sábado, 7 de abril de 2012



Memory-full
   A invençãoda memória


                                                                                                       
A memória do tempo relaciona-se com o que estão dentro do que pode ser conhecido ou lembrado pela mente. Não pode abarcar o tempo intemporal, que transcende tempo e espaço – lugares ilusórios, em que pode transitar a memória. Ainda que a memória seja redutível ao tempo, o tempo não pode ser circunscrito à memória. Pois há um tempo total, que transcende todas as idades: o tempo da eternidade.

Não sabemos esquecer os bons e maus momentos que vivemos. Insistimos em carregar esta bagagem pesada e inútil, como fluxos de memória que nos ferem como facas, produzindo angústia e sofrimento. Tudo por não saber a paisagem da vida é sempre jovem, em micro-átomos de segundos se renova. Tudo muda todo o tempo, só não muda a mudança infinita. Mas insistimos em respirar o mofo do conhecido. É que sofremos do vício de viver a fuçar e refocilar no baú da memória. Não há o que não mude eternamente na paisagem da vida. Não há vida que não morra, nem há morte que não esteja sempre viva. Não há paisagem que não mude, nem passageiros ou viagens: só permanece a infinita viagem da Vida.

Destinos se cruzam nos aeroportos, sem que se conheçam uns aos outros, ou a si mesmos. Fernando Pessoa nos diz: “Para viajar, basta existir. Vou de dia para dia, de estação para estação, no comboio de meu corpo, ou de meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos sempre iguais e sempre diferentes como, afinal, as paisagens são. A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos”.

A memória é o inferno vivido agora. E a ele nos condenamos. Com a memória criamos tempo na mente. Então passamos a navegar em suas turbulências vazias. A mente comum não pode conter a supermente, a que vive além da memória ou da inteligência racional de que o ser humano é dotado. A mente total, unificada com o silêncio criador do Absoluto, transcende os limites do Ser que pode ser. É uma vastidão não nascida, que não pode morrer.

Não existe fantasma que venha do passado. O fantasma é o passado. O tempo, assim  como a vida, é uma nave em eterna viagem: “Não apita na curva/não para no porto/não espera ninguém/”. Paul Auster, em seu romance A invenção da solidão, cita Santo   Agostinho: “A mente é estreita demais para conter a si mesma inteiramente. Mas onde está essa mente que não está contida nela mesma? Estará em algum ponto fora dela, e não em seu interior? De que modo, portanto, ela pode ser uma mente, se não está contida nela?”.

Em certo instante, diz S. um dos personagens de A invenção da solidão – um compositor banido do cenário musical da França, acusado de colaborar com os nazistas, por permitir a execução de uma peça de sua autoria, durante a ocupação: “Tudo é milagroso. Nunca houve uma época mais maravilhosa do que esta”. Isto, apesar de sobreviver em um quartinho miserável, passando fome e frio, escondido atrás da máscara da excentricidade, que lhe permitia ser outro em si mesmo. S. ocupava-se, obsessivamente, em escrever uma sinfonia cuja execução duraria doze dias e noites seguidas.

Em seu fracasso sem esperança ele descansava no milagre de estar vivo. Não se importava com o fato de, sendo um artista, viver como um artista mendigo; Na insustentável leveza de Ser, equilibrava-se na corda bamba, entre a certeza do fracasso e o milagre inerente ao próprio simples fato de existir.  Talvez por saber que – maravilhosa ou miserável – a única época que pode ser impregnada pelo milagre da Vida é o eterno agora.


Imagem retirada da Internet: Memória