terça-feira, 29 de junho de 2010

MEMÓRIA - Entrevista com o Poeta Ruy Espinheira Filho


“Uma poesia sem lirismo não passa de artesanato”



Com a morte de Carlos Drummond de Andrade, a poesia brasileira passou a ser dominada pela figura de João Cabral de Mello Neto. O coração racionalista de Drummond deu lugar à educação pela pedra de Cabral. E a crítica, influenciada pelo concretismo dos irmãos Campos, sempre privilegiou o João Cabral do verso seco, plástico, ao João Cabral de Morte e Vida Severina, um dos mais pungentes libelos da literatura brasileira. O próprio João Cabral acabou estimulando essa preferência.

Ao contrário de João Cabral, o poeta baiano Rui Espinheira Filho não tem medo do lirismo. Ele sustenta que poesia sem lirismo não é poesia, mas artesanato. Autor do livro de poesia Memória da Chuva, que foi adotado no vestibular da Universidade Federal de Goiás, Rui Espinheira Filho é jornalista e ensaísta, além de poeta. Como ensaísta publicou Forma e Alumbramento: Poética e Poesia em Manuel Bandeira (José Olympio Editora, 238 páginas, 33 reais), e Tumulto de Amor e Outros Tumultos (Editora Record, 368 páginas, 41,90 reais). A Editora Record também acaba de lançar sua Poesia Reunida e Inéditos (320 páginas, 40,90 reais).

Nesta entrevista concedida ao Opção Cultural e à revista eletrônica Bula (www.revistabula.com), o escritor Rui Espinheira Filho fala da literatura em geral e de sua obra em particular. Revela os meandros de sua relação com a palavra e defende a emoção na poesia. Participam da entrevista os escritores Carlos William, Francisco Perna, João Aquino e Sinésio Dioliveira.



Francisco Perna Filho — Numa entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão, em 1990, o sr. disse: “Ser escritor vivendo no Nordeste não é brincadeira. Digo vivendo porque, ao contrário de muitos, nunca saí da Bahia. Se para autores do eixo Rio-São Paulo é difícil, pois sei que é, imagine para quem vive fora do principal circuito literário — sem contatos, sem editoras, sem divulgação”. A Internet mudou essa realidade?

Ruy Espinheira Filho — A Internet aproximou todo mundo, é claro. E facilitou muito para o escritor, porque acabou com a necessidade de se ficar tirando cópias para enviar ao editor: hoje falamos por correio eletrônico, através dele enviamos livros de poemas, romances etc. Como também recebemos rapidamente recusas de publicação... E há ainda a vasta divulgação de revistas como a própria revista Bula. Não há dúvida: a Internet expõe autor e obra como nunca se viu antes. Acho tudo isso muito positivo, apesar das muitas tolices que às vezes nos assaltam o monitor...

João Aquino Batista — Em Tumulto de Amor e Outros Tumultos: Criação e Arte em Mário de Andrade, você quer “repor em discussão o pensador Mário de Andrade”. O seu objetivo foi alcançado? Mário de Andrade tem o reconhecimento que merece?

Ruy Espinheira Filho — Acho que os que leram meu livro tiveram uma boa surpresa, pois o pensador Mário de Andrade é admirável. Ele tem, em certas áreas, o reconhecimento que merece, mas precisa ser bem mais divulgado, pois o conhecimento das suas idéias nos enriquece muito — e nos livra (sobretudo os poetas) de embarcar em canoas furadas de modas formalistas que não passam de outros parnasianismos — como a Geração de 45, o concretismo, a poesia práxis e que tais. Ler Mário de Andrade é se vacinar contra essas pobrezas.

Carlos Willian Leite — Quem é o grande crítico brasileiro em sua opinião?

Ruy Espinheira Filho — Quem é o grande crítico brasileiro? Tivemos muitos de alta categoria, como o próprio Mário, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, Sérgio Milliet. Hoje, há o Antonio Candido, o Wilson Martins, o Alfredo Bosi, entre outros. Na nova geração, eu destacaria Miguel Sanches Neto, que tem ainda a vantagem de ser também poeta, contista e romancista. Vantagem porque — como já dizia o Mário, com o qual concordam Candido e Bosi — o melhor crítico é o artista, porque faz sua crítica de dentro.

Carlos Willian Leite — E o grande poeta?

