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Mostrando postagens de julho, 2011

Darcy França Denófrio - Poema

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Foto by Sinésio Dioliveira Í nvio lado Há um lado da flor que não penetramos: talvez a reserva sitiada onde guarda seu aroma. Quase sempre esbarramos em seus ferrões de defesa e sangramos nossa dor pela ponta dos espinhos. E aí então paramos e olhamos só por fora a beleza que se entrega com sua cota de reserva. É do outro lado (do mistério) que não alcançamos que a flor explode em toda sua grandeza. É lá que se contorceu e guardou sua história e sangrou as suas gotas e a solidão que (sobre) carrega. Quem olha uma flor ou um ser desabrochado vê um prisma (feio ou lindo) jamais o seu lado.                        inviolado. In.BRASIL, Assis. A Poesia Goiana no século XX. Goiânia:Fundação Cultural Pedro Ludovico Teixeira/Rio de Janeiro: Imago, 1997, p.153.

Valdivino Braz - Poema

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As jóias de Netuno surdo rumor de ondas se avoluma para os estrondos de espuma; estilhaços de fúria fragmentária, os cristais feito jóias, perdigotos de Netuno. Fraturas de oceano, salso cuspe de espuma e louça, os nácaros, côncavos destroços. O que há de maestro e música, além do bramor de monstro, nisto de Atlântico. Sinistra massa, mista de crustáceos e moluscos - lagostos pedúnculos de antênulas, caco de acéfalos hipocampos, espongiários espantos. De hábitos solitários e anêmonos, de celeteradas pedras, isto de florir-se o reito das actíneas. Outra é água-viva, mija-vinagre, urtiga-do-mar, isto de queimar. Transparência de gelatina, e de secreto nas entranhas marinhas, as coisas-medusas, tanto quanto não ser a vida um mar de rosas. Umas formas eriçadas, uns ouriços, uns crespos de abrir-se e fechar-se - de não-me-toques -, marinhos espinhos. E coisoutras peludas, isto análogo púbis, estranhos novelos de quelíceras. Uns mijos de esponja, de ...

Heleno Godoy - Poema

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O ESPELHO Diante de um espelho não se põe um sujeito, mas uma linguagem. Nele não se articula um rosto, mas uma fala comprometida. O espelho não é, pois, inocente, reflete o abismo de uma ousadia, o jogo narcísico de uma mentira, a ânsia de uma farsa, o medo de uma falha, o fio branco de um engodo recente ou centenário, e o medo, na própria articulação de suas angústias irresolvidas. In. A Ordenação dos Dias. Goiânia:Puc Goiás/Kelps,2009, p.59. Imagem retirada da Internet: espelho

Itamar Pires Ribeiro - Poema

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ESBOÇO 1 Nos escava fundo, irriga de sol e cachaça, de dor e sombra e nos abandona, doa, à toa, a outras fomes, um repertório de beijos sem rumo, outras bocas fomes que puem a roupa, que gastam a cara, nos soterra em terra alheia cheia de jagunços, grão que somos então, um casulo um acaso de pólvora junto ao fogo, amor irriga de sangue a clara nata do olhar uma veia vital no cristal do olho, mancha sem explicação no mármore da deusa. Palas Athena, quando te entenderemos? In.A Arte de Pintar Elefantes. Goiânia: AGEPEL (Pali-palã), 2000,p.41. Imagem retirada da Internet: casulo

Amadeus Amado - Poema

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Evocação rabisco no guardanapo a tua face esquecida: não sei nada sobre desenho. Imagem retirada da Internet: Nanquin

Lau Siqueira - Poema

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razões noturnas os dias devoram nosso medo aves de vôo longe que somos ...ilhas de pouco mar pensamentos ancorados à beira bar alimentos de sombra e luz sobre as varandas distâncias alimentadas pelo esgar do infinito (respiramos fuligem e certa dose imantada de coisas que irão compor profusões do tempo que nunca irá permanecer entre o sol e a escuridão sem luar) a vida carrega algumas metades de cada metade morta In. Poesia Sim Imagem retirada da Internet: vela

