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Mostrando postagens de dezembro, 2010

Francisco Perna Filho - Poema

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SER DE FATO Para este ano, além do reflexo da luz, queremos a luz. Além do cantar dos pássaros, queremos o pássaro. Além do símbolo da paz, queremos a Paz. Neste ano, além do simples desejo de uma vida nova, queremos vivê-la plenamente, sem medo, sem ódio, sem receio, sem temor. Que os bons textos nos venham e preencham as nossas vidas e, com eles, possamos sonhar, escrever um pouco da nossa história e das nossas fantasias. Feliz 2011 a todos os leitores do Banzeiro Textual !!! Imagem retirada da Internet: ano novo

Marinalva Rego Barros - Poeta

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ENCONTRO Façam para mim um vestido esvoaçante com pequeninas flores em tom pastel Um banho fresco com folhas de eucalipto é essencial Ah, não esqueçam de marcar uma hora antecipada pra que eu nade no rio ao entardecer (a essa hora ele me ensina velhas lições de sedução) e que eu possa avistar um ipê roxo solitário na paisagem pra enternecer ainda mais meu coração A uma artesã sensível encomendem um colar discreto e romântico e escondam de mim todos os jornais: corro o risco de distrair-me com coisas da vida e dos homens Por fim, rezem por mim meus irmãos. Rezem muito por mim neste dia: careço de todo perdão de Deus para o festim da minha carne. Imagem retirada da Internet: corpo

Álvaro Seiça Neves - Poema

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Asilo naquele Asilo de mármore e baba fria a Morte entrou de passos apressados sorvendo almas berraram os maus mas em vão os ombros varas pontiagudas alinhadas ao Céu ventilavam ondulantes as orelhas cerradas de cera vivida as têmporas a testa os nervos balas rebentando de solidão olhavam lancinantes como guilhotinas de músculos dissecados o raciocínio era pura irritação e para todos a Vida chegava numa ambulância mascarada de carro funerário toda esta ferida era evasão os tiros das espingardas sobrevoavam a sala dos rumores cadeiras de roda empilhadas em silêncio e enfermeiras formosas cuspindo descontracção e para todos as clarabóias que fendiam o solo seco do cérebro comum eram miragem de um deserto moribundo guilhotinas varas e ventiladores têmporas testas de ranho e nervos de cera cheirando ao podre ao esqueleto do caixão a festa da Vida era a cólera da Morte almofadas e pantufas por muito que boas eram apenas Nadas naquele Asilo de mármore e baba fria o único calor vinha das mãos...

Marinalva Rego Barros - Poema

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TRILHA Os caminhos do teu endereço São cheios de esquinas, A estrada que conheço Margeava um rio que partiu E minha bússola, Feita de amor antigo, É hoje inexata. Peço novas senhas: Lamparinas na janela Jasmineiro no portão E um código secreto Que só meu coração conheça. Andarei por tua casa Com sandálias de algodão E farei um poema Terno e pungente, Como convém a um amor antigo Bordado de ausências. Imagem retirada da Internet: Lamparina

Sophia de Mello Breyner Andresen - Poema

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Liberdade Aqui nesta praia onde Não há nenhum vestígio de impureza, Aqui onde há somente Ondas tombando ininterruptamente, Puro espaço e lúcida unidade, Aqui o tempo apaixonadamente Encontra a própria liberdade. Fonte: Mulheres Imagem retirada da Internet: Pena

Sophia de Mello Breyner Andresen - Poema

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Poesia Se todo o ser ao vento abandonamos E sem medo nem dó nos destruímos, Se morremos em tudo o que sentimos E podemos cantar, é porque estamos Nus em sangue, embalando a própria dor Em frente às madrugadas do amor. Quando a manhã brilhar refloriremos E a alma possuirá esse esplendor Prometido nas formas que perdemos. Fonte: Mulheres Imagem retirada da Internet: Nus

Francisco Perna Filho - Poema

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NATAL Eu nunca fiz um poema de Natal, talvez por não sabê-lo, embora compreenda sua simbologia. Sei que o Cristo renasce em cada coração, que as cidades se enchem de luzes coloridas e brilhantes, que os homens tornam-se mais solidários e felizes. Eu sei de tudo isso, mas também sei dos homens empedernidos, das mulheres maltratadas, das crianças abusadas, das trapaças, e das sórdidas armações palacianas. Eu sei de tanta coisa, mas ainda sei tão pouco da vida, talvez esteja aí a minha dificuldade para compor um poema natalino. Seria fácil falar de presentes, desejar votos de felicidades, falar de abraços e sorrisos, de manjedouras e presépios, de um menino que nasce para salvação do mundo. Talvez fosse simples assim, mas a verdade se nos impõe cortante, as cores, apesar indução midiática, são de outras matizes, de menos brilho e bem doídas, como no conto de Dostoievski “A Árvore de Natal na Casa do Cristo”, ou no rom...

