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Mostrando postagens de agosto, 2011

Adérito Schneider entrevista Valdivino Braz

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O rebanho de Deus sob regime de exceção O escritor Valdivino Braz fala sobre seu último livro, o romance “O Gado de Deus”, que ganhou recentemente o Prêmio Nacional Colemar Natal e Silva Entrevista originalmente publicada no  Jor­nal Op­ção Ro­man­cis­ta, con­tis­ta, po­e­ta e jor­na­lis­ta Val­di­vi­no Braz tem 13 li­vros pu­bli­ca­dos, seis dos qua­is pre­mi­a­dos, com des­ta­que pa­ra o Prê­mio Na­ci­o­nal de Li­te­ra­tu­ra Ci­da­de de Be­lo Ho­ri­zon­te, um dos mais im­por­tan­tes do Bra­sil, em 1992, com o li­vro de po­e­mas “A Trom­pa de Fa­ló­pio — Rap­só­dia de Ho­me­ro Ca­nho­to”. Em en­tre­vis­ta ao  Jor­nal Op­ção , Val­di­vi­no Braz fa­la so­bre seu úl­ti­mo li­vro, o ro­man­ce “O Ga­do de Deus”, que, no mês de abril, foi con­tem­pla­do com o Prê­mio Co­le­mar Na­tal e Sil­va, em con­cur­so na­ci­o­nal pro­mo­vi­do pe­la Aca­de­mia Go­i­a­na de Le­tras. Se­gun­do o au­tor, “O Ga­do de Deus”, en­tre ou­tras vi­as ou vi­es­es de lei­tu­ra, po­de ser li­do co­mo um...

Mário Faustino - Poeta

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Breve Elegia Só ardem neste sono os círios da memória e do desejo. E turvos na memória revolta são teus gestos – os únicos repletos de perdão. É preciso esquecer tanto amar, tanta amarga expiação de tudo que guardamos por não sabermos dar. E obscura                     pelas vagas do leito                                                   - tua sombra – nenhuma outra é digna deste abraço. Pudesse eu divagar pelos bosques teu reino, mergulhar contigo em tua fonte, ou ascender ao teu éter contigo, ao teu mistério ... mas não há via larga rumo à noite. Então, luz após luz remota, um sol atroz atira-me do sonho aos recifes reais donde diviso tua fuga: Jamais a madrugada traz nos braços relíquias de uma lua que adoramos.

Mário Faustino - Poeta

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Sinto que o mês presente me assassina Sinto que o mês presente me assassina, As aves atuais nasceram mudas E o tempo na verdade tem domínio sobre homens nus ao sul das luas curvas. Sinto que o mês presente me assassina, Corro despido atrás de um cristo preso, Cavalheiro gentil que me abomina E atrai-me ao despudor da luz esquerda Ao beco de agonia onde me espreita A morte espacial que me ilumina. Sinto que o mês presente me assassina E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas De apóstolos marujos que me arrastam Ao longo da corrente onde blasfemas Gaivotas provam peixes de milagre. Sinto que o mês presente me assassina, Há luto nas rosáceas desta aurora, Há sinos de ironia em cada hora (Na libra escorpiões pesam-me a sina) Há panos de imprimir a dura face À força de suor, de sangue e chaga. Sinto que o mês presente me assassina, Os derradeiros astros nascem tortos E o tempo na verdade tem domínio Sobre o morto que enterra os próprios mortos. O tempo na verdade ...

Célio Pedreira - Poema

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cantiga cria um horizonte bateu em minha porta e quando abri eram só dois olhinhos a estender-me a mão como fosse um pedido de rumo desses que a gente acerta até os caminhos do coração. Imagem retirada da Internet: Infantil

Francisco Perna Filho - Poema

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Somália um mar de  gente sedenta,                            faminta, degusta palavras,                           definha em sóis de uma existência precária. Somali, só mal,         de sol a sol, sozinha,      a criança brinca com os seios da mãe:       sugando o inexistente, brinca de ser eterna.                 Imagem retirada da Internet: fome

