quinta-feira, 22 de abril de 2010

Raúl Antelo - Entrevista


ENTREVISTA RAÚL ANTELO / 2ª PARTE

A poesia sem trégua


Na segunda parte da entrevista, o escritor e professor Raúl Antelo fala de sua infância, de suas influências, da proximidade com Carlos Drummond de Andrade e afirma que existe uma supervalorização de alguns escritores, como Ernesto Sábato e Vinicius de Moraes.

Francisco Perna — O senhor foi organizador de uma das obras mais interessantes que já vi, que é a do poeta Oliverio Girondo. Gostaria que o senhor falasse sobre a importância de Girondo para a poesia na América Latina e, especificamente, para a poesia brasileira.

Em termos de literatura latino-americana, Girondo é um marco inaugural fortíssimo. Pense que em 1922, quando ele publica o primeiro livro, Veinte Poemas Para Ser Leídos En El Tranvía, já capta uma tensão que Oswald de Andrade só vai plasmar com o Manifesto [Pau-Brasil, de 1924] alguns anos depois. A epígrafe do livro está dedicada ao grupo ao qual ele pertencia, porque eles seriam portadores de um estômago eclético, como todo estômago latino-americano, capaz de digerir e digerir bem um cuzcuz oriental, ou um peixe preparado à espanhola, ou um prato italiano. Quer dizer, a idéia da cultura latino-americana como um estômago que digere, que tritura, que elabora as influências mais diversas já está em Girondo. É bem verdade que isso circulava no grupo, em um amigo de Girondo, [René] Zapata Quesada, também poeta, que nesse ano já escreve um conto dedicado a Girondo em que toma justamente a figura mitológica de uma deusa da fertilidade, de uma fértil barriga proliferante e nutrícia como característica, como emblema da cultura latino-americana, apontando então para a antropofagia — a antropofagia e a criminalidade na América Latina como a ‘violência’ que vai ser capaz de equilibrar as distribuições. Está aí a matriz antropofágica do Oswald, está aí Caetano, está aí tudo que veio depois. Girondo captou isso e potencializou de uma maneira fantástica. Foi um grande poeta. Seu último livro, A Pupila do Zero, na tradução de Régis Bonvicino, En la Masmédula, traduzindo literalmente, é um livro contemporâneo do Grande Sertão: Veredas, e é justamente uma nábase, uma viagem na língua. É um poema decisivo, tão importante quanto os poemas do [César] Vallejo, [Andrés Eloy] Blanco, Octavio Paz. É um poeta pouco conhecido no Brasil, não é um poeta de referência, é um poeta mais programático talvez, mas sem sombra de dúvida um grande experimentador, um excelente tradutor; traduziu Rimbaud e outros poetas, além de ser um cara de um muito sutil engajamento ideológico, nada tosco, agrutalhado, nada primário na tentativa de elaborar uma vinculação entre arte e vida, que é o grande tema desses poetas todos.

Priscila Marília Martins — É esse o segredo da poesia de qualidade, que transpõe o tempo, o sucesso estabelecido nessa vinculação? Quais são os elementos, a partir de sua experiência, para que o poeta — isso é complicado eu sei — seja um poeta de valor?

É indispensável saber fazer. O saber fazer com as palavras para nós é decisivo; se você não sabe fazer, melhor não fazer. O segredo está na sofisticação. Para tudo há que se ter sofisticação na vida. Gostaria, entretanto, de suspender a ilusão de que um julgamento universal possa ser feito com relação ao que quer que seja em termos estéticos. E mais do que falar de poeta, poema, eu gostaria de pensar a literatura como textos, porque os indivíduos são descontínuos, têm momentos felizes e momentos de rara boçalidade; todos autores têm isso. Isso me leva a fragmentar a própria idéia de poema. Poema não é aquilo que o autor denomina poema, poema pode ser um único verso, quer dizer, um único verso pode conter toda a problemática que naquele momento sustenta a minha paixão, porque, quando falamos de literatura, o que falamos é de transferência, não falamos de outra coisa; existe transferência ou não existe transferência.

Francisco Perna — Quando você fala em transferência, está dizendo o quê?

Estou dizendo vínculo, desejo sustentado. Por que uma coisa te fissura? Por que você volta a um poema não sei quantas vezes, fica matutando aquilo e pensa e pensa e encontra mais uma volta? Isso tocou alguma lacuna em você. Parte de você está aí.

Francisco Perna — Essa questão sobre saber fazer me parece muito interessante. A partir disso, quem o senhor considera neste domínio, ou seja, quem é (são) o(s) seu(s) autor(es) indispensável(-is), que o senhor lê, relê?

Um autor que me acompanha com uma certa sistematicidade é o espanhol Vila Matas, que está começando a ser conhecido aqui. Acho que traduziram o Bartleby, não me lembro de outro. É um escritor que aprecio muito. [ A Cosacnaify publicou O Mal de Montano, Bartleby e Companhia e A Viagem Vertical]

Francisco Perna — Os seus poetas da adolescência são poetas brasileiros ou são argentinos?