Ruy Espinheira Filho — O grande poeta? Acho que não há um que seja absoluto. Drummond é grande por certos momentos, noutros momentos Bandeira é maior, noutros é Jorge de Lima, Cecília, João Cabral... Mas às vezes eu prefiro ler os sonetos de Mario Quintana e de Carlos Pena Filho — ou autores de hoje, que prefiro não citar para não provocar ciúmes...

João Aquino Batista — Você é avesso aos concretistas e outras tendências poéticas do gênero. No fazer literário do Brasil, atualmente, dá para perceber a gestação ou a consolidação de alguma tendência que possa durar?

Ruy Espinheira Filho — O que pode durar não é nenhuma tendência — mas a qualidade. Ficamos buscando modismos, fazendo truquezinhos, projetando escolinhas — esquecidos de que a poesia é arte, isto é, expressão da alma humana. Lemos Homero, Dante e Shakespeare, por exemplo, porque eles falam da nossa condição, nós nos reconhecemos neles. Era por isso que Mário dizia ser Homero e Dante poetas modernos. E são mesmo. Acusaram Bandeira de ser poeta insignificante por ser muito subjetivo. Ora, pergunto eu: que arte não é subjetiva? Que artista não fala de si mesmo? Até João Cabral, com suas conhecidas idiossincrasias, acabou reconhecendo que, tentando falar das coisas, falava mesmo era de si próprio. Abordo tais assuntos tanto no livro sobre o Mário, Tumulto de Amor e Outros Tumultos (Record, 2001), quanto no que publiquei sobre Bandeira — Forma e Alumbramento: Poética e Poesia em Manuel Bandeira (José Olympio/ABL, 2004). Enfim, o artista cria — com o que ele é. Se não for grande coisa, aí vai ser concretista, construtivista etc... Quer dizer: se revelará não-artista, não-poeta.

Francisco Perna Filho — Em 1988, o seu livro Memória da Chuva, Prêmio Ribeiro Couto, da UBE, foi adotado no vestibular da Universidade Federal de Goiás. Qual foi a importância dessa adoção para o sr.? A partir daí, mudou alguma coisa na sua literatura?

Ruy Espinheira Filho — A adoção de Memória da Chuva como leitura para o vestibular da Universidade Federal de Goiás foi uma grata surpresa. Isto fez com que as vendas disparassem e ele chegasse logo à terceira edição. Aliás, Memória da Chuva é um dos meus livros mais aventurosos e venturosos. Foi editado pela dedicação do Alexei Bueno, a quem eu não conhecia pessoalmente. Não fosse ele, não sairia das oficinas da Nova Fronteira. Nem mesmo teria ido para lá, pois só o enviei a pedido do Alexei, que trabalhava na Nova Fronteira como editor. E não foi fácil, ele brigou muito pelo livro. E repito: nem nos conhecíamos pessoalmente, só através de cartas e trocas de publicações. Além da adoção universitária, Memória da Chuva concorreu com mais de 400 livros de poemas e acabou entre os três finalistas do Prêmio Nestlé, em 1997. Também foi finalista do Jabuti, no mesmo ano. Foi também esse livro que fez com que o romancista Antônio Torres achasse que eu já estava na hora de ter uma editora grande — e me apresentou a Luciana Villas-Boas, da Record. Pouco tempo depois saía pela Record minha poesia reunida (que fora incluída num programa da Biblioteca Nacional, graças aos bons serviços de amigos como o Ivan Junqueira), como viria a sair o livro sobre Mário. Com tais publicações, é claro que me tornei mais conhecido. Agora está saindo um volume intitulado Elegia de Agosto e Outros Poemas, pela Bertrand Brasil, devendo ser lançado na Bienal do Rio, em maio. São composições escritas entre 1996 e 2004.

Francisco Perna Filho — Depois de Jean-Nicolas-Arthur Rimbaud, pode se falar em originalidade em poesia?

Ruy Espinheira Filho — Claro que se pode falar em originalidade após Rimbaud! Afinal, originalidade é questão de qualidade. O artista — o que merece este nome — é sempre original. E a originalidade absoluta não existe: apenas pegamos a herança da tradição e procuramos dar a ela nossa colaboração. Os que procuram ser originais a todo custo não perceberam que não se pode fazer mais do que isso. Afinal como diz o Eclesiastes, não há nada de novo sob o sol... Em essência, não há mesmo. Mas o homem continua criando e, assim, consegue insuflar na vida algo de sua originalidade de indivíduo. Depois de Rimbaud tivemos muita gente “original” — como Yeats, Eliot, Fernando Pessoa, Auden, Bandeira, Drummond, para só ficarmos nestes.

