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Mostrando postagens de julho, 2010

Cecília Meireles - Poema

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Noções Entre mim e mim, há vastidões bastantes para a navegação dos meus desejos afligidos. Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos. Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge. Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza, só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram. Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a. Minha virtude era esta errância por mares contraditórios, e este abandono para além da felicidade e da beleza. Ó meu Deus, isto é minha alma: qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário, como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera. In. A Magia da Poesia Imagem retirada da Internet: Espelho

Ezequiel Theodoro da Silva - Ensaio

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A Leitura vai morrendo pelo caminho. Que desgraça! Soube, hoje, do encerramento das atividades do LEIA BRASIL. Não posso deixar de vir a público para expressar a minha imensa tristeza diante deste acontecimento. Ao mesmo tempo, para demonstrar a minha intranquilidade a respeito do destino da leitura neste país. Ao longo de minhas lutas por mais e melhores leituras para o povo brasileiro, sempre defendi a necessidade de uma "frente" constituída por uma grande - e diversa - quantidade de entidades (públicas e privadas) voltadas ao estudo e à promoção da leitura. A razão é mais do que óbvia: a vergonhosa, a horripilante paisagem que atualmente resulta dos descuidos e descasos dos governos brasileiros em relação ao desenvolvimento das práticas de leitura. Em 2010, terceiro milênio, em meio às sociedades de informação e do conhecimento, o Brasil apresenta o terceiro PIOR nível de desigualdade de renda do mundo e um quadro sombrio expressando o número de leitores reais. A ferida do...

Brasigóis Felício - Ensaio

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Bardos da goianidade na paulicéia desvairada Brasigóis Felício Corria ano da graça de 1983. A dita cuja não estava branda – ao contrário, trotava muito dura. O tempo estava sujeito a chuvas e bordoadas da polícia política – embora fosse tempo de ditadura, governos investiam em cultura. Já no “salve-se quem puder!” da gestão não sei se do Paulo Marins, ou do Paulo Maluf, o governo promoveu um encontro nacional de cultura. A delegação de Goiás, dividida entre o alto e o baixo clero do poetariado, tinha a patota dos incluídos e o exército intelectual de reserva dos eternos excluídos. O alto clero dos intelectuais de gabinete, os dignatários do alto clero da oficialidade cultural tiveram direito a passagem aérea e hospedagem em hotéis cinco estrelas. Os do baixo clero, atirados em um campo de concentração (o Pacaembu) – ainda assim pegando o boi, uma vez que, sendo poetas, p...

Francisco Soares Feitosa - Poema

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Habitação Nem saberia dizer onde moro exatamente. Desconfio que habito dentro de meus dentes. Doutras vezes era a penugem dos canários, e era ali, naquelas sedas, penugem e cor, que eu me mudava para minhas mãos, senão os gatos, o dorso, viajava neles. E se um pássaro súbito: não pelo avisto, pelo ouvido porém; (o som é que é súbito) — e outra vez me mudava, era só ouvidos. Para os meus olhos, eles se esbarraram – sobre todos os horizontes – em cima da beleza: clamassem os dentes, clamassem as mãos, clamassem as oiças, a pele também clamasse — qual nada! — haveria de engolfá-la só com os olhos — anos a fio moro neles. Um dia morei sobre o peito de minhas mães, branca e preta, as mães, (todas verdadeiras) na mesma medida, agora, assim, minha banda-fêmea te regaça: desta vez “mulher”, sou tua “mãe”. Pousa, amor, te esbalda na cavilha deste peito-pulso que pulso de pulsar te estremece: teus dentes, tua-inteira, toda-tua, tua cara, teus cabelos, tua pele — tudo — e alma; deixa-...

Caio Porfírio Carneiro - Conto

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A vingança Ele andava lentamente à minha frente. Aproximei-me. Emparelhamo-nos. Sorri: - Bom dia. - Bom dia. O bom dia dele foi de susto e curiosidade. Voltei a sorrir: - O senhor não me conhece. Mas devo conhecê-lo. - De onde? - Depois lhe digo. Chuvinha miúda e nós dois sem guarda-chuva. Poucas pessoas passavam por nós. A igreja ali em frente, a banca de jornais e revistas tampando-me um pouco a visão da fachada. Meu desprezo por aquele homem ampliava-se: - Vai comprar jornais ou vai rezar? - Vou rezar. - Acompanho. - Mas quem é você? Não estou reconhecendo. Os olhos dele eram apertados, como de míope, mas não usava óculos. A calvície luzidia, onde rebrilhavam pingos de chuva. - Não importa agora. Não vai rezar? Eu o acompanho. Rezar é bom. Alivia. Não é mesmo? Olhava-me com rapidez. Apressou o passo. Apressei o meu. E emparelhados chegamos à igreja. Dei-lhe passagem, que a porta era estreita: - Faça o favor. Ele se ajoelhou próximo ao altar, olhos meio fechados fitos na cruz enorme,...

