Francisco Perna Filho - Poema

Velho homem
Foto by Paulinho Cé


Em vias




Pelo corredor do hospital
grande luta é travada:
a alegria do menino sereno
fora atropelada pelo monótono
amargor da velhice.
Não sabeis a quem recorrer.
Não basta o grito rumoroso de socorro
no perene desespero de quem avança
pelos rios do envelhecimento/envilecimento.
Ninguém ouvirá vosso grito.
Melhor não tivésseis memória,
porquanto não sofreríeis agora.
Todos os sóis que canonizastes
foram se perdendo nos secos galhos
de outono.
E a firme voz que tínheis
fora brutalmente amarfanhada e esquecida.
A estrela que sempre vos guiara,
petrificou-se em um bar qualquer
para seguir os errantes caminhos da noite.
Não tereis como vos socorrer.
Quebrastes todos os vossos espelhos,
rasgastes todas as fotografias da vossa infância,
perdestes o rumo de vossa casa.
Sois só.
Agora, demasiado fraco,
congelas algumas lembranças
para ensaiar o grande salto.
O que de vós fora feito, homem bom.

In. Refeição. Goiânia: Kelps, 2001

Comentários

  1. Sinésio Dioliveira8 de julho de 2011 às 10:10

    Um poema assustador, sobretudo àqueles que ainda não velhos mas que estão apavorados com a velhice. Não há como, caro amigo Chico, esPERNear diante da velhice. Seu poema me trouxe Cecília Meires:

    Eu não dei por esta mudança,
    tão simples, tão certa, tão fácil:
    - Em que espelho ficou perdida a minha face?

    A velhice são coices do tempo. E sobre o tempo o poeta Cassiano Ricardo verseja algo valioso no poema O Relógio:

    "Diante de coisa tão doida
    Conservemo-nos serenos

    Cada minuto da vida
    Nunca é mais, é sempre menos

    Ser é apenas uma face
    Do não ser, e não do ser

    Desde o instante em que se nasce
    Já se começa a morrer."

    A saída, caro meu Chico, é colher os frutos maduros no quintal de nossa existência ao alcance de nossas mãos enquanto somos senhores delas... Carpe diem!

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