Postagens

Mostrando postagens de fevereiro, 2012

Raul Bopp - Poema

Imagem
Casos da negra velha A floresta inchou Uma árvore disse: - Quero virar elefante, E saiu correndo no meio do mato aratabá-becúm Aquela noite foi muito comprida Por isso é que os homens saíram pretos In.Urucungo, 1932. Imagem retirada da Internet: negra velha

Elizabeth Barrett Browning - Poesia

Imagem
SUBSTITUIÇÃO Se uma adorada voz, que fora em vossa vida, suavidade e som, de repente se esvai, e se logo um silêncio impenetrável cai, qual súbito mal-estar ou dor desconhecida, - que esperança há? Que auxílio? E que música ouvida, o silêncio destrói? Nem da amizade o ai - nem da razão sutil a conta; não se vai ao som de violino ou de flauta gemida; nem canções de poeta e nem de rouxinóis, a voz que vai subindo através dos ciprestes até à clara lua; e medo lhe não causa das esferas, o canto - ou dos anjos, nos sóis, a voz que sobe a Deus; ó não, nenhuma destas! Fala só Tu, ó Cristo, e preenche esta pausa. Tradução: Alexandre Herculano de Carvalho ©Elizabeth Barrett Browning Fonte: A Voz da Poesia Imagem retirada da Internet: hope

Elizabeth Barrett Browning - Poesia

Imagem
COMO TE AMO? Sonnets from the Portuguese, Sonnet XLIII Amo-te quanto em largo, alto e profundo Minh’alma alcança quando, transportada, Sente, alongando os olhos deste mundo, Os fins do Ser, a Graça entressonhada. Amo-te em cada dia, hora e segundo: À luz do Sol, na noite sossegada. E é tão pura a paixão de que me inundo Quanto o pudor dos que não pedem nada. Amo-te com o doer das velhas penas; Com sorrisos, com lágrimas de prece, E a fé da minha infância, ingênua e forte. Amo-te até nas coisas mais pequenas. Por toda a vida. E, assim Deus o quiser, Ainda mais te amarei depois da morte. Tradução de Manuel Bandeira Fonte: A Voz da Poesia Sob licença do Creative Commons

Marinalva Barros - Poema

Imagem
Convite   Convido você a saltar paredões e atravessar redemoinhos. O susto da queda não deverá nos matar se a sua mão segurar a minha. Em breves instantes o seu corpo e o meu se reconhecerão no leito úmido e quente do fundo das águas, voltar à tona será tão somente uma peripécia de amor. Estaremos de volta antes do por-do-sol. Prometo. Imagem retirada da Internet: mãos dadas

Adélia Prado - Poema

Imagem
O Homem Humano Não fosse a esperança de que me aguardas com a mesa posta O que seria de mim eu não sei. Sem o Teu nome A claridade do mundo não me hospeda, É crua luz crestante sobre ais. Eu necessito por detrás do sol Do calor que não se põe e tem gerado meus sonhos, Na mais fechada noite, fulgurantes lâmpadas. Porque acima e abaixo e ao redor do que existe Permaneces, Eu repouso meu rosto nesta areia Contemplando as formigas, Envelhecendo em paz Como envelhece o que é de amoroso dono. O mar é tão pequenino diante do que eu choraria se não fosses meu Pai. Ó Deus, ainda assim não é sem temor que Te amo, Nem sem medo.

Cassiano Ricardo - Poema

Imagem
Espaço lírico Não amo o espaço que o meu corpo ocupa  Num jardim público, num estribo de bonde.  Mas o espaço que mora em mim, luz interior.  Um espaço que é meu como uma flor  Que me nasceu por dentro, entre paredes.  Nutrido à custa de secretas sedes.  Que é a forma? Não o simples adorno.  Não o corpo habitando o espaço, mas o espaço  Dentro do meu perfil, do meu contorno.  Que haja em mim um chão vivo em cada passo  (mesmo nas horas mais obscuras) para  Que eu possa amar a todas as criaturas.  Morte: retorno ao incriado. Espaço:  Virgindade do tempo em campo verde. Imagem retirada da Internet: ego

