sábado, 30 de maio de 2009

ELEGIA AO DESESPERO


Francisco Perna Filho




 Para Alex Pizzio da Silva

Os homens, sozinhos, caminham no rubro da tarde. Alheios, são sós e ao mesmo tempo outros em seus pensamentos. Tão sós e tão outros, como se fossem estacas, plantados na insignificância da madeira bruta que queda ao sol do meio dia. Caminham parados, os homens. E como eles estão os navios atracados, que também partem. Como os homens, em férrea segunda feira, o tempo também para, cuspindo a monotonia de um dia quente, que também para. Férreas são suas vísceras, habituados que estão ao desalento da máquina que em si transportam. Férreos são os seus passos; os seus cantos. Férrea é a desolação de serem humanos, de serem sozinhos, de serem navios, de serem estacas.

Os homens, os seus rastros, caminham ao som chuviscado e tenso do sino da igreja. A pé, de bicicleta, nada importa, celebram a mediocridade de serem humanos, de serem inteligentes e cultos. Tão donos de si, patinam nas largas avenidas de uma vida inventada.

Os homens, seus medos, suas taras, seus vômitos, trafegam na menina dos olhos da cidade parada. Arrotam uísque e o lixo de uma arte inventada. Os homens, sua fúria, seus desejos, proliferam como ratos ao léu, não têm escrúpulos, não têm vontade, não têm coração. Estúpidos, atiram seus filhos do alto de suas vaidades e desatinos, para comporem a ópera de suas insignificâncias.

 Os homens célebres, com seus títulos e empáfia, celebram o nada do nada, pois vazios estão de si mesmos. E eles, os mesmos, os homens, perderam o tino e estacaram incólumes sob os seus diplomas de bacharéis. Os homens, aqueles, que marcham em disparada, mas estão sós, sozinhos, parados, quedados feito estacas, como os velhos navios, já não enxergam mais nada, cegaram-se na própria luminosidade dos seus brilhos e estão sós, sozinhos, feito homens, como estacas ao meio dia.  

 

Imagem: M. Cavalcanti: Grito - acrílico sobre papel