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Mostrando postagens de fevereiro, 2013

Carlos Drummond de Andrade - Poema

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OS 27 FILMES DE GRETA GARBO 27, tem certeza? Não importa. Para mim são 24. Lembra-me bem. Conto um por um, de 1926 a 1941, de vida contínua. De minha vida. De The Torrent a Two-faced woman. Entre os dois, um abismo onde aprisionei, para meu gozo, Greta Garbo. Ou ela me aprisionou? Será que não houve nada disso? Alucinação, apenas? O tempo é imperscrutável. São tudo visões. Greta Garbo, somente uma visão, e eu sou outra. Neste sentido nos confundimos, realizamos a unidade da miragem. É assim que ela perdura no passado irretratável e continua no presente, esfinge andrógina que ri e não se deixa decifrar. Contei-os todos: 24 filmes americanos. Meus. Não me interessam diretores. Monta Bell, Fred Niblo, Clarence Brown, nem penso em Edmund Goulding, para mim não existem Victor Seastrom, Sidney Franklin, John S. Robertson. Esqueço Jacques Feyder, esqueço Robert Z. Leonard, de que me serve George Fitzmaurice, não careço de Rouben Mamoulian e Richard Boleslawski, para o inferno com Georg...

Carlos Drummond de Andrade - Poema

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INVOCAÇÃO IRADA Ficou o nome no tempero da comida, nas fibras da carne na saliva, no ouro da mina ficou o nome. Ó nome desleal que me escavas qual se fosses punhal ou fero abutre, que te fiz para assim permaneceres dentro de meu ser, se fora dele não existe nem notícia te preserva? Foge, foge de mim para tão longe quanto alcance a mente humana delirante. Suplico-te que deixes um vácuo sem esperança de lotar, amplo, soturno espaço irremediável, mas deixa-me, larga-me, evapora-te de toda a vida minha e meu pensar. Sei que não me escutas, és indiferente a todo apelo nem dependes de teu próprio querer. Gás flutuante, perversa essência eterna torturante, vai-te embora, vai, anel satânico de vogais e consoantes que esta boca repete sem querer. In. Farewell, Rio de Janeiro: Record, 1996, p.68-69. Imagem retirada da Internet: separation

Francisco Perna Filho - Poema

  Singeleza Uma melodia, assim tarde, nervosa como a chuva fina, trilhando em teus olhos, menina, a delicadeza do véu a cobrir teu olhar, tarde e madrugada, nas cores do teu abraço, nos traços dos teus dedos. Uma melodia diferente, assim tinta, assim tela, maravilhando em singeleza, remédio para o meu quebranto, quando caio, quando quedo, quando fico, fico, fico, assim nervoso, pinto outro universo. Uma melodia em sons de cordas, de jazz e afro reggae, de cachoeira e mata, que me mata, que desata os cadarços do sapato na larga avenida do teu sorriso, menina, que trespassa sonhos, quereres, viagens, beijos, Uma melodia, que se desdobra em sino, em canto de passarinho, em número de identidade, que se desata em tons em ruas em cidades.