sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Flávio Paranhos - Conto




Um senhor distinto



O carro estacionou na porta do saloon. Aquilo me incomodou bastante. Da janela do quarto onde me encontrava, pude ver um senhor de paletó e gravata, aparentemente muito distinto, descer do carro. Senti-me incomodado. Não que eu fosse exigente, afinal, a prostituta que acabara de me servir já recolocava seu espartilho e calçava suas botas. Não. Eu não era assim tão exigente. O que me incomodava era o fato de que estava em pleno velho oeste e hospedava-me naquele velho saloon e não fazia sentido um senhor engravatado descer de um carro ali. Não cabia. O senhor era muito distinto, é verdade. Mas isso não mudava muito as coisas. Preocupado, procurei pelo meu cavalo. Ainda estava ali. Fiel e sempre pronto para me receber de um salto, caso fosse necessário fugir rápido (como tantas vezes já fora). Despachei a prostituta cansada (eu sou terrível) e comecei a me vestir. Precisava descer e conversar com o senhor distinto. Precisava me livrar daquele incômodo (não, eu não o mataria, referia-me realmente ao incômodo, sem duplo sentido). Já pronto, descendo a escada que dava para o salão principal, batia propositadamente com as esporas de meu par de botas contra os degraus. Pareceria determinado. O senhor distinto já estava instalado em uma das mesas, bebendo seu cowboy duplo (sem duplo sentido). Tinha um fáscies absolutamente incaracterístico. Indiferente, mesmo. Também indiferentes estavam todos os demais presentes, como se aquilo fosse absolutamente incaracterístico. E normal. Isso, mais que incomodar, me irritou profundamente. Caminhei em direção à mesa do senhor distinto. Parei em frente a ele. Nada falei. Deveria parecer óbvia (e atrevida) minha intenção de me juntar a ele.
- Gostaria de me acompanhar ? - ele me perguntou com um tom de voz simpático, que me irritou ainda mais.
- Obrigado - tentei parecer o mais indiferente possível.
- Fique à vontade. - Depois, dirigindo-se ao garçom: - Mais um uísque duplo, aqui pro meu amigo. Sem gelo, por favor.
Aquilo já era demais. Pedir por mim e acertar exatamente o que eu queria era demais. Apesar da provocação, contive-me. Ainda não era hora.
- Como sabia que eu queria um cowboy duplo?
- Apenas um palpite.
- E se seu palpite estivesse errado?
- Você me diria e mudaríamos o pedido.
Sua naturalidade estava me desarmando. Precisava me cuidar.
- E se eu aceitasse por educação?
- Não faria isso.
- Por quê? Acha que sou um mal-educado?
- Não. Apenas um palpite.
- Sei...
Silêncio. Não me sentia disposto a quebrá-lo. Não me incomodava. Ele sim.
- Quem é o senhor? - quebrei o silêncio.
- Ninguém em especial. E você?
- Ninguém em especial? Que diabo de resposta é essa?
O garçom trouxe meu uísque. Sua naturalidade me espantou.
- O senhor não é quem diz ser - decidi atacar.
- Como assim?
- Diz que não é ninguém em especial.
- E?
- Acontece que não se chega a um lugar desses em um carro e vestido de paletó e gravata.
- Por que não?
- Porque não é lógico. Aqui é o velho oeste.
- Não vejo problemas.
- Você não cabe aqui.
- Não percebo ninguém, além do senhor, que esteja se importando com isso - ele tirou um cachimbo de uma bolsinha e iniciou o ritual para acendê-lo.
- Isso só piora as coisas. A naturalidade com que o tratam aqui é bastante curiosa. Diria até que é suspeita.
- Suspeita?
- É. Como se estivessem num transe. Incapazes de alcançar o absurdo da situação.
- Mas nada há de absurdo.
- Quer dizer que o absurdo não existe, que tudo é relativo, que depende do referencial?
- Não. Quero dizer apenas que não é absurdo que uma pessoa honesta sente-se em um bar e beba seu uísque enquanto espera a vez para ser atendido por uma prostituta.
- Prostituta? Não vai conseguir. Elas não gostam de estranhos por aqui.
Como para me desmentir, a que acabara de me servir desceu a escada e veio em direção a ele. Parou à sua frente (quase como eu havia feito, minutos atrás) e esperou.
- Pode começar - ele ordenou.
Ela se abaixou, retirou seus sapatos e meias, e começou a lamber-lhe os entrededos dos pés.
- Mas isso é ultrajante! – protestei, levantando-me e me preparando para as vias de fato. - Não pode obrigar a pobrezinha a fazer isso! Nenhum dinheiro vale isso. Quanto ele lhe paga, menina? Eu cubro.
- Meu amigo, não se exalte. Não a estou forçando. Nem sequer estou pagando.
- Não paga?
A surpresa me derrubou de volta à cadeira.
