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Mostrando postagens de julho, 2009

SAGRADA CEIA

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Francisco Perna Filho A imagem, carcomida, age, na ilusão da mesa, na solidão do prato, comportando olhos peregrinos e santos. A imagem da amanhecida ceia ainda traz em si uma serena alma amarelecida em prantos. A imagem, que carcomida age colhendo pratos, revisa a fome de santos e peregrinos. In. Refeição . Goiânia: Kelps, 2001, p. 105. Imagem: Pablo Picasso, Pintor e Escultor Espanhol (Cubismo), 1881-1973. Girl Before a Mirror [Femme au miroir],1932 - (Museum of Modern Art, New York)

GOIÂNIA

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Para Celina Manso Francisco Perna Filho Goiânia, ouço o teu grito, como num eco, repetidas vezes, nesse corredor vazio da Avenida Anhanguera, nas mortes irrelevantes da Rua 90, nos banheiros pobres da periferia encardidos de amor barato, de retalhos e esperanças, cheirando a naftalina e eucalipto. Eu contabilizo a tua dor Nos barracões de lona preta, Nas casas sem porta, E nas goteiras da tua ilusão. Eu vejo o olhar iluminado do césio 137 passeando num velho Fiat pelas ruas esburacadas do nosso desencontro e, deslumbrado, contemplando a natureza morta nas tuas curvas e viadutos. Eu choro o teu abandono, o teu desprezo, a tua impotência, nos olhos paralisados dos meninos de rua, tão vermelhos quanto os semáforos da Avenida Mutirão, e mastigados pela cola que os consome. Eu sofro com os teus vagidos nas obscuras celas dos teus presídios e manicômios, e na pálida alegria das tuas garotas de programa, ao se sentirem importantes nas páginas dos classificados, post...

POEMA HOMENAGEM

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Clique na imagem para ampliá-la! Hoje cedo, tive a grata satisfação de receber esta homenagem do meu dileto amigo/irmão Sinésio de Oliveira, poeta, jornalista e fotógrafo. Foto by Sinésio DeOliveira

New York

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Francisco Perna Filho O pássaro vê a cidade Lentamente/ letalmente Mergulha. O pássaro É de metal E só percebe o próprio vôo, Desconsiderando as cores E os sonhos que carrega. O pássaro vê Mas não ouve. A cidade ouve Mas não vê. A vida imita a arte: O pássaro explode Em chamas, A cidade Chora escombros. In. Refeição . Goiânia: Kelps, 2001. Imagem: http://www.mirrors.org/historical/2001-09-11-World-Trade_Center/wtc/wtc_005.jpg

TRANSFORMAÇÃO

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Francisco Perna Filho Peixe na linha, rima de pescador. Encontro de águas e arco-íris. Rio quebrado nas voltas dos olhos, no piscar dos barcos, na manga de chuva. Perpetuado no mormaço da existência. Os olhos observam o ritmo: na rima quebrada do peixe fugido, na desalegria de morte escapada, na deselegância de mesa-objeto, sem pão. O rio continua no riso pálido do pescador extático, no hiato das culturas, na incontinência dos jovens poetas. Linha, água. Peixe, anzol. Pescador. In. Refeição . Goiânia: Kelps, 2001, p.37. Imagem: http://pix.com.ua/db/art/painting/art_of_america/m-522005.jpg

AUTOBIOGRAFIA

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Francisco Perna Filho Nasci, tomei conhecimento do mundo e de mim. Além dos outros, somente eu: UM. Um a contabilizar os dias, os goles e os livros, a jurar amores às cartomantes. A correr sem medo, sem dinheiro e sem rumo, espantava a velhice escovando as horas. Quando cresci, fui jogado no mundo, bati com a cabeça na vaidade alheia, conheci mulheres e espelhos, e descobri-me sobrevivente ao brindar com o inimigo. Acumulei perdas e desilusões. Talvez, por ter nascido bem mais tarde, não me calaram a voz. Chorei. Persegui amores, como os cães do interior perseguem carros: uma luta vã. Sobrevivi, tive bem mais sorte do que o Latim. Historicamente me fizera, na repetição dos dias e dos filhos, descobri o amor. Foto by Tainá Corrêa

URBANO

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Francisco Perna Filho Rádios, vozes,buzinas, o cheiro dos cafés e o dia refaz-se nas palavras do homem que denuncia o mundo ao contemplar os seios da mulher que passa. Labirinto humano, traçado e forjado no livre arbítrio. O homem, cujos seios busca, desmancha-se em vozes, luzes e cansaço. Também é morte, Norte, breve, que se faz noturno. In. Refeição. Goiânia: Kelps, 2001, p.63 Imagem: http://byfiles.storage.msn.com/y1p3B4Jj5nYbUcpqavkuDW_ck8IVFvg7kU7ZxvEEu-49q5CYOiWsaev_y6AzotcJUdYGrgChP-H4jI

