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Monteiro Lobato - Conto

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O Colocador de Pronomes Aldrovando Cantagalo veio ao mundo em virtude dum erro de gramática. Durante sessenta anos de vida terrena pererecou como um peru em cima da gramática. E morreu, afinal, vítima dum novo erro de gramática. Martir da gramática, fique este documento da sua vida como pedra angular para uma futura e bem merecida canonização, Havia em Itaoca um pobre moço que definhava de tédio no fundo de um cartório. Escrevente. Vinte e três anos. Magro. Ar um tanto palerma. Ledor de versos lacrimogêneos e pai duns acrósticos dados à luz no “Itaoquense” , com bastante sucesso. Vivia em paz com as suas certidões quando o frechou venenosa seta de Cupido. Objeto amado: a filha mais moça do coronel Triburtino, o qual tinha duas, essa Laurinha, do escrevente, então nos dezessete, e a do Carmo, encalhe da família, vesga, madurota, histérica, manca da perna esquerda e um tanto aluada. Triburtino não era homem de brincadeira. Esguelara um vereador oposicionista em plena sessão da câmara e d...

José Fernandes - Ensaio crítico

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Abolição da Literatura Por José Fernandes* Estarreci-me com a possível censura à Caçada de Pedrinho. Pensei razões de cunho ecológico que, também, seria cegueira, porque a arte é a expressão estética de uma época. Mas, não, elas eram muito mais ridículas, porque resultantes de preconceitos que mostram o apequenamento por que o homem está passando. Sobretudo, mostram uma total miopia literária. Se o tratamento conferido pelo narrador à simpática e querida Tia Nastácia se configura como racismo, teremos de abolir da literatura brasileira grande parte da lírica crioula, de Gregório de Matos que, em seus estilos maneirista e barroco entronizava a mulher negra e, às vezes, a rebaixava, quando ela merecesse ser satirizada. Teríamos de suprimir de nossa cultura literária, pelo menos, dois romances de Aluisio de Azevedo. O primeiro, por causa da personagem Rita Baiana, descrita como a própria sedução e, pior, por causa da Bertoleza, que fora nomeada com o nome de mula, ou feminino de Bertoldo,...

Francisco Perna Filho - Poema

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Singeleza Uma melodia, assim tarde, nervosa como a chuva fina, trilhando em teus olhos, menina, a delicadeza do véu a cobrir teu olhar, tarde e madrugada, nas cores do teu abraço, nos traços dos teus dedos. Uma melodia diferente, assim tinta, assim tela, maravilhando em singeleza, remédio para o meu quebranto, quando caio, quando quedo, quando fico, fico, fico, assim nervoso, pinto outro universo. Uma melodia em sons de cordas, de jazz e afro reggae, de cachoeira e mata, que me mata, que desata os cadarços do sapato na larga avenida do teu sorriso, menina, que trespassa sonhos, quereres, viagens, beijos, Uma melodia, que se desdobra em sino, em canto de passarinho, em número de identidade. Entidade, que me mata, Vanessa. Imagem retirada da Internet: Vanessa

Edmar Guimarães - Poema

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IMOTIVO Sem motivo algum para o poema. O dia sobre o chão como folha esmagada. O jornal atirado por cima do muro. Monturos de palavras, ossos dos dias num museu de momentos constantes. A noite passou chorando pelo silêncio da sala. Há lágrimas no canto da janela de luz ligeira. E as pupilas iluminadas com que se vê A chuva pingando, da noite de ontem, Que é cegueira extrema. E ainda ... nenhum motivo para o poema. In. Antonio Miranda Imagem retirada da Internet: papel amassado

Alexandre Bonafim - Poema

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Celebração das marés “Longe o marinheiro tem Uma serena praia de mãos puras” Sophia de Mello Breyner Andresen IV Do cerne dos oceanos, do fecundo ventre da noite, nasce seu peito tatuado pela força das âncoras, pela fúria dos cavalos marinhos. Sua pátria sempre foi os relâmpagos, o sal, o trêmulo pergaminho dos vendavais. Há milênios ele se perdeu de toda terra. Há séculos seu andar tem a leveza das quilhas sobre as ondas, das velas despidas pelo sal. Por isso seu destino sempre se quebrou contra as marés, contra a amplidão das águas sem nome. Por isso seu barco sempre se partiu contra o infinito, contra o nascimento do mundo. O marinheiro mora em antigas tempestades. De tanto queimar o rosto nas ondas, seus olhos vestiram o êxtase dos cardumes cegos, dos corais inundados de luz. De longe, de muito longe ele vem... Uma cicatriz corta-lhe o rosto: relâmpago, ninho de enguias. Uma cicatriz corta-lha a vida, o coração, o seu destino inteiro: faca de...

Affonso Romano de Sant'Anna - Poema

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Amar a Morte Amar de peito aberto a morte. Não de esguelha, de frente. Amar a morte, digamos, despudoradamente. Amá-la como se ama uma bela mulher e inteligente.Amá-la diariamente sabendo que por mais que a amemos ela se deitará com uns e outros indiferente. In. Jornal de Poesia Imagem retirada da Internet: meu aconchego