Gerardo Mello Mourão - Poema

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SUÍTE DO COURO - 1 CHÃO DO PAÍS Do alto destes céus aeronáuticos o poeta contempla o chão da capitania - província, país, [país hereditário, digamos - Onça, leopardo seria - é um boi ou boi - fora boi - Couro duro esticado - malhas malhadas Secando ao sol ao vento à solidão. De couro é aquele chão aquela chã Couro estendido em varas Pontudos marmeleiros vão secando também - O couro estende Suas manchas de pêlo sobre Matos magros de campina caatinga tabuleiro Ravinas e barrancos - sobre Serranias de antigos nomes. De olhos secos uns viventes de couro Cabra novilhas éguas e outras pessoas Caminham sobre Chão de couro entre cinza e carvão De apagadas coivaras. A mancha ao longe água seria - poço De rio adormecido - miragem de areia seca Crescida à lágrima nos olhos: Esperança de súbitos sertões por onde Urram saudosos bois nos alagados E na memória de seus pastos bons. Em maranhões emaranhados No chão de couro pelas paraíbas Pia...

Astrid Cabral - Poema

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Ensaiando Partidas Cadeiras de balanço mastigavam os soalhos ensaiando partidas, embalando fundas ânsias contra bojos de navios trancados a âncoras. Caolhos os rádios acendiam as mágicas pupilas de gato e vozes espetrais sem apoio de bocas e rostos chegavam, de que mundo, de que mapa? Ventiladores giravam as corolas metálicas no chão invertido dos tetos criando brisas que não se aventuravam pelas ruas polidas de sol nem ousavam soprar a fuga de velas. Na praça São Sebastião galeras de bronze destinavam-se a longínquos continentes mas imóveis não singravam ondas de lusas pedras deixavam-se estar molhadas tão só de chuvas proas frustradas de horizontes e azuis. Que estranha calmaria as conjurara, quilhas vacinadas contra a vertigem dos ventos? Ou estariam desde sempre fundeadas nas invisíveis correntes d’água dos séculos? Dobravam os sinos abafando os frenéticos pianos a planger nos salões dos sobrados mas o que sempre se ouvia, pouco importa se baixo e rouco, era o gargarejar do rio a v...

Deu na Folha de São Paulo

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Penguin-Companhia recria clássicos Parceria entre editoras britânica e brasileira, novo selo aposta em edições caprichadas de títulos consagrados DE SÃO PAULO Celebrada superlativamente como o acontecimento do mercado editorial brasileiro em 2010, a parceria entre a Companhia das Letras e a Penguin se baseia na simplicidade dos clássicos. À venda a partir de segunda-feira, os quatro primeiros títulos do selo Penguin-Companhia não trazem novidade em si, mas primam pelo design lendário da multinacional britânica, por novas traduções e pelo que no meio livreiro se chama de "aparatos": prefácios, posfácios, intervenções editoriais. As obras inaugurais são: "O Príncipe", de Maquiavel, com prefácio de Fernando Henrique Cardoso e nova tradução, de Maurício Santana Dias; "Pelos Olhos de Maisie", de Henry James, com fortuna crítica, comentários do autor e tradução revista por Paulo Henriques Britto; "O Brasil Holandês" e "Joaquim Nabuco Essencial...

Astrid Cabral - Poema

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Água Doce A água do rio é doce. Carece de sal, carece de onda. A água do rio carece da vândala violência do mar. A água do rio é mansa sem a ameaça constante das vagas sem a baba de espumas brabas. A água do rio é mansa mas também se zanga . Tem banzeiro, enchente correnteza e repiquete. Pressa de corredeira sobressalto de cachoeira traição de redemoinho. A água do rio é mansa corre em leito estreito.. Mas também transborda e inunda também é vasta, também é funda também arrasta, também mata. Afoga quem não sabe nadar. Enrola quem não sabe remar. A água do rio é doce mas também sabe lutar. A água doce na pororoca enfrenta e afronta o mar. Filha de olho d'água e de chuva neta de neve e de nuvem a água doce é pura mas também se mistura. Tem água cor de café tem água cor de cajá tem água cor de garapa tem água que nem guaraná. A água doce do rio não tem baleia nem tubarão tem jacaré, candirú, piranha puraquê e não sei mais o quê. A água doce não é tão doce. Antes fosse. In. ...

Bruno Dorigatti entrevista Denise Bottmann

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Por ser de UTILIDADE PÚBLICA , reproduzo aqui a entrevista que a Tradutora Denise Bottmann, editora do blog Não gosto de Plágio , concedeu ao Jornalista Bruno Dorigatti, do Portal Literal , em 15/03/2010. De plágios e processos Por Bruno Dorigatti * A notícia estourou no fim de fevereiro e a repercussão tem sido considerável. Motivada por matérias publicadas em dezembro de 2007 pelo jornal Opção , de Goiânia, e pela Folha de S. Paulo , a tradutora e historiadora Denise Bottmann criou no mesmo mês blog Não gosto de plágio , onde vem denunciando casos de plágio em obras clássicas de nomes como Goethe, Tolstói, Dante, DH Lawrence, entre dezenas de outros autores. Na época, as denúncias caíram sobre as editoras Martin Claret e Nova Cultural. O dono da primeira, cujo nome é o mesmo da editora, entrou na Justiça contra Bottmann e a ação está em andamento. A tradutora, porém, não se intimidou e segue com o seu trabalho de levantar e apurar “coincidências” que ultrapassam o limite do toleráve...