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Mostrando postagens de agosto, 2010

Francisco Perna Filho - Poema

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San José O que dizer do homem, devorado pela longa noite, longe de tudo, da mulher amada, dos filhos, e da luz do dia? Que pensará esse homem, sem vestes e proteção, a perder-se na frágil esperança que carrega, no apuro de suas mãos silenciosas e impotentes? Em que país ficaram os seus olhos as suas preces, a sua bússola? O cobre, que procurava, tornou-se pó, perdeu-se no turvo da noite, no desbotado encanto, na irônica terra que o soterrara. Nem um canto poderá reconduzi-lo, não existem pássaros, somente a terra, a fundura da mina e as lembranças a persegui-lo. Setecentos metros terra a dentro, milhões de soluços e desencanto, o homem sozinho no seu pesadelo, ouvindo o próprio grito, penseguindo o pulsar lento da longa noite sem fim. Foto: Reuters

Machado de Assis - Poema

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Livros e flores Teus olhos são meus livros. Que livro há aí melhor, Em que melhor se leia A página do amor? Flores me são teus lábios. Onde há mais bela flor, Em que melhor se beba O bálsamo do amor? In. Jornal de Poesia Imagem: Amadeo Modigliani

Machado de Assis - Poema

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A uma senhora que me pediu versos Pensa em ti mesma, acharás Melhor poesia, Viveza, graça, alegria, Doçura e paz. Se já dei flores um dia, Quando rapaz, As que ora dou têm assaz Melancolia. Uma só das horas tuas Valem um mês Das almas já ressequidas. Os sóis e as luas Creio bem que Deus os fez Para outras vidas. In. Jornal de Poesia Foto by António Stª Clara

Machado de Assis - Poema

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A flor do embiroçu Noite, melhor que o dia, quem não te ama? Fil. Elis. Quando a noturna sombra envolve a terra E à paz convida o lavrador cansado, À fresca brisa o seio delicado A branca flor do embiroçu descerra. E das límpidas lágrimas que chora A noite amiga, ela recolhe alguma; A vida bebe na ligeira bruma, Até que rompe no horizonte a aurora. Então, à luz nascente, a flor modesta, Quando tudo o que vive alma recobra, Languidamente as suas folhas dobra, E busca o sono quando tudo é festa, Suave imagem da alma que suspira E odeia a turba vã! da alma que sente Agitar-se-lhe a asa impaciente E a novos mundos transportar-se aspira! Também ela ama as horas silenciosas, E quando a vida as lutas interrompe, Ela da carne os duros elos rompe, E entrega o seio às ilusões viçosas. É tudo seu, — tempo, fortuna, espaço, E o céu azul e os seus milhões de estrelas; Abrasada de amor, palpita ao vê-las, E a todas cinge no ideial abraço. O rosto não encara indiferente, Nem a tra...

Machado de Assis - Poema

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Menina e moça A Ernesto Cibrão Está naquela idade inquieta e duvidosa, Que não é dia claro e é já o alvorecer; Entreaberto botão, entrefechada rosa, Um pouco de menina e um pouco de mulher. Às vezes recatada, outras estouvadinha, Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor; Tem cousas de criança e modos de mocinha, Estuda o catecismo e lê versos de amor. Outras vezes valsando, o seio lhe palpita, De cansaço talvez, talvez de comoção. Quando a boca vermelha os lábios abre e agita, Não sei se pede um beijo ou faz uma oração. Outras vezes beijando a boneca enfeitada, Olha furtivamente o primo que sorri; E se corre parece, à brisa enamorada, Abrir as asas de um anjo e tranças de uma huri. Quando a sala atravessa, é raro que não lance Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance Em que a dama conjugue o eterno verbo amar. Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia, A cama da boneca ao pé do toucador; Quando sonha, repete, em santa companh...

O Tempo, o relógio e o menino - Sinésio Dioliveira - Crônica

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Andam em círculo os ponteiros do relógio não vão longe cavalgam apenas um dia depois retomam o mesmo caminho. Há quem veja, no lado ingênuo da infância, a melhor fase existencial do homem. Na infância, não se consegue ver gigantes em moinhos. Na infância, não se consegue ver uma pedra no meio do caminho além de uma pedra no meio do caminho. Eu, particularmente, não me encontro entre esses saudosistas doentiamente agarrados à “infância querida que anos não trazem mais”. Isso porque as alegrias da infância não chegam ao conhecimento do espírito. Não consigo conceber essas alegrias como tais, se não se tem consciência delas. Figurativamente, é como alguém se tornar um passarinho a desbravar o céu e a cantarolar pelas árvores e não ter o maravilhoso conhecimento disso. Esse conhecimento, inclusive, tem muito a ver com as três palavras da grande frase de René Descartes: “Penso, logo existo”. Esses pensamentos me vieram à mente após um acontecimento que presenciei na rua. O sinal fechou. ...

Brasigóis Felício - Poema

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O PARAÍSO CONFLAGRADO Na cidade maravilhosa tudo está em polvorosa: bandos em bondes armados até os dentes descem da Rocinha e Vidigal Rumo ao paraíso de São Conrado, um dos metros quadrados mais caros do Brasil. É tanto tiro, que até parece a Sarajevo, um explodir de minas na Bósnia Herzegovina - “deve ser mais legal ser negão no Senegal”: Traficantes da pesada com armamentos de guerra e coletes à prova de bala II Deve existir, em algum rincão do paraíso tropical um lugar mais legal mais humilde e tranqüilo onde se possa passear com os filhos sem escutar tiros disparados por todos os lados. Se for aquela ilha de paz – mar da tranqüilidade – que buscam turistas artistas, deste balneário conflagrado quero manter distância Deve existir algum lugar neste planeta água onde se possa, à noitinha, colocar cadeiras na calçada e trocar dedos de prosa com os vizinhos - e ver a vida passar, cheia de graça, sem fazer pirraça, e sem tirar o sossego da gente. Imagem re...

