terça-feira, 23 de março de 2010

Brasigóis Felício - Ensaio






Por Brasigóis Felício







A liturgia da caneta




No lançamento do livro “Pescando peixes graúdos em águas goianas”, do poeta Geraldo Pereira, representando a Ube-go, fui chamado a dizer algumas palavras. Disse da diferença que existe entre as pessoas que planejam, alimentam sonhos, e as que se deixam levar como peraus na correnteza: as primeiras têm futuro, enquanto as outros têm destino. Falei da decadência a que se entregam as nações que não escutam as vozes de seus poetas. Ou de estadistas que honram a liturgia dos cargos que exercem, esmerando-se em dar exemplos positivos aos povos que lideram, animando-os com palavras sábias, nobres e belas, e outros, que agem como se fossem animadores de circo, acrobatas de buteco, e piadistas indecorosos, envaidecidos de não lerem livros, e de não gostar dos que os lêem ou escrevem – como diz o senador Mão Santa, ele prefere fazer duas horas de esteira a ler, de um livro, uma página inteira!

A história de Geraldo Pereira, este poeta longilíneo, espandongado e sem jeito, qual um Quixote dos trópicos, é um exemplo a ser exaltado e seguido. Vindo dos gerais da Bahia, à beira do São Francisco, para não morrer de fome, já que o velho Chico anda vasqueiro de peixes (até dos miúdos), veio, batendo alpercatas, pescar em águas goianas – como tantos de sua grei o fizeram, atravessando a Serra Geral, em caminhada heróica e sertaneja, que durava meses. Quando, ao atravessar a serra, os mais cansados perguntavam se Goiânia estava longe, alguém dizia: vamos apertar a alpercata que a capital está ali, bem pertinho. Pois é... pra que... um rapaz tão moço! Assim, como tantos outros heróis anônimos, Geraldo Pereira chegou, se instalou na Vila Nova, pátria da baianidade vindica, e viu que era bom. Viu que poderia ter aqui um futuro melhor do que poderia ter na terra em que nasceu. De bicicleta, pedalando sua magrela pelas ruas de Goiânia, fez-se vereador, mas logo viu que seus ideais estavam além do que a política poderia fazer, a não ser prometer sem cumprir, como a maioria dos políticos o fazem. Bandeou-se então para a poesia, e nesta nave vai muito bem, pescando peixes graúdos, em águas goianas, de mais dois ou três Estados do nordeste, e até em águas de Portugal.

Em uma mesa, bebericando e mordiscando delícias do ágape que o Sesc ofereceu ao poetariado tupiniquim, conversava com o poeta Valdivino Braz e Lamar Lamounier, sobre A caneta dourada, casa de vender e consertar canetas de classe, que houve na Goiânia antiga. Era um requinte ter uma Mon Blanc, uma Park 51. Conferia status e distinção a quem portava uma destas, mesmo sendo analfa de pai e mãe. Quando estragavam, Valbraz era o artífice que dava jeito, chegando até a fabricar peças das cobiçadas jóias, objeto do desejo de colecionadores. Quem matou a beleza e o requinte deste tempo?Quem trouxe a simplicidade barata e objetiva da Bic, que anda de bolso em bolso, sem dono que possa chamar de seu, e sem valer nem de um calango nem o seu pisca-pisca? Pior será quando matarem a arte de escrever.

Que tenha se perdido no tempo o prazer (ou o orgulho besta, admito) de ter uma caneta que seja jóia rara, foi uma perda e tanto. Uma aposentadoria da beleza, um destronar do talento. Collor não sacou de uma Bic para assinar o termo de posse e renúncia da presidência da República. A liturgia do cargo pedia uma Mont Blanc. Mesmo tendo ele feito o que fez, ou permitido que o fizessem. Já outros fazem titica na liturgia do cargo, agindo como Chapolins colorados, fazendo piada de assassinatos políticos, para divertir os irmãos Castro. Tristes, trágicos tempos sem canetas douradas!


Imagem retirada da Internet: Parker