Sophia de Mello Breyner Andresen - Poema

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A anémona dos dias Aquele que profanou o mar E que traiu o arco azul do tempo Falou da sua vitória Disse que tinha ultrapassado a lei Falou da sua liberdade Falou de si próprio como de um Messias Porém eu vi no chão suja e calcada A transparente anêmona dos dias. In. No Tempo Dividido e Mar Novo, Edições Salamandra, 1985, p. 67 Fonte: Mulheres Imagem retirada da Internet: Anémona

Sophia de Mello Breyner Andresen - Poema

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Porque Porque os outros se mascaram mas tu não Porque os outros usam a virtude Para comprar o que não tem perdão. Porque os outros têm medo mas tu não. Porque os outros são os túmulos caiados Onde germina calada a podridão. Porque os outros se calam mas tu não. Porque os outros se compram e se vendem E os seus gestos dão sempre dividendo. Porque os outros são hábeis mas tu não. Porque os outros vão à sombra dos abrigos E tu vais de mãos dadas com os perigos. Porque os outros calculam mas tu não. Fonte: In.No Tempo Dividido e Mar Novo , Edições Salamandra, 1985, p.79. Foto by Ana Luar

Hermann Hesse - Poema

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Sonhando Contigo Às vezes quando me deito e meus olhos se fecham, com a chuva batendo na cornija os seus dedos molhados, tu vens a mim, esguia corça hesitante, dos territórios do sonho. Então andamos ou nadamos ou voamos por entre bosques, rios, bandos de animais, estrelas e nuvens com tintas de arco-íris: tu e eu, a caminho da terra de origem, rodeados de mil formas e imagens do mundo, ora na neve, ora ao fogo do sol, ora afastados, ora muito juntos e de mãos dadas. Pela manhã o sono se dissipa, afunda dentro de mim, está em mim e já não é mais meu: começo o dia calado, descontente e irritadiço, porém algures continuamos a andar, tu e eu, rodeados de coleções de imagens, a interrogar-nos entre os encantos da vida que nos embroma sem saber mentir. In. Crises , 1928 Imagem retirada da Internet: chuva

Hermann Hesse - Poema

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Rabisco na Areia Que encantamento e beleza sejam brisa e calafrio, que o delicioso e bom tenha escassa duração - fogo de artifício, flor, nuvem, bolha de sabão, riso de criança, olhar de mulher no espelho, e tantas outras coisas fabulosas que, mal se descobrem, somem – disso, com pena, sabemos. Ao que é permanente e fixo não queremos tanto bem: gemas de gélido fogo, ouros de pesado brilho, por não falar nas estrelas que tão altas não parecem transitórias como nós e não calam fundo na alma. Não: parece que o melhor, mais digno de amor, se inclina para o fim, beirando a morte, e o que mais encanta – notas de música, que ao nascerem já fogem, se desvanecem – são brisas, são águas, caças feridas de leve mágoa, que nem pelo tempo de uma batida de coração deixam-se reter, prender. Som após som, mal se tocam, já se esvaem, vão-se embora. Nosso coração assim leal e fraternalmente se entrega ao fugaz, ao vivo, não ao seguro e durável. Cansa-nos o permanente - rochas, mundo estelar, jóias – a nó...

Hermann Hesse - Poema

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Andares Como emurchece toda flor, e toda idade juvenil cede à senil – cada andar da vida floresce, qual a sabedoria e a virtude, a seu tempo, e não há de durar para sempre. A cada chamado da vida o coração deve estar pronto para a despedida e para novo começo, com ânimo e sem lamúrias, aberto sempre para novos compromissos. Dentro de cada começar mora um encanto que nos dá forças e nos ajuda a viver. Devemos ir contentes, de um lugar a outro, sem apegar-nos a nenhum como a uma pátria: não nos quer atados, o espírito do mundo - quer que cresçamos, subindo andar por andar. Mal a um tipo de vida nos acomodamos e habituamos, cerca-nos o abatimento. Só quem se dispõe a partir e a ir em frente pode escapar à rotina paralisante. É bem possível que a hora da morte ainda de novos planos ponha-nos na direção: para nós, não tem fim o chamado da vida... Saúda, pois, e despede-te, coração! Fonte: Palavra e Melodia Imagem retirada da Internet: Hermann Hesse