Ambos. Tenho um exemplar da Antologia Poética do Drummond que ganhei quando tinha 14 anos. Muitos anos depois, pedi um dia a ele que me autografasse. Eu tinha uma relação de certa proximidade com Drummond; fui amigo da filha dele, pois trabalhamos juntos muitos anos em Buenos Aires, e, quando vim morar em São Paulo, sempre me recebeu muitíssimo bem. Era então muito freqüente eu ir visitá-lo e ficar conversando na casa dele, pedir materiais... era fantástico, puxava assunto — “aquela briga, em 1937, com não sei quem, a respeito de não sei o quê”. Abria uma porta, puxava uma pasta, “está tudo aqui”; era muito bom. Lembro-me que um dia eu levei o tal exemplar da Antologia Poética, não estou lembrando agora a dedicatória ipsis litteris, mas é qualquer coisa como “deixo, neste exemplar muito manuseado”, porque justamente se via que era uma coisa que tinha me acompanhado anos a fio, e era a melhor prova de perfil de leitura de cabeceira.

Priscila Marília Martins — Entre seus “eleitos”, algum contemporâneo brasileiro?

Dos poetas, quais seriam hoje os que não posso perder um livro? Hum... difícil dizer. Com nenhum dos poetas contemporâneos tenho a relação de deslumbramento que eu podia ter com vários poetas na adolescência e poucos são os que me despertam imprescindibilidade. Contudo, dos ultimíssimos, que estão na faixa dos 30 e tantos, 40 anos, acho o Marcos Siscar uma das vozes mais interessantes. Dos argentinos, um grande poeta da atualidade é Arturo Carrera.

Francisco Perna — Perguntamos sobre expressividade nas letras, mas, por exemplo, o senhor, nascido argentino, com mestrado e doutorado em literatura brasileira, evidentemente um conhecedor dessas duas realidades, com quem ficaria, Borges ou Machado?

Nisso vocês vão me desculpar, mas sou borgeano de carteirinha. Tenho uma afinidade muitíssimo maior com o universo de Borges. Talvez por um eco do romance familiar, pois minha adolescência foi marcada pelo barulho da bengala de Borges. Eu terminava de estudar na escola média ao meio-dia e, muito freqüentemente, almoçava no centro da cidade; passava a tarde na biblioteca nacional, que ficava a quatro, cinco quarteirões da escola. Eu me instalava na biblioteca nacional indefectivelmente lá pelas três, quatro da tarde, abria uma sala — não existe mais o prédio, agora há um prédio mais moderno — de leitura imensa, com uma imensa também cúpula em clarabóia de vidro, cercada por uma passarela de metal, com um corrimão também de metal. E então, lá pelas três ou quatro da tarde se abria uma portinhola, entrava um senhor de bengala e contornava essa passarela procurando algum livro e, para se orientar, ia batendo com a bengala no corrimão, que, sendo de metal, ressoava, e todos os que estávamos na sala de leitura levantávamos os olhares e víamos a cena. Ou seja, há muito de romance infantil nessa freqüência. Borges não é um escritor, é uma literatura; é uma maneira de ler a literatura. Acho que aprendi com ele isto. Não fui aluno dele, visto que ele já não era professor na universidade quando entrei, mas ouvi várias conferências dele sendo ainda adolescente. Essas coisas marcam muito na sensibilidade.

Priscila Marília Martins — E Machado? Não se faz uma leitura um tanto seca de sua obra? Não estão os críticos exauridos de extrair ‘‘sociologismos’’ de sua obra?

[Risos] Talvez eu faça uma leitura borgeana de Machado e aprecie sua obra justamente por conter, para além de ‘‘sociologismos’’, a experimentação, pelo valor da lacuna, pela omissão, pela concisão — coisas que normalmente não são tão apreciadas em seu legado.

Francisco Perna — Já nessa linha, e Julio Cortázar?

Cortázar foi o ruído da adolescência da minha geração. Nunca foi meu ídolo. Confesso que lia, sim, Cortázar. Inclusive, para mim, já era uma leitura escolar. Eu tive uma formação muito sui generis, quer dizer, nasci em 1950, mas em 1963, quando entrei na escola média, me lembro que uma das primeiras leituras do primeiro curso de língua foi Final do Jogo, que foi um livro publicado um, dois anos antes. Pode-se ver que já estava meio contaminado pelo universo escolar. Já era um autor “canonizado”. Confesso que nunca tive por Cortázar esse arrebatamento que me provocou a obra de Borges, de quem já devo ter lido umas 500 vezes um mesmo texto. Portanto li O Jogo da Amarelinha uma, duas vezes, mas há muito não volto a esse texto e temo voltar e encontrar um texto envelhecido.

Priscila Marília Martins — Tem algo a dizer sobre Ernesto Sábato?

Sábato, outro autor muito citado, é muito fraco. Seu texto nem chegaria a envelhecer. Parece-me realmente um autor menor, e os últimos textos são constrangedores.

Francisco Perna — Como o senhor avalia Drummond e Vinicius? Vinicius era um grande poeta ou apenas um grande letrista?

Eles têm também uma diferença colossal ao meu ver. Drummond é um grande poeta. Vinicius é um poeta médio, muito bom letrista, mas apenas um poeta mediano. Não tem uma elaboração de fôlego. Drummond, mesmo não tendo sido um ensaísta de poesia, não tendo escritos programáticos sobre a poesia, tem belos textos em prosa que também abordam a decisão poética, além, ainda, de decisivos sobre esse fazer. São bastante incomparáveis entre si.


Goiânia, maio de 2006.


Continua na próxima edição.

Foto by Nena Borba