sexta-feira, 22 de maio de 2009

A CIDADE - II


                          Francisco Perna Filho










                                                    II

  

 

A cidade orgânica,

episódica,

gradativamente vai inchando-se,

enchendo-se,

sinalizando o seu cansaço,

as suas fendas;

a lenta morte nos manicômios,

a morte lenta

serena morte.

A cidade circundada,

insulada,

Apodrecida,

insanamente esquecida.

Acidada,

circuncidada,

desassistida.

Acidez urbana,

de tão linguaruda não me comove mais.

  

A cidade chora

nas primeira chuvas,

e em canto esparso ela é diluída,

no semblante velho do jovem que empurra

as ilusões perdidas

no carrinho de lixo.

Alheiamente,

(alheamento)

o jovem tomba

na tinta da recomposição,

a tinta atina

numa crescente vontade

de refazer-se,

de ser cidade.

  

A cidade também se esconde,

é grito distante.

Somente ela sabe de si:

seus becos,

seus muros,

suas penumbras

urdiduras de  abandono.

Suas ruas são tímidas,

são tiras,

exercícios de solidão,

estirões de memória.

  

A cidade silenciosa,

Perturbada,

Entristecida,

Amarelece em rugas

Em rusgas

e, contaminada, explode em céu,

em césio,

em corrupção.

  

A cidade é lenta,

íngreme,

pesada.

p-a-u-s-a-d-a-m-e-n-t-e  tomba.

p-a-u-s-a-d-a-m-e-n-t-e  tomba:

New York,

Bagdá,

Jerusalém,

Canudos.

A cidade desértica,

Chorada,

Maldita,

tangida em sangue

tomba/retumba

tomba...

A cidade intelectualizada,

politizada,

conspirando para o progresso,

regresso da polis,

nos caminhos da metrópole.

 

A cidade que renasce

arremessada aos ventos,

tensos ventos de agosto,

conduzindo homens,

velhos marujos,

sujos soldados

(corrompidos pelo olhar das putas no cais)

para além dos oceanos:

Roma,

Belfast,

Tóquio,

Lisboa,

Marrakech,

Berlim.

Todas elas

na parede,

na memória,

na desordem da sala-de-estar

 

Foto: Goiânia vista de cima - by Francisco Perna Filho.