Luis Antonio Cajazeiras Ramos - Poema


Luis Antônio Cajazeiras Ramos







O verso de Luís Antonio não é sentencioso, mas incisivo e lapidar. Percorre, sem hierarquias, um espectro de situações que ora flertam com o sublime, ora namoram o vulgar e o irrisório. Tudo se equivale, ou melhor, no poema, é como se tudo se equivalesse, já que o simulacro ficcional, paralelo à existência, se apresenta mais intenso e real que a própria vida.
Antonio Carlos Secchin


Anátema


Vogo na idéia vaga e vã do eu,
como se houvesse em mim um ser e um cerne,
uma alma inominada, em corpo inerme,
amálgama de fiat lux et breu.

Mimo a mim mesmo com um mimoso engano:
que o mundo existe como um fato meu;
que a vida é a imagem de ilusório véu,
tecido por mim (fio) o mundo (pano).

Fio-me que penso e existo e assim sou algo;
desfio meus véus, em busca de meu âmago,
mas desconfio que apenas seja imago...

Meu sumo é um oco totem hamletiano.
Do imane e ameno cenho, emana a senha:
a senda é ser não sendo e Eu seja sonho.



In. Mais que sempre. Luís Antonio Cajazeira Ramos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007, p.142.

Hermann Hesse - Poema

Hermann Hesse



(...)





Na poesia como na prosa, Hermann Hesse, suíço (1877-1962) de língua alemã (Prêmio Nobel em 1946), mostrou-se permanentemente preocupado com a busca de um sentido para a vida, levando-o essa busca a preferir a solidão, longe das aglomerações urbanas que lhe eram penosas de suportar. Poesia e prosa parecem ter andado sempre de mãos dadas, em toda a existência de Hermann Hesse - que se dizia, ele mesmo, um poeta das nuvens, sem raízes e sem pátria-lar: a ausência da pátria-lar (Heimat) é uma constante na obra desse auto-condenado ao degredo perpétuo no mundo dos homens. (...)
Geir Campos



Perdimento



Sonâmbulo tateio entre bosque e barranco,
há um halo de magia aceso ao meu redor:
sem reparar se sou bem aceito ou maldito,
sigo à risca o meu próprio mandato interior.

Quantas vezes veio chamar-me a realidade
em que vós existis, para me comandar!
Dentro dela eu ficava assustado e sem forças,
e logo descobria um jeito de escapar.

Ao meu país ardente, do qual me privais,
ao meu sonho de amor, do qual me sacudis,
como as águas retornam sempre para o mar
também meu ser retorna usando mil ardis.

Amigas fontes guiam-me com seu cantar,
aves de sonho as plumas de luz a ruflar:
de novo faz-se ouvir o som da minha infância
- em áurea rede, ao doce zumbir das abelhas,
junto de minha mãe volto enfim a me achar.



In. Andares - Antologia poética. Hermann Hesse. 2ª ed., Trad.: Geir Campos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,s/d p.108.
Imagem: Ancoradouro

Hermann Hesse - Poema


Hermann Hesse









"Quando Hesse publica sua antologia poética, Andares, a Suíça que habita é uma espécie de ilha não suficientemente distante para que lá não chegue a violência dos ecos e perigos da segunda guerra mundial. A alma lírica do poeta é como um sismógrafo que registra fielmente todos os abalos políticos. A confrontação do fenômeno literário com o da guerra tinha sido uma experiência marcante entre 1914 e 1918. Em 1914 tinha-se deixado levar pelo entusiasmo político; mas logo assume uma posição pacifista da qual não se distanciará jamais".
(Nicolás Jorge Dornheim - ensaista argentino)




Sonhando Contigo



Às vezes quando me deito
e meus olhos se fecham,
com a chuva batendo na cornija os seus dedos molhados
tu vens a mim,
esguia corça hesitante,
dos territórios do sonho.
Então andamos ou nadamos ou voamos
por entre bosques, rios, bandos de animais,
estrelas e nuvens com tintas de arco-íris:
tu e eu, a caminho da terra de origem,
rodeados de mil formas e imagens do mundo,
ora na neve, ora ao fogo do sol,
ora afastados, ora muito juntos
e de mãos dadas.

Pela manhã o sono se dissipa,
afunda dentro de mim,
está em mim e já não é mais meu:
começo o dia calado, descontente e irritadiço,
porém algures continuamos a andar,
tu e eu, rodeados de coleções de imagens,
a interrogar-nos entre os encantos da vida
que nos embroma sem saber mentir.



In.Andares - Antologia poética. Hermann Hesse. Trad.: Geir Campos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, s/d, p.138.
Imagem: by Sinésio Dioliveira - Todos os direitos reservados

Francisco Perna Filho - Desenredo




Francisco Perna Filho









Desenredo


Os carros, feito peões,

rodopiam enlaçados, um a um,

nos seus cordões que se prolongam em avenidas

e tecem a manhã de galos e aborrecimentos.

No final da tarde, eles invertem a trajetória

e os cordões da tessitura se refazem na anunciada volta,

no torvelinho ocasional dos predestinados pais e mães,

que se perdem engarrafados nas apertadas ruas,

segregadas pelo lixo e os meios-fios

ansiosos em voltar para casa.

Um a um,

dois a dois,

emparelhados como bois,

berram lastimosamente pedindo passagem

no desfazer do dia.

A composição agora é outra:

os carros celebram a noite

acesos nos seus faróis esbugalhados,

na vã tentativa de reaver a luminosidade perdida.

Os carros, tão sós,

não sabem das ruas,

do pálido olhar dos seus donos,

e, nem mesmo, do trajeto que percorrem,

simplesmente voltam,

e voltam encorajados pelo combustível que arrotam

de que nem sequer imaginam o custo.



Este poema faz parte do meu próximo livro "Visgo Ilusório", no prelo.

Imagem: Minotauro

Manoel de Barros - Poema






Manoel de Barros













XII


Pegar no espaço contiguidades verbais é o
mesmo que pegar mosca no hospício para dar
banho nelas.
Essa é a prática sem dor.
É como estar amanhecido a pássaros.

Qualquer defeito vegetal de um pássaro pode
modificar os seus gorjeios.




In.O Livro das Ignorãças.3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984, p.21.
Imagem: pássaros


Manoel de Barros - Poema



O Livro das Ignorãças



VII



Um girassol se apropriou de Deus: foi em Van Gohg







XI



Adoecer de nós a Natureza:
- Botar aflição na pedras
(Como fez Rodin).








In. O Livro da Ignorãças. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984, p.17 e 21.

Manoel de Barros - Poema




Dando prosseguimento à poesia de Manoel de Barros, continuaremos com alguns poemas do Livro das Ignorãças. Boa Leitura!







I



No tratado das Grandezas do Ínfimo estava escrito:



Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole auroras.




V



Formigas carregadeiras entram em casa de bunda.







VI



As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças.







VII


No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.





In. Livro da Ignorãças. Manoel de Barros. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984, p. 15-17.

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