Resenha - Obras são fonemas, de Fernando Andrade

 Tratado de leveza: subversão e humor na tessitura de Fernando Andrade

Por Francisco Perna Filho

A linguagem, em Fernando Andrade, configura-se como matéria de construção e desconstrução: instrumento pelo qual o poeta representa o mundo vivido, narrado ou imaginado, mas também o desestabiliza e erode. O título da obra, “Obras são fonemas”, ao remeter aos aspectos fonéticos e morfossintáticos da língua, sugere, inicialmente, um tratado linguístico. Contudo, essa aparência de rigor técnico funciona como estratégia discursiva: um convite ao leitor para penetrar nos artifícios da linguagem e descobrir, sob a superfície, um exercício literário marcado pela leveza e pelo jogo semântico.

O narrador, despojado de vaidade, subverte significados e significantes, compondo um mosaico de histórias sustentado por estruturas híbridas e frágeis. Essa fragilidade, longe de ser um limite, constitui condição de liberdade criativa, permitindo ao autor explorar a tessitura textual como espaço de experimentação. A afirmação “Obras são fonemas” sintetiza o gesto de decomposição: do texto, como estrutura maior, à sua unidade mínima, o fonema, revelando que o sentido emerge justamente do desarranjo e de recomposição.

O humor, presente na tessitura da obra, articula-se a um olhar que circunvaga pelos recônditos da alma humana, sempre inquieta. Nesse movimento, Andrade transforma o

que poderia ser lido como tratado linguístico em um tratado semiótico, cujo objetivo é deslocar e desordenar significados, instaurando uma poética da instabilidade e da invenção.


     Sobre o autor da obra



Fernando Andrade, 56 anos, é jornalista, escritor, poeta e crítico literário. Colabora na revista Literatura & fechadura com resenhas e entrevistas com autores. Tem dois livros pela editora Oito e Meio: Lacan por Câmeras cinematográficas e Poemometria. Pela Editora Litteralux,tem cinco obras publicadas. A saber: A perpetuação da espécie, poemas; Logaritmosentido, contos; Interstícios, poemas, A janela é uma transversalidade do corpo, contos, e Se a vida fosse um vinil, poemas.





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