sábado, 3 de outubro de 2009

Jádson Barros Neves - Conto



Jádson Barros Neves, estamos diante de um dos maiores contistas deste País. Tocantinense de Guaraí, dono de uma verve literária que encanta, Jádson já conquistou mais de uma dezena de prêmios, dentre eles, o "Prêmio Cidade de Belo Horizonte", o "Prêmio João Guimarães Rosa", da Radio France Internationale. Hoje, para deleite de todos, leremos o conto "Esta noite Não Durmo" que ganhou o Prêmio Cidade de Belo Horizonte/2008. Boa Leitura!



PRÊMIO CIDADE DE BELO HORIZONTE/2008


Esta Noite Não Durmo

Jadson Barros Neves


Conservo este quarto de tábuas iluminado apenas pela luz que vem da praça e das casas vizinhas, mas, à medida que a noite cresce e as janelas vão-se fechando, o cômodo fica bastante escuro. Então me encolho no colchão e permaneço acordado até de manhã, esperando a mulher que me traz o café e o cuscuz. Ela conversa comigo, olhando-me nos olhos (talvez enraivecida porque eu lhe tirei o quarto) e depois se vai. À noite, ela chega com mais comida, um balde com água, toalha e roupas. São roupas de diferentes medidas e nunca se ajustam direito a meu corpo. A mulher espera que eu tome banho e me vista e só então sai. Depois, fico sozinho com meus pensamentos, com a razão de estar aqui.

Hoje, ouvi o barulho dos cascos dos cavalos. Quatro homens pararam na calçada perto do quarto e ficaram conversando até tarde. Depois que eles saíram, as luzes da rua se apagaram, e mais uma vez tentei um cochilo. De noite, o silêncio se torna enorme, e qualquer ruído, por menor que seja, compõe uma ressonância sobrenatural.

Antes de tudo isso, minha vida era feita do respeito dos homens. Rapaz, já levava mais de um morto comigo e por isso me respeitavam. Eu não era de andar armado, quebrando cadeiras em cabarés ou humilhando as pessoas. Meu costume era ladino. Quando terminava o serviço, continuava minha vidinha de quintal precisando de enxada, de vendedor de ouro em pó. A polícia esteve mais de uma vez vasculhando meu quarto, mas nada encontrou. Fez perguntas a minha mãe, me disse muitas e boas, inclusive que um dia me encontrariam com a boca cheia de formiga.

Quando as coisas começavam a apertar, eu saía para outras cidades. Uma vez, me contrataram para matar um delegado. Eu conhecia o sujeito e sua fama. Foi um homem que havia apanhado dele na cadeia quem me contratou. Depois de três anos, tendo conseguido uma boa quantia de ouro no garimpo, coisa rara hoje em dia, aparece-me numa tarde de domingo. Fiz cara de difícil entendedor, como sempre faço, levando o sujeito até onde se pode levar alguém nessa barafunda toda. Quando revelou o nome da vítima, comentei que era um serviço muito difícil. O homem contou que eu tinha todo o tempo do mundo. Adiantou-me um pouco do dinheiro, para as despesas.

Depois de anos de valentia, as pessoas ficam descuidadas. E foi o que aconteceu ao delegado. Várias vezes, refiz seu trajeto, seguindo-o às vezes de muito perto, sem que ele percebesse. Ele saía de casa por volta das sete da manhã, dava um pulo na delegacia e depois ia almoçar e passava as tardes extorquindo comerciantes. A sua rotina se quebrava na quarta-feira à noite, quando, em vez de partir para a zona, ia tomar sorvete.

Perto das onze, desligavam os motores a diesel, e a cidade mergulhava na escuridão. Consegui que meu contratante subornasse o funcionário da pequena usina, para este causar um blecaute às nove da noite de uma quarta-feira. Pedi um bom revólver e balas explosivas e, na noite da quarta, cinco minutos para as nove, lá estava eu: de chapéu para sombrear o rosto e de preto para escurecer o corpo, sorveteria adentro. Sentei-me a um canto, pedi um refrigerante e aguardei. O delegado apareceu com dois homens. A energia acabou pouco depois das nove. Esperei o burburinho natural e, quando voltaram com o lampião aceso, dei o primeiro tiro, bem na cabeça do delegado. Ele bateu no balcão de madeira, caiu e ficou agonizando entre as cadeiras. Um homem virou-se e disparou, marca de bala na minha orelha esquerda, esse pequeno rasgão. Atirei de volta. As balas enchiam o peito do homem, e ele voou, caindo sobre as mesas. O outro saiu derrubando tudo e mal ouvi quando seus passos silenciaram na rua. Aí corri também. Passei pela casa de meu contratante e entreguei-lhe a roupa e o revólver e voltei para o hotel.