Chico Buarque de Holanda - Poesia

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TROCANDO EM MIÚDOS Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim Não me valeu Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim! O resto é seu Trocando em miúdos, pode guardar As sobras de tudo que chamam lar As sombras de tudo que fomos nós As marcas de amor nos nossos lençóis As nossas melhores lembranças Aquela esperança de tudo se ajeitar Pode esquecer Aquela aliança, você pode empenhar Ou derreter Mas devo dizer que não vou lhe dar O enorme prazer de me ver chorar Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago Meu peito tão dilacerado Aliás Aceite uma ajuda do seu futuro amor Pro aluguel Devolva o Neruda que você me tomou E nunca leu Eu bato o portão sem fazer alarde Eu levo a carteira de identidade Uma saideira, muita saudade E a leve impressão de que já vou tarde. Imagem retirada da Internet: F ita do Bonfim

Sinésio Dioliveira - Crônica

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Goiandira deixa suas pegadas na areia Tive o privilégio de entrevistar a artista Goiandira do Couto. Isso já faz um bocado de anos. Na época ela estava com 82 anos. Lembro que sugeri a vida da artista como pauta na reunião que acontecia toda segunda-feira no jornal, um semanário. Minha sugestão, entretanto, não foi aceita pelo dono do jornal, pois, segundo ele, era dispendioso deslocar um carro até a Cidade de Goiás e junto a isso o fato de que o assunto “cultura” não gera lucros ao jornal. Tentei dissuadi-lo de sua pequenez jornalística. Foi, portanto, em vão. Após me certificar com o dono do jornal de que pelo menos a matéria seria publicada, rumei para a Cidade de Goiás em meu próprio carro, acompanhado do fotógrafo Iris Roberto. Ainda bem que fui. Já chegando à cidade e ao avistar a Serra Dourada, onde a artista extraía os grãos de areia de centenas de cores para dar vida a suas obras, tematizadas nas casas e ruas de sua cidade, parei o carro e pedi ao fotógrafo que fizesse a...

Maria Elizabeth Fleury - Crônica

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  Foto by Weimer Carvalho- O Popular Terra linda e venturosa, terra amada de meus pais  Somente corações generosos de coroadas cabeças da atual diretoria do SESI goiano,  teriam a sensibilidade de ceder uma condução com motorista, proporcionando, a pequeno grupo de intelectuais goianos a oportunidade de conduzir o casal de escritores e historiadores de Porto Alegre (RS), Moacir e Hilda Agnes Hübner Flores, para conhecer a outrora Vila Boa, antiga Capital de Goiás, hoje, orgulhosamente, Patrimônio Cultural da Humanidade. E, sob cálido sol matinal deste mês de agosto seguiram todos, quais adolescentes em recreio, rindo, conversando, cantando e recordando saudosas cantigas como a “Balada goiana” de Manoel de Amorim: Todos têm um amor na vida/que os inspiram a cantar/ eu só tenho a minha cidade/ minha terra, meu sonho, meu lar... Lá chegando, aos poucos, a cidade foi desvendada, mas dois desejos seriam primeiramente realizados: visita à casa de Cora e à ar...

Morre aos 95 anos a artista plástica goiana Goiandira do Couto

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Artista Plástica Goiana - Foto de arquivo (by Walter Alves - O Popular) A artista plástica goiana Goiandira do Couto morreu de falência múltipla de órgãos, no fim da tarde desta segunda-feira (22), em Goiânia, aos 95 anos. Ela sofreu complicações de um acidente doméstico, no dia 29 de julho, quando fraturou o fêmur. Inventora de uma técnica que a tornou famosa internacionalmente, Goiandira do Couto extraía 551 tonalidades da areia da Serra Dourada para criar telas em que destacava a paisagem da Vila Boa em Goiás.  Professora aposentada e fundadora da Escola de Artes Veiga Valle, a artista plástica vendeu praticamente todas as telas  que produziu, a maior parte para  personalidades como presidentes, governadores e artistas. Goiandira Couto também foi fundadora da Igreja Messiânica na cidade de Catalão (GO). O sepultamento deve acontecer na cidade de Goiás, na terça-feira (23), em horário a ser definido. Natural de Catalão, Goiandira completaria 96 anos no d...

