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Mostrando postagens de março, 2012

Mário Pederneiras - Poema

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Madrigal Teu olhar é tão manso, Tão de ardências febris desprevenido e leigo, Tão suave, tão bom, tão cheio de descanso; Tão sereno é teu beijo, Tão leve, tão sutil o teu próprio desejo; Tudo Em ti é tão meigo. Sentimentos e Carne, Olhar, Voz e Carinhos. Que muita vez sentindo, Junto de mim o teu aspecto lindo, Que meu amor intenso, Indômito, açulado, espera e espreita, Penso Que tu, Querida, tu, és toda feita De arminhos E veludo. Quer num suave enleio Sentimental, De idílio e de bondade, Onde somente se destaque e arda De ser querida a íntima alegria; Quer na intimidade Dominadora e treda, De um lascivo coleio, Quase de invertebrada e quase de oriental, És a mesma de sempre, aromada e macia, Oh! meu anjo de guarda! Oh! minha linda Salomé de seda! Um lago, Sem ritmos agitados, De água de b...

Marilene Dantas Sepulvida Nicerio - Poema

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Falando de Sedução A luxúria, poderosa arma da sedução. Aos olhos da sociedade puritana Leviana forma de expor aquela vibração. Se praticada com menor de idade Perigosa contravenção! A sedução se não é jogo, é regra Cuja participação, depende de mais de um. Em cada canto, em cada viela à espera De um jogador pouco comum. Seduzir com maestria é dom divinal Seja no olhar, seja na conjunção carnal Seduzir ou ser seduzido? Eis a questão! Bicho de sete cabeças, essa tal de sedução. A cantada sedutora fascina o desprevenido. Solução de uma neurose real. Não há quem resista esta condução Subindo ou descendo as vielas do coração. Imagem retirada da Internet: sedução

Francisco Perna Filho - Poema

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Foto by  Rhett A. Butler ACONTECIMENTOS São duros os acontecimentos do meu tempo: escândalos, crimes, corrupção. Enquanto isso,  lá no fundo, a poesia, à maneira da flor, imprensada na rocha, nas pedras de Cida Almeida, silenciosa, rompe o escuro das trevas e, timidamente, brota. Do lado de cá, na rua deserta, não há mais o grito do jornaleiro, somente o silêncio: Chico Anysio, Millôr Fernandes, /tio Tito Perna. O tempo de agora continua infinito, e nele retumbam os acontecimentos no instante, no instantâneo do click, do compartilhamento: - quantos homens sós, meu Deus! As vozes do meu tempo são midiáticas, virtuais, escondidas, quase inaudíveis, mas fazem estragos maiores do que o grito. A dor do meu tempo é coletiva, sofremos todos, ainda cedo, desde a Síria,  Egito,  Palestina,  Haiti. Sentimos muito, entre uma colher e outra  que levamos à boca. Já nos aco...

Lindolf Bell - Poema

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Imagem by Androxa A PALAVRA DESTINO Deixai vir a mim a palavra destino. Manhã de surpresas, lascívia e gema. Acasos felizes, deslizes. Ovo dentro da ave dentro do ovo. Palavra folha e flor. Deixai vir a mim palavra e seus versos, reversos:          metamorfose,          metaformosa. Deixai vir a mim a palavra pão-de-consolo. Livre de ataduras, esparadrapos, choques elétricos e sutis guardanapos em seco engolidos socos. Deixai vir a mim a palavra intumescida pelo desejo . a palavra em alvoroço sutil, ardil e ave na folhagem da memória. A palavra estremecida entre a palavra. A palavra entre o som mas entre o silêncio do som. Deixai vir a mim a palavra entre homem e homem. E a palavra entre o homem e seu coração posto à prova na liberdade da palavra coração. Deixai vir a mim a palavra destino.

Odorico Tavares - Poema

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VOLTA À CASA PATERNA Limpem o espelho. Se quiserem, não mexam na mobília. Mas limpem o espelho: Vai haver a volta a casa paterna. Verdade é que não sei se tudo pode ficar como dantes: se os sapatos ainda me caberão, se as roupas apertadas ficarão, se nos livros as antigas leituras estarão. Mas limpem o espelho. O rio pode muito bem ter desviado o seu curso, e não encontrarei mais o local dos banhos à tardinha. As pedras das ruas possivelmente não terão mais as marcas dos meus pés. E nenhum indivíduo me indicará os caminhos conhecidos. As árvores mesmo, se não são outras, mostrarão velhos troncos irreconhecíveis Perguntarei inutilmente pelos companheiros: Antônio? Frederico? Baltazar? Oh! vozes que não me respondem! Amigos que jamais verei! Decerto terei pelo menos as vozes dos pais ressoando de leve pelas paredes. Por isso, limpem o espelho, porque, apesar de todos os disfarces, a imagem da criança que se foi há muito tempo e hoje voltou se refletirá nít...