Francisco Perna Filho — O senhor por tem uma profunda formação humanística: é jornalista, mestre em ciências sociais e doutor em literatura. Partindo dessa formação, qual a leitura que faz da obra de Afonso Henriques de Lima Barreto (prosa) e João da Cruz e Sousa (poesia)?

Rui Espinheira Filho — Lima Barreto foi um dos autores que deixaram claro não ter a literatura nada a ver com aquele “sorriso da sociedade” do Afrânio Peixoto. Ele foi longe na alma humana, criando uma obra densa, sofrida e extremamente crítica. Todos nós lhe devemos muito. Quanto a Cruz e Sousa, sou seu admirador desde a adolescência — e uma das minhas maiores emoções foi receber, em 1981, um prêmio com seu nome — o Prêmio Nacional de Poesia Cruz e Sousa, de Santa Catarina. A meu ver, Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens foram os únicos grandes poetas da fase que se costuma chamar simbolista. Mas não os vejo presos a fase alguma: são poetas admiráveis em qualquer tempo.Volto a eles constantemente, e sempre com encantamento.

Carlos Willian Leite — Tem acompanhado a produção intelectual universitária?

Ruy Espinheira Filho — Tenho feito algum acompanhamento da produção universitária. Às vezes deparo com um trabalho interessante — como o ensaio Longe Daqui, Aqui Mesmo, de Sérgio de Castro Pinto, sobre a poética de Mário Quintana, obra de muita sensibilidade e na qual o autor desvela a mediocridade da crítica oficial em relação a Quintana. Lembro também Da Inutilidade da Poesia, de Antonio Brasileiro, e João Cabral: A Poesia do Menos, de Antônio Carlos Secchin. De um modo geral, porém, acho os textos universitários bastante chatos, pedantes.

João Aquino Batista — Quais as conseqüências do que você denomina “ecos do parnasianismo”?

Ruy Espinheira Filho — Os tais “ecos do parnasianismo” geraram as vanguardas reacionárias (porque formalistas) que foram a geração de 45, o concretismo e similares. Quero crer que já estão perdendo a força, só subsistindo em alguns bolsões de miséria intelectual e lírica.

Carlos Willian Leite — A angústia à moda de Harold Bloom é inevitável?

Ruy Espinheira Filho — No meu livro sobre Mário eu abordei a tal angústia da influência — mostrando que os poetas brasileiros não costumam sofrer dela, tanto que reconhecem abertamente as influências, confissão que surge às vezes até nos próprios poemas. Drummond diz: “Esses poetas são meus”. Bandeira, nas memórias, escreve que suas influências são incontáveis. Tudo isso sem trauma. O que é compreensível, porque não há ninguém isento de influências.

Francisco Perna Filho — O que é fundamental numa obra literária?

Ruy Espinheira Filho — O fundamental na obra literária é ela própria. A arte não é meio para coisa alguma — é o seu próprio fim. Desta forma, o fundamental é que a arte seja mesmo... arte.

João Aquino Batista — Você admite a influência de vários escritores e poetas. A poesia é isso: uma eterna retomada e reburilada do já feito?

Ruy Espinheira Filho — Sim: o que o artista faz é dar sua colaboração à herança que recebe. Não é refazer: é fazer, utilizando essa herança, trabalhando sobre ela, com ela, porque ninguém faz arte no vazio. Repetindo o poeta, nenhum homem é uma ilha.

Carlos Willian Leite — O senhor disse em entrevista que o lirismo estava renascendo no Brasil. O Affonso Romano de Sant’anna disse que o que existe, são resquícios de um lirismo envergonhado. Quem está com a razão?

Ruy Espinheira Filho — É, há casos de lirismo envergonhado. João Cabral sofria disso, mas acabou sendo um grande poeta lírico. Na maioria das vezes, porém, o que há mesmo é falta de lirismo. Agora, os que são líricos estão exercendo seus talentos. Felizmente, porque poesia sem lirismo é apenas artesanato, não se cumpre, não é poesia.

Sinésio Dioliveira — Se as coisas não tivessem substantivos para nomeá-las, você acha que ainda assim existiriam os poetas?