Antônio Lisboa - Ensaio Crítico

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O livro infernal do poeta Valdivino Por Antônio Lisboa Literatura feita para chocar. Assim poderia ser sintetizado o mais novo livro do poeta e jornalista Valdivino Braz. L ogo no prefácio o autor adverte: “Presume-se que O Gado de Deus, um livro infernal, escabroso, com personagens infames – a par com os laivos poéticos, filosóficos e divertidos -, possui autonomia para sustentar-se à parte. (...) O leitor esteja preparado. Esta obra é um tratamento de choque, de arrepiar os cabelos e deixar os incautos com cara de ouriço. Exala enxofre, fumega chifre queimado. O riso se transforma em choro e ranger de dentes. Não há, em todo o mundo, um livro como este”. "...Só o homem livre é pastor de si mesmo, toda e única liberdade é foro íntimo...” Com o título inicial de As dores da terra antiga, a obra recebeu Menção Honrosa no Concurso Nacional de Romances do Paraná, em 1993. Saído das oficinas da Editora Kelps e compondo a “Coleção Goiânia em Prosa e Verso”, da Secretaria Municipal da C...

O Gado de Deus, de Valdivino Braz

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H oje, no Pop House, O Poeta Valdivino autografa seu romance " O Gado de Deus " Rua 1.145, nº 228 – Setor Marista – Nos fundos do Batalhão de Choque da PM. Via de referência: Av. Ricardo Paranhos Enredos de vidas O romance que se intenta, experimental, subliminar, alinhava-se com narrativas em função de um feixe fragmentário, mais no sentido mnemônico de espaço e tempo rarefeitos do que de uma trama linear ou nitidamente cronológica. As peças montadas num canhestro mosaico de contexto narrativo. Constitui-se um liame que une as partes e o todo a si mesmo, o caos e o cosmos, enredo e arremedo, como a colcha de retalhos da bandeira de Pátria, a terra-personagem que a tudo engloba, e ali o rio do tempo em que a vida se leva por meandros e metáforas, a par com metonímias topográficas e um rastro de sangue que se alastra pela terra bruta, escalavrada pelos cascos cortantes das bestas de comando e, por sua vez, das bestas de cabestro. O rio feito linha de carretel na agulha, alinh...

Valdivino Braz - Coletânea

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PASSOS PASSADOS Passos que esbarram nos cristais do orvalho e roçam nas belas imagens dos caminhos de pólen e pétalas por onde pervagueia minha infância descuidada meus pulos descalços ressoando no solo E minhas mãos querendo alcançar os pássaros que voejam no claro espaço das manhãs meladas de sol. Passos que se apagam nos remotos arrebóis longínquos de mim. In. A palavra por desígnio Melancolia Telúrica V A hora mais triste da terra, quando o sol se apaga e a dor é solitária. Hora de amargura e desespero das almas. Punge, confrange, apequena, aniquila, faz-nos sofrer, a luz do dia que pouco a pouco já não brilha. Que agonia! O que fazer para não morrer? VI A hora tristonha, chapada pela luz agonizante do crepúsculo, hora em que a terra parece não mover um músculo sequer. Os paturis se foram já embora, logo a inquietante quietude das sombras e os brilhos da noite imperam na água imóvel. Vitrificada pelo reflexo da luz, a lagoa se arredonda num espelho cósmico. Ê mundo me...

Valdivino Braz autografa romance no Pop House

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Obra parodia e satiriza período da história brasileira O romance “O Gado de Deus” , do jornalista e escritor Valdivino Braz , tem noite de autógrafos nesta terça-feira, 24, às 20h30, no bar Pop House , localizado no Setor Marista (ver Serviço). O evento conta com o apoio da casa, que abriga iniciativas culturais e convidou o autor para a noite de autógrafos. O livro integra a terceira edição do projeto Coleção Goiânia em Prosa e Verso, da Prefeitura de Goiânia. Escrito entre os anos 1980 e 1990, “ O Gado de Deus” recebeu certificado de Menção Honrosa no Concurso Nacional de Romances do Paraná, em 1993, quando concorreu com o título “As Dores da Terra Antiga”, uma vez que intercala cenas rurais gravadas na infância do autor. Misto de paródia e sátira, onde um país de nome Pátria é uma clara alegoria, o romance inspira-se na história e no caráter macunaímico da sociedade brasileira, sobretudo no golpe militar de 1964. “O regime militar foi o Produto Interno Bruto para as narrações cont...

Gabriel Garcia Márquez - Conto

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Me alugo para sonhar Às nove, enquanto tomávamos o café da manhã no terraço do Habana Riviera, um tremendo golpe de mar em pleno sol levantou vários automóveis que passavam pela avenida à beira-mar, ou que estavam estacionados na calçada, e um deles ficou incrustado num flanco do hotel. Foi como uma explosão de dinamite que semeou pânico nos vinte andares do edifício e fez virar pó a vidraça do vestíbulo. Os numerosos turistas que se encontravam na sala de espera foram lançados pelos ares junto com os móveis, e alguns ficaram feridos pelo granizo de vidro. Deve ter sido uma vassourada colossal do mar, pois entre a muralha da avenida à beira-mar e o hotel há uma ampla avenida de ida e volta, de maneira que a onda saltou por cima dela e ainda teve força suficiente para esmigalhar a vidraça. Os alegres voluntários cubanos, com a ajuda dos bombeiros, recolheram os destroços em menos de seis horas, trancaram a porta que dava para o mar e habilitaram outra, e tudo tornou a ficar em ordem. Pe...