Bandeira Tribuzi - Poema

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Imagem Vista do mar, a cidade,  subindo suas ladeiras,  parece humilde presépio  levantado por mãos puras:  nimbada de claridade,  ponteia velhos telhados  com as torres das igrejas  e altas copas de palmeiras.   Seus dois rios, como braços  cingem-lhe a doce figura. Sobre a paz de sua imagem  flui a música do tempo,  cresce o musgo dos telhados  e a umidade das paredes  escorre pelos sobrados  o amargo sal dos invernos.   Tudo é doce e até parece  que vemos só o animado  contorno de iluminura  e não a realidade:  vista do mar, a cidade  parece humilde presépio  levantado por mãos puras  e em sua simplicidade  esconde glórias passadas, sonha grandezas futuras. Imagem retirada da Internet: São Luís do Maranhão

Octavio Paz - Poema

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  CREPÚSCULOS DE LA CIUDAD A Rafael Vega Albela, que aquí padeció           I Devora el sol restos ya inciertos; el cielo roto, hendido, es una fosa; la luz se atarda en la pared ruinosa; polvo y salitre soplan sus desiertos. Se yerguen más los fresnos, más despiertos, y anochecen la plaza silenciosa, tan a ciegas palpada y tan esposa como herida de bordes siempre abiertos. Calles en que la nada desemboca, calles sin fin andadas, desvarío sin fin del pensamiento desvelado. Todo lo que me nombra o que me evoca yace, ciudad, en ti, yace vacío, en tu pecho de piedra sepultado.

Octavio Paz - Poema

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AGUA NOCTURNA La noche de ojos de caballo que tiemblan en la noche, la noche de ojos de agua en el campo dormido, está en tus ojos de caballo que tiembla, está en tus ojos de agua secreta. Ojos de agua de sombra, ojos de agua de pozo, ojos de agua de sueño. El silencio y la soledad, como dos pequeños animales a quienes guía la luna, beben en esos ojos, beben en esas aguas. Si abres los ojos, se abre la noche de puertas de musgo, se abre el reino secreto del agua que mana del centro de la noche. Y si los cierras, un río, una corriente dulce y silenciosa, te inunda por dentro, avanza, te hace oscura: la noche moja riberas en tu alma.

Murilo Mendes - Poema

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  A VOLTA DO FILHO PRÓDIGO Ofício no altar terrestre, Roseiras dando-se as mãos, Iluminações na usina. O filho pródigo Despertou as nuvens, Levanta a saia das árvores, Abraça o amigo e o inimigo. Navios batendo palmas O esperam na enseada. Ordenam a sinfonia: Nijinsky dançando no arco-íris Reconcilia o céu e a terra. Imagem retirada da Internet: Nijinsky
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ARMILAVDA Armilavda, ó doce Armilavda, Lembras-te do tempo em que descobríamos o universo, Em que ficávamos na varanda à espera da lua chegar, Retendo a respiração diante do movimento das ondas? Em que folheávamos grandes livros de gravuras, Ou então nos debruçávamos sobre o mapa da terra. Lembras-te quando te apontei um dia a Áustria, A Índia com seus palácios e seus deuses, A China da surpresa e das metamorfoses? Armilavda, Sei que te lembras do tempo Em que íamos para o campo assistir à germinação da semente (Corrias, solta a cabeleira ao vento, Tuas pernas eram fortes e polidas Como as da dançarina que eu vi no ginásio de dança, E os laçarotes azuis do teu vestido Se confundiam com as borboletas do mato). Sei que te lembras do jogo de bilboquê no quarto ladrilhado, Da noite em que surgiste de dominó para o baile de máscaras, De nossas primas tocando piano a quatro mãos, Das chuvas de pedra e do sinal de Deus na nuvem. Que te lembras de tudo. Das nossas r...

Brasigóis Felício - Ensaio Crítico

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Angústia e aridez em Graciliano Ramos                                                                                                                                B alzac, o grande romancista francês, que ambicionou, na criação de personagens, competir com o registro civil de seu país, afirmou que a humanidade sacrifica seus pensadores, para depois er...