Coisa que nunca fiz foi receber tudo adiantado ou logo após o serviço. Dá na vista. Quem tem dinheiro mostra, não há jeito. Recebi e fui gastando aos poucos. Mesmo para mamãe, comprei apenas um vestido. Ela sempre pensou que eu me virasse nos garimpos da região, e minha vida era um pouco semelhante à de um garimpeiro: épocas de fartura, quando há ouro no estio, e outras de aperto, nas chuvas, quando os garimpos fecham. Claro que nunca vivi no sufoco. Eu tinha bons músculos, boa pontaria e muita folga, era isso. Eu conhecia o ditado: “Cabeça vazia, oficina do diabo.” Mas eu planejava bem minhas ações, pois sabia que a chibata para meu lado, quando viesse, seria de arrancar o couro.

O tempo vai e vem. A gente se acostuma até com o que não presta. E se pensa que o silêncio cose o silêncio, engano, pois uma vez arranhado, o dito fica ferido, a ferida está exposta. Assim, aconteceu novamente. Arranjaram outro serviço para eu fazer. Iria acompanhado de dois homens. Sempre preferi trabalhar sozinho, mas me convenceram a ter ajuda dessa vez. Depois de tudo acabado, cada qual em seu canto. Iríamos emboscar um sujeito que depois eu soube ser um líder de sem-terra. Não mexo com esse pessoal que está por aí desejando se fixar. Cisma minha: “Seguro morreu de velho e Desconfiado ainda é vivo”. A coisa é simples: nem a polícia e nem os fazendeiros gostam dos sem-terra. Eu não gosto de polícia nem de fazendeiros. E dá pena ver aquela criançada remelenta acordando de manhã cedo nos acampamentos, morta de fome e com a barriga estufada de vermes.

Eu não sabia que era para matar gente deles. Uma noite, nos reunimos para os últimos acertos. Estávamos no bar, quando senti algo de anormal acontecendo. Não se leva mulher para esse tipo de encontro, e meus dois companheiros chegaram com duas putas e uma menina de uns quinze anos. Ouvi o que tinham para me dizer, aguardei que me esquecessem. Levantei e fui ao banheiro, no final de um corredor.

Eu saía, quando a menina se aproximou e revelou que os homens estavam ali para me matar. Uma das mulheres, tia dela, lhe dissera. Voltei à mesa, fingindo não saber de nada. Fingi até quando a mocinha me pediu para levá-la embora. Então comecei a brincar com ela, falando que era perigoso sair sozinha àquela hora. Ficamos nesse jogo, até quando um dos camaradas disse que me emprestaria a sua arma. Aceitei e saí com a moça, mas, da esquina, ao olhar para trás, vi as mulheres saindo. Retornei encostando-me à parede. Foi quando a energia acabou. Prendi o fôlego e esperei acenderem o lampião.

Quando a claridade azulada invadiu a calçada pelo retângulo da porta, fui surgindo com o revólver na mão. Aproximei-me da janela e vi os homens, conversando e rindo de costas para a rua. Atirei no rapaz que estava armado. Um tiro, uma queda. O outro se virou, abaixando-se, mas levou dois balaços e caiu. Atirei no lampião e corri dali. A noite estava escura. Atravessei uma ponte, joguei o revólver na água e corri para o hotel. No dia seguinte, parti para um garimpo. Fiquei três dias lá e retornei para casa, sem dinheiro, sem nada.

Alguma coisa estava mesmo errada, eu sentia disso. Porém, só tive certeza depois, quando os policiais apareceram em casa e dessa vez demoraram bem mais que o costume vasculhando tudo. Depois de muitas buscas inúteis, um sargento me olhou e disse.