SHOW DE GRAÇA

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Francisco Perna Filho O ser, capenga, capina. A mata, em riste, resiste. Na lâmina cega, o reflexo de mais um capítulo de devastação. Tão desolado, do outro lado, o homem fica. Setenciado, brinca de ser humano. A lua olha o cambaleante homem, que perfila tombos pela avenida. Numa igreja à vista, uma placa indica: Show de graça! Sem pagar ingresso, ele entra, senta-se, chora, morre de rir. In. Refeição . Goiânia: Kelps, 2001, p.91. Imagem: Giorgio de Chirico. The archeologist , 1927. Óleo http://www.diretoriodearte.com/wp-content/uploads/2008/05/giorgiode-chirico-arqueogo.jpg

ANOTAÇÕES

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Francisco Perna Filho Fundada em lonjura, a saudade é áspera. Farpado arame, pintura descascada. Turvo canto, lânguido e impessoal como a ausência, sem defesa na hora que ataca, como a fera que espreita e devora. In. Refeição. Goiânia: Kelps, 2001, p.43. Imagem: http://alentejanando.weblog.com.pt/arquivo/Velha%20e%20burro.jpg

MODERNIDADE

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Francisco Perna Filho Divisando o vazio no espaço do grito, na transgressão do interdito, na instabilidade da perda, no reflexo do eco. Chorando os muros da modernidade, com palavras parafusadas na alma do fragmentado Ser, a virgem cola sentimento e clona o amor. In. Refeição. Goiânia: Kelps, 2001, p. 55. Imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhtn2ihfGizAPKJFxU2K5Ls4Q8XUlfarNGUjoHb-mRwdVNKHZSgf_6Hy1g-9exFPytetMk0UAHvHOvmTxvQT1yvKBYe98GvzyqrcBodYPomb12U99SaxyY8Uh1quKmiwKgBUnwJ4lJff9tk/s1600-h/VIRGEM.jpg

PANDEMIA

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Francisco Perna Filho Meu gato Pan, de noite, Mia. Com sede, Mia. Com sono, Mia. Pan, de noite, Mia. Pan, de dia, Mia. Mia é a sua mãe. Todos chamam-no de Pan de MIA [PANDEMIA]. Foto by Francisco Perna Filho - Gato Chico.

Palavras de um morto

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Francisco Perna Filho O que seria a loucura para vós? um homem voltado ao vazio, nas ruas grávidas de gente? meu coração parte-se. E a mudez que o estampido rompe, não desfaz minha fé nos homens, nas palavras. Tivésseis carregado vossas armas de boas intenções, por certo, o medo não rondaria nossos caminhos. Não vos acuso pela loucura do mundo, mas não posso admitir que façais tombar a esperança de campos floridos, de crianças correndo brilhatemente pelos bosques, de janelas abertas prenhes de um novo dia. Há um grito em cada verso meu, grito abafado, mas sereno. Um grito continental, de clamor e piedade pela humanidade. De que artes & manhas são feitas as guerras, irmãos meus? talvez da racionalidade humana, porquanto loucos não declinam maldades, apenas perseguem vazios. In. Refeição . Goiânia:Kelps, 2001, p.89. Imagem: http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8797139806311672068

Espelhado de céu muito sereno

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Por Francisco Perna Filho Depois de morar em São Luis do Maranhão, Cuiabá, Palmas, Goiânia e Fortaleza, Jádson Barros Neves voltou à sua pequena cidade, Guaraí-TO, para uma jornada de intensas leituras e escritas.Leitor de William Cuthbert Faulkner, estudioso contumaz das nossas Letras, traz na alma, um tanto quanto inquieta, os causos, lendas e mitos da Região Norte, principalmente do sul do Pará, onde trabalhou como vendedor de secos e molhados, juntamente com seu pai, já falecido. Jádson, ao longo dos seus quarenta e dois anos de existência, vem construindo um trabalho de fôlego na narrativa contemporânea brasileira, mais particularmente na categoria conto. Detentor de diversos prêmios literários, tanto no Brasil, como no exterior, valendo destacar o Concurso Guimarães Rosa/Radio France Internationale. Enquanto o primeiro livro não chega (ainda é para este ano) Jádson vai se firmando como escritor, conquistando novos leitores e novas premiações, como recentemente o fez, nos 40 ano...