Maisa Lima - Conto

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Na Curva da Maria Bárbara No começo, todo mundo pensava que não tinha nada. Depois, foi pior: deram-se conta que não tinham nada mesmo. E desgraça das desgraças: orgulhosos. Em suma, uma gente fadada a não sair do lugar. Aqueles que julgavam ter se livrado do visgo da pasmaceira estavam afundados nele até o pescoço. Se acreditavam melhores que o resto do mundo. E por resto do mundo, entenda-se a beira de serra em que viviam. O resto não importava. Até porque, eles não existiam para o resto. Era gastar arrogância à toa. Mas, até mesmo onde o nada cruza com lugar nenhum, há aqueles que fazem o povo andar. Zé Esteira era desses. Olhando pro seu carro estacionado no quintal, a gente só não dizia que estava num desmanche porque era só um. Se não contasse, é claro, com a carreta do carro de boi. Tão abandonada, que se a chuva continuasse era capaz de virar lenha. O carro do Zé tinha chassi, rodas, volante e, luxo dos luxos, bancos! Quando ia pra cidade, só não usufruía da civilização q...

Romério Rômulo - Poema

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pontes, ouro preto as pontes que martelo e que atormento carregam uma espécie de ungüento que vila rica deixou em cada delas. o sujo, o não calado, o renitente perderam a vida, a mão, a língua, o dente por discordar do que havia sobre elas. quantos soberbos sobre as pontes disfarçaram suas viagens de quem nasceu do ouro e o ferro em apetite aguçaram. tiveram, em pindorama, estes senhores que carregar na consciência, se a tiveram, o grito amargo das dores que causaram!                                     (de quantas pontes vive ouro preto?) In. Jornal de Poesia Imagem retirada da Internet: Ouro Preto

Lêdo Ivo - Conto

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A resposta Seu nome era Serafim Costa. Mas nome de quem, ou de que? Na cidade pequena , decerto a sua figura deveria ter se cruzado, muitas vezes, com a do menino fardado, de camisa branca e curtas calças azuis extraídas das velhas casimiras paternas. Ele, o comerciante abastado, talvez comendador, não conhecia o garoto. E este jamais poderia ligar o nome à pessoa. Assim, Serafim Costa era apenas um nome — a belíssima sonoridade de um estilhaço de mitologia, uma flor aérea que, em vez de pétalas, possuía sílabas. Ele morava no Farol, exatamente onde o bonde fazia a última curva. Os muros brancos, que cercavam o quarteirão, semi-escondiam a casa, também branca, além do jardim que aparecia entre as grades, e em cujos canteiros florejavam espessuras e certas musguentas flores amarelas, e um imenso besouro zoava. A casa era um palacete de dois andares, crivado de sacadas e cegas janelas, e que parecia desabitada. Possivelmente essa incorrigível falsária, a Memória, a pintou, sem tir-...

Carlos Drummond de Andrade - Poema

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O chão é cama O chão é cama para o amor urgente, amor que não espera ir para a cama. Sobre tapete ou duro piso, a gente compõe de corpo e corpo a úmida trama. E para repousar do amor, vamos à cama. Imagem retirada da Internet: cama

Rosy Feros - Poema

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Dedos do silêncio Vem...           Me toma à beira da noite,           caminha por mim           com seus passos molhados,           despeja seu rio no meu cálice           – pois minha emoção é só água. Vem...           Que eu lhe dou um trago           deste meu vinho guardado,           destas minhas uvas           frescas de inverno...           Que eu derramo em gotas meu perfume           pelos quatro cantos do seu corpo,         ...

Adélia Prado - Poema

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Moça na cama Papai tosse, dando aviso de si, vem examinar as tramelas, uma a uma. A cumeeira da casa é de peroba do campo, posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir, tomo a bênção e fujo atrás dos homens, me contendo por usura, fazendo render o bom. Se me tocar, desencadeio as chusmas, os peixinhos cardumes. Os topázios me ardem onde mamãe sabe, por isso ela me diz com ciúmes: dorme logo, que é tarde. Sim, mamãe, já vou: passear na praça em ninguém me ralhar. Adeus, que me cuido, vou campear nos becos, moa de moços no bar, violão e olhos difíceis de sair de mim. Quando esta nossa cidade ressonar em neblina, os moços marianos vão me esperar na matriz. O céu é aqui, mamãe. Que bom não ser livro inspirado o catecismo da doutrina cristã, posso adiar meus escrúpulos e cavalgar no topor dos monsenhores podados. Posso sofrer amanhã a linda nódoa de vinho das flores murchas no chão. As fábricas têm os seus pátios, os muros tem seu atrás. No quartel são genti...