__ Você tem idéia de quem era o rapaz que matou?

Argumentei que não havia assassinado ninguém, mas o sargento ficou na varanda, olhando para mim, manso naquela luz da manhã. Apurei e descobri que o rapaz era filho de um fazendeiro. Filho único, o que era pior. Tentei não me abalar, tentei ficar quieto, tentei cuidar de meu pequeno roçado, até que a conversa começou a correr. Minha mãe soube e uma noite me disse que iriam me matar. Disse, como se dissesse: “Você nasceu”. Entende?

Foi quando começou minha fuga, minha peregrinação. A princípio, fiquei escondido num acampamento dos sem-terra. Por mim, ficaria por lá. Levava uma vida tranquila, sem pedras no caminho. Dormia em redes, em cabanas frias á noite e acordava com os pássaros. Caçávamos, pescávamos, e nunca permanecíamos num mesmo local por muito tempo. Tomei gosto por essa vida. Assim correram anos. Um dia, recebi o recado de que minha mãe tinha morrido. Disseram-me sem rodeios. Recebi a notícia e apenas me recolhi. A mesma pessoa que me deu a notícia trouxe um par de sapatos. Eram os sapatos de meu pai. Depois que ele morreu, mamãe fechou definitivamente o cômodo que lhe servia de carpintaria e ali guardou os pertences dele. Nas raras vezes em que tive de me esconder ali, evitava baixar os olhos para o ângulo do canto direito, onde estavam os sapatos __ marrons, de bico apontando para a porta, a lingueta e a fivela resplandecente cruzando-se sobre o dorso.

No silêncio escuro desse quarto, estou pensando nisso tudo. Um dia, saí do acampamento. Então, certa noite, me tiraram de lá. Vim de barco e, mal vi as luzes do pequeno embarcadouro, trouxeram-me para este hotel. Pedi para ficar com o padre, mas me disseram que eu iria colocar em risco a vida dele. Ninguém tem sossego, é um ir e vir de caixões, de vinganças repetidas. Escolheram o hotel. Faz tempo que estou aqui.

No início, a moça fazia perguntas sobre minha vida. Esse quarto era o dela, eu soube quando a vi retirando a mala de baixo da cama. Dias atrás, ouvi o som engasgado de uma voz e, somente ao ouvi-lo repetidas vezes, descobri que era o ruído de minha voz. Estava só e precisava viver.

Hoje, depois que os homens saíram, choveu bastante. Olhei para a pracinha deserta e vi os cavalos imóveis debaixo da chuva. Dormi e despertei com vozes e uma porta batendo. Depois, o silêncio reinou. Permaneci na cama, imóvel, acordado. Ajustei meu cansaço à ausência do barulho e procurei descansar. Eu continuava unindo meus ouvidos aos outros sons que existem dentro do vazio. Logo, verei a claridade da manhã, e a moça virá.

Agora já é de manhã. A chuva parou e só existe aquele vento frio, que invade o quarto, vindo de tudo quanto é fresta. Consigo ver um pouco de claridade, ouço esse alarido inconfundível de pássaros. Mais um pouco, e ouço também as vozes masculinas. Logo a moça virá, penso. Fico apenas ouvindo, com meus olhos buscando claridade sob a porta. Quando a moça entrar, vou pôr a cabeça de fora e olhar o corredor. Preciso olhar, ver onde estou.

Ouço os passos dela. Sei que são dela. Abre a porta e fica me olhando com seus olhos redondos, debaixo das sobrancelhas espessas.

__ Agora você já pode sair __ é só o que me diz.

Afasta-se e sai. A princípio, meio tonto, investigo o corredor e vejo a mulher em sua blusa xadrez. O sol é apenas um fogo pálido que não dissolve a friagem.

Então ouço os homens no que pode ser a sala. Depois, vejo-os. No início, são dois, usam chapéu, vejo seus revólveres. Estico o pescoço para trás, na esperança de ver a moça, mas vejo apenas outros dois homens chegando pelo quintal. Antes que os quatros se agrupem, eu já estou batendo à porta de outro quarto, batendo e gritando, antes mesmo que os homens se aproximem e comecem a disparar.

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