quarta-feira, 16 de junho de 2010

Brasigóis Felício - Crônica



Ficantes da modernidade



Por Brasigóis Felício*


Ia este bardo um dia desses, pela avenida T-7, e encontro o artista plástico Gomes de Sousa, amigo de muitos janeiros, que há muito eu não tinha o prazer de rever. Sorvia ele a cerveja sem culpa da leveza de viver como filósofo que é (com direito a canudo de universidade). Ia depressa, a caminho de uma fila de banco, mas me dei conta do que eu mesmo escrevi, há tempos: é preciso viver devagar, de olhos atentos no horizonte do agora, pois que amanhã é muito longe, e quando chegar será hoje. Ficantes da modernidade são os que ficam, depois que tudo passa. Assim, bebemos à saúde da vida, sem culpa, mesmo sendo dia bancário.

Falamos de coisas muitas, de nossa vivência comum: a explosão de criatividade artística (e de rebeldia política) das décadas de 70 e 80. Goiás viveu nesta quadra um amadurecer e florescer do trabalho feito por seus pioneiros, vindos de muitas partes, até de outros países, como Frei Confaloni (itália) e Gustav Ritter (Alemanha). Sem falar em D. J. Oliveira, que veio de São Paulo, para montar o cenário de uma peça teatral, e ficou, tornando-se depois pintor-matriz e muralista, fonte de inspiração para muitos, que se tornaram fortes, nutrindo-se de sua força criativa.

Dentre estes, Iza Costa, Siron Franco, Kleber Gouveia, Maria Guilhermina, Ângelo Ktenas e Antonio Poteiro, que vieram a se tornar canônicos. Agostinho e Juca de Lima também figuram na lista dos pioneiros da artes plásticas, vindo Otavinho Arantes e João Bênnio no cinema e teatro, vindo depois Hugo Zorzetti e Marcos Fayad, com notável talento. Como floradas ou galhos desta árvore poderosa e fundadora, surgiram o próprio Gomes de Sousa, M. Cavalcante, Dacruz, Alcione Guimarães, e outros, também importantes, revelados nos concursos para novos valores, da Casa Grande Galeria de Arte, responsável pela primeira grande exposição de esculturas a céu aberto, que teve a avenida Goiás como cenário.

Pairava no ar uma onda criativa intensa, uma energia de liberdade, ressonãncia dos idos libertários de 1968, que agitaram as ruas de Paris, e de outras cidades do mundo. Em Goiás tudo começou com a saga da construção de Brasilia. Ventos de modernidade sopraram da prancheta de Lúcio Costa e Oscar Niemayer. Goiânia, cidade planejada, tinha donaires de modernidade, com sua art deco. Na música, a revolução começou com o maestro Jean Douliez, Belkiss Spenciére Carneiro, liderando a criação do Conservatório de Música; vieram depois Maria Guilhermina, Cleber Gouveia, Ângelo Ktenas, à frente do Instituto de Artes da UFG. Vieram depois os festivais de Música, com destaque para o Comunica-som, Arthur Rezende à frente.

A Casa Grande Galeria de Arte, com Célia Câmara à frente, deu grande contribuição a este impulso criativo, que estendeu-se à literatura: o GEN (Grupo de Escritores Novos) levantando bandeiras de instauração pós-modernista, e a geração que surgiu na década de 70. Da geração pós Gen destacaram-se Gabriel Nascente, Aidenor Aires, Valdivino Braz, Delermando Vieira, Ubirajara Galli, Tagore Biram, Pio Vargas, Edival Lourenço, Antonio José de Moura, Celso Cláudio e outros, poucos. Tudo a fluir em explosão de modernidade criativa, com Siron Franco e Antônio Poteiro – sendo que este, em sua simplicidade de autêntico artista ingênuo, foi talvez o mais moderno dentre todos os nossos modernistas.

Vêm-me à lembrança as rememórias de meu encontro casual com Gomes de Sousa, enquanto escrevo estas linhas no QG de imprensa do Fica – um Festival de vídeo e cinema ambiental, que veio para ficar. Este evento de dimensão internacional é representativo, a meu ver, da maturidade de Goiás, que aprendeu a enxergar e valorizar aquilo que Fica, por ser essencial, depois que passa todo o efêmero e o trivial. Então, de súbito, me dou conta de que nada foi perdido de tudo tanta energia criativa, a crescer com Goiás, em tempos de mudança e de construção do futuro. Em verdade, a modernidade, que veio para ficar, muda o tempo todo, como tudo neste mundo de impermanência, e só morrem os que são esquecidos, e os que desistem de manter vivas as boas lembranças da vida.

Brasigóis Felício é Poeta, autor de uma dezena de livros, e Membro da Academia Goiana de Letras.

Imagem retirada da Internet:erótico