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Poema - Francisco Perna Filho

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  Na Padaria Alguém disse:"frio!" retruquei, pensando que fosse comigo. "Não!", disse-me a outra, tiritando. Estendeu-me a mão. Servi-lhe café e pão. Fiquei frio, congelado. Encolhi. (uma música no rádio) Pensei comigo: "pão ou pães, é questão de opiniães". Alguém gritou: "Guimarães, volta pro livro, amanhã você tem prova." Despertei! Poema inédito @franciscopernafilho
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O céu é dos pássaros, mas a todo instante eles se chocam com aviões, no instantâneo dos sonhos, e se arrastam como cavalos selvagens. Assestei meu olhar para lá do que eu podia discernir, até atingir os seus cantos, até que um silêncio de estrondo apagasse o meu coração, quando as pedras borradas de sangue formaram dissonantes acordes como flores devotas em precipício. Eu joguei pedra nos pássaros, mas eles nunca explodiram, só aí me dei conta: Só sobraram os aviões, essas máquinas de fogo, voando a jato, num lapso de tempo, tão mortíferas como o veneno da rastejante serpente que sonhou comigo. Assim, apesar da fome que a mim me consumiu, senti inveja dos pássaros, emudecido me pus, a ouvir o lamento dos aviões, quando cruzaram o instante da minha ignorância. Agora me pergunto: para onde foram todos os passarinhos, que o meu olhar tão pálido não vê? Só ouço ruídos e um vazio de avestruz. @franciscopernafilho Foto: Os pássaros no céu - Pixabay.com

Gabriel García Márquez

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  "Sem dúvida a primeira notícia sensacional que se produziu - depois da criação - foi a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. Teria sido uma primeira página inesquecível: Adão e Eva expulsos do Paraíso (em oito colunas). 'Ganharás o pão com o suor do teu rosto', disse Deus. - 'Um anjo com espada de fogo executou ontem a sentença e monta guarda no Éden. Uma maçã, a causa da tragédia." (Gabriel García Márquez) 10 de agosto de 1954, El Espectador, Bogotá. Trad.: Joel Silveira, Léo Schlafman, Remy Gorga, Filho. Editora Record, 2020. Foto @franciscopernafilho
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  Sentença social Fora pego cheirando cocaína, ainda que negasse. Levado para o presídio, durante anos cheirou o pó da cela, dos corredores e do pátio. Foi o que disseram. Um dia, sem que soubesse, deram-no por morto. O diário local estampou na manchete: Do pó ao pó. Texto e fotografia: @franciscopernafilho

Francisco Perna Filho

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  Purgatório A moça colhendo a bosta do cão, A mosca na boca da moça, A sopa, sem mosca e sem pão, O pão, sem mosca e sem boca. O cão, se sentindo cuidado, sente-se livre para borrar a calçada. A moça, com total afeição, contabiliza sua dura jornada. Do outro lado, na antiga estação, olhos cansados espiam assustados, É o poeta esquálido, sem eira nem beira, na fila da carne, exercitando a palavra esperança. Desenho: caneta sobre guardanapo @franciscopernafilho

Francisco Perna Filho

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  Ruídos Ainda na ativa, a septuagenária professora, que ficara surda, aprendeu leitura labial. Com a peste, vieram as máscaras e as restrições. Foram-se as bocas e a esperança. Tentou telepatia, em vão. Perdeu o emprego, e, debilitada, morreu na fila do pão. Era sexta-feira!. Foto @franciscopernafilho 

POESIA

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  A lírica existencial de Maria Lúcia Gigonzac A Revista Banzeiro traz a poesia de Maria Lucia Reis Duarte Gigonzac e ilustração do Artista Plástico e Arquiteto M.Cavalcanti, que gentilmente nos presenteou com os desenhos da séria "Linhas e Sombras" - caneta acrílico sobre papel. Os poemas aqui apresentados são inéditos e foram escritos em diversas épocas. Maria Lúcia nasceu em 1947, em Icem (SP). Ainda criança, acompanhando os pais, mudou-se para Minas e, depois, para Goiás. Em Goiânia, fez o segundo grau e, logo após, começou um curso de física, na Universidade Católica. Em 1972, mudou-se para ilha da Gudalupe, Departamento francês na América Central, onde se casou, teve dois filhos. Naquela ilha, cursou francês e história da arte, foi quando começo a pintar. Ao cabo de quatro anos, mudou-se para a França metropolitana, terra que viu nascer sua filha caçula. Lá morou primeiramente em Bordeaux, depois em Créteil, em Rueil-Malmaison, até desaguar em Taverny, no Val d’Oise. No...