Graciliano Ramos - Conto
Primeira aventura de Alexandre Ney Latorraca A quela noite de lua cheia estavam acocorados os vizinhos na sala pequena de Alexandre: seu Libório, cantador de emboladas, o cego preto Firmino e mestre Gaudêncio curandeiro, que rezava contra mordeduras de cobras, Das Dores, benzedeira de quebranto e afilhada do casal, agachava-se na esteira cochichando com Cesária. — Vou contar aos senhores... principiou Alexandre amarrando o cigarro de palha. Os amigos abriram os ouvidos e Das Dores interrompeu o cochicho: — Conte, meu padrinho. Alexandre acendeu o cigarro ao candeeiro de folha, escanchou-se na rede e perguntou: — Os senhores já sabem por que é que eu tenho um olho torto? Mestre Gaudêncio respondeu que não sabia e acomodou-se num cepo que servia de cadeira. — Pois eu digo, continuou Alexandre. Mas talvez nem possa escorrer tudo hoje, porque essa história nasce de outra, e ó preciso encaixar as coisas direito. Querem ouvir? Se não querem,...