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Mostrando postagens de julho, 2015

Graciliano Ramos - Conto

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Primeira aventura de Alexandre Ney Latorraca A quela noite de lua cheia estavam acocorados os vizinhos na sala pequena de Alexandre: seu Libório, cantador de emboladas, o cego preto Firmino e mestre Gaudêncio curandeiro, que rezava contra mordeduras de cobras, Das Dores, benzedeira de quebranto e afilhada do casal, agachava-se na esteira cochichando com Cesária. — Vou contar aos senhores... principiou Alexandre amarrando o cigarro de palha. Os amigos abriram os ouvidos e Das Dores interrompeu o cochicho: — Conte, meu padrinho. Alexandre acendeu o cigarro ao candeeiro de folha, escanchou-se na rede e perguntou: — Os senhores já sabem por que é que eu tenho um olho torto?  Mestre Gaudêncio respondeu que não sabia e acomodou-se num cepo que servia de cadeira. — Pois eu digo, continuou Alexandre. Mas talvez nem possa escorrer tudo hoje, porque essa história nasce de outra, e ó preciso encaixar as coisas direito. Querem ouvir? Se não querem,...
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A Revista Banzeiro Textual tem o prazer de apresentar inéditos (em livro) do Poeta  Marcelo Vieira Ribeiro ,  natural de Ouro Preto/MG, que vive no Rio de Janeiro/RJ, desde 1997, onde trabalha como funcionário público federal. Engenheiro civil e advogado, é poeta tardio, tendo começado a escrever regularmente em 2012. Desde então, costuma publicar seus poemas em sua página no Facebook. Foi um dos 15 classificados no Prêmio Off-Flip 2014. Marcelo Vieira Ribeiro No cinzeiro Sobrou no cinzeiro, a ponta do cigarro. A memória, perdeu-se por inteiro no alcatrão e na nicotina. Nada retém a fumaça da história, apenas o catarro e o pulmão, negro e refém de sua própria sina. A crise do poeta O poeta está em crise: faltam-lhe o verso e o pão. Traz na valise dívidas e nenhum perdão, e à mão, ainda mais vazia, a folha que lhe consome a noite e o dia. Para o poeta em crise, o poema se faz no branco senão da fome. ...

Francisco Perna Filho - Conto

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POR AMOR? Bullet Nada arrefece o ódio, principalmente quando ele é de morte. O que vale é a intenção, a vontade de consumar o ato. A certeza de que não vamos falhar. Dependendo da vítima, o projétil pode ser de chumbo, prata ou ouro, mas para ele, como dissera o legista: foi de chumbo mesmo. Um único e exclusivo tiro, à queima-roupa: pá! Assim mesmo, seco, como a batida de uma acha de lenha. Eu me lembro bem: era sexta feira e eu acabara de deixar a Faculdade do Largo São Francisco, quando ouvi pelo rádio do carro a notícia fatídica. Fiquei atônita, enfiei as mãos na buzina, joguei o carro no acostamento.  Não sabia mais o que fazer e só pensava no pior. Inúmeros os cadáveres, uma verdadeira chacina, não se sabe ao certo quantos os mortos, informava o locutor da Rádio Bandeirantes. Mesmo que não tivesse sido à bala, uma, duas, não importa a quantidade, o calibre, não importa como, o certo é que ele está morto, sem ninguém para reivindicar a autoria, seria ma...

Raul Bopp - Poema

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DIAMBA   Negro velho fuma diamba pra amassar a memória. O que é bom fica lá longe… Os olhos vão se embora pra longe. O ouvido de repente parou. Com mais uma pitada o chão perdeu o fundo. Negro escorregou. Caiu no meio da África. Então apareceu no fundo da floresta uma tropa de elefantes enormes trotando. Cinquenta elefantes puxando uma lagoa. – Para onde vão levando esta lagoa? Está derramando água no caminho. A água do caminho juntou correu, correu. Fez o rio Congo. Águas tristes gemeram e as estrelas choraram. - Aquele navio veio buscar o rio Congo! Então as florestas se reuniram e emprestaram um pouco de sombras pro rio Congo dormir. Os coqueiros debruçaram-se na praia para dizer adeus. In. Urucungo (19320) Poemas negros

Raul Bopp - Poema

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Raul Bopp Estos Diábolus... Dolores a filha do mestre da banda foi levar figos maduros para el padre. O padre aproveitou a ocasião para dar unos conselhos cristianos. - Hijita, es tiempo de prepara-te para la primera comunión. No outro dia, hora da sesta, a filha do mestre da banda bateu com os dedos tímidos à porta da sacristia. Entonces o padre notou que Dolores tenia unos diábolus malos metidos por el cuerpo. - Cosa muy mala hijita. Ai, senhor cura... No corpinho nervoso da filha do mesmtre o padre apalpou noventa y nueve diábolus. - Con uno más caes en pecado mortal, hijita. - Ai salve-me del pecado, senhor cura. O padre trancou bem a porta para matar todos los diábolus. Dolores tapava o rosto com las manos. pois o padre encontrava diábolus por todas las partes. - Déje-me senhor cura! Pero el cura decia que ainda havia muchos más diábolus, fugindo por las piernas e por el pescuezo. D...

Lygia Fagundes Telles - Conto

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Lygia Fagundes Telles Herbarium Todas as manhãs eu pegava o cesto e me embrenhava no bosque,tremendo inteira de paixão quando descobria alguma folha rara. Era medrosa mas arriscava pés e mãos por entre espinhos,formigueiros e buracos de bichos (tatu? cobra?)procurando a folha mais difícil, aquela que ele examinaria demoradamente: a escolhida ia para o álbum de capa preta. Mais tarde faria parte do herbário, ele tinha em casa um herbário com quase duas mil espécies de plantas. “Você já viu um herbário?” – ele quis saber. Herbarium, ensinou-me logo no primeiro dia em que chegou ao sítio. Fiquei repetindo a palavra, herbarium. Herbarium. Disse ainda que gostar de botânica era gostar de latim, quase todo o reino vegetal tinha denominação latina. Eu detestava latim mas fui correndo desencavar a gramática cor de tijolo escondida na última prateleira da estante, decorei a frase que achei mais fácil e na primeira oportunidade apontei para a formiga saúva subindo n...

Gerardo Mello Mourão - Poesia

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Elegia de Susana pulchri "0 pulchritudo!" Santo Agostinho "Un soir j'ai assis Ia Beauté sur mes genoux" Rimbaud "Susana era a delícia da beleza. Fizeram-na despir o véu para se saciarem de sua beleza. Delicata nimis et pulchra specie' - (In Vulgata) Do Livro de Daniel - Parte Deuteronômica Elegia de Susana Atravessa a noite e o coração a flecha de seu nome: Serias Isabel ou Catarina eras Susana E os olhos te distinguem no catálogo dos sonhos, pois, eras uma vez a rosa, o pêssego, o favo de luz das pupilas de mel e no vinho da boca a voz de mel a melodia a embriaguês das noites e dos dias, pois, eras bela ao crepúsculo bela ao crepúsculo da aurora - e ao crepúsculo da tar...