Amadeus Amado - Poema

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Impressões A rua vazia veloz: os carros pararam no tempo e os homens aguardam o verde sinal. Casas resistem indiferentes ao menino que brinca sozinho na escada. Um céu de domingo, um guarda sonâmbulo, um olhar enviesado, uma mulher confere as roupas no varal. Nada sabem da minha solidão.  Imagem retirada da Internet: rua vazia

Mário Chamie - Poema

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A CARNE É CRÁPULA A carne é crápula sob o olho cego do desejo. A carne é trôpega se fala sob o pêlo de outro desejo alheio. A carne é trêmula e fracta. Crina de nervos, veneno de víbora, a carne é égua sob o cabresto de seus incestos sem freios. Fálica e côncava, intrépida e férvida, a carne é estrábica nos entreveros do sexo com seus desacertos conexos. Sob o olho sem mácula e cego, a carne é crápula nos arpejos indefesos de seus perversos desejos. In. Caravana Contrária. São Paulo: Geração Editorial, 1998. Imagem retirada da Internet: sensual

Marinalva Barros - Poema

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POEMA DE AMOR E RIO VI As digitais de um rio Tatuaram meu espírito Sou por isso matizada, Povoada de estações Afeita a cidades antigas E ruas estreitas. Alinhavada de correntezas.  Rio Tocantins - Praia do Prata - by Francisco Perna Filho

Mário Chamie - Poema

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PEDREGOSA ROSA A mão sorridente sobre a boca vertiginosa põe os dedos efusivos sobre a pétala desta rosa pedregosa. Não é a faca florida a faca que mais corta a cauda dessa rosa rancorosa. O não indecente da hora suspira e se afoga no fofo dessa toca, a cálida areia rósea desta porosa pedra vaporosa. Por obra da hora a mão insolvente da pétala floresce e afaga a boca rochosa de arestas na pedra desta pétrea raivosa rosa. In. Caravana Contrária. São Paulo: Geração Editorial, 1998. Imagem retirada da Internet: Lírio do campo

Mário Chamie - Poema

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QUEDA INTERIOR Se a queda é livre o medo da queda é preso. Livre é a queda sem embaraço defeso. A queda de um homem tenso não é a guerra do Peloponeso pelo estreito de um coração perverso. A queda livre é o próprio peso de um coração suspenso. Toda queda é o menosprezo de quem cai sobre si mesmo. Fonte: Antônio Miranda Imagem retirada da Internet: Chámie

Mário Chamie - Poema

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  AUTO-ESTIMA Sou Chamie, venho de Damasco. Franco-egípcio é o meu passado. Sírio sou helenizado. De Damasco ao meu legado, sou católico e islâmico, copta apostólico catequizado. No pórtico mediterrânico, sou ático e arábico. Vou contra o deserto de desafetos contrários. Sem custo nem preço que se meça, em nome de meu gênio atlântico e adriático, desprezo a cabeça e a sentença de meus adversários, adversos e vicários. Sou Chamie, Mário. Franco-egípcio é o meu passado. Por onde entro, venho de Damasco pela porta do apóstolo Paulo. Sírio sou helenizado. Venho de Damasco, por onde saio. In.Caravana Contrária. São Paulo: Geração Editorial,1998. (Fonte Antônio Miranda) Imagem retirada da Internet: Chámie

Francisco Perna Filho - Poema

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Show de graça O ser, capenga, capina. A mata, em riste, resiste. Na lâmina cega, o reflexo de mais um capítulo de devastação. Tão desolado, do outro lado, o homem fica. Sentenciado, brinca de ser humano. A lua olha o cambaleante homem, que perfila tombos pela avenida. Numa igreja à vista, uma placa indica: Show de graça! Sem pagar ingresso, ele entra, senta-se, chora, morre de rir. In. Refeição. Goiânia: Kelps, 2001 Imagem retirada da Internet: Palhaço