Ruy Espinheira Filho — A poesia será, simplesmente, a nomeação das coisas? Acho que é mais, bem mais: é expressão da alma humana. De nossa grandezas e vilezas, esperanças e desesperos, da nossa perplexidade diante do mundo e da vida. Não é truquezinho de gabinete: é gemido, é grito, é súplica, é afirmação, é busca de alguma compreensão, de alguma iluminação nas trevas do nosso cotidiano.

Francisco Perna Filho — Fernando Pessoa pronunciou o seguinte: “Quen não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma”. (A Língua Portuguesa - Companhia das Letras, 1999) O Senhor concorda com ele?

Ruy Espinheira Filho — Fernando Pessoa era um gênio e dizia coisas geniais. Creio que ele tem razão, pois a palavra é caminho. Se somos cegos a ela, não encontramos o caminho - e nos perdemos da alma.

Sinésio Dioliveira — Esse fingimento de que fala o poeta Fernando Pessoa no poema Autopsicografia, você acha que ele está presente em todos os poemas que o poeta faz?

Ruy Espinheira Filho — Esse fingimento pessoano deve ser considerado com cuidado, porque é um fingimento de uma dor que o poeta “deveras sente”. Acontece que a arte não é uma confissão direta, não tem compromisso nem com sinceridade nem com verdade, consideradas moralmente. A verdade da arte é meramente estética. Se a arte é autêntica, ela é verdadeira, é sincera, não importa que “finja” para atingir seus fins. Mesmo porque esse fingimento é apenas um “meio” para o artista expressar sua verdade, sua sinceridade. Enfim, é um falso fingimento, porque, como está dito, a dor que ele finge - “deveras sente”. O problema é que o pessoal costuma citar apenas o primeiro verso do poema - que tem doze. Como já disse, esse “fingimento” é algo especial, não o fingimento da mentira, da adulteração. É o “fingimento” que produz a obra de arte - e, como obra de arte, é verdade pura.

João Aquino Batista — O discurso poético engajado e ideológico tem algum valor literário ou depende muito de quem o faz, aliás, como todo discurso?

Ruy Espinheira Filho — O engajamento pode, sim, produzir obras de valor artístico, como vários poemas políticos de Drummond. Agora, o dado ideológico por si não tem nenhum valor estético. O valor ético não produz valor estético. Como dizia o mesmo Drummond, “de boas intenções não nascem necessariamente bons versos”.

Sinésio Dioliveira — Entre os dois ingredientes razão e emoção, qual deles você acha que ajuda mais na lapidação estética do poema?

Ruy Espinheira Filho — Não há poesia sem emoção. Palavras de Borges: “É sobretudo a emoção que importa”. Mas é claro que poesia é também uma construção, por isso a razão é chamada a participar com seu trabalho de artesanato. Para se fazer um poema, dois fatores têm que atuar: o sopro lírico (a emoção) e a técnica (a razão). Com apenas um desses fatores não se consegue nada.

Carlos Willian Leite — Para quem daria um Nobel de poesia, se ele existisse?

Ruy Espinheira Filho — A quem daria um Nobel de poesia? Confesso não estar agora preparado para tão alta tarefa.

João Aquino Batista — A morte, como a síntese das perdas, o amedronta ou encanta?

Ruy Espinheira Filho — A morte não me encanta nada, não vou gostar de morrer. Mas, como terei de morrer, sou obrigado a conviver com ela, a idéia da morte. Que, aliás, está presente em muitos dos meus poemas - e cada vez mais... Mas também não chego a viver amedrontado com o inevitável: os assombros da vida já tomam quase todo o meu tempo.

Sinésio Dioliveira — A poesia está nas coisas ou no modo de reparar para elas?

Ruy Espinheira Filho — Não houvesse o ser humano, não haveria poesia. Porque os animais, que ainda vivem no paraíso que perdemos, não precisam de arte para enfrentar a vida: eles vivem, apenas. Não precisam de arte, nem de filosofia, nem de deuses, são animais superiores. E, segundo Borges, que citei há pouco, são eternos, pois não têm consciência do tempo sucessivo. Voltando ao princípio: somos nós que pomos poesia no mundo, na vida. E não só os poetas, pois a poesia é um dom de toda a humanidade. Não fosse assim, não haveria poetas - a não ser para escrever para outros poetas. Os poetas são os operários da poesia, os construtores de poemas, mas a sensibilidade poética é da espécie humana.


Imagem retirada da Internet: Ruy Espinheira