quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Otto Maria Carpeaux - Madame Bovary


Carpeaux prossegue revelando o estilo de Flaubert, desvelando toda simbologia de Madame Bovary. Amanhã, postarei a última parte deste belo estudo. Boa leitura!





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Exato e colorido, sóbrio e musical, poético e prosaico: os termos são contraditórios. Nessas qualidades contraditórias do estilo de Flaubert refletem-se suas contradições íntimas de anti- romântico de burguês provinciano inimigo mortal da burguesia provinciana. Contradições dessas produzem uma tensão que pode ser, num artista altamente dotado, a fonte das mais altas qualidades artísticas. E Flaubert é, realmente, o maior artista em toda história da ficção em prosa.

Suas maiores vitórias estilísticas (e aquelas que custaram o mais árduo trabalho) são as nuanças. Dizer duas vezes a mesma coisa, com uma única ligeira diferença, que revela ao leitor atento que algo mudou ou vai mudar. Mas essas informações diferenciais não aparecem em seguida. As vezes estão separadas por páginas, por capítulos inteiros. Quem, ao ler a segunda frase, ligeiramente modificada, se lembra da primeira vez em que apareceu quase (mas só quase) idêntica, esse tem leitor tem estabelecido uma relação que escapa à leitura superficial. Dessa maneira constrói Flaubert a articulação da sua história. Para tornar esgura, ou digamos, ferrenha essa articulação, o romancista usa palavras-chave que voltam em determinados momentos, como os "leitmotivs" num drama musical de Wagner, Enfim, esses símbolos linguísticos formam feixes, cenas inteiras que têm valor de símbolos: são as cenas principais do romance.

A primeira página do livro descreve minunciosamente o chapéu ridículo de Charles Bovary, quando aluno do colégio. A página foi, pelos críticos contemporâneos, muito censurada, como "enfadonha" e "inútil". Ela pode ser enfadonha - como o próprio Charles Bovary - mas inútil não é. O ridículo desse chapéu é o símbolo da estupidez de quem o usa e tornar-se-á símbolo da estupidez do ambiente inteiro em que ainda aparecerão muitos outros chapéus ridículos: o boné "grego" que usa o farmacêutico Homais e o chapéu de castor do padre Bournisien e o chapéu"elegante" (mas já démodé) do don-juanesco Rodolphe, quando Emma o encontra no baile do castelo.

Esse baile em La Vaubyessard, oportunidade para Emma sair dos eixos do casamento, está rodeado de acidentes simbólicos. O buquê de casamento, última recordação material dos sonhos pré-maritais de Emma, é queimado: esse está prestes a acabar. No caminho para o castelo, o cãozinho de estimação pula do carro, corre para longe e não é mis visto nunca: Emma perderá o caminho. A ridícula estátua de gesso de um padre, no jardim dos Bovarys, é mutilada pela chuva e cai em pedaços: a perda do pé da estátua relaciona-se com a incompetência profissional de Charles Bovary e sua operação desastrosa no pé do aleijado de Hippolyte; a destruição gradual da estátua de pedra lembra a eliminação dos últimos resíduos da educação religiosa de Emma, agora pronta para a aventura com Rodolphe.

O ponto alto do romance são os "Comices agricoles", a exposição agropecuária com distribuição de prêmios aos criadores de gado. É uma sinfonia de palavras. Nas vozes médias, o murmúrio do diálogo amoroso entre Emma e Rodolphe, na tribuna de espectadores; nas vozes agudas, os estúpidos discursos oficiais do prefeito e de outros dignatários, exaltando o valor da agropecuária para a Pátria; o acompanhamento do baixo é o mugido do gado e osussurro do vento nas árvores - todas essas vozes harmoniosamente combinadas são como um resumo do romance.


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Até amanhã!


In.Madame Bovary. Gustave Flaubert. Trad.: Sérgio Duarte. Rio de Janeiro:Ediouro, s/d, p.16.