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Mostrando postagens de outubro, 2012

Jorge Montenegro - Poema

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SU B J U N T I V O E se num instante a minha máscara caísse sobre o falso brilho desses palcos glamourosos, sob o estribilho de mil beijos ardorosos, na vazia noite onde mais lágrimas houvesse? E se de repente esse meu coração sentisse um pulsar contido, meio tépido e agreste, a sofreguidão que a tua nua tez reveste na imensidão da minha alma nesse cálice? E se num momento de paixão eu explodisse, minha solidão se dispersasse no deserto toda a sensatez eu finalmente me esquecesse? E se nesse agora, todo teu, eu me entregasse sem essas amarras, desse meu pudor liberto, e teu corpo nu eu envolvesse num enlace? Imagem retirada da Internet: coração

Lara de Lemos - Poema

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Penélope - Bassano Leandro - Óleo sobre tela Penélope Para Lígia M. Averbuck   No tear pequeno teço os fios da minha vida teço o tédio. No tear do tempo teço teia in- consistente teço o verso. No tear do Universo teço o verbo solitário teço o poema. No tear do medo teço o pano derradeiro teço o sudário.

Lara (Fallabrino Sanz Chibelli) de Lemos - Poema

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Lara de Lemos - Acervo da PUC RS DO QUE PASSOU Não me tragam memórias de velhos tempos idos. Deixem-me a sós comigo. Cada poema tem o seu motivo, cada gota de vinho tem seu travo que não se repete noutro copo. É preciso degustá-lo sem agravos e esquecer o que não foi bebido. In. Dividendos do tempo. Porto Alegre, 1995. Sobre a autora Poetisa, jornalista, advogada e professora, Lara de Lemos, quando morreu, em 2010, tinha 87 anos e era natural de Porto Alegre. Órfã de pai e mãe aos cinco anos, Lara Fallabrino Sanz Chibelli de Lemos foi criada pela avó em Caxias do Sul. Formou-se em História, Geografia, Pedagogia, Jornalismo e Direito, com especialização em Literatura Inglesa e Contemporânea pela Southern Methodist University, Usa. Atuou como professora, tradutora, poeta e jornalista, de forma intensa e combativa, sofrendo as conseqüências do regime militar instaurado em 1964, que a obrigou a interromper a carreira jornalística, tend...

Florisvaldo Matos - Poema

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VIGÊNCIA DA NOITE  OU AURORA Como um pássaro que passeia devagar na estiva de um porto qualquer, olhos baços, mente esquiva, divago na sala, mirando as estrelas da noite que passa. Para ser um filósofo, em grave silêncio, me falta massa, temas eternos, mente febril, serenidade no olhar, imunidade a relógios e o grave prazer de pensar; me exprimo com o nada, atento aos estertores da vida, neste espaço que me serve de confortável guarida, para pensar em mim mesmo, amealhar meus ciclones, ruídos da alma, como quem reaviva um cemitério de clones. Como quem mira estrelas cadentes, na noite sossegada, me estiro no sofá, respiro e realinho as curvas da estrada, mais próximo de mim, inumeral, distante do mundo, sem ser nenhum gênio, mago, de pensamento profundo. Com um livro na mão, revista ou jornal, um copo de vinho, converso comigo, meus dias e noites, com saudades de mim. Ou com o que me resta de sustos, recompondo os cristais, que a vida quebrou, o vento levou e, no entanto,...

Murilo Mendes - Poema

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Forma e essência Podeis vê-la contra a luz; é um manequim de folhas, Uma cariátide  que se move Poucos vestígios do humano. Entretanto é uma mulher. Mulher que ri, cose e dança, E também abre janelas. Poucos vestígios do humano: Sei entretanto que à noite Fala a um ente imaginário. Move a caixinha de música, Despertando assim a criança Que inda dorme dentro dela. Imagem retirada da Internet: caixa de música .

Francisco Perna Filho

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Este poema foi feito há algum tempo, bem antes de algumas mudanças significativas. Hoje Goiânia é uma bela cidade, mas, não diferente das outras metrópoles, traz as suas mazelas, o medo, os desencontros e desilusões.  Parabéns, Goiânia!  Goiânia  Goiânia, ouço o teu grito, como num eco, repetidas vezes, nesse corredor vazio da Avenida Anhanguera, nas mortes irrelevantes da  Rua 90, nos banheiros pobres da periferia encardidos de amor barato, de retalhos e esperanças, cheirando a naftalina e eucalipto. Eu contabilizo a tua dor Nos barracões de lona preta Nas casas sem porta E nas goteiras da tua ilusão. Eu vejo o olhar iluminado do césio 137, pelas ruas esburacadas do nosso desencontro, e, deslumbrado, contemplo a natureza morta nas tuas curvas e viadutos. Eu choro o teu abandono, o teu desprezo, a tua impotência, nos olhos paralisados dos meninos de rua, tão vermelhos quanto os semáforos da Avenida Mutirão, mastigados pela cola que ...