Francisco Perna Filho - Poema

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                                                MONTANHA A palavra pesada persegue a pedra, revela o austero pulsar do silêncio e, com ele, inaugura um olhar de montanha. Do alto, a alma encanta-se e o olhar precipita-se em direção ao luzir da cidade. Do baixo, o corpo, enfermo, claudica e os braços perdem-se na impotência primordial de uma escalada. A montanha é sentida e nela diviso o inferno e o paraíso da Babel recriada. Estando no centro, a minha alma assesta a caverna na recomposição do paraíso Dantesco. Dessa forma, a montanha enternece o poeta e a palavra mais leve revela a montanha/palavra Refletida no olhar. In. Refeição. Goiânia: Kelps, 2001. Imagem retirada da Internet: Montanha

Francisco Perna Filho - Poema

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Duplo  Faz frio, fina a pele fica, o filho dorme. Há calma, são secretos os sonhos. A mulher suspira, liberta de tudo revela esperança nos graciosos gestos. O sono não vem, invento palavras. Meus olhos coalhados secam a noite. Barcos invadem minha sala, Aviões-de-guerra sobrevoam a minha cabeça. caminhos me levam para fora de mim, viajo. Não há como entender. Pessoas conversam, olho, nada vejo. Pássaros libertam-se-lhes os cantos. Vôo. O filho chora, faz frio. Há uma escuridão perpetuada. Manhã pesada. Sou pura distração: afastado de toda racionalidade observo os pés do sofá. Alguns passos, passo pela porta do quarto e contemplo o meu corpo petrificado no espelho da sala. Reflito um abraço e vou dormir. In. Refeição. Goiânia: Kelps, 2001. Imagem retirada da Internet: Magritte

Francisco Perna Filho - Poema

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Transformação Peixe na linha, rima de pescador. Encontro de águas e arco-íris. Rio quebrado nas voltas dos olhos, no piscar dos barcos, na manga de chuva. Perpetuado no mormaço da existência. Os olhos observam o ritmo: na rima quebrada de peixe fugido, na desalegria de morte escapada, na deselegância de mesa-objeto, sem pão. O rio continua no riso pálido do pescador extático, no hiato das culturas, na incontinência dos jovens poetas. Linha, água. Peixe, anzol. Pescador. In. Refeição. Goiânia: Kelps, 2001. Imagem retirada da Internet: peixe

Francisco Perna Filho - Poema

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Navegante   I                                                             Meu coração é um navio azul, alimentado de velhas caixas e revistas. Nas pulsações mais fortes, mergulha nos tomates podres das feiras e velhos mercados. Compraz-se nas garrafas abandonadas de molhos e cervejas. O mar que o transporta tem cor de chumbo. Possui salas radiantes que a ele não são dadas conhecer. Meu coração navega nesse mar de coisas.                                                            II Navio azul trazendo a dor de longínquas cidades. olhar de descobrimentos. Plúmbeo mar! conduz esta minha embarcação pelos portos tremeluzentes de orgasmos e discórdias. Pelos as...

Francisco Perna Filho - Poema

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Texto I Ser camisa ao avesso, costura da qual se veem os pontos, tecido ordinário nas mãos da tecelã. Vida que se cruza entre um bilro e outro, no tecido das grandes fazendas, na tintura de urucum. Ser pano rasgado, esquecido nas achas de lenha, no choro de menino nascido, no bordado da vida: renda. Ser costura de rio, na linha de vento, tecendo em cada porto as manhãs de banzeiro, em pontos de cruz.                                                                         II  Ser... e costurar o enredo dos homens, na procissão das ideias, no sal amargo dos bóia-frias, em pontos de cruz. Tecido de entranhamento, de estranhamento, no cascalho da estrada, sob o esguio olhar dos que andam a pé. Reticência no texto-não-feito, dos que definitivamente nunca serão. Costura....

