro da tarde. Alheios, são sós e ao mesmo tempo outros em seus pensamentos. Tão sós e tão outros, como se fossem estacas, plantados na insignificância da madeira bruta que queda ao sol do meio dia. Caminham parados, os homens. E como eles estão os navios atracados, que também partem. Como os homens, em férrea segunda feira, o tempo também para, cuspindo a monotonia de um dia quente, que também para. Férreas são suas vísceras, habituados que estão ao desalento da máquina que em si transportam. Férreos são os seus passos; os seus cantos. Férrea é a desolação de serem humanos, de serem sozinhos, de serem navios, de serem estacas. Os homens, os seus rastros, caminham ao som chuviscado e tenso do sino da igreja. A pé, de bicicleta, nada importa, celebram a mediocridade de serem humanos, de serem inteligentes e cultos. Tão donos de si, patinam nas largas avenidas de uma vida inventada. Os homens, seus me...

NAVEGANTE

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Francisco Perna Filho                      I Meu coração é um navio azul,  alimentado de velhas caixas e revistas.  Nas pulsações mais fortes,  mergulha nos tomates podres das feiras  e velhos mercados.  Compraz-se nas garrafas abandonadas  de molhos e cervejas.  O mar que o transporta tem cor de chumbo.  Possui salas radiantes  que a ele não são dadas conhecer.  Meu coração navega nesse mar de coisas.                       II Navio azul  trazendo a dor de longínquas cidades.  olhar de descobrimentos.  Plúmbeo mar!  conduz esta minha embarcação  pelos portos tremeluzentes de orgasmos e discórdias.  Pelos asilos, presídios e manicômios.  Grande mar!  daí a esta embarcação  um pouco da tua força,  um pouco da tua alma  para um aprendizado de maresia  Fonte da imagem: http://www.meurecife.com.br/Fotos/PretoBranco/Fotos_Cais%20do%20Porto.jpg  

ECOS

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Francisco Perna Filho Habitando os cafés  e refletindo as manhãs  com restos da noite,  ambientou-se ao não-ser,  traçou a inexistência,  ficou entre parênteses.  Silente e absorto,  refez os becos  de um dia oco e pesado.  Inquieto,  alimentou-se de acasos:  sorveu as praças,  o cinza das chaminés  e amargurou-se com o lamento  pulverizado dos meninos  da grande cidade.  Chorou a salobra  segunda-feira,  feita de vagidos  e tormentos.  Desse modo,  por muito tempo,  passou a repetir  as noites,  nos olhos avulsos  do esquálido cão,  que cismara em perseguir.  Um dia,  ao tentar recompor sua história,  morreu de esquecimento.  Fonte da imagem:  http://www.geocities.com/~mhrowell/lucien_freud-reflection.jpg

MONTANHA

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Francisco Perna Filho     A palavra pesada persegue a pedra, revela o austero pulsar do silêncio e, com ele, inaugura um olhar de montanha. Do alto, a alma encanta-se e o olhar precipita-se em direção ao luzir da cidade. Do baixo, o corpo, enfermo, claudica e os braços perdem-se na impotência primordial de uma escalada. A montanha é sentida e nela diviso o inferno e o paraíso da Babel recriada. Estando no centro, a minha alma assesta a caverna na recomposição do paraíso Dantesco. Dessa forma, a montanha enternece o poeta e a palavra mais leve revela a montanha/palavra Refletida no olhar. Foto by Francisco Perna Filho - Montanha Lageado - Tocantins

DESCONFORTO

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Francisco Perna Filho       I  Vazio de cidade,  há uma desordem em mim.  Contemplador de desvãos,  vou esculpindo infrutíferas buscas.  O que há de encontro na minh’alma  é só o apóstrofo.  Busco desvencilhar-me da ferrugem da estrada,  do ferrolho das minhas ausências,  quando substantivo a vontade.  Há em mim doença de lagarta,  predisposição para casulo,  pretensão para eterno.  Voar é o meu destino.  Rastejante, carrego primórdios,  contemplo a estrada.  II  Toda estrada traz o peso dos passos,  a solidão da espera,  a aflição da permanência.  Toda estrada atende determinações.  Carrega um amargor de épocas,  apêndice de partidas.  Toda estrada transporta um ser aprisionado,  voz de encontro,  razão para perder-se.  Intensifico minha pretensão de perpetuação.  Rastejante, apresento-me à parede.  há um desejar de minha parte:  de gestar esta metamorfose.  Há uma rejeição paredal.  Apresento-me ao fio elétrico,  há uma mútua atração,  uma revelação primal:  a técnica natural se afei...

POR UM SONO

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Francisco Perna Filho       O pássaro pousa no sonho um cantar de prata, e a densa plumagem que o abriga é de um verde inacabado, de um amarelo rubro, de presumida ferida. O homem que sonha o pássaro, aos olhos do pássaro, é um gigante e, por um instante, parece tocá-lo com um grito. O pássaro sonhado carrega nas asas muitas pedras, perseguições e desencantos, por estar preso ao sonho, a um visgo tão ilusório quanto a sua existência. O homem ainda é um menino e acostumou-se a sonhar pássaros para aprisioná-los nos seus poemas. Fonte da imagem:  http://ipt.olhares.com/data/big/262/2625793.jpg

ESTADO

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Francisco Perna Filho   Embora presa, a água borbulha solta na chaleira enfervecente. É de fora a sua natureza líquida. Não há fôrma que a aprisione, não há temperatura que a molde. Embora verso, embora prosa, A poesia sabe-se leve, sabe-se solta. Amorfa, não se prende ao vocábulo. Foto by Francisco Perna Filho - todos os direitos reservados.

