domingo, 27 de novembro de 2011

Valdivino Braz - Poema


Da esquerda para direita: Valdivino Braz, Delermando Vieira e Chico Perna
Os Homens no Bar(co)


Os homens envelhecem no bar
bebendo as palavras salobras da noite
e cuspindo o azinabre corrosivo do tédio

E na longa travessia das horas
destiladas pelos copos
sabem o cansaço dos corpos
os vincos nas faces vulneráveis
e a vida moída pela mó
do inexorável

Sabem o íntimo silêncio
em que os gestos se anulam
os olhos no vazio vagam
e cada homem diz a si mesmo coisas
uns aos outros indizíveis

Sabem nesta hora a solidão sozinha
do lobo ferido no ermo do mundo
e os inevitáveis borrões vermelhos
da sangria própria do que é vivo
e dói

E morrem os homens à mesa do bar
barco de náufragos no mar de espuma
da última cerveja


In. A palavra por desígnio. Goiânia: UBE, 1983, p.22.