Affonso Romano de Sant'Anna - Poema

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Casamento Essa mulher que há muito dorme ao meu lado vai, como eu, morrer um dia. Estamos deitados para sempre conversando Como nas manhãs preguiçosas de domingo, como nas noites em que voltamos das festas e nos despimos comentando as pessoas, roupas e comidas, e depois adormecidos nos pomos a entrelaçar os sonhos num diálogo imóvel que nenhuma morte pode interromper. In. Poesia reunida (Aprendizagem do amor). Porto alegre: LPM, 2004, p.190. Imagem retirada da Internet: married

José de Abreu Albano - Poema

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"Amar é desejar o sofrimento" Amar é desejar o sofrimento E contentar-se só de ter sofrido, Sem um suspiro vão, sem um gemido, No mal mais doloroso e mais cruento. É vagar desta vida tão isento É deste mundo enfim tão esquecido, É pôr o seu cuidar num só sentido E todo o seu sentir num só tormento. É nascer qual humilde carpinteiro, De rudes pescadores rodeado, Caminhando ao suplício derradeiro. É viver sem carinho nem agrado, É ser enfim vendido por dinheiro, E entre ladrões morrer crucificado. In. Antologia Comentada de Literatura Brasileira: Poesia e Prosa. Organizadoras: Magaly Trindade Gonçalves;Zélia Thomaz de Aquino; Zina C. Bellodi. Petrópolis: Vozes, 2006, p. 204.

Bertolt Brecht - Poema

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REGAR O JARDIM Regar o jardim, para animar o verde! Dar água às plantas sedentas! Dê mais que o bastante. E não esqueça os arbustos também Os sem frutos, os exaustos E avaros! E não negligencie As ervas entre as flores, que também Têm sede. Nem molhe apenas A relva fresca ou somente a ressecada: Refresque também o solo nu. Tradução de Paulo César de Souza In. Bertolt Brecht: Poemas 1913-1956.São Paulo: Editora 34, 2000, p.298.

José Fernandes - Poema

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Eu e o Mestre Gilberto Mendonça Teles - by Sinésio Dioliveira MESTRE A Gilberto Mendonça Teles,   que sabe o rio e o x do poema . Mestre é quem sabe o rio e suas curvas, o ponto e suas linhas, na reta e na paralela do sertão com seu silêncio de mapa e jejum. Mestre é quem sabe a carta e seus rabiscos e atravessa a letra escura e enluara a sombra e o vulto na amplidão do vau e da pinguela. Mestre é quem sabe o caminho e a pedra no meio da cruz e suas direções de pregos e martelos segundo o verbo e a dor do calvário. Mestre é quem sabe que no meio do grifo há um bico e um X, mas entalha a viagem ao centro do círculo e do signo de sete pontas. Mestre é quem sabe as palavras, as reticências e seus seixos na incerteza do meio e do fim, mas marca as direções e os quatro ventos. Mestre é quem sabe o deserto e sua areia, os grãos e os horizontes vermelhos da distância e chega junto ao destino de deuses e de homens. Mestre é quem sabe o meni...

José Fernandes - Crônica

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MONTEIRO LOBADO –  VÍTIMA DO ANALFABETISMO FUNCIONAL Simplesmente de estarrecer a reportagem da revista Bravo e a conseqüente en-trevista de Ana Claudia Barros, em que pretendem provar que Monteiro Lobato era realmente racista, corroborando a estultícia iniciada a partir de Conselho Federal de Educação na cassa a Pedrinho. Acredito que toda e qualquer afirmação sobre o racismo tem de levar em consideração o contexto cultural e, sobremodo, o filosófico dominante à época e, não, sonhar-se segundo os malditos preconceitos nascidos da mesquinhez e da demagogia de esquina e de esgoto. Sem se conhecer nada da filosofia positivista, a maioria das obras literárias produzidas no final do século XIX e início do XX teriam de ser banidas da cultura brasileira, segundo a ótica míope cega do analfabetismo funcional que infesta e infecta este momento histórico. Hyppolite Taine já dizia que “Os documentos históricos não são senão índices por meio dos quais é preciso reconstituir ...
  SUICÍDIO Aturdido pelo calor infernal, depois de  fotografar-se, o poeta deposita a câmera fotográfica no freezer e congela a própria imagem. imagem retirada da internet: fotografia