A CIDADE - ÚLTIMA PARTE

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  Francisco Perna Filho                                   III A cidade enforquilhada, enrodilhada, trapaceada, submetida, subjugada, argumenta as suas origens, os seus papéis, os seus bordéis, bordados, boquifendidos, inesitantes, inescusáveis, sempre prontos, sempre postos, via livre, libertação.   A cidade  religiosamente tensa atesta as suas crenças, o demencial momento do estapafúrdico comércio da fé, em sinos, em símbolos, em siglas, com puta o vil metal.    A cidade morre nos seus ciúmes, na represália do amor passante do que não lhe pertence, do que não lhe é de direito. A cidade assiste, assustada, o féretro que passa, o Solitário silêncio de quem vai, a paz desbotada de quem fica. A cidade sempre chora, sempre só. As primeira chuvas chegam, vesga e borrada a cidade é só ternura computando os seus dias de seca, suas ressacas homéricas, seu delitos, Seus dilúvios.   A cidade às vezes ...

A CIDADE - II

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                           Francisco Perna Filho                                                     II      A cidade orgânica, episódica, gradativamente vai inchando-se, enchendo-se, sinalizando o seu cansaço, as suas fendas; a lenta morte nos manicômios, a morte lenta serena morte. A cidade circundada, insulada, Apodrecida, insanamente esquecida. Acidada, circuncidada, desassistida. Acidez urbana, de tão linguaruda não me comove mais.    A cidade chora nas primeira chuvas, e em canto esparso ela é diluída, no semblante velho do jovem que empurra as ilusões perdidas no carrinho de lixo. Alheiamente, (alheamento) o jovem tomba na tinta da recomposição, a tinta atina numa crescente vontade de refazer-se, de ser cidade.    A cidade também se esconde, é grito distante. Somente ela sabe de si: seus becos, seus muros, suas penumbras urdiduras de   abandono. Suas ruas são tímidas, são tiras, exercício...

A CIDADE I

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A partir desta quinta, 21, postarei uma série de poemas que referenciam a cidade . Estes poemas fazem parte do meu segundo livro As Mobílias da Tarde, editado pela Perna&Leite Editores, 2006.                                                       I     A cidade é vista sob a neblina difusa. Há um desejo de vê-la cada vez mais de perto. ela   é vária e diluída ensina um olhar de milhas que não se perde em mim, A cidade é dura, é leve é ilha. Somente em mim ela se completa. Acordada, sente o olhar humano, e dormindo, afaga os sonhos mais diversos. Há um querer de ruas, de praças, de espaços e vazios.   A cidade é táctil,   no sonho de cada um. Emblemática, Pálida, Palaciana. Refletida nos olhos alheios da multidão perdida, alonga- se pelos fios das telefônicas dos teleféricos, dos meios– fios. A cidade esculpida, pronta, bela, artística, celebra o ócio, a saciedade, todas as cores, todos os mármores, todos os vinh...

DE HOMENS E BARCOS

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Francisco Perna Filho     Os homens, naquele bar, falaram de rios e mulheres e riram dos seus feitos, de suas histórias e amores, sonharam lonjuras e amavios e navegaram em olhos e dentes tão perfeitos que chegaram a entender o vazio dos homens e das garrafas. Sorveram o momento e se alimentaram de boas palavras. Não sabiam muito a respeito do amor, por isso - sobreviveram.  Fonte da imagem:  https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjgQT6DGNgU3gRpz-hFFibGyuEZls1OZ3VfbhgOtETR8sRW3CZ7fS3gQlw3yMYW7pS4h8EpapyFeSXb0O1tlXr_mb428z067shQpg0fDl8DbQk9dBhW4mlKAwuaOeyBgabPyPIEqfiP9RFL/s1600-h/Mulher+e+cais.jpg

Francisco Perna Filho - Ensaio Literário

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JOÃO DE DEUS: UMA HESITAÇÃO DOS DIABOS   As manifestações do fantástico no conto “o albino” , de Heleno Godoy Introdução A Narrativa Fantástica é uma modalidade narrativa em que o caráter do extraordinário vem à tona; o incrível é preponderante. Quando falamos em fantástico, logo de imediato nos vem à mente o extraordinário, o que foge à compreensão, algo que perpassa a qualquer explicação que se queira dar. Muitos estudiosos já buscaram definir o que vem a ser o fantástico, elaboraram teorias, mas, muitas vezes, essas teorias não foram suficientes para abarcar com precisão o assunto. A literatura reflete quase sempre os anseios de seu criador em criar mundos, ambientes, personagens mágicos ou não, uma vez que o compromisso que tem é apenas com o ficcional. Para o artista tudo é possível. Lembremos Aristóteles, em sua Poética (1990, Canto IX, p.28), para distinguir a literatura de outros escritos, traça a seguinte diferença entre o poeta e o historiador:  ...