segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Otto Maria Carpeaux - Madame Bovary


Carpeaux, nesta parte do texto, fala do verdadeiro personagem do romance Madame Bovary. Mostra um Flauber anti-romântico e um estudioso da estupidez humana. Vamos à leitura!


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O romance se chama Madame Bovary. O título indica que Emma Bovary é sua "heroína". Mas será realmente assim? A narração começa e termina com o estúpido Charles Bovary; e nela desempenham grande papel o estúpido don-juanismo de Rodolphe e a estúpida paixão de Léon, a estupidez do farisaico padre Bournisien e todo esse pequeno ambiente de província, sem saída para Emma e sem saída para ninguém e pode-se afirmar: o verdadeiro personagem do romance é a Estupidez humana.

Flaubert foi grande estudioso da estupidez humana. Colecionou assiduamente burrices que leu em livros e jornais. Seu último romance, Bouvard et Pécuchet, estava destinado a ser uma espécie de epopéia da estupidez. E o paraíso da estupidez é, para Flaubert, aquele ambiente que ele conhecia tão bem e em que ele passara a vida toda: a província.

A frança é o país mais centralizado do mundo. Tudo que tem valor ou interesse está concentrado em Paris. Para a província só ficam os não-valores e os sonhos decepcionados, os ressentimentos e as paixões recalcadas. Por isso mesmo é a província o ambiente preferido do romance francês, como um laboratório em que se podem realizar experiências psicológicas. Na província, se passa a maior parte dos romances de Balzac; ainda será provinciano o ambiente de La Nausée, de Sartre - Flaubert reduziu a província à estupidez dela, incapacidade intelectual, emocional e insensibilidade moral. Essa estupidez conforme Flaubert, pode ter muitas formas, e uma dessas formas é o pseudo-romantismo de Emma, "o poder da pessoa para emprestar a si mesma uma penalidade fictícia e a desempenhar um papel que não se coaduna com sua verdadeira natureza". Seria esta a definição do falso romantismo? Não. Para Flaubert, que fora romântico na mocidade e que chegou a odiar o romantismo, aquilo era todo o romantismo. E daí podemos tirar duas conclusões de maior importância para a compreensão da obra:

1) Flaubert pertence àquela grande corrente do pensamento europeu que, por volta de 1850, abandonou decepcionada o romantismo para encarar a realidade com os olhos desiludidos de uma nova sobriedade que poderia ser chamada inexatamente e sem pensar em Auguste Comte: "positivista". É a mentalidade de Flaubert e a de Thackeray, Gontcharov, Fontane e outros grandes escritores da época.

2)O anti-romantismo dessa mentalidade mandou excluir dos romances até os últimos restos da mentalidade romântica. Flaubert, sucessor imediato de Balzac, desprezou os enredos muitas vezes violentamente melodramáticos do seu mestre. Reduziu o romance aos contornos mais simples e menos dramáticos da realidade observada. Nesse sentido, o anti-romantico Flaubert é o precursor direto do naturalista Zola (mas iremos ouvir, dentro em pouco, que é necessário apor uma correção restritiva a essas afirmações).

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Até amanhã!

In.Madame Bovary.Gustave Flaubert.Trad.:Sérgio Duarte.Rio de Janeiro:Ediouro, s/d,p.14.