Um olhar sobre as diferenças

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A muda da minha rua falou-me das estrelas, com ela aprendi a escutar o rio da minha infância Por Francisco Perna Filho Ao nascermos, a primeira leitura que fazemos do mundo é a leitura sensorial: os sons, as cores, os cheiros, a temperatura, as texturas, os sabores. Daí, passamos para abstração do mundo, começamos a sair do concreto para o abstrato, vamos eliminando as figuras; passamos ao simbólico, às sentenças, ao descortínio do que se nos apresenta implícito, nas entrelinhas. Tornamo-nos críticos do mundo e das coisas, senhores do nosso nariz, da nossa boca, do nosso paladar, do nosso cheiro, do nosso som. Espelhos de uma sociedade perfeita, aparelhada de um estado perfeito, de uma justiça perfeita, de um legislativo perfeito, portanto de homens perfeitos. Democraticamente perfeitos. Descoberto um mundo não tão perfeito, ou quase imperfeito, modificamos a nossa crença, antes absoluta, para um aprendizado de realidades outras: os nossos pares são tão imperfeitos quanto nós, mas n...

Olhando o homem, o peixe se reconhece

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Por Francisco Perna Filho Há dias em que estamos mais leves, longe dos problemas comuns, libertos de toda preocupação, quando movidos pela busca da paz, da tranquilidade, buscamos nos acomodar à beira de um riacho, de um lago; à sombra de uma árvore ou guarda-sol, para deleitar as horas de harmonia com o universo. Ciceroneado pelo amigo, poeta e jornalista, Sinésio Dioliveira, conheci um pesque-pague dos mais aprazíveis, em Goiânia, mais precisamente ao lado da Vila Muitirão. Foi uma surpresa, pelo fato de antes ele haver me convidado e eu nunca ter aceitado, ou melhor, nunca ter dado certo para que eu fosse conhecer aquele lugar tranquilo, de paz e muitas surpresas, a começar pela pescaria em si, atividade que o meu amigo Sinésio, segundo ele mesmo, é um expert. Pois bem, chegamos ao local, ao pesque-pague, logo na entrada estava escrito: “Tambaquis e Tucunarés, só para pesca esportiva”. Entramos, o Sinésio pediu uma isca, algumas cervejas e fomos para a labuta; e que labuta...

Ouvindo a própria voz

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Por Francisco Perna Filho Tudo foi muito estranho e engraçado, lembro-me bem, eu estava na rodoviária de Miracema do Norte, não posso precisar o ano, década de 70, quando vi pela primeira vez um gravador e ouvi a gravação que dele saía. Fiquei encantado. Como seria possível aquilo? Cheguei em casa deslumbrado com o novo conhecimento, com a nova tecnologia. Meses depois, meu Pai foi a Goiânia e nos presenteou com um belo gravador, último tipo, genuinamente japonês, uma maravilha. Passamos a gravar todos os sons que encontrávamos, que fazíamos acontecer, desde batidas em latas, até o som da descarga do banheiro, tudo com muito entusiasmo e graça. Passamos a gravar as nossas conversas, as conversas dos vizinhos. Brincávamos de espiões, cantávamos e nos dizíamos cantores, artistas. Enquanto isso, uma montoeira de fitas K-7 ia se acumulando nas estantes da casa, compondo a nossa coleção. O certo é que éramos puro entusiasmo, o mesmo que tínhamos pelos inúmeros livros da minha infância. São ...

Ternura, talvez seja o que nos falta

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Por Francisco Perna Filho Cada um deve comportar os seus abismos, apesar da insuficiência de muitos, que, a reboque, carregam uma dor bem maior do que suportam e, por isso, precisam de ajuda, de compreensão, de quem lhes garanta o pão de cada dia e a doce palavra de consolo. Talvez não saibamos, ainda, da nossa impotência. Do tempo que, célere, nos conduz. Das tragédias diárias que teremos de enfrentar. Da dor progressiva de quem chora a depressão. Do triste olhar de quem há muito perdeu a esperança. Pouco sabemos da nossa desumanidade, já que o nosso interesse é pelo corpo, pela forma, pelo poder e dinheiro. Se pouco sabemos, é porque a nossa ignorância é bem maior do que a vontade de enxergar a miséria humana - tão próxima de nós, tão dentro de nós – colocar-se no lugar do outro. Ser mais solidário, altruísta, sensato e irmão. Ninguém vence o mundo sem vencer-se a si mesmo. Ninguém dá carinho sem conhecê-lo. Nada do que fazemos passa incólume aos olhos da natureza. Toda ação gera ...