Francisco Perna Filho - Poema

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Fotografia O relógio deu nove horas. Um alarido de tempo aprisionado alertou as manhãs, apavorou as cidades, temporizando os visitantes. O grito das horas determinou o aprendiz, pasmou o homem céptico na vigília de sua contemporaneidade. O dia se fez aprisionar, o embaraço do trágico ficou preso ao ecúleo dos bêbedos, à desilusão das prostitutas na anacronia da exploração. O grito emudeceu/umedeceu-se. Algumas vidas foram preservadas antes dos disparos. Falem agora ou calem... o soco parou no meio do caminho, o beijo perpetuou-se, A gafe foi congelada para não haver perdão. O agora eternizou-se.

Francisco Perna Filho - Poema

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Espelho As palavras são alarme da alma irremediavelmente estou enredado nelas. Palavras que calam, que bradam, que insinuam e desnudam. Estou dividido. Fito os vocábulos e alinhavo o meu querer. Espelhadamente estou bem. Imagem: René Magritte "O Duplo Secreto" (1927)

Francisco Perna Filho - Poema

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Registro O toque, a primeira impressão: Digital. Imperceptível ela passa do dedo para a pele. Na pele  impressa e na pressa da ida o registro do olhar. O corpo, o primeiro abraço fica, mesmo sem querer o corpo absorve o cheiro do outro. A alma, bastou uma impressão para ser descoberta. As outras impressões são apenas papéis. In. Refeição. Goiânia: Kelps, 2001. Imagem retirada da Internet: digital

Francisco Perna Filho - Poema

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By Edward Hopper Errabundo Eis meu corpo, não vos ofereço. Santificado não fora, tornara-se errabundo e fértil. Feito de todos os metais, fora navegante sempre, conquistador. Buscou n’alma o outro; na alegria, a estrada; na gruta, o vício. A vós, nada pode ofertar. Livre de toda vestimenta, sempre foi sombra e com as sobras do mundo fez sua última ceia. De vós nada quer. Em mim, somente em mim, celebra o ócio. Desconhece qualquer outra sorte que não o vício. Com ele celebro o mundo e sou. De vós nada quero. In. Refeição. Goiânia: Kelps, 2001

Francisco Perna Filho - Poema

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Foto by Paulinho Cé Em vias Pelo corredor do hospital grande luta é travada: a alegria do menino sereno fora atropelada pelo monótono amargor da velhice. Não sabeis a quem recorrer. Não basta o grito rumoroso de socorro no perene desespero de quem avança pelos rios do envelhecimento/envilecimento. Ninguém ouvirá vosso grito. Melhor não tivésseis memória, porquanto não sofreríeis agora. Todos os sóis que canonizastes foram se perdendo nos secos galhos de outono. E a firme voz que tínheis fora brutalmente amarfanhada e esquecida. A estrela que sempre vos guiara, petrificou-se em um bar qualquer para seguir os errantes caminhos da noite. Não tereis como vos socorrer. Quebrastes todos os vossos espelhos, rasgastes todas as fotografias da vossa infância, perdestes o rumo de vossa casa. Sois só. Agora, demasiado fraco, congelas algumas lembranças para ensaiar o grande salto. O que de vós fora feito, homem bom. In. Refeição. Goiânia: Kelps, 2001

Francisco Perna Filho - Poema

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Essencial Chamava o elevador e descia pela escada (insistindo na própria sorte). Como tomasse vinho embriagava-se de ônibus na esperança de não chegar nunca a lugar algum. Cansado de enganar o mundo tropeçou na sorte: não podendo tirar férias, tirou a própria vida. In. Refeição. Goiânia: Kelps, 2001. Imagem retirada da Internet:  sem destino

Francisco Perna Filho - Poema

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Insone As ruas nunca dormem. Não há tempo para isso, guardam os prédios que se esvaem em sono vertical. Os porteiros não dormem nunca. Não há tempo para isso, guardam os donos nidificados em sonhos de existência. As mães nunca dormem, velam os filhos errantes em bares e becos obscuros. Os famintos, os guardas, as prostitutas, assim como os cães, exercem a insônia da sobrevivência. Pelos olhos insones de todos estes meus olhos vêem o inominado, o imaterializável. E, por muito ver, meus olhos nunca dormem. Imagem retirada da Internet: prédios