Eça de Queirós - Conto

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  O Tesouro O s três irmãos de Medranhos, Rui, Guannes e Rostabal, eram então, em todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados. Nos paços de Medranhos, a que o vento da serra levara vidraça e telha, passavam eles as tardes desse inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão, batendo as solas rotas sobre as lajes da cozinha, diante da vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma côdea de pão negro, esfregada com alho. Depois, sem candeia, através do pátio, fendendo a neve, iam dormir à estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas lazarentas que, esfaimadas como eles, roíam as traves da manjedoura. E a miséria tornara esses senhores mais bravios que lobos. Ora, na Primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos os três na mata de Roquelanes a espiar pegadas de caça e a apanhar tortulhos entre os robles, enquanto as três éguas pastavam a relva n...

Thiago de Mello - Poema

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Os astros íntimos Consulto a luz dos meus astros,  cada qual de cada vez.  Primeiro olho o do meu peito:  um sol turvo é o meu defeito.  A minha amada adormece  desgostosa do que sou:  a estrela da minha fronte  de descuidos se apagou.  Ela sonha mal do rumo  que minha galáxia tomou.  Não sabe que uma esmeralda  se esconde na dor que dou.  A cara consigo ver,  sem tremor e sem temor,  da treva engolindo a flor.  Percorre a mata um espanto.  A constelação que outrora  ardente cruzava o campo  da vida, hoje mal demora  no fulgor de um pirilampo.  Mas vale ver que perdura  serena em seu resplendor,  mesmo de luz esgarçada,  a nebulosa do amor. Barreirinha, Ponta da Gaivota, 97 Imagem retirada da Internet: sistema solar

Olavo Bilac - Poema Infantil

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A PRIMAVERA Coro das quatro estações Cantemos! Fora a tristeza! Saudemos a luz do dia: Saudemos a Natureza! Já nos voltou a alegria! A Primavera Eu sou a Primavera! Está limpa a atmosfera, E o sol brilha sem véu! Todos os passarinhos Já saem dos seus ninhos, Voando pelo céu. Há risos na cascata, Nos lagos e na mata, Na serra e no vergel: Andam os beija-flores Pousando sobre as flores, Sugando-lhes o mel. Dou vida aos verdes ramos, Dou voz aos gaturamos E paz aos corações; Cubro as paredes de hera; Eu sou a Primavera, A flor das estações! Coro das quatro estações Cantemos! Fora a tristeza! Saudemos a luz do dia: Saudemos a Natureza! Já nos voltou a alegria! In. Poesias Infantis. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1949. Imagem retirada da Internet: Primavera

José Geraldo Neres - Poema

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UMA SEMENTE corpo de lábios líricos a se enterrar na carne do meu canto  a criar a sede do abismo & a queda desenfreada a linguagem despe a morte silêncio a se mover num cardume de sonhos a se abrir num par de olhos caminho a ser nomeado a mergulhar os relógios nos lábios das horas noturnas o outro lâmina a respirar meus passos & a morder a cauda da madrugada & sentir nesses lábios as vozes das cores a língua do horizonte um grito assassino enterra-se na carne do meu canto josé geraldo neres, do livro "Outros silêncios" (Escrituras, 2009). Imagem retirada da Internet: IPlay.com.br 

Thiago de Mello - Poema

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  Canto do meu canto Escrevi no chão do outrora e agora me reconheço: pelas minhas cercanias passeio, mal me freqüento. Mas pelo pouco que sei de mim, de tudo que fiz, posso me ter por contente, cheguei a servir à vida, me valendo das palavras. Mas dito seja, de uma vez por todas, que nada faço por literatura, que nada tenho a ver com a história, mesmo concisa, das letras brasileiras. Meu compromisso é com a vida do homem, a quem trato de servir com a arte do poema. Sei que a poesia é um dom, nasceu comigo. Assim trabalho o meu verso, com buril, plaina, sintaxe. Não basta ser bom de ofício. Sem amor não se faz arte. Trabalho que nem um mouro, estou sempre começando. Tudo dou, de ombros e braços, e muito de coração, na sombra da antemanhã, empurrando o batelão para o destino das águas. (O barco vai no banzeiro, meu destino no porão.) Nada criei de novo. Nada acrescentei às forma tradicionais do verso. Quem sou eu para criar coisas novas, pôr...