Vinícius de Moraes - Poema

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Soneto de agosto Tu me levaste, eu fui... Na treva, ousados Amamos, vagamente surpreendidos Pelo ardor com que estávamos unidos Nós que andávamos sempre separados. Espantei-me, confesso-te, dos brados Com que enchi teus patéticos ouvidos E achei rude o calor dos teus gemidos Eu que sempre os julgara desolados. Só assim arrancara a linha inútil Da tua eterna túnica inconsútil... E para a glória do teu ser mais franco Quisera que te vissem como eu via Depois, à luz da lâmpada macia O púbis negro sobre o corpo branco. Imagem retirada da Internet: nudez

John Donne - Poema

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Elegia: indo para o leito Vem, Dama, vem que eu desafio a paz; Até que eu lute, em luta o corpo jaz. Como o inimigo diante do inimigo, Canso-me de esperar se nunca brigo. Solta esse cinto sideral que vela, Céu cintilante, uma área ainda mais bela. Desata esse corpete constelado, Feito para deter o olhar ousado. Entrega-te ao torpor que se derrama De ti a mim, dizendo: hora da cama. Tira o espartilho, quero descoberto O que ele guarda quieto, tão de perto. O corpo que de tuas saias sai É um campo em flor quando a sombra se esvai. Arranca essa grinalda armada e deixa Que cresça o diadema da madeixa. Tira os sapatos e entra sem receio Nesse templo de amor que é o nosso leito. Os anjos mostram-se num branco véu Aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu De Maomé. E se no branco têm contigo Semelhança os espíritos, distingo: O que o meu Anjo branco põe não é O cabelo mas sim a carne em pé.      Deixa que minha mão errante adentre. Atrás, na frente, e...

Francisco Buarque de Holanda - Poema

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O que será (à flor da pele) O que será que me dá Que me bole por dentro, será que me dá Que brota à flor da pele, será que me dá E que me sobe às faces e me faz corar E que me salta aos olhos a me atraiçoar E que me aperta o peito e me faz confessar O que não tem mais jeito de dissimular E que nem é direito ninguém recusar E que me faz mendigo, me faz suplicar O que não tem medida, nem nunca terá O que não tem remédio, nem nunca terá O que não tem receita O que será que será Que dá dentro da gente e que não devia Que desacata a gente, que é revelia Que é feito uma aguardente que não sacia Que é feito estar doente de uma folia Que nem dez mandamentos vão conciliar Nem todos os ungüentos vão aliviar Nem todos os quebrantos, toda alquimia Que nem todos os santos, será que será O que não tem descanso, nem nunca terá O que não tem cansaço, nem nunca terá O que não tem limite O que será que me dá Que me queima por dentro, será que me dá Que me perturba o s...

Francisco Perna Filho - Poema

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Destino de Pedra De quem são os meninos que dormem ao relento, que sonham grandiosidades, e sucumbem nos esgotos da cidade grande consumidos na fumaça da própria miséria de uma existência precária? De onde vêm esses meninos que cumprem um destino de pedra, pedras de crack que sempre carregam. Sísifos da modernidade, armados de inconsciência, dormitando pelos esgotos e sucumbindo na ilusão do transitório? De que são feitos os seus dias, os seus olhos medonhos, as suas almas esvaídas na maldade inocente da química mortífera de uma breve existência? Para onde caminham essas criaturas silenciadas em mentiras, em promessas e bofetadas, em fome de existência, em liberdade forjada? São filhos da rua, da lástima do mundo, da indiferença dos homens. Vêm dos restos do mundo, da miséria urbana, das crateras da incompreensão. São feitos do lodo da existência, das sobras de ideologias, do sexo barato das ruas. Caminham em círculo, emperdenidos apóstolos, com suas gotas, com suas pedras, com seus ...