Francisco Perna Filho - Poema

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Ecos Habitando os cafés e refletindo as manhãs com restos da noite, ambientou-se ao não-ser, traçou a inexistência, ficou entre parênteses. Silente e absorto, refez os becos de um dia oco e pesado. Inquieto, alimentou-se de acasos: sorveu as praças, o cinza das chaminés e amargurou-se com o lamento pulverizado dos meninos da grande cidade. Chorou a salobra Segunda feira, feita de vagidos e tormentos. Desse modo, por muito tempo, passou a repetir as noites, nos olhos avulsos do esquálido cão, que cismara em perseguir. Um dia, ao tentar recompor sua história, morreu de esquecimento. Imagem: Edward Hoppe

Francisco Perna Filho - Poema

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Silêncios Silenciar como pedras, tornar imóvel o distante, pura embarcação. A rede, a vela, a curva e a canção caminham e me enfunam. Morrer nas pequenas coisas: no papel amassado da não inspiração, na toalha embotada de Toddy e pão, no candeeiro sem lume e sem esperança. O gume mata o sono e o sonho. Tudo se desbota. Imagem: "Os Amantes" de Magritte

Francisco Perna Filho - Poema

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Cafarnaum Velhos armários, guardando nas suas gavetas o cheiro aveludado de tantos invernos, esculpidos em retratos sonâmbulos, carpidos no ranger de redes e no murmúrio oblongo de potes de barro. Nada há de velho que não enterneça. nem o mofo, nem o lodo, nem os anos embotados no imaginário humano. Nada passa que não nos faça avançar para antes, para uma anterioridade lírica, sob a luz das lamparinas talhadas em ausências e muita solidão. Nada há de novo que não nos mostre o velho, o passado, o que fomos nós, nos passos tênues dos nossos avós, no lastimoso grito memorial dos nossos corpos na dança secular; dos nossos corações empedernidos pelas inúmeras cicatrizes que clamam refeição. O que há em nós é um imenso desejo de reconstituição de refazimento. Um desejo de saciar a nossa fome ancestral, agora, no presente futuro. In. Refeição. Goiânia: Kelps, 2001. Imagem retirada da Internet: by Paulo Tomas

Francisco Perna Filho - Poema

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Foto by Nuno Ramos REVELAÇÃO                                                     Teus olhos infindos peregrinam versos nas bibliotecas, traspassando todo o concreto com o qual me visto. Desnudo, sou pura memória. Memória primordial. Vejo as figuras formadas à sombra dos pés-de-lima: cavaleiros, viajantes, lavadeiras; homens simples. As sombras, que imóveis me animam, compõem esta fantasia. São seres noturnos que se revelam na luz. Sombras de engenho, do todo, de arte, de partes. De quem parte sem sombras de dúvidas, deixando um vazio de sombras: de memória perdida; de palavra não dita no aturdimento dos amores. Sombras que pesam, de pedras, na mais pesada palavra. Dos mitos, do mítico, que perseguem os meus contemporâneos. Sombras transformadas, que assombram os teus olhos, atentos e profundos. Olhos de sombras que me il...

Francisco Perna Filho - Poema

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Este ano, mais precisamente no dia 18 de  outubro, o meu primeiro livro "Refeição" completa 10 anos do seu lançamento. Para comemorar a data, postarei, ao longo deste mês de julho, vários poemas que fazem parte do livro. Aproveito para homenagear os corresponsáveis pela materialização do mesmo: Faculdade Cambury (Goiânia) e Secretaria Municipal de Goiânia (Lei de Incentivo à Cultura). Refazendo I                                                                 Todos os portos, todas as palavras. Nos terminais desertos, à sombra das velhas marquises, o Poeta refaz-se do último pesadelo: o grito incolor das insones madrugadas, das segundas-feiras borradas de desordem e desencanto. Todas as pensões, todos restaurantes. Nas rodoviárias abarrotadas, à mercê das buzinas e moscas, ele se refaz da s...