Carlos Drummond de Andrade - Poema

Imagem
Foto by  Nobuyoshi Araki Em face dos últimos acontecimentos Oh! Sejamos pornográficos (docemente pornográficos). Por que seremos mais castos Que o nosso avô português? Oh ! sejamos navegantes Bandeirantes e guerreiros Sejamos tudo que quiserem Sobretudo pornográficos. A tarde pode ser triste E as mulheres podem doer Como dói um soco no olho (pornográficos, pornográficos). Teus amigos estão sorrindo De tua última resolução. Pensavam que o suicídio Fosse a última resolução. Não compreendem, coitados, Que o melhor é ser pornográfico. Propõe isso a teu vizinho, Ao condutor do teu bonde, A todas as criaturas Que são inúteis e existem, Propõe ao homem de óculos E à mulher da trouxa de roupa. Dize a todos: Meus irmãos, Não quereis ser pornográficos?

Cássia Fernandes - Poema

Imagem
Os dias Quatro dias de sono na roça. A pele descansada, porque não peguei no cabo da caneta nem me pegaram para enxada. Apenas capinei os ares. Apartei-me cedo do gado. Preparei silos para os dias de estio que se seguirão. Dei de beber aos cavalos, curando as feridas dos cascos e desfazendo os nós das crinas, e assim pretendendo temporariamente persuadi-los a não dispararem estúpidos pelos pastos, atrás de capim verde e miragens de vacas e meninas. Tudo isso me descansou o corpo, mas ainda assim a alma, essa não tem repouso, nem com sono, nem com feriado. Talvez um dia, quem sabe, ou mais tarde, num Pouso Mais Alto.

William Butler Yeats - Poema

Imagem
Portrait sketch of William Butler Yeats in 1908 by John Singer Sargeant As Vozes Eternas (1899) Oh, doces e perenes Vozes, permaneçam; Vão até aos guardiões das hostes celestiais E os ordene que vagueem obedecendo à Tua vontade,  Chamas sob chamas, até o Tempo deixar de existir; Não tem você ouvido que nossos corações estão cansados, Que você tem chamado por eles nos pássaros,  no vento sobre as colinas,  Em balançantes galhos nas árvores, nas marés pela beira-mar?  Oh, doces e perenes Vozes, permaneçam. Tradução de  Izabella Drumond  

Valdivino Braz - Conto

Imagem
Os lírios do brejo             Grilos e sapos nos brejos, e ele a estortegar-se todo, no leito de palha, entre gemidos e bufos de bicho agoniado. Do outro lado da parede de taipa, a voz rouquenha de Sinhana:            — Que é isso, Menino?           Silêncio como resposta, o rosto afundado no travesseiro de paina, abafando a agonia. A noite. Os grilos. Os sapos. E novamente Sinhana:            — Sossega, Menino. Dorme.           Menino era como a velha Sinhana chamava a um homem já feito, de nome Benedito, abrutalhado e meio palerma, filho bastardo de Quim Borba. No papel de avó, e num senso de caridade, ela tomara a criança sob seus cuidados, porque morrera-lhe a mãe, de nome Olívia, que o parira a susto de má ho...

Hélverton Baiano - Conto

Zé Bufafais e sua Estrovengás Como está na moda construir gasoduto para todo lado, Zé Bufafais inventou e disse aos outros que queria construir um pra ele também, para aproveitar a demasia dos seus constantes e insuportáv eis pipocos intestinais, que já viraram pilhérias aos quatro cantos do seu ‘i’mundo. No começo, ele cansara desse seu mister gasoentérico e procurou conserto nos médicos e mezinhas, parou de comer as sustanças do ‘vento’, como cebola, batata doce, repolho e feijão, mas de nada adiantou. Ficou famoso por isso mesmo, incorporou o apelido de Bufafais que a rua lhe deu e passou a ganhar dinheiro com apresentações em circos e teatros mambembes, onde era apresentado como ‘Zé Bufafais, o homem que peida demais’. Para as apresentações usava de truques que aprendeu pelo instinto de cabeça de vento que tinha e ninguém tascava. Ele me pediu segredo, por isso não vou contar a ninguém, de como se dava a descarga flatulenta que comandava programadamente, mesmo porq...