Francisco Perna Filho - Crônica

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  Nelson da Luz, a céu aberto  Em outubro de 2011, Nelson Renato da Luz, um cidadão brasileiro, miserável, morador de rua, foi preso ao tentar furtar placas de zinco da estação República do metrô de São Paulo. Dois dias depois, a juíza da 14ª Vara Criminal da Capital converteu o flagrante em prisão preventiva e, posteriormente, por intercessão de alguns advogados, defensores dos oprimidos, descobriu-se que o "meliante" era inimputável, por sofrer de transtornos mentais, o que fez com que o relator da 1ª Câmara de Direito Criminal cogitasse interná-lo num hospital de custódia e tratamento, mas concluiu que tal medida só se aplicaria nos casos de crimes violentos ou praticados com grave ameaça, o que não era o caso de Nelson, daí a decisão de converter a prisão preventiva em prisão domiciliar. Até aí, tudo bem, o hilário nessa história toda é que o mendigo é morador de rua, sem teto, sem residência fixa, sem "domicilio", vivendo a céu aberto, quando não, s...

Francisco Perna Filho - Poema

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Imagem Wikipédia   Em desalinho  O bruto ser que brota, nos olhos finos do gato, em plena luz refletida. a loucura da palavra que me impede a boca o beijo travo da louca que me assalta o sonho. Um caminho que nunca volta, a porta em desalinho na sombra que me reflete torto. O passarinho rouco em desacelerado canto um beijo tenso guardado Quando me levanto. Tarde tarda tantas vezes o sono Sou assim assado sempre que me escondo, me escudo, me recuso, nunca me acho A fina flor que carrego morreu de orvalho.

Manoel Bueno Brito (Nequito) - Poema

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  República dos sonhos Para Nélida Piñon Esperança, que armas se levantam das palavras que acendes na boca da noite iminente? Antígona, renascida de outra tempestade, ?como enfrentar a lei na alma da cidade morta? O que não direi ao rei: se rei, serei indiferente? Imagem retirada da Internet: Antígona

Manuel Bueno Brito (Nequito) - Poema

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Nickolas Muray, Frida Kahlo, Nova Iorque, 1946 Versos marginais O tema Pende no teu ombro e clama um dilema apenas o tema: a ave no cajueiro do quintal. Querias vir colher a fruta, a ave, principal, te chama. Vivida nas humanas artes a ave, de se prezar livre, foge ao amor fundo do teu olhar onde, mais grave, o desejo: desde quando, ser volúvel, frutificas, passarinhas? Fonte dessa imagem: Arte Photographica

Célia Musilli - Poema

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LÍGIA eu sou a lenda  da mulher inexistente só me vê  quem me consente na solidão do encantamento de Ulisses pérola entre os corais   bailarina em ponta nos cristais esfinge verde dos cabelos lisos canto confundindo as marés sopro barcos ao vento do desconhecido deixo pegadas na areia envio cartas de sereia onde nada permanece escrito... (Do livro Sensível Desafio/ 2006/ Foto: Elena Kalis) Imagem retirada da Internet: deusa

José Régio - Poema

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CANÇÃO DA PRIMAVERA Eu, dar flor, já não dou. Mas vós, ó flores,  pois que maio chegou,  Revesti-o de clâmides de cores!  Que eu, dar flor, já não dou. Eu, cantar já não canto. Mas vós, aves,  Acordai desse azul,calado há tanto,  As infinitas naves!  Que eu, cantar, já não canto. Eu, invernos e outonos recalcados  Regelaram  meu  ser  neste  arripio...  Aquece tu, ó sol, jardins e  prados!  Que eu, é de mim o frio. Eu,  Maio, já não tenho. Mas tu, Maio,  Vem, com tua paixão,  Prostrar a terra em cálido desmaio!  Que eu, ter Maio, já não. Que eu, dar flor, já não dou; cantar,não canto;  Ter sol, não tenho; e amar...   Mas,  se não amo,  Como é que,  Maio em flor, te chamo tanto,  E não por  mim  assim te chamo?   Imagem retirada da Internet: Primavera

Marinalva Barros

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Poema de amor Por todos os motivos, não se findem os vestígios da noite e a luz de velas perfumadas. Nada quero saber da presença do dia e suas coisas banais, estou ocupadíssima praticando a arte de morrer em teus braços. Imagem retirada da Internet: em teus braços