- Não. Esta moça tem enorme prazer em me fazer esse carinho.
- Carinho?
- Não acha? É tão relaxante...
A prostituta terminou seu “carinho”, recolocou as meias e os sapatos metodicamente no sujeito e se levantou, com um sorriso. Ninguém à nossa volta parecia ter notado a cena. Ou se importado com aquilo.
- Escute aqui. Nada que o cerca é natural. O senhor não é natural. Todos agem com naturalidade, mas nada disso é lógico. Não sei o que está acontecendo, mas sei que não estou insano. Não me sinto insano.
- Não está.
- Como sabe?
- Um palpite, apenas.
- Não quero mais saber de seus palpites. Quero saber o que significa tudo isso!
- Nada.
- Como?
- Nada significa. Precisa significar algo?
- É claro que sim. Tudo significa alguma coisa.
- Sendo assim, qual é o significado de sua curiosidade extrema a meu respeito?
- Não inverta as coisas. É uma curiosidade natural.
- A sua curiosidade pode ser natural, mas eu não sou?
- Está tentando me confundir. Não me engana.
- De maneira nenhuma. Gostaria apenas de acalmá-lo.
- Estou calmo.
- Se é assim...
- Mas continuo querendo saber o que o senhor representa aqui.
- Não estou representando. Estou agindo naturalmente.
- Está querendo me irritar?
- Por favor...
Naquele momento senti minhas forças me deixarem. Precisava resistir. Todos haviam sucumbido, menos eu. Precisava resistir.
- O senhor já fez o que queria? – perguntei e, dando-lhe a entender que só havia uma resposta possível, propus: - Pode ir agora.
- Por que o incomodo tanto?
- O senhor não pertence a esse lugar.
- E você pertence?
- Pertenço.
- Quem lhe disse?
- Ninguém. Eu sei.
- Então me dá o direito de também me considerar como pertencendo a esse lugar.
- O senhor não pertence. Eu sei.
- Não vamos mais discutir. Não vale a pena.
Nesse momento fomos interrompidos pelo garçom, que tocou o ombro do sujeito de leve, como a lembrar-lhe de algo.
- Você já quer agora? – o senhor distinto perguntou.
- Se o senhor assim o desejar... – respondeu o garçom.
- Pode ser.
O garçom retirou meias e sapatos dos pés do distinto senhor, que os apoiara em um banquinho, ajoelhou-se e começou a lamber avidamente seus entrededos. Parecia ter muito mais prazer nisso do que a prostituta. Particularmente no hálux
- Ele prefere o hálux – observei.
- Hálux? – o garçom interrompeu momentaneamente o espetáculo para satisfazer sua ignorante curiosidade.
- Dedão – esclareci.
- Ah.
O garçom voltou à sua tarefa com a mesma avidez com que iniciara. Em dez minutos estava terminado. Satisfeito.
- Ele parece satisfeito – observei novamente em voz alta.
- Ele está satisfeito. Você é que não me parece nada satisfeito.
- Não estou. Estou enojado.
- Está assustado. Pode estar até enojado, mas não pelo que pensa estar.
- Não entendo.
- É o único diferente aqui. Penso que o que o enoja é o fato de ser o único diferente.
- Posso ser o único diferente, mas sou normal.
- Seria realmente normal alguém tão diferente? Como pode considerar-se normal se os demais não o consideram assim? Não acha que algo está errado?
- Acho. Está tudo errado. Estão todos loucos. Somente eu estou lúcido.
- Meu amigo, detesto informar-lhe que nós não pensamos assim. Logo, o senhor não pode ser normal.
- Isso é impossível. Não faz sentido.
- Faz sentido o que decidimos que faça. E decidimos que nós fazemos sentido, não você.
O que restava de minhas forças, perdi. Não podia com aquela argumentação (muito lógica, por sinal). Era demais para mim. Sentia que me renderia. Aos poucos, consegui enxergar melhor o que se passava à minha frente. Como tinha sido estúpido! O senhor distinto só podia estar certo.
- Meu senhor - comecei, muito respeitosamente - devo-lhe desculpas. Sinceramente, estou bastante envergonhado. Não consegui enxergar o óbvio. É claro que a razão estava com o senhor este tempo todo. Afinal, um senhor tão distinto...
- Não tem problema.
- Mais uma coisa. Se permite... se não lhe for incômodo...eu adoraria provar o gosto de seus entrededos dos pés. O senhor me permitiria?
- Sinto muito, mas não vai dar. É que tenho que ir embora. Está tarde e minha mulher fica preocupada quando me demoro muito nessas happy hours.
Dizendo isto, o senhor distinto se levantou e caminhou em direção à porta do salloon, que abriu com elegância. Observei sua saída com um aperto no coração. Algo me dizia que jamais saberia o sabor que tinha os entrededos de seus pés.



In. Epitáfio. São Paulo: Nankin, 2003.

Imagem retirada da Internet: saloon