Hermann Hesse - Poema

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O POETA E SEU TEMPO Fiel a imagens eternas, firme na contemplação, tu estás pronto para o ato e para o sacrifício; falta-te ainda, no entanto, um tempo desassombrado de ofício e púlpito, confiança e autoridade. Há de bastar-te, num posto perdido, ante o deboche do mundo, compenetrado da fama que tens, renunciando ao brilho e aos prazeres do mundo, guardar aqueles tesouros que não azinhavram nunca. Não te faz mal a zombaria das feiras, enquanto ouves a voz sagrada, ao menos: se ela entre incertezas cala, te sentes um renegado do próprio coração – feito um bobo na terra. Pois é melhor, por uma realização futura, servir sofrendo, ser sacrificado, do que ter grandeza e reino pela traição ao sentido do teu sofrer – tua missão. Tradução de Geir Campos In. Andares ( Antologia Poética). Rio de Janeiro: Nova Fronteira. p.156. Imagem retirada da Internet: Hermann Hesse

Hermann Hesse - Poema

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DEGRAUS Assim como as flores murcham E a juventude cede à velhice, Também os degraus da Vida, A sabedoria e a virtude, a seu tempo, Florescem e não duram eternamente. A cada apelo da vida deve o coração Estar pronto a despedir-se e a começar de novo, Para, com coragem e sem lágrimas se Dar a outras novas ligações. Em todo O começo reside um encanto que nos Protege e ajuda a viver Serenos transpunhamos o espaço após espaço, Não nos prendendo a nenhum elo, a um lar; Sermos corrente ou parada não quer o espírito do mundo Mas de degrau em degrau elevar-nos e aumentar-nos. Apenas nos habituamos a um círculo de vida, Íntimos, ameaça-nos o torpor; Só aquele que está pronto a partir e parte Se furtará à paralisia dos hábitos. Talvez também a hora da morte Nos lance, jovens, para novos espaços, O apelo da Vida nunca tem fim ... Vamos, Coração, despede-te e cura-te! In. O jogo das contas de vidro. Tradução de Carlos Leite. Imagem retirada da Internet: Degraus

Wender Montenegro - Poema

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Mea culpa ou Profissão de fé ao poeta Francisco Carvalho Semear poeiras e andrajos de esperas dissecar os ossos das metáforas acender espantalhos no amarelo das espigas. Decantar o silêncio que sustenta o cais ostentar um colar de metonímias despir a voz da louca, cuja febre anuncia um evangelho apócrifo. Caminhar sob pedras como por milagre ouvir a foz rouca dos rios da infância borrifar no azul as flores do arco-íris. Pintar um verão vazio de andorinhas se encharcar de sol e devaneios hastear um lenço sujo de saudade ajustar os ponteiros na cópula dos pardais. Imagem retirada da Internet: cais

Wender Montenegro - Poema

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ABSTRATO EM LUZ E MEDO O medo é a alma dizendo onde dói pássaro conduzindo léguas sob asas feridas. É grito de Munch sangrando a moldura expressão da face à beira-morte quando um anjo anuncia o delírio. É o temor do cântaro ao desuso jardins plenos de sede e gerânios cardumes de espectros pescando crendices nos rios da noite. Há mel e fé na colmeia do medo e os anjos terríveis de Rilke pintam de ferrugem cada luz e riso semeiam gerânios sobre cada grito. Imagem retirada da Internet: Olho

Sônia Schmorantz - Poema

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Das coisas que vão e das coisas que ficam Chegam as primeiras chuvas anunciando o fim de um tempo escaldante de verão. Distanciam-se os dias de luar e cio, fica o canto, a vibração, a nostalgia, fragmentos de risos, sonhos e ilusão. A praia sem a obrigação de ser verão, serenamente perde-se na linha do horizonte. Os dias continuarão mornos e ensolarados. E ao fim da tarde o sol fará sua despedida em coloridos raios até morrer atrás do monte. Um vento errante há de vagar sobre a praia, anunciando teatralmente o fim da estação, soprando emoções quebradas na areia, como a despedida dos amores de verão. Termina temporada, termina o verão, Recolhe-se a rede, o guarda sol, a esteira, Recolhem-se as sereias e musas do mar, Fim de viagem, morre a estação derradeira… Foto by Sônia Schmorantz

JJ Leandro - Conto

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SERTÃO VIOLENTO O vasto sertão do Tocantins, quando ainda Goiás, demorou a ser povoado e depois do povoamento, a ser pacificado. Havia até o início do século XX um imenso deserto verde e poucos homens. A maioria migrante do Nordeste, homens fugitivos de lutas eternas naquela região contra a seca perene ou de guerras fratricidas. Uma vez na nova terra reproduziam os vícios de antanho. Ou então geravam ali novas disputas. A família de Severiano Bezerra migrara para a aprazível região de Monte Alegre com o intuito de alcançar paz e crescimento, e não apenas crescimento econômico; procurava se recompor de guerras intestinas que quase fizeram-na desaparecer. Chegaram ali o velho José Bezerra, a esposa Quintina e o filho Severiano, o caçula, único remanescente de uma prole imensa de 14 filhos, quase extinta ao longo de 25 anos de sangue. Tão logo botou os olhos sobre a imensidão verde do cerrado e de seus morros exuberantes, que não